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Victor Farinelli, no Opera Mundi
Dom Bernardo Bastres, de Punta Arenas, diz que muitas vezes parece que os animais “têm mais direitos que os seres humanos”
No extremo sul do Chile, a poucos quilômetros do Estreito de Magalhães, a fria e pacata cidade de Punta Arenas – capital da província de Magallanes, a menos povoada do país – não costumava ser manchete dos jornais, pelo menos até a imprensa chilena conhecer o bispo da região, dom Bernardo Bastres, e suas polêmicas declarações.
Nesta quarta-feira (9/1), o religioso publicou um artigo no jornal regional Hoy Por Hoy, no qual condena a falta de atenção do Estado chileno para “a praga de cachorros de rua que infesta diversas cidades do país e especialmente a esquecida Punta Arenas”. O artigo foi motivado também por um incidente ocorrido no último sábado (5/1), na catedral da cidade, quando um idoso de 73 anos foi atacado por seis cachorros de rua após uma missa ministrada pelo próprio bispo.
No artigo, Bastres diz que, na Europa, algumas cidades têm autonomia para eliminar os cachorros de rua quando eles são um incômodo para a sociedade e tal medida está justificada pela Bíblia. “Deus criou todas as coisas e as colocou à disposição do ser humano, esse é um princípio do Gênese, tudo está ao nosso serviço, e, portanto, também podemos nos desfazer problemas criados pela natureza”, afirmou.
Segundo a Secretaria Regional da Província de Magallanes, existem aproximadamente 12 mil cachorros de rua na capital Punta Arenas, número bastante superior à média entre as capitais provinciais chilenas, de 7,5 mil – excluindo Punta Arenas, a média das capitais diminuiria para 5,5 mil, segundo a Secretaria.
Para concluir o seu artigo, o bispo Bernardo Bastres admitiu que “o tema é delicado e não se trata de matar os cachorros por matar, porque isso sim seria considerado barbárie. Mas também não podemos aceitar que neste momento nós tenhamos uma invasão desses cachorros, que parecem ter mais direitos que as pessoas”.
Outras polêmicas do bispo Bastres
Não é a primeira vez que as polêmicas opiniões do bispo Bastres se propagam por todo o Chile. Aliás, em sua primeira aparição no noticiário nacional, ele também usou a “praga dos cachorros de rua” como argumento.
Em 2008, quando o governo da então presidente Michelle Bachelet anunciou que sua política de saúde da mulher incluiria a distribuição da chamada “pílula do dia seguinte” nos hospitais e postos de saúde públicos, Bastres foi um dos porta-vozes da Igreja Católica na ofensiva religiosa para tentar reverter a medida.
Em artigo publicado na época pelo jornal El Mercurio, um dos mais importantes do país, Bastres comentou que “não cabe aos governos ditar normas que alterem as regras da vida humana e atentam contra o próprio ser humano”, e logo complementou dizendo que “é exagerada a prioridade que os políticos de esquerda (a ex-presidente Michelle Bachelet é socialista) dão à legalização desta e de outras políticas de controle de natalidade, enquanto não tomam nenhuma iniciativa em outros problemas como, por exemplo, o excesso de cachorros de rua que existe em algumas cidades”.
Outra controvérsia criada pelo bispo Bastres aconteceu às vésperas do esperado dia 21 de dezembro, quando o sacerdote participou de um programa da televisão regional de Magallanes, em um debate sobre a profecia maia. Na ocasião, Bastres afirmou que os fiéis católicos que acreditavam no apocalipse deveriam deixar seus bens materiais aos cuidados da Igreja Católica antes de esperar o fim do mundo.
dica do João Marcos
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| Ana Paula Valadão canta no “Encontro dom Fátima Bernardes” (via blog Amigos DT) |
Karina Kosicki Bellotti, na Folha de S.Paulo
O final dos anos 1980 e o início dos anos 1990 foram marcados pelo estranhamento em relação aos evangélicos por parte da grande imprensa e das grandes redes abertas –Globo, Manchete, SBT, em especial, após a compra da Rede Record por Edir Macedo, bispo e fundador da Igreja Universal do Reino de Deus.
