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‘Não sou eu. É Deus que opera através de mim’, diz menina chamada de milagreira em São Gonçalo (RJ)

Alani dos Santos, de 10 anos, é a esperança para fiéis em São Gonçalo (foto: Paulo Mumia)

Alani dos Santos, de 10 anos, é a esperança para fiéis em São Gonçalo (foto: Paulo Mumia)

Nathália Marsal, no Extra

Toda segunda-feira, Alani dos Santos, de 10 anos, deixa as brincadeiras com os amigos de lado e chega à igