Projeto que promete viagem só de ida para Marte atrai 200 mil candidatos

Em outra fase, 24 candidatos participarão de ‘reality show’
Equipe vencedora será a primeira enviada para Planeta Vermelha

Dois cientistas participam de simulação do ambiente marciano no deserto de Marrocos REUTERS
Dois cientistas participam de simulação do ambiente marciano no deserto de Marrocos REUTERS

Renato Grandelle, em O Globo

Muitas pessoas cultivam o sonho de morar em outro planeta. Em Marte, especificamente, são 202.586. Este é o número de candidatos que, nos últimos cinco meses, mandaram vídeos e e-mails para o Projeto Mars One, capitaneado pelo engenheiro holandês Bas Landscorp. Ele admite que ainda não tem toda a tecnologia necessária para mandar 24 selecionados para o planeta vizinho — e muito menos para retirá-los dali. Ainda assim, é grande o fascínio exercido pelo ambiente inóspito, frio, seco e de radiação na superfície.

O tíquete para Marte não é barato. Estima-se que o custo para envio dos primeiros colonos chegue a US$ 6 bilhões. Para bancá-lo, o Mars One passará os próximos dois anos afunilando sua lista de candidatos. Da peneira sairão seis equipes, cada uma composta por quatro pessoas, que se enfrentarão em um reality show (um dos coordenadores do projeto é co-criador do Big Brother), com transmissão prevista para dezenas de países. O quarteto vencedor será o primeiro levado ao espaço, e sua missão também será acompanhada pelo espectadores. A audiência do programa e a cooperação da iniciativa privada bancariam o envio das naves.

— O local da disputa ainda não foi definido, mas provavelmente será um ambiente inóspito e de temperatura baixa, o mais próximo possível do que sabemos de Marte — revela Thais Russomano, coordenadora do Laboratório de Microgravidade da PUC-RS e consultora do Mars One. — Não sabemos por quanto tempo o treinamento será transmitido, mas sua duração é de dez anos. Os tripulantes terão de adquirir o maior conhecimento técnico possível para sobreviverem em um planeta que tem apenas um terço da gravidade terrestre, sem um invólucro gasoso que sirva como proteção para as radiações solares e com a água congelada no solo. Se não souberem perfurá-lo, não serão autossuficientes.

A diminuição da gravidade causará alterações em todo o organismo, como a perda de cálcio dos ossos e a troca gasosa entre o sangue e o ar presente nos pulmões. A exposição recorde à radiação solar será outro desafio.

Além de acompanhar as aulas de sobrevivência em Marte, o programa televisivo, como todo reality show que se preze, vai explorar o perfil psicológico de seus participantes. Entre as características fundamentais para quem quiser entrar na expedição estão a capacidade de liderança, dedicação e — considerando que a viagem não tem volta — desprendimento.

Dono de uma pousada em Nova Friburgo, João Carlos Leal, de 52 anos, garante que cumpre as exigências. Seu interesse pelo espaço começou aos 8 anos, quando viu a decolagem da primeira missão Apollo. Colecionador de filmes de ficção científica, ele considera que sua idade é um trunfo.

— Terei 62 anos quando lançarem a primeira nave, mas muitos homens da minha família vivem bem até quase os 80 — avalia. — Posso, então, contribuir muito com a equipe. Mais de metade dos inscritos têm menos de 30 anos. Essas pessoas ainda têm muito o que fazer por aqui. Já vivi muita coisa na Terra, seria bom experimentar algo diferente. São sete meses de viagem até Marte e o resto da vida no planeta. Uma pessoa madura pode se adaptar melhor ao confinamento do que um jovem, que logo ficaria depressivo.

Leal precisou de muita conversa para explicar à família por que havia se inscrito no projeto.

— Algumas pessoas não sabiam se deviam me dar parabéns ou os pêsames — brinca. — Afinal, é uma morte em vida. Mas terei muito tempo para curtir meus filhos. O caçula tem 12 anos. Quando for embora, ele terá quase 23. Estará na faculdade e interessado em outras coisas.

O Brasil teve 10.289 inscritos no projeto — Leal está entre os 79 compatriotas cujo perfil já foi publicado no site do Mars One. O país é o quarto entre aqueles com maior número de candidatos. O ranking é liderado por EUA, Índia e China. Ao todo, 140 nações têm pessoas inscritas no projeto.

