Assista aos primeiros 54 segundos e você vai entender porque meu queixo caiu

Publicado no Socialfly

Cateura, no Paraguay, é uma pequena cidade situada praticamente dentro de um aterro sanitário. Mesmo assim, a falta de recursos, o mau cheiro e o ambiente precário não foram obstáculos para esses jovens. O momento que a primeira nota é tirada me emociona toda vez que assisto.

Para ajudar a orquestra do lixo, você pode fazer uma doação ou simplesmente curtir a página deles no Facebook , e compartilhar essa história com o seu grupo de amigos.

dica da Anamaria Modesto

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Assim surgiu a brincadeira da Girafa

imagem: Reprodução/DesktopNexus
imagem: Reprodução/DesktopNexus

David Castillo, no Facebook

Diabo: Precisamos pensar em uma nova estratégia para dominar a mente das pessoas.

Sub-Diabo: Hum… deixa eu ver se descubro algo novo no Google.

Diabo: Tá… mas antes deixa eu ver meu face.

Sub Diabo: Isso chefe, o Face!

Diabo: Que tem o Face? Deixei o meu aberto?

Sub Diabo: Não chefe, o que eu quero dizer é que a gente tem q usar o Face pra conquistar a galera.

Diabo: Interessante, fale-me mais sobre isso!

Sub Diabo: Vamos criar uma charadinha com uma mensagem subliminar no meio, aí quem não acertar a gente domina a mente e faz ele fazer coisas imbecis…

Diabo: Ae… curti, pode entrar no meu face pra gente começar.

Sub Diabo: Vou entrar… opa, já tava logado… mas pera aí, esse é o perfil do Rafinha Bastos.

Diabo: Droga, esqueci de sair do meu fake… sai e entra de novo!

Sub Diabo: Beleza chefe, oq a gente faz agora?

Diabo: Antes de mais nada deixa eu cutucar o Feliciano… adorooo.

Sub Diabo: Boa.

Diabo: Bom, escreve ai uma historinha que se passa às 3 da manhã.

Sub Diabo: Mas chefe… assim o senhor está revelando o horário ultra-secreto em que os portais do inferno são abertos para nossos enviados espalhar a impureza sobre as vidas e…

Diabo: Heim?

Sub Diabo: Tá… depois não diga que eu avisei?

Diabo: Escreve aí que às 3 da manhã chega alguém pra tomar café na sua casa…

Sub Diabo: Até parece… a essa hora eu só abro a porta se for meus pais.

Diabo: Boa, escreve aí que quem chega são seus pais!

Sub Diabo: Meus pais?

Diabo: Não sua besta… os pais de quem ta lendo!

Sub Diabo: Ah tá…

Diabo: Diz aí que você tem algumas coisas pra oferecer.

Sub Diabo: Sei como é… charuto, farofa, galinha preta, pinga barata…

Diabo: Nãããoo… assim fica na cara, tem q colocar coisas inocentes tipo mel, geléia, pão, queijo…

Sub Diabo: Vinho?

Diabo: Tá… pode deixar o vinho vai!

Sub Diabo: Legal, e qual vai ser a charada?

Diabo: O que você abre primeiro?

Sub Diabo: O vinho, claro!

Diabo: Ahh… se ferrou trouxa, claro que a resposta certa é o olho!

Sub Diabo: Por que o olho?

Diabo: Porque? São 3 horas da manhã, você ta dormindo palhaço!

Sub Diabo: Tá… se eu tiver dormindo as 3 da manhã quem é que vai abrir o portal místico do inferno?

Diabo: Ah é!

Sub Diabo: Mas beleza, acho que a galera que não cuida do portal do inferno deve ta dormindo a essa hora, então pode ser essa a resposta certa!

Diabo: Legal… quem errar a pergunta vai ter que pagar uma prenda, tem que ser algo bobo, quase infantil, mas que traga uma legalidade nossa sobre a vida espiritual dessa pessoa.

Sub Diabo: E se a pessoa tiver que trocar sua foto de perfil?

Diabo: Pra que?

Sub Diabo: Pra mostrar ao mundo que aquela pessoa é nossa!

Diabo: Tipo marca da besta?

Sub Diabo: É… podia colocar uma foto de um animal bem besta mesmo!

Diabo: Macaco… eu acho macaco muito engraçado.

