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Lei Maria da Penha não reduziu morte de mulheres por violência, diz Ipea

Instituto divulgou dados inéditos sobre violência contra a mulher no país.
Crimes são geralmente praticados por parceiros ou ex-parceiros, diz estudo.

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Rosanne D’Agostino, no G1

A Lei Maria da Penha, que entrou em vigor em 2006 para combater a violência contra a mulher, não teve impacto no número de mortes por esse tipo de agressão, segundo o estudo “Violência contra a mulher: feminicídios no Brasil”, divulgado nesta quarta-feira (24) pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

O Ipea apresentou uma nova estimativa sobre mortes de mulheres em razão de violência doméstica com base em dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), do Ministério da Saúde.

As taxas de mortalidade foram 5,28 por 100 mil mulheres no período 2001 a 2006 (antes da lei) e de 5,22 em 2007 a 2011 (depois da lei), diz o estudo.

Conforme o Ipea, houve apenas um “sutil decréscimo da taxa no ano 2007, imediatamente após a vigência da lei”, mas depois a taxa voltou a crescer.

O instituto estima que teriam ocorrido no país 5,82 óbitos para cada 100 mil mulheres entre 2009 e 2011. “Em média ocorrem 5.664 mortes de mulheres por causas violentas a cada ano, 472 a cada mês, 15,52 a cada dia, ou uma a cada hora e meia”, diz o estudo.

O feminicídio é o homicídio da mulher por um conflito de gênero, ou seja, por ser mulher. Os crimes são geralmente praticados por homens, principalmente parceiros ou ex-parceiros, em situações de abuso familiar, ameaças ou intimidação, violência sexual, “ou situações nas quais a mulher tem menos poder ou menos recursos do que o homem”.

Perfil das vítimas
Segundo o estudo do Ipea, mulheres jovens foram as principais vítimas –31% na faixa etária de 20 a 29 anos e 23% de 30 a 39 anos.

Mais da metade dos óbitos (54%) foi de mulheres de 20 a 39 anos, e a maioria (31%) ocorreu em via pública, contra 29% em domicílio e 25% em hospital ou outro estabelecimento de saúde.

A maior parte das vítimas era negra (61%), principalmente nas regiões Nordeste (87% das mortes de mulheres), Norte (83%) e Centro-Oeste (68%). A maioria também tinha baixa escolaridade (48% das com 15 ou mais anos de idade tinham até 8 anos de estudo).

As regiões Nordeste, Centro-Oeste e Norte concentram esse tipo de morte com taxas de, respectivamente, 6,90, 6,86 e 6,42 óbitos por 100 mil mulheres. Nos estados, as maiores taxas estão no Espírito Santo (11,24), Bahia (9,08), Alagoas (8,84), Roraima (8,51) e Pernambuco (7,81). As taxas mais baixas estão no Piauí (2,71), Santa Catarina (3,28) e São Paulo (3,74).

Ao todo, 50% dos feminicídios envolveram o uso de armas de fogo e 34%, de instrumento perfurante, cortante ou contundente. Enforcamento ou sufocação foi registrado em 6% dos óbitos.

Em outros 3% das mortes foram registrados maus-tratos, agressão por meio de força corporal, força física, violência sexual, negligência, abandono e outras síndromes, como abuso sexual, crueldade mental e tortura.

“A magnitude dos feminicídios foi elevada em todas as regiões e estados. (…) Essa situação é preocupante, uma vez que os feminicídios são eventos completamente evitáveis, que abreviam as vidas de muitas mulheres jovens, causando perdas inestimáveis, além de consequências potencialmente adversas para as crianças, para as famílias e para a sociedade”, conclui o estudo.

dica da Jeane Almeida

Kaká reduz salário a quase um terço e diz que “dinheiro nunca foi prioridade”

Kaká é recepcionado com festa por torcedores na sua chegada à Itália para assinatura de contrato (foto: AP Photo/Luca Bruno)

Kaká é recepcionado com festa por torcedores na sua chegada à Itália para assinatura de contrato (foto: AP Photo/Luca Bruno)

Publicado no UOL

O sonho em voltar à seleção brasileira e disputar a Copa do Mundo de 2014 pesaram tanto que Kaká parece ter perdido um bom dinheiro ao decidir deixar o Real Madrid para voltar ao Milan.

Os valores oficiais do novo contrato com o time rubro-negro não foram divulgados, mas, de acordo com o jornal italiano “La Gazzetta dello Sport”, o brasileiro vai receber quatro milhões de euros por temporada, quase um terço do que ganhava no Real Madrid, algo próximo a 11 milhões a cada temporada.

Se não confirma valores, Kaká deixou claro que abriu mão da parte financeira para poder ter mais chances de entrar em campo e tentar colocar fim à instabilidade que passou no time merengue nos últimos quatro anos.

O meia de 31 anos foi liberado de forma gratuita pelo Real Madrid e o contrato será válido por duas temporadas.”Dinheiro nunca foi uma das minhas prioridades e mais uma vez provei isso”, falou o jogador de 31 anos em sua chegada a Milão.

Embora o técnico Luiz Felipe Scolari declare que a escolha de um atleta não está atrelada à titularidade em seus clubes, Kaká teve poucas chances na seleção. Ele participou de amistosos pré- Copa das Confederações, mas não foi relacionado para a competição.

Relutou deixar o time merengue há algumas temporadas por um desejo pessoal de não sair como fracassado ao ser anunciado como uma das caras contratações da história ao custar 65 milhões de euros em 2009.

Chegou a fazer bons jogos na primeira temporada, mas os problemas de lesão e alta concorrência em sua posição o fizeram ser pouco aproveitado pelo ex-técnico do time, José Mourinho.

O português optava pela dupla Özzil e Di Maria na construção das jogadas, e muitas vezes Kaká era preterido também por Modric e Callejon.

Uma possível permanência foi cogitada depois que Carlo Ancelotti, técnico com quem brilhou no Milan, chegou até o time madrileno. Mas foi uma conversa com o próprio que fez Kaká tomar a atitude de pedir para sair.

“Quatro anos se passaram e agora estou de volta. Há 15 dias eu pensei que eu pudesse voltar atrás, eu falei com Carlo Ancelotti e eu percebi que era ideal para mim voltar aqui…nos últimos dias, sonhei sentir novamente no San Siro meu coro, eu não posso esperar”, falou, em entrevista ao site oficial.

Como matar sonhos

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Carmen Guerreiro, no AnsiaMente

Minha meia-irmã recentemente veio a São Paulo para uma visita. Ela tem 12 anos e está justamente na fase transitória entre a infância e a adolescência, entre a visão de “meus pais são o meu mundo e só falam a verdade” e a rebelião completa do “eu sei o que é melhor para mim e para o mundo”. O riso infantil deu lugar ao silêncio e à cara de saco cheio adolescente. Mas tem uma coisa que faz seus olhos brilharem e sua boca tagarelar: escrever. “Ela fala para todo mundo que tem uma irmã escritora”, a mãe dela me disse. Fiquei toda orgulhosa. Em uma semana em São Paulo, ela devorou dois livros de mais de 300 páginas. Pediu para passar uma tarde toda na Livraria Cultura, um dos seus lugares preferidos da cidade. Eu puxei o assunto sobre seu gosto pela literatura.

“Eu escrevi um conto, nada demais, mas foi a primeira coisa maior que eu escrevi”, ela me contou.

“Que legal! Eu quero ler!”, eu respondi, empolgada. A cara dela apagou e ela olhou para o chão involuntariamente.

“É que… eu queimei. E apaguei do computador.”

“O quê??? Por quê?”

“Porque eu escrevi uma história inspirada no Gasparzinho [o fantasminha caramada], e minha tia disse que aquilo não era de Deus.”

Uma ira tomou conta de mim e, caso eu fosse um desenho animado, minhas orelhas teriam soltado fumaça e minha cara teria ficado vermelha. Não se trata de religião.  Trata-se de matar o sonho de uma criança. Uma criança que começa a andar com as próprias pernas, ter suas próprias ideias, desenvolver seus interesses e BUM, tem suas asas cortadas por uma pessoa em quem confia e que tem como modelo. E com isso, o lado criança a retraiu e ela logo desistiu “dessa maluquice” de escrever.

Quantas crianças vemos todos os dias na rua, no supermercado, no ônibus, no metrô, nas praças e parques recebendo a mesma patada que minha irmã recebeu e desistindo, assim, daquilo pelo que são apaixonadas, curiosas, instigadas? Inclusive tratei disso em outro post. “Isso é uma besteira, menino”, “Você nunca vai ganhar dinheiro com isso”, “Alguém já deve ter inventado isso”, “Pare de inventar moda”.

Em um mundo com tantos problemas complexos que exigem soluções inovadoras, quebras de paradigmas e questionamentos, precisamos que crianças (e adultos!) possam acreditar que é possível fazer diferente. Que dá para viver daquilo que a gente ama. Que sonhos podem ser realidade. Que ideias são poderosas e podem sim transformar o mundo. Que tudo aquilo que foi dito para elas não é uma verdade inquestionável nem uma realidade imutável.

Caí na minha própria armadilha dois dias depois que minha irmã me contou o causo do Gasparzinho. Ela me perguntou por que eu escolhi ser jornalista, e eu disse que meu sonho era ser escritora (escrevi dois livros aos 14 anos, mas não tive coragem de tentar publicá-los). “Então por que não foi ser escritora, oras?” ela me questionou. Temos que prestar atenção nas perguntas que fazem as crianças. Elas são as pessoas antes de se conformarem. São o otimismo antes da depressão. Eu não prestei essa atenção na hora e respondi: “Porque eu precisava viver de alguma coisa, ué.”

E no dia seguinte me dei conta da bobagem que falei. Fiz o mesmo que a tia dela, mas em outro nível. Quis dizer que aquele sonho era só um sonho, que a realidade é diferente. Mas não precisa ser. Se existem escritores profissionais, é porque é possível ser um escritor profissional. E o mesmo serve para tudo o que se imagina que é “demais” para a gente. Se todos achassem que ser astronauta, escritor, artista profissional, ator reconhecido, trabalhar na organização que admiramos (Pixar, ONU, Google etc.), não existiriam pessoas trabalhando nessa realidade. Então de onde vem essa autoestima baixa que não permite nem que a gente tente, experimente, teste antes de sabermos se vamos conseguir ou não? Algumas palavras e gestos de um adulto são capazes de mudar todo o futuro de uma criança, para o bem ou para o mal. Quantas vezes já não ouvi a frase “meu sonho era fazer faculdade, mas meu pai dizia que eu tinha que trabalhar e no fim ele estava certo”?

Você consegue olhar para trás e lembrar do momento em que incutiu que algo era “bom demais” ou “difícil demais” para você? Aposto que a maior parte desses momentos estava ligada a um adulto que disse que aquilo não era o caminho certo, ou que deu de ombros para a sua ideia. Li (na verdade ouvi) recentemente o livro Creating Innovators, de Tony Wagner (aliás, recomendo fortemente a leitura para qualquer um interessado no rumo que nossa sociedade está tomando), e ele insiste que por trás de adultos criativos que saem do seu quadrado e inovam a forma das pessoas viverem (o engenheiro por trás do iPhone, por exemplo, é citado no livro), existiu um adulto – professor ou familiar – que o incentivou na infância ou adolescência. E não necessariamente sendo um mentor, mas simplesmente dando o seu aval, dizendo que sim, ele deveria ir em frente.

Isso fez muito sentido para mim. E descobri que aconteceu comigo também, e provavelmente aconteceu com todos vocês. Apesar de eu me orgulhar da formação e criação que meus pais me deram, nunca foram super apoiadores do meu espírito criativo, empreendedor e explorador. Foram em alguns momentos, mas faltaram em outros. E eu reconheci pessoas-chave por quem eu tenho um imenso carinho até hoje que simplesmente disseram: “Ótima ideia, vai fundo!” ou “Você tem potencial” e que isso bastou para que eu movesse montanhas para fazer minha ideia acontecer.