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Criador do ‘The Voice’ leva a fé para nova minissérie

    Getty Images    Executive producer Mark Burnett
Getty Images
Executive producer Mark Burnett

John Jannarone, no The Wall Street Journal [via Valor Econômico]

Mark Burnett fez fama por ser a força por trás de programas de reality TV de grande sucesso, como “Survivor” e, mais recentemente, “The Voice”. Agora, ele está voltando sua atenção para outro tipo de TV: uma série bíblica.

Burnett está prestes a terminar uma minissérie de 10 horas, “The Bible” (A Bíblia), baseada em histórias como a da arca de Noé e Daniel na cova dos leões. A série, que deve ir ao ar no início do ano que vem no History Channel, é o primeiro trabalho de Burnett em programas de TV com roteiro pré-escrito.

É também um projeto que toca fundo no coração de Burnett. Nos últimos dois anos, esse ex-paraquedista militar de 52 anos diz que se tornou profundamente religioso, uma transição que ele atribui a Roma Downey, sua esposa desde 2007. “Foi só quando conheci Roma que realmente compreendi a minha fé, e isso vem sendo uma mudança dinâmica para mim”, disse Burnett.

Ele também dá à mulher o crédito da ideia da série. “Minha esposa tinha a sensação de que há muita coisa por aí que parece estar difamando a Bíblia”, disse ele. “Roma disse que deveríamos filmar a verdadeira história.”

Nos últimos anos, Burnett e Downey fizeram amizade com o famoso televangelista Joel Osteen, pastor de uma igreja de Houston, no Texas, que é a sede da maior congregação dos Estados Unidos. Osteen está dando assessoria a Burnett na série.

“Ele veio [à nossa igreja] várias vezes e nós fomos jantar na sua casa e coisas assim”, disse Osteen.

Mark Burnett e a esposa, Roma Downey, estão produzindo ‘A Bíblia’. A série foi filmada este ano no Marrocos. Durante a produção, Downey passou quase seis meses ininterruptos no país. Burnett voltava de avião para a Califórnia semanalmente para produzir a edição americana “The Voice”, viagem que leva até 30 horas em cada sentido.

O projeto de US$ 20 milhões, financiado pelo History Channel e pela Hearst Corp., dona de 50% do canal, ocorre num momento em que o gênero reality show dá sinais de já ter chegado ao pico.

Desde a estreia de “Survivor”, em 2000, na rede americana CBS Corp., a televisão do país foi inundada por reality shows sem roteiro prévio, desde “Extreme Makeover”, da rede ABC, mostrando cirurgias plásticas, até “Here Comes Honey Boo Boo”, da TLC, estrelando uma criança candidata a um concurso de beleza.

Burnett tem atualmente cinco reality shows no horário nobre em três redes de TV nos EUA, a maior presença na carreira do produtor. O que mais se destaca é “The Voice”, na NBC, rede da Comcast Corp. A série “Survivor” já está agora em seu 13º ano.

Embora o público de “Survivor” nos EUA seja hoje menor que o máximo de quase 30 milhões que atingiu em 2001, ainda consegue uma saudável média de 12 milhões de espectadores e continua sendo o programa de maior audiência em seu horário, segundo a Nielsen.

Burnett disse que está havendo um excesso de programas de reality TV, em especial nos canais a cabo. “Os programas da TV a cabo […] não podem ser todos sobre gente que tem um emprego estranho sendo seguida pelas câmeras”, disse ele.

Ele disse acreditar que as redes muito dependentes de reality shows vão se afastar dessa fórmula. “A TV a cabo está evoluindo”, disse. “Aposto que daqui a cinco anos um terço dos programas da TV a cabo terá algum tipo de roteiro, com narrativa.”

No ano passado, ele vendeu para a Hearst uma participação de 50% na maioria dos seus negócios, incluindo programas como “The Voice”, fazendo com eles uma sociedade em que Burnett vai criar programas de TV.

Embora preferisse não dar detalhes sobre outros planos para programas com roteiro, ele disse que “A Bíblia” não será uma iniciativa isolada. “Estamos desenvolvendo ativamente uma tonelada de material roteirizado nesse momento […]. Meu instinto me diz que provavelmente vamos acabar fazendo mais programas roteirizados do que reality shows nos próximos 10 anos.”

A Hearst espera que “A Bíblia” agrade a muita gente. Nos EUA, “há um grande número de cristãos, talvez 60 milhões ou mais, que vão à igreja toda semana”, disse Scott Sassa, presidente de entretenimento e distribuição da Hearst.

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