Sub Diabo: Não, macaco pode gerar piadas racistas, preconceituosas.

Diabo: Pô, meu fake ia curtir!

Sub Diabo: Elefante?

Diabo: Pô, legal… mas vai que a pessoa é gorda, olha o constrangimento que pode gerar.

Sub Diabo: Verdade… precisamos pensar em algo diferente, enxergar mais acima.

Diabo: Enxergar mais acima? Girafa! Esse é o bicho!

Sub Diabo: Boa chefe!

Diabo: Alem disso a girafa é um dos animais símbolos da sexualidade e que mais fazem uso do sexo com um parceiro do mesmo sexo…

Sub Diabo: Pô chefe, vc fica um saco quando assiste Discovery.

Diabo: Beleza… publica aí que ficou bom, publica aí…

Sub Diabo: Tá lá… já to vendo uma galera trocando a foto pra girafa.

Diabo: Finalmente vamos dominar o mundo!

Sub Diabo: Mas chefe, e se alguém descobrir nosso plano?

Diabo: Fácil, é só a gente trocar o avatar pra uma girafinha Tb!

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‘Meu público é todo mundo, não tem religião’, diz cantora Aline Barros

Cantora é um dos maiores nomes da música gospel no Brasil

Aline Barros comenta sobre a carreira (foto: Rafael Kistenmacher / Divulgação)
Aline Barros comenta sobre a carreira (foto: Rafael
Kistenmacher / Divulgação)

Anna Gabriela Ribeiro, no G1

Vencedora de cinco Grammys, a cantora Aline Barros já vendeu milhões de discos e é um dos maiores nomes da música gospel no Brasil. Mas para a artista, passar mensagens de fé é muito mais importante do que a fama. Aline Barros faz show em Santos, no litoral de São Paulo, neste sábado (28) e conversou com o G1 sobre a carreira.

O show que será apresentado na cidade faz parte da turnê que marca os 20 anos de carreira de Aline Barros. “Estamos preparando um mix de 20 anos de ministério, e relembrar um pouco de toda essa história vai ser lindo e impactante. Vamos ver as pessoas adorando ao Senhor, várias gerações reunidas”, diz.

A cantora comenta ainda sobre as premiações que já recebeu e como lida com o sucesso. “Prêmios até consolidam a carreira de um artista, principalmente no exterior, mas me preocupo apenas em fazer aquilo que está no coração de Deus e passar para essa geração a essência da verdadeira adoração. O chamado para a minha vida é pregar o amor de Deus e ser testemunha desse amor por onde eu passar. A única coisa que posso dizer de tudo que aconteceu é que o Espírito Santo é lindo. É Ele quem convence o homem, quem trabalha o nosso coração. E esta é a minha missão”, ressalta Aline.

Sobre a grande participação do público gospel em shows atualmente, a cantora diz que acredita não ter um público definido. “Meu público eu acho que é todo mundo, não tem tamanho, nem idade e muito menos religião. Aliás, não prego religião, mas a vida que há em mim através de Jesus, isso sim é evangelho”, afirma.

Aline Barros conta que admira alguns cantores, mas que não tem ídolos. “No começo da carreira, Michael W. Smith e a Banda Jesus Culture me inspiraram. ‘Consagração’ é a música que não pode faltar no meu show, é minha favorita”, revela.

Questionada sobre a importância de falar sobre Deus, Aline Barros comenta que a música é um objeto muito poderoso. “A música tem o poder de tocar o homem sim, e é um instrumento muito poderoso, por isso devemos saber usa-lá da melhor forma, para que ela traga o ser humano para perto de Deus. Essa intimidade com Deus nos ensina cada dia mais a amar, perdoar, ser agradecido, ter um coração que deseja mais e mais esse Deus”, finaliza Aline.

foto: Rafael Kistenmacher / Divulgação
foto: Rafael Kistenmacher / Divulgação

dica do Deiner Urzedo

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Cantada na rua: um ‘fiu-fiu’ que divide homens e mulheres

Pesquisa on-line coloca em evidência irritação da ala feminina com o que os machos veem como um esporte nacional

Barbara Marcolini e Luiza Barros, em O Globo

Elaine Ribeiro na Saara: acostuma a cantadas, mas não é objeto (foto: Agência O Globo / Paula Giolito)
Elaine Ribeiro na Saara: acostuma a cantadas, mas não é objeto (foto: Agência O Globo / Paula Giolito)

RIO – A manhã estava quente, e a bela moça passava pela Rua do Ouvidor, no Centro do Rio. Com vassoura em punho, mas atento às beldades que lhe cruzavam o caminho, o gari não hesitou: “Morena, pra você eu daria todo o meu vale-transporte!”. A divertida cena aconteceu há alguns anos com a então rainha de bateria da Mangueira, Tânia Bisteka, que na verdade é mulata. Com um longo histórico de cantadas ouvidas na rua, a carioca garante que esta foi a melhor que já recebeu.