Corri atrás do meu erro com a minha irmã, e aproveitei para resgatar o meu próprio sonho no processo. Propus a ela que fizéssemos juntas exercícios de escrita e construíssemos personagens, trama e tudo o mais de uma história juntas, via email (ela mora a 1000 km de distância). Um incentivo para ela, uma retomada de sonho para mim. Ela ficou muito feliz com a proposta e o desafio. Para terminar, criei uma conta de email para ela e meu primeiro email inaugurando sua caixa de entrada foi um texto me redimindo, e explicando que falei uma grande besteira. E que ela podia ser escritora se quisesse, sim.

E você, já mudou de ideia sobre uma escolha de vida em que se viu tendo que trocar o duvidoso (e inovador) pelo certo  (e conservador)? Você escolheu sua profissão baseado em um sonho ou na pressão para ser bem sucedido? Ou nos dois? Você já se conformou em um relacionamento por mais tempo do que deveria porque achou que o amor era aquilo mesmo, e você não encontraria alguém como uma vez sonhou? Você já desistiu da ideia de fazer um intercâmbio internacional ou simplesmente viajar para fora porque disseram que tem coisa melhor para gastar o dinheiro? Conte sua história aqui.

dica da Cristina Danuta

Quem foi que disse que o silêncio não mata

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Graça Taguti, na Revista Bula

Já parou pra ouvir? Volta e meia, o silêncio tenta nos dizer tantas coisas, sussurrar segredos lá dentro dos nossos ouvidos, mas estamos ocupados demais para prestar atenção. Ou então tagarelando, jogando conversa fora, linguarudos toda a vida. Só um zíper pra fechar nossa boca maldita. Que, aliás, nem sempre funciona.

Há silêncios de todos os jeitos, tonalidades, inflexões, cores e propósitos. Silêncios poéticos. Teatrais.  Os discretos discursos da alma. Silêncio dos interrogatórios, dos assassinos, na acareação; do padre no confessionário; da audiência, em um espetáculo de música clássica, orquestrada em um teatro de arquitetura imponente.

Silêncios de práticas terapêuticas, como as de algumas vertentes da Ioga. Das meditações em centros de autoconhecimento. Os silêncios graves e carregados de sentido dos psicanalistas, ponderando frente às aflições de seus pacientes.

Os silêncios saltam dos provérbios, dos ditados, dos tácitos acordos amorosos, nos quais apenas os olhos se comunicam. Há os que brotam dos gestos tão genuínos de quem já nasceu mudo. Emergem dos atos contritos de refletir durante o sermão na missa dominical. Ou manter-se atento à preleção do pastor, no caso dos cultos evangélicos.

Há o silêncio dos ateus, que se consideram donos do próprio destino e responsáveis únicos no enfrentamento das batalhas cotidianas. Silêncio da vergonha, que busca um pano preto para se encobrir, depois de fatos desvendados, porém infelizmente não encontra. Silêncio dos prisioneiros políticos, que tentam preservar sua honra na oferta da delação premiada. Quantos mártires, apóstolos ferrenhos de seus ideais definharam e foram apagados em salas escuras, úmidas e implacáveis?

O silêncio frio das mentiras. Que calam por consentir no deslize, no roubo. Que adotam a permissividade no lugar da ética, a promiscuidade atitudinal em detrimento da paz. Silêncio nas falácias dos governantes, discursos vazios de propostas, em torno  dos quais, com frequência, a sociedade permanece perplexa. Em calado desalento.

Silêncio da pré-adolescente, flagrada pela bronca do pai ao provar toda serelepe, ao lado do namoradinho, uma caipirinha no bar da esquina próxima de casa.

O silêncio está em jogo.  Filho legítimo de situações absurdas, bizarras, impensáveis em sua barbárie. Silêncio de quem assiste a injustiças e se flagra de mãos atadas, impotente para reagir.

A covardia explícita no ditado: quem cala consente. O sábio conselho embutido em: falar é prata, ouvir é ouro. A propósito, o seu vizinho, que fala como um papagaio se resolvesse parar pra se ouvir, certamente atiraria dezenas de frases inúteis no lixo.

