Arquivo da tag: machismo

E se uniformes de super-heróis fossem concebidos como os de super-heroínas?

superhero-costumes-sexism-01-PT-BRCansada de caras que não entendem as meninas que acham as fantasias de super-heroínas meio sexistas, Fernacular fez uma série de desenhos com três objetivos:

1. Fazer com que a primeira coisa que você pense ao olhar para eles seja sexo, quer você queira ou não.

2. Fazer com que qualquer homem que olhe para eles se sinta desconfortável.

3. Torná-los engraçados, porque, bem, é realmente meio que ridículo.

É bom lembrar que as super-heroínas, na maioria esmagadora das vezes, sempre foram concebidas com uniformes nada práticos, fetichistas e muito, mas muito sexys. E isso não é nada novo – veja as tirinhas feitas por Kate Beaton retratando como são criadas personagens femininas poderosas.

Kevin Bolk fez uma versão alternativa parodiando o poster d’Os Vingadores depois de notar que na maioria do material de divulgação do filme, os caras estão em poses heróicas, mas a Viúva Negra está quase sempre numa pose de look at my ass ataque impraticável, com a silhueta curvada e bumbum empinado.

Esse tema também passou – embora sem pretensão moral - pela cabeça do artista Michael Lee Lunsford que andou imaginando como seria a indumentária das super-heroínas sem aquele tom fetichista e extremamente sexy!

Well, eu prefiro as super-heroínas do jeito de sempre, thanks! :P

Quer ver mais alguns exemplos de super-heróis provando do drama das super-heroínas? Clique aqui!

Dica da Fabiana Zardo

Por uma sociedade melhor, meninos deveriam brincar de boneca e de casinha

 Menino brinca de boneca em católogo Foto: Reprodução da web

Leonardo Sakamoto, no Blog do Sakamoto

Tenho dado bonecas de pano de presente para filhos de alguns amigos. Há algumas lojas que vendem brancas, negras, indígenas, asiáticas.

Diante do estranhamento dos pais (“Ah, mas ele é menino!”), tento explicar que brincar de boneca e de casinha deveria ser algo incentivado a ambos os sexos.

Formaríamos homens mais conscientes e menos violentos se eles entendessem, desde cedo, que cuidar de bebês, cozinhar, limpar a casa não são tarefas atreladas a um gênero, mas algo de responsabilidade do casal. Não há nada mais anacrônico do que tomar como natural que o homem deve sair para caçar e a mulher ficar cuidando da tenda no clã. Em alguns países, após um período inicial de licença maternidade básica, o casal escolhe quem continua fora do trabalho para cuidar do pimpolho. Podem decidir, por exemplo, que ele ficará em casa e ela irá para a labuta.

Enquanto isso, damos armas e espadas de brinquedo para os meninos. Dia desses, vi um par de pequeninas luvas de boxe expostas em uma loja – para lutadores de seis anos. Evoluímos como sociedade, mas continuamos fomentando a agressividade entre eles como se fosse algo bom. A indústria de brinquedos, com raras exceções, trabalha com essa dualidade “meninas precisam aprender a cuidar da casa e ficar bonitas para os meninos” e “meninos precisam aprender a governar o mundo”. Quem quer romper com isso encara certa dificuldade para encontrar produtos.

O filho de um amiga ganhou de presente um kit de panelinhas, prato e talheres de brinquedo. Ele adora. Mas foi duro encontrar um modelo que não tivesse estampas com desenhos de meninas. Isso sem contar as caixas, que trazem garotas brincando de cozinha, como se o produto não pudesse ser utilizado por garotos também. Isso sem falar dessa imbecilidade de que rosa é cor de menina e azul de menino. Quando alguém começa a defender esse maniqueísmo pobre, dá uma preguiça…

Brinquedos não deveriam trazer distinção de gênero. Ou como diz uma imagem que estava correndo o Facebook: “Como saber que um brinquedo é para menino ou para menina?” E faz uma pergunta: “Vibra?” Se a resposta for sim, não é para crianças. Se a resposta for não, vale para ambos os sexos.