— Achei incrível porque ele soube usar os artifícios dele. E uma cantada dessas de um gari é um grande elogio, porque, afinal, ele fica o dia inteiro vendo mulher passar, então entende do assunto — conta Bisteka, que, na ocasião, parou de caminhar para agradecer o elogio, diante de um galanteador paralisado pela surpresa embutida na resposta.

Característica dos brasileiros, como o samba ou o futebol, cantadas como essa muitas vezes causam estresse e aborrecimentos, no lugar de satisfação ou alegria. Na verdade, quase sempre. Segundo a pesquisa nacional on-line “Chega de fiu fiu”, a maioria das mulheres não aprova a abordagem. Entre as 7.762 mulheres que responderam ao questionário, 83% não gostam de ouvir cantadas. Ainda segundo a amostragem, 81% das mulheres já deixaram de passar por algum lugar por medo de serem abordadas, e 90% já trocaram de roupa antes de sair de casa para evitar alguma provocação.

As precauções revelam-se incipientes, diante da paixão com que os marmanjos se entregam ao esporte nacional da cantada. Eles, aliás, costumam se esconder atrás de eufemismos, como chamar de “galanteio” a palavrinha cheia de veneno para a moça bonita que vem e que passa. Elas se ofendem — e, no império do politicamente correto, enxergam um jogo de dominação pelo sexo oposto.

Nem tudo é baixaria, e alguns gracejos acabam consagrados pelo noticiário. O caso mais recente foi protagonizado por Fred, o artilheiro do Fluminense e da seleção que, ao encontrar uma morena exuberante numa avenida de Belo Horizonte, caprichou na finalização:

— O que você faz, além de sucesso? — mandou, como prova o vídeo que se transformou num hit instantâneo da internet.

Seja qual for o tom, cantada pode?

Autora da pesquisa, a jornalista Karin Hueck acredita que o resultado serve para demonstrar que, por trás de uma cantada na rua, mesmo que aparentemente inocente, sempre há o risco de assédio. Em depoimentos feitos ao fim da aferição, mulheres adultas e adolescentes narraram diversos casos de cantadas obscenas e até agressões físicas.

— As cantadas da forma que a pesquisa apresenta, quando é um desconhecido no meio da rua, em uma via pública, de uma pessoa que não deu abertura para isso, podem ser uma agressão, sim, por mais que seja só um “fiu fiu”. Quando a mulher responde, a maioria dos homens chama de vagabunda para baixo. Então não é algo inofensivo — opina a jornalista, dizendo que a resposta masculina negativa em relação ao assunto começou com a enquete ainda no ar. — Alguns homens começaram a xingar. Eles acham que a gente está querendo tolher a liberdade deles, sendo que é o oposto, eles é que cortam a nossa quando fazem isso (cantadas na rua).

Para a antropóloga Mírian Goldenberg, esse tipo de campanha reflete uma mudança profunda em curso na sociedade brasileira. Ela explica que, tradicionalmente, as brasileiras estão acostumadas a receber elogios em relação a sua beleza desde muito jovens, e esses elogios costumavam representar uma espécie de reconhecimento.

— O momento que a gente vive, e talvez essa pesquisa retrate, é de uma certa transição de uma lógica em que o valor e a visibilidade da mulher estavam atrelados ao corpo, para uma lógica em que os valores femininos estão ligados a outros capitais: a personalidade, a inteligência, a atitude — explica Mírian. — Uma coisa que a mulher brasileira gosta é de se sentir única. A cantada te padroniza, te torna igual a todas as mulheres. O “fiu fiu” faz você se sentir igual a todas as outras.