Em boca fechada não entra mosca! — adverte a professora de português do ensino médio ao aluno que teima defender a conquista dos suados e almejados pontos de sua redação sobre “A Gula”, cá entre nos muito indigesta e mal redigida.

A cena costumeira observada das namoradas carentes reclamando por incessantes  declarações de amor do tolerante parceiro, em alto em bom som. Mas quem disse que o silêncio não traz às costas uma mochila pesada, repleta de afetos enormes?

No filme “O Silêncio dos Inocentes” de 1991, a agente do FBI (Jodie Foster) é destacada para encontrar um assassino que arranca a pele de suas vítimas. Para entender como o ele pensa, a moça procura um perigoso psicopata (Anthony Hopkins), encarcerado sob a acusação de canibalismo.

“O Silêncio” — filme sueco de 1963, escrito e dirigido por Ingmar Bergman, foi considerado bastante controverso, apresentando temas como masturbação feminina, sugerindo lesbianismo e incesto, além de nudez e sexo.

Em “A Tortura do Silêncio” uma das obras-primas de Alfred Hitchcock, de 1953, o padre Michael Logan (Montgomery Clift), aparentemente um exemplo de piedade religiosa, escuta a confissão de um assassino. Tarefa árdua testemunhar o ocorrido, a partir do ponto de vista do matador e as normas da igreja que impedem Logan de se pronunciar.

Escritora filigranada, Clarice Lispector anunciou sem reservas: “Minhas desequilibradas palavras são o luxo do meu silêncio”.

Jack Kerouac, emblemático romancista da geração beat, sublinhou: “Porque o silêncio em si é como o som dos diamantes que podem cortar tudo”.

Nosso Tom Jobim, sempre movido por especial delicadeza, alinhavou irretocável metáfora, segundo a qual a música é o silêncio que existe entre as notas.

Por fim, o eterno Leminski num de seus versos registrou, recorrendo à sua habitual e extrema agudeza: “Repara bem no que não digo”.

Então. Talvez esta seja uma boa ocasião para tentarmos decifrar a sutil conversa das plantas. O significado de certas tempestades, dentro e fora do corpo. Os humores da natureza.  Contemplarmos também alguns sorrisos que dançam imersos na quietude dos olhos. As mensagens impregnadas em longos e profundos  suspiros.

E, naturalmente, a inquestionável cumplicidade de dois amantes, denunciada pela força de silenciosos apertos de mãos.

Henry Sobel: “Furto foi falha moral, não doença”

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Por Laura Greenhalg, no Estadão

Henry Sobel deixará o Brasil – circulou dias atrás. Diante da informação ainda restrita, o Estado procurou o rabino afastado da Congregação Israelita Paulista (CIP) em 2007, ao protagonizar um controvertido furto de gravatas numa loja de Palm Beach, nos Estados Unidos. Desde então Sobel deixou de ser a autoridade religiosa máxima da entidade, pediu aposentadoria no que foi atendido e levou o título de “rabino emérito” contornando uma crise que lhe trouxe profunda mágoa.
Por seis anos manteve a justificativa de que o furto fora motivado por desordem psicológica, depressão e efeito de remédios. Até no livro autobiográfico, Um Homem, um Rabino (Ediouro, 2008), com prefácio de Fernando Henrique Cardoso, sustentou a versão: “Para concluir minha recuperação, tenho que reconhecer a existência de um problema de saúde, que se manifestou em momentos de grave tensão”. Nesta entrevista exclusiva, Sobel se desmente. Pela primeira vez assume que o furto tem a ver com “uma falha moral minha”.

A revelação foi feita dias atrás, de modo manso porém surpreendente, ao longo de uma entrevista de duas horas e meia no apartamento do próprio rabino, no bairro de Higienópolis, em São Paulo. Antes do gravador ser acionado, Sobel avisou que iria falar de algo pela primeira vez. Algo muito difícil. Havia escrito um longo texto, que consultou em diferentes momentos. E, recorrendo sempre aos fundamentos éticos do judaísmo, admitiu que furtou por fraqueza de caráter, não por debilidade física. “Desde jovem, fui um intolerante comigo. E o autojulgamento sempre foi severo demais. Mas o rabino é humano, portanto, falível.”