Muitos se perguntavam quem eram esse grupo e como ele havia alcançado essa visibilidade, num país até então majoritariamente católico.
O sentido das coberturas era em geral ofensivo, de reportagens investigativas, com câmeras escondidas, entrevistas com dissidentes, retratando de forma negativa a relação entre alguns grupos de evangélicos (os chamados neopentecostais) e a arrecadação de dízimos e ofertas.
Reportagens mostrando cultos da Universal em estádios, com sacos de dinheiro sendo abençoados, foram mostrados de forma demonizadora, sendo contrapostas a depoimentos de outros líderes religiosos que condenavam a prática, afirmando que isso não era cristianismo.
O período de 1989 a 1995 foi marcado por uma espécie de “guerra santa”, que culmina com o “chute na santa”, dado por um pastor da Universal no dia de Nossa Senhora Aparecida, em 12 de outubro de 1995. Nesse período, vemos vários veículos de comunicação demonizando os neopentecostais, o que “respinga” em outros grupos evangélicos que não são identificados com esse grupo.
Ressalto a minissérie “Decadência”, veiculada pela Globo em setembro de 1995, escrita por Dias Gomes, em que Edson Celulari interpretava um pastor sem escrúpulos, além da própria cobertura dada pela Globo, uma emissora tradicionalmente simpática ao catolicismo, por conta do chute na santa.
Observamos que, nos últimos cinco anos, a Globo tem se aproximado deste público, porque tem lhe conferido não somente um peso de formação de opinião, mas também de mercado consumidor.
Agora há o Festival Promessas, o selo da Som Livre para música cristã contemporânea -que reúne artistas evangélicos e católicos, que já tocaram no Faustão e tiveram música em trilha sonora de novela.
Da quase ausência de cobertura de eventos evangélicos, como a Marcha para Jesus, para a cobertura no “Jornal Nacional” dos cem anos da Assembleia de Deus (2011), da Marcha para Jesus, e mesmo dos protestos feitos por Silas Malafaia contra o projeto de lei 122/06 (contra a homofobia), vemos uma mudança de atitude significativa.
É importante destacar que a bancada evangélica cresceu no Congresso (e que tem se aproximado do governo desde a administração Lula), cresceu o poder aquisitivo de muitos evangélicos que ocupavam a chamada classe C e aumentou a mobilização de parcelas de evangélicos nas redes sociais, o que dá maior voz e visibilidade para esse grande e heterogêneo conjunto religioso denominado “evangélico”.
Se antes o evangélico era retratado de forma demonizada –no caso das lideranças- ou paternalista -no caso do fiel, retratado como um sujeito vulnerável aos ataques de líderes inescrupulosos-, atualmente vemos um retrato mais positivo, mas ainda longe da sua grande diversidade. São retratados como sujeitos religiosos que merecem respeito, que votam, que consomem e são exigentes na qualidade do que lhe é oferecido.
A aproximação se dá mais pela música, pela figura feminina de artistas como Ana Paula Valadão (que recentemente cantou no “Encontros com Fátima Bernardes”) e Aline Barros, e até por programas como “Sagrado”, que traz diferentes lideranças religiosas para falar sobre diversos assuntos da vida e da morte.
É uma aproximação ainda cuidadosa, que não livra a Globo dos deslizes de chamar os cantores evangélicos de “estrelas da música gospel” (a crença rejeita qualquer alusão a idolatria), mas perto de como era -e não era- antigamente, é um grande avanço, que é comemorado por muitos evangélicos nas redes sociais.
Lembro-me de como a ida de Aline Barros ao “Domingão do Faustão” foi comemorada por blogs e em comunidades evangélicas no Orkut. Como o universo evangélico é muito diversificado, é difícil pontuar que só há desconfiança em relação à iniciativa da Globo em se aproximar deste grupo; a Record procura galvanizar a atenção dos “evangélicos” como um todo, oferecendo programação religiosa, mas não há unanimidade entre os evangélicos em relação ao que essa emissora produz.