O homem é programado, desde pequeno, para que seja agressivo. Raramente a ele é dado o direito que considere normal oferecer carinho e afeto para outro ser em público. Ou cuidar de bebês e da casa. Manifestar sentimentos é coisa de mina. Ou, pior, é coisa de “bicha”. De quem está fora do seu papel. Papel que é reafirmado diariamente: dos comerciais de produtos de limpeza em que só aparecem mulheres sorrindo diante do novo desentupidor de privadas até a escolha de determinados entrevistados por nós jornalistas, que também dividimos o mundo entre coisas de homem e de mulher. “Ah, mas o mundo é assim, japa.” Não, não é assim. Nós que não deixamos ele ser diferente.

Homens que trabalham no Brasil gastam 9,5 horas semanais com afazeres domésticos, enquanto que as mulheres que trabalham dedicam 22 horas semanais para o mesmo fim. Os dados são da Organização Internacional do Trabalho (OIT). Com isso, apesar da jornada semanal média das mulheres no mercado ser inferior a dos homens (36 contra 43,4 horas, em termos apenas da produção econômica), a jornada média semanal das mulheres alcança 58 horas e ultrapassa em mais de cinco horas a dos homens – 52,9 horas – somando com a jornada doméstica. Ou 20 horas a mais por mês. Ou dez dias por ano.

A análise mostra também que 90,7% das mulheres que estão no mercado de trabalho realizam atividades domésticas. Enquanto isso, entre nós homens, esse número cai para 49,7%. Porque brincar de casinha é coisa de menina.

Trabalho doméstico não é considerado trabalho por nossa sociedade, mas sim obrigação, muitas vezes relacionado a um gênero, que tem o dever de cuidar da casa. Às vezes, o casal trabalha fora e, nesse caso, terceiriza-se o serviço doméstico para outra mulher, seja ela babá, faxineira ou cozinheira. Sem, é claro, garantir a elas todos os direitos trabalhistas porque, até o Congresso Nacional aprovar nova lei, são cidadãs de segunda classe. E, diante da possibilidade de pagar direitos trabalhistas a quem faz o trabalho doméstico, a classe média pira.

A disputa é no campo do simbólico e, portanto, fundamental. Todos nós, homens, somos inimigos até que sejamos devidamente educados para o contrário. E os brinquedos que escolhemos para nossos filhos fazem parte dessa longa caminhada a fim de garantir um mínimo de decência para com o sexo oposto.

Abaixo, vídeo de uma sensacional campanha do governo do Equador contra o machismo que traduz em imagens o que quero dizer:

dica do Sidnei Carvalho de Souza

imagem: campanha da Top Toy, na Suécia

Num homossexual não se bate nem com uma flor

Israel Belo de Azevedo, no Prazer da Palavra

Diante do desafio homossexual

Num homossexual não se bate nem com uma flor.

Uma das frases que marcaram época no Brasil dizia que numa mulher não se bate nem com uma flor. Embora imperfeito, o bordão tinha a intenção de quebrar a cultura machista de vergar as mulheres sob a pressão do medo e da violência.

Hoje tratamos melhor as mulheres, embora ainda tenhamos muito a transformar nos corações masculinos, até chegarmos a um tempo em que não precisemos de leis para protegê-las dos homens e, logo, nem de delegacias especiais para lhes defender e nem de um dia para lhes homenagear.

Mesmo que soe (e soa) estranha, precisamos aplicar esta frase, aos homossexuais, em quem não se deve bater nem com uma flor.

Mesmo quem não aceita os comportamentos deles, discretos ou abertos, não tem o direito de empregar a violência, física ou moral, contra eles.

Mesmo querendo resistir às suas propostas, de que, por exemplo, suas escolhas lhes antecedem porque inscritas em suas biologias, esta resistência deve ser pacífica, nunca batendo primeiro e jamais batendo depois. Bater (gritar, xingar, debochar) nunca.

Para os cristãos, os únicos recursos em sua discordância militante – não importam as armas do outro lado – devem ser a razão no debate e a compaixão no trato, banhadas sempre em oração.

Chapeuzinho vermelho sem lobo mau

Texto de Luiz Felipe Pondé publicado originalmente na Folha de S.Paulo

Outro dia duas amigas, mulheres bonitas e jovens, emancipadas, se lamentavam porque os homens de hoje não abrem portas, não deixam as mulheres se sentarem, não pagam a conta, enfim, não são cavalheiros.