Conta que amigos próximos ajudaram a montar a versão do desequilíbrio para protegê-lo. Que outros amigos silenciaram. E que uma oposição não o poupou das críticas. Agradece o acolhimento dos brasileiros, que chama de grande público não judeu. “Estranharam o fato. Mas não me julgaram.”

Quase aos 70 anos, casado com Amanda e pai de Alisha, filha única, prepara-se para viver em Miami. Iniciará um longo período sabático só interrompido para voltar ao Brasil na época da Copa. “Sou apaixonado por futebol. Meu time, o São Paulo, anda em baixa, mas vibro, vibro… e vibro”, revela com o dote de bom pregador, em que a repetição de palavras é recurso infalível e o sotaque americano, marca registrada. Fala da tristeza por não ter sido convidado a se encontrar com o papa Francisco (justo Sobel, que esteve com João Paulo II e Bento XVI, entre tantos líderes religiosos) e acha que sua representatividade vem sendo machucada. Por fim, ao rever sua corajosa atuação pública na morte de Vladimir Herzog, diz sentir o conforto do dever cumprido.

Por que está deixando o Brasil?

Deixe-me dizer que esta deverá ser uma entrevista difícil, com perguntas delicadas que pretendo responder. Fiz anotações que vou consultar, se me permitir. São 43 anos no Brasil. Minha história pessoal e a vida profissional estão muito interligadas. E ligadas ao Brasil. Mas resolvi deixar o País para diminuir o ritmo e preparar a aposentadoria. Passarei um período sabático em Miami. Lá vou me dedicar à leitura, escrever e refletir muito.

E por que Miami?

Primeiro, porque temos um apartamento lá. Segundo, porque a comunidade judaica daquela região é relativamente bem organizada. Em inglês se diz que Miami é gateway, ponto de partida para o mundo – Oriente Médio, Europa, América Latina… bom lugar para estar. Tentei ir para Washington, não consegui viabilizar o projeto. Então, é Miami. Mas voltarei ao Brasil no meio do ano que vem, para ver a Copa do Mundo daqui. Falando sério, vibro com futebol.

O senhor já não está aposentado?

Estou. Comuniquei meu pedido à CIP anos atrás, que foi aceito. Continuei por aqui porque tenho paixão pelo Brasil. Agradeço o País que me proporcionou trabalhar com a comunidade judaica e ter mantido contato com líderes religiosos de outros credos.

Como seria comparar o rabino Sobel dos anos 70, que chegou aqui jovem, num período difícil, e o rabino Sobel hoje, aposentado e querendo refletir?

Hoje sou um rabino machucado. Por motivos políticos. Vou dar um exemplo: minha congregação não me convocou para encontrar o papa Francisco na visita dele ao Brasil. Isso me magoou, afinal de contas, ele é um homem maravilhoso, líder de mais de 1 bilhão de seres humanos. No fundo, a minha representatividade tem sido machucada, algo que construí em 43 anos. Outro rabino foi escolhido para o encontro e eu me curvei perante o destino. Respondi à sua pergunta?

Sim, o senhor diz que hoje a sua representatividade não conta no Brasil.

O rabino argentino Skorka, amigo de Francisco, esteve por aqui, mas não o conheci. Ele mandou o livro que fez com o papa. Li e achei excelente. Alto nível de ambos os lados. Sei que é cedo para falar, mas a modéstia deste papa tem sido tocante. Gosto dos bons olhos dele, das improvisações… No entanto, a congregação achou melhor destacar para o encontro o rabino Michel Schlesinger, que me sucedeu na CIP. Gosto do Michel, pude ajudá-lo a fazer os estudos rabínicos em Israel e sei que tem grande futuro. Mas tenho meu ego para cuidar (risos)… Voltando ao ponto, pode escrever que não estou fugindo do Brasil.

E alguém diria isso?

Não sei, talvez. Aos 70 anos, não tenho motivos para fugir. Falo assim porque houve aquele incidente lastimável das gravatas, em consequência do qual saí da CIP.