Acredito que as redes sociais têm ajudado a conferir maior visibilidade; o próprio uso da mídia feito por grupos evangélicos tem conferido também esta visibilidade, seja em termos de evangelização, seja nas campanhas eleitorais e até nas ameaças de boicote a novelas da Globo, como “Salve Jorge”.
Agora, uma das características ligadas historicamente a uma suposta “identidade evangélica” no Brasil é essa idéia de estar afastado da grande sociedade católica ou secular; essa ideia de “estar no mundo, mas não pertencer a ele”.
O reconhecimento maior que a grande mídia tem oferecido aos evangélicos traz alguns desafios a essa autoimagem evangélica, pois dentro desse grupo heterogêneo destaca-se o desejo de vigiar de perto o que a grande mídia fala sobre ele, tendo em vista todo o histórico de agressões e perseguições empreendidas.
Então, destaca-se essa autoimagem positiva, de povo honesto, trabalhador, que canta, louva, veste-se de forma elegante, mas sem ostentação; que é igual a todo mundo no dia a dia, e que leva sua crença muito a sério, pois enxerga na própria vida um testemunho a ser dado para quem não é evangélico -a ideia de ser “sal da terra, luz do mundo”.
dica da Ana Carolina Ebenau
Tony Goes, no F5
Foi um daqueles momentos em que todo mundo se lembra exatamente do que estava fazendo quando soube da notícia, como no 11 de Setembro. Eu, por exemplo, estava em Buenos Aires, passeando pelo bairro da Recoleta. Parei em frente a uma banca e quase dei um pulo quando li a manchete dos jornais brasileiros: Daniella Perez havia sido assassinada.
De todos os crimes célebres que presenciei em toda minha vida, este foi de longe o que causou maior celeuma. Não só pela fama da vítima, estrela da TV e filha da autora de novelas Glória Perez, como também pelo método cruel (nada menos que 19 tesouradas) e pela ausência de dúvida quanto à identidade dos assassinos.
Guilherme de Pádua (que fazia par romântico com Daniella na novela “De Corpo e Alma”) e sua mulher Paula Thomaz foram presos logo após o crime. Descobertos os culpados, restou identificar a motivação: até hoje não se sabe se a morte de Daniella foi causada por ciúmes, ambição profissional ou até mesmo magia negra. Talvez um pouco de tudo isto.
Uma vez na cadeia, o casal passou a se acusar mutuamente. O maior culpado teria sido o outro. Mas a estratégia não funcionou muito bem para nenhum dos dois, que acabaram sendo condenados a longas penas. No entanto, graças ao leniente sistema penal brasileiro, foram ambos libertados em 1999, menos de sete anos depois do crime.
Paula Thomaz sumiu de circulação: casou-se novamente, trocou de nome e nunca mais deu entrevistas. Mas seu ex-marido volta e meia reaparece na mídia, talvez numa tentativa inconsciente de reconquistar a celebridade que quase atingiu como ator. Ontem lá estava ele no “Domingo Espetacular” (Record), numa entrevista de mais de 40 minutos a Marcelo Rezende.
Foi uma das peças mais sensacionalistas e menos objetivas que a imprensa brasileira produziu nos últimos tempos. Rezende, com sua locução digna dos antigos programas de rádio policialescos, procurava dramatizar ainda mais um caso que já é dramático o suficiente. Além do mais, parecia haver um esforço para mostrar Guilherme de Pádua como um bom moço, meio vítima das circunstâncias e já plenamente reintegrado à sociedade.
Mas nas entrelinhas a história era outra. Guilherme se mostrou covarde ao insinuar que uma marca no rosto de Daniella teria sido resultado “da vida íntima” da atriz. Também posou de coitadinho ao lembrar que já levou cuspidas na cara – algo bem menos doloroso que 19 tesouradas, é claro.
Papel ainda pior fez a Record. A reportagem não trouxe um dado novo sobre o caso. Os motivos torpes que levaram um casal jovem a cometer um crime bárbaro não ficaram mais claros depois dos longos 40 minutos. Deu até para suspeitar que a emissora estivesse fazendo propaganda subliminar da fé evangélica, já que Guilherme diz que foi Jesus quem o salvou.
Se era a intenção, em mim não colou: achei tudo um lixo.