Nada como a prática para superar a teoria. Dona de um corpo escultural e um rosto de modelo, a dançarina Elaine Ribeiro foi a nossa convidada para um passeio pela Saara, centro de comércio popular no Rio de Janeiro. Com seu 1,74m (turbinado por sapatos salto 12) e 61 quilos, de short e blusa decotada, a moça — ex-rainha de bateria da Porto da Pedra — atraiu a atenção de quase todos os muitos homens (e de algumas mulheres) que se aproximaram. Houve os que ficaram hipnotizados, observando longamente, sem constrangimento, cada detalhe da anatomia impecável da mulata. Para comprovar que homem, além de abusado, é bobo, poucos tiveram coragem de arriscar um gracejo.

Mas Elaine está acostumada a receber cantadas por onde passa. Só detesta ouvir a clássica “queria uma dessas lá em casa”, justamente por se sentir objeto.

— Por acaso eu sou eletrodoméstico pro cara me querer em casa? Sou geladeira? — indaga aos homens.

A cobiça masculina já causou problemas para a dançarina até com outras mulheres. Elaine conta que, certa vez, após ouvir uma gracinha de um malandro acompanhado, teve de se entender com a mulher dele.

— Ela veio dizer que eu não deveria me vestir daquele jeito, porque chamava muita atenção dos homens — conta, recusando-se a aceitar a ideia de criminalização da vítima. — Respondi que ela deveria tomar conta da criatura a seu lado.

Profundo conhecedor do universo feminino, o escritor Marcelo Rubens Paiva acredita que a discussão chegou em boa hora. Autor da peça que deu origem à comédia “E aí, comeu?”, ele entende que o assédio nas ruas é um problema enfrentado diariamente pela maioria das mulheres, brasileiras ou não, e admite sentir certa “vergonha alheia” pelos machões.

— Só o fato de a mulher ter festejado o vagão de metrô separado já mostra o quanto essa é uma questão importante. A brasileira está encurralada o tempo todo. Concordo com aquelas que reclamam. Você está na sua, aí vem um motoboy e buzina, um caminhoneiro faz uma grosseria… Deve ser insuportável — opina o escritor, acrescentando que esse tipo de abordagem só surte efeitos negativos. — Uma troca de olhares é a cantada mais eficiente que existe.

Apesar de concordar que um elogio dito na hora e no local errados pode ser incômodo ou até ameaçador, o jornalista Xico Sá admite soltar os seus por aí, quase instintivamente. Para ele, a diferença entre uma cantada ingênua e um assédio estão em como o elogio é dito, e dispara: não há um homem sequer que jamais tenha suspirado um “gostosa” ou sinônimo ao ver uma bela mulher passar.

— Tem uma comoção que arrasta um “gostosa”. Hoje mesmo, já disse uns 40 gostosas pra dentro. Tem hora em que você não se aguenta e fala, mas não pode fazer daquilo uma arma — pondera o jornalista, que se surpreendeu com a lista de elogios elencada pela pesquisa “Chega de fiu fiu”. — O que mais me chamou atenção naquela lista foi o “Nossa Senhora”, que é a coisa mais católica do mundo. Mas é claro que tudo depende da forma como o elogio é dito. A gente está falando do cara que te fala aquilo num beco qualquer da cidade, de uma forma muito incisiva mesmo.

No quesito eficácia, homens e mulheres concordam: as cantadas de rua raramente surtem efeito positivo. São, na verdade, uma simples expressão de masculinidade — geralmente na frente de outros homens — e de poder sobre o sexo oposto.

— Esse homem que canta de forma agressiva é um frustrado que desconta na mulher por saber que é mais forte, que não vai haver reação — sugere Marcelo.

— É um amostramento de homem para homem — atesta Xico.

Criador do site Papo de Homem, voltado para o universo masculino, o publicitário Guilherme Nascimento Valadares vai mais longe e diz que a cantada é o “sintoma de um mal profundo”. O mal, no caso, é a objetificação da mulher.

— O que faz com que homens se sintam impelidos a chamar uma mulher de gostosa no meio da rua é uma noção de abuso em relação ao feminino. Se isso é OK por um lado cultural, talvez seja um problema cultural — diz Guilherme, que enxerga a insegurança como principal fator por trás de investidas agressivas.

Gerente de uma loja de lingerie na Saara, Mario Luiz Oliveira é testemunha ocular do que as mulheres sofrem nas ruas. Casado, o comerciante jura de pés juntos que não canta ninguém, mas admite ser adepto do ditado “olhar não tira pedaço”.