Tem sido vítima de alguma forma de perseguição?

Não, isso não. Minha popularidade está intacta e o contato com o meu povão, idem. A criatividade é a mesma. O trabalho na comunidade é o mesmo. Os casamentos, as cerimônias de bar e bat mitzvah, os enterros infelizmente, tudo continua. Até a procura de dinheiro continua, porque aprendi a angariar recursos para a congregação junto a segmentos da economia. Tudo se mantém. O que não se mantém é a representatividade institucional. Isso me negam. Também sei que sou um privilegiado por ter trabalhado tanto tempo na mesma posição, o que é raro nas congregações.

Mas o senhor também deu uma dimensão particular a essa posição.

Acho que sim. Numa época difícil para o Brasil. Hoje a comunidade judaica se posiciona de maneira neutra perante os acontecimentos. Não existe uma definição própria, um rumo no que tange à sua posição perante fatores sociais e o caos da corrupção.

O esvaziamento de representatividade tem a ver com o caso das gravatas?

Por favor, coloque no papel o que trago no meu coração, porque vou falar de algo pela primeira vez. Antes não havia tido coragem nem vontade. Aquele foi um episódio desgastante, cheguei a pedir desculpas diante de câmeras das principais emissoras de TV do Brasil. Também tratei do assunto em livro autobiográfico. Falei em problema de saúde e no uso de um medicamento para dormir, o Rohypnol. O remédio teria me levado a cometer atos impensados. Ontem à noite, às vésperas desta entrevista e com o distanciamento que o tempo proporciona, decidi que não posso mais atribuir o que houve a fatores externos. Para ser e me sentir honesto, admito que cometi um erro.

Está dizendo que o furto não pode ser atribuído ao efeito de remédios, mas a uma falha sua?

Uma falha moral minha. E peço perdão. Veja o que escrevi ontem à noite: “É bom ser perdoado. Quando eu era menino, sempre que cometia um erro, podia contar com a compreensão, a ternura e o perdão dos meus pais. Lembro da sensação de ter um peso tirado do coração, uma gostosa certeza de ser aceito. (…) Quando cresci, foi a minha vez de conceder perdão aos meus pais pelos seus erros e fraquezas, fossem reais ou fruto da minha imaginação. Compreender nossos pais, e perdoá-los por serem menos perfeitos do que gostaríamos, é natural no processo de amadurecimento. Lembro das críticas se abrandando, os ressentimentos se dissolvendo, a consciência do afeto libertando a alma. É bom perdoar”. E é muito bom perdoar a si próprio.

Como conseguiu chegar a essa aceitação dos fatos?

Eu era muito intolerante comigo quando me tornei rabino. O autojulgamento sempre foi severo e o sentimento de culpa, duradouro. Finalmente consegui me conscientizar de que o rabino é humano, portanto, falível. O incidente das gravatas é do conhecimento público, não preciso entrar em detalhes aqui… Tento me perdoar, o que não é fácil, porque perdoar não é esquecer. Se fosse, não haveria mérito no perdão.

O senhor passou seis anos nesse sofrimento, endossando uma versão? Afinal, como surgiu a história do remédio?

A palavra “surpresa” aplica-se à pergunta. De início houve a surpresa. Depois uma falta de crença na realidade, de que aquilo pudesse ter acontecido. Amigos procuraram afirmar que houve doença, queriam me proteger. Outros nem tanto. Quero ler mais um trecho sobre o perdão: “É impossível sobreviver se as raças não se perdoarem depois de tanta intolerância e preconceito. É impossível sobreviver se as religiões não perdoarem depois de tanto ódio e perseguições. É impossível sobreviver se as nações não perdoarem depois de tantas guerras e derramamento de sangue. Em todos os momentos e em todas as situações, as pessoas precisam ser capazes de dizer ‘volte, eu te perdoo’. Dizer ‘eu te amo, vamos tentar novamente’. Porque nunca é tarde demais”. Perdoe o meu desabafo, mas há seis anos, todos os dias, lido com essa questão. Acho que posso amadurecer. E não deixar acontecer de novo.

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