Claro, nem elas, nem eu assumimos que isso seja uma queixa nova na velha lista de queixas devido à emancipação feminina.

Mas nem tudo são perdas na emancipação feminina, só um ignorante ou um mau-caráter diria uma coisa dessas. Para usar uma expressão do mundo dos recursos humanos em finais de semana de treinamento para motivação (nada mais brega no mundo do que workshops de motivação, não?), a emancipação feminina, como tudo mais, tem seu “lado mais” e seu “lado menos”.

Disse a elas o óbvio: “Mas, para receber esse tratamento, vocês têm de obedecer, meninas!”. Rimos muito com isso.

Claro que, antes que algum inteligentinho berre dizendo que esta é uma observação machista, a expressão “obedecer” aqui nada tem a ver com “Amélia traga minha cerveja já”.

A expressão “obedecer” aqui tem mais a ver com aquele gostinho gostoso do jogo homem-mulher, entre quatro paredes, no qual homens são lobos maus e mulheres chapeuzinhos vermelhos (ou meninas da capa vermelha como está mais na moda falar depois do recente filme).

Tenho de explicar tudo porque umas das coisas que a “crítica ideológica” da relação entre os sexos causa em quem acredita nela (além da chatice usual) é a perda do senso de sutileza.

Quando os homens não podem pensar nas mulheres como objetos sexuais no seu dia a dia (o que não implica ser mal-educado, aliás, falta de educação aqui é antes de tudo falta de conhecimento do “objeto em questão”, objeto este que demanda cuidados na “manipulação” porque é inclusive “explosivo”) sem que alguma chata fale palavras como “machismo”, “patriarcalismo”, “blá-blá-blá”, acaba-se perdendo a vontade de “mandar na Chapeuzinho Vermelho”. O lobo mau desiste de ser mau.

O que as mais chatinhas não entendem é que público e privado se misturam para além de suas críticas ao “poder masculino”. E que, à medida que as mulheres se tornam “iguais” aos homens, muitos acham que não há porque as desejar tanto assim.

Não há nada no mundo que me dê mais sono do que uma feminista.

Principalmente quando o assunto é a tal crítica do patriarcalismo (o “poder masculino”).

Interessante como tem gente que, além de apontar os abusos reais que existem no mundo por conta de os homens serem mais fortes do que as mulheres (atenção: não esqueça, cara leitora da capa vermelha, que essa força maior do homem é parte do lobo mau que a menina da capa vermelha em você tanto gosta…), ama dizer que mesmo a poluição é fruto do patriarcalismo. Pode uma coisa dessas?

Isto é, “sociedades matriarcais” não poluiriam o mundo porque não seriam gananciosas e acumulativas.

Alguém já olhou um armário de uma mulher e contou o número de pares de sapato e de vestidos que ela tem? Nada acumulativas. Ou o número de batons?

Nada contra, já disse muitas vezes, a vaidade numa mulher é sua segunda pele, só mulheres mal-educadas ou muito infelizes não são vaidosas. Quanto mais cores diferentes de batom, melhor.

Mas as “invejosas do falo” (diriam as psicanalistas mais clássicas) adoram dizer que “tudo é política”, logo, “tudo é ideologia patriarcal”.

Se as mulheres se sentem sozinhas, isso é uma questão política. Se alguém vomitar de medo, isso é uma questão política. Se as mulheres têm pressão arterial mais baixa do que os homens, isso é culpa do patriarcalismo (logo, é política), porque foram os homens que escreveram os tratados de fisiologia, logo…

Enfim, nada mais machista por parte da seleção natural do que fazer com que as mulheres fiquem grávidas e não os homens, porque assim as obrigou a serem mais seletivas no sexo, porque afinal pagam caro por ele.

Ou será que isso também é opressão patriarcal? Úteros e ovários são a prova cabal de que o universo é patriarcal? A dor do parto é parte desse plano de opressão?

Será que, se criticarmos bem o patriarcalismo, os homens ficarão grávidos e não mais as mulheres?

imagem: O Nerd Escritor