— Tem muito homem que fica aqui falando besteira para as mulheres que passam. Uma vez, teve um garoto que chamou de gostosa uma mulher que estava toda de amarelo. Ela respondeu: “Por acaso você me confundiu com uma banana?”

Ainda que a maioria garanta não cair nas investidas, humor e sorte podem fazer a felicidade dos galanteadores de plantão. A funkeira Renata Frisson, mais conhecida como Mulher Melão, fala de um relacionamento que nasceu numa investida de rua.

— O cara parou o carro quando eu estava passeando com meu cachorro, e mandou aquela bem manjada: “Posso saber o telefone do cachorrinho?”. Ele era um gato e estava num carro importado, não tinha como não dar o telefone, né?

Coordenadora do Núcleo de Estudos de Desigualdades e Relações de Gênero (Nuderg) da Uerj, a cientista social Clara Araújo também acha que não é o caso de iniciar uma repressão à cantada de rua. Para ela, o quadro pode ser invertido à medida que as mulheres se sintam à vontade para também abordar os homens ou manifestar sua insatisfação com eles.

— Há uma característica predominantemente machista, mas não podemos dizer que toda cantada é uma agressão, senão começaremos a cercear toda e qualquer iniciativa. O ideal não seria uma proibição que nos levaria a uma cultura saxã, em que não existe essa troca de afeto. Proibir a cantada seria uma contenção artificial. Precisamos da afirmação do respeito mútuo — sugere.

Mesmo Bisteka, alvo da cantada certeira que abre esta reportagem, admite que o galanteio é um “antídoto para a baixa estima”, mas há limites.

— Está bem deselegante ultimamente. Já foi melhor. Antes tinha mais sutileza, era mais uma piada. Hoje está muito vulgar.

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Compartilhamento de dramas torna redes sociais espaço para terapia virtual

Na busca por ajuda ou mesmo manifestações de amparo, o Facebook se consolida como canal para relatos de episódios negativos, de doenças a perda de animais de estimação

À procura de king: abraçada à mascote Jady, Simone usa perfil no Facebook para tentar encontrar seu outro dachshund, desaparecido há mais de um mês (foto: Carlos Macedo / Agencia RBS)
À procura de king: abraçada à mascote Jady, Simone usa perfil no Facebook para tentar encontrar seu outro dachshund, desaparecido há mais de um mês (foto: Carlos Macedo / Agencia RBS)

Larissa Roso, no Zero Hora

O perfil de Simone Bonilha no Facebook se transformou no diário de uma profunda tristeza nas últimas cinco semanas. “Esse é o meu filhote King que desapareceu! Amigos, por favor me ajudem a encontrar, tá doendo muito ficar sem ele”, escreveu a assistente administrativa de 36 anos em 16 de julho, junto da foto do dachshund que seria compartilhada 158 vezes. Dois dias antes, Simone encontrou caído um pedaço da tela que cerca o pátio da casa, na Restinga, na Capital. Jady, a outra mascote, latia, estranhando a ausência do companheiro.

“Preciso do meu pequeno. Muitooo”, postou Simone. “Para muitos apenas um cachorro, pra mim meu filhote amado. Essa dúvida de onde e como está meu King me destrói…”, acrescentou. Multiplicam-se as mensagens de encorajamento, remetidas até por desconhecidos. “Todas as tempestades passam, mas as árvores que têm raízes fortes e firmes permanecem. Eu faria qualquer coisa pra ver você voltar a sorrir de novo”, escreveu uma amiga. “Fé que ele volta”, aconselhou outro.

— Me sinto acolhida. Sinto que vou encontrar. Minha esperança redobra. Parece que pegam a minha mão — descreve a dona de King, sofrendo com falta de apetite e um sono inquieto.

Dramas diversos circulam nas redes sociais a todo instante. É bem provável que quem desabafa sobre períodos de luto, doenças de longo tratamento, descrença no cenário político, relacionamentos desfeitos, episódios de violência ou o péssimo atendimento no sistema público de saúde encontrará, na numerosa plateia online, alguém capaz de prover palavras de amparo ou, no mínimo, manifestar-se por meio do mais simples mecanismo de solidariedade instantânea, a ferramenta “curtir” do Facebook.

Imersos em situações graves ou enfrentando desgostos mais amenos, os internautas adaptam ao ambiente virtual uma prática essencial para o bem-estar psicológico: falar sobre os próprios problemas. O psicanalista Luciano Mattuella explica que o olhar do outro é fundamental para a constituição de cada um. Ao divulgar imagens de um lugar exótico e distante visitado nas férias, a pessoa busca a confirmação, entre os pares, de que aquele passeio foi mesmo incrível — a oportunidade de compartilhar conquistas com centenas ou milhares de destinatários rapidamente, e de ser festejado por eles, é um dos grandes atrativos das redes sociais. No caso de ocorrências negativas, o intuito é extravasar para encontrar alívio, ainda que superficial.

— É uma tentativa de achar outros na mesma situação. Em situações de tristeza e indignação, a nossa primeira necessidade é compartilhá-las, buscar no outro acolhimento e até algo de esperança: ele conseguiu passar por uma situação como a minha. Ajuda para não ficar solitário no sofrimento. A gente vive numa época em que o virtual adquiriu muita consistência de real — afirma o psicanalista.

Simone norteia os dias pelos acessos ao site. A partir das pistas enviadas, verifica pessoalmente cada suspeita de que o cachorro tenha sido encontrado. Renova os apelos, republicando fotos e promessas de recompensa, e conversa com donos de bichos de estimação perdidos. O sumiço de King, explica, abalou-a ainda mais em um momento de bastante dificuldade.

— Hoje vejo o Facebook de outra maneira. Crio vínculos, consigo me expressar, dizer o que estou sentindo. Se estiver chorando de madrugada e postar qualquer coisa, alguém vai me ajudar — conta a assistente, que confessa ter se sentido um pouco constrangida no início. — Alguém deve dizer: “Coitada, decerto nunca teve filho”. Agora não estou nem aí. Faço. Vou à luta — completa.

Mattuella atenta para a prudência. Ao cogitar narrar mágoas e apuros publicamente, o usuário precisa lembrar que alguns detalhes devem ser preservados:

— Há questões que são do plano íntimo. Nem tudo que é íntimo deve ser compartilhado. Aquilo que é do íntimo deve ser endereçado a alguém que você conhece e sabe que pode ajudá-lo. Algo que faz sofrer é muito particular e, para os outros, pode não ter sentido.

Acolhida deu ânimo à família de Jackson
Acolhida deu ânimo à família de Jackson

Acolhida deu ânimo à família de Jackson

Em meio ao processo judicial para conseguir que o Estado custeasse um marca-passo diafragmático para o filho, a dona de casa Simone Ferreira, 35 anos, e o metalúrgico Jorge Ilario Bottim, 37 anos, moradores de Caxias do Sul, surpreenderam-se com a acolhida de usuários do Facebook ao drama da família. Vítima de um atropelamento em 2010, Jackson Rafael, hoje com oito anos, ficou tetraplégico e dependente de um ventilador mecânico.

Ao dispensar a necessidade de tomadas e extensões, o novo aparelho permitiria que o menino respirasse de forma mais espontânea e ganhasse mobilidade ao ser deslocado com a cadeira de rodas. Simone criou perfis para sensibilizar a população e as autoridades. “Logo estarei ‘livre’, daí sim vou poder ter acesso a uma biblioteca”, escreveu ao publicar uma imagem de Jackson com um título infantil. Junto de outra foto, compartilhada 99 vezes, um convite: “Vamos sorrir para a vida”.

— Ajudou bastante. As pessoas iam compartilhando e comentando. Fui me identificando com outras mães — recorda a dona de casa.

Depois do desfecho positivo, Jackson se submeteu a uma cirurgia para implante do componente interno do marca-passo em abril. Simone segue abastecendo as páginas com registros dos progressos na adaptação. “Viva o Jackson! O sonho se realizando!”, festejou um amigo ao ver uma foto do aluno da 3ª série com o dispositivo que começa a suavizar uma rotina repleta de limitações. “Só temos coisas boas para agradecer”, postou Simone.

— É uma criança feliz — observa a mãe.

A psicóloga Silvia Benetti salienta que é importante se sensibilizar com quem enfrenta traumas, principalmente em um ambiente, como o virtual, onde o êxito profissional, os bens e a beleza são tão expostos e valorizados:

— As pessoas têm tido dificuldade para ouvir o sofrimento do outro. Há uma ditadura da felicidade, mas a vida é difícil. (mais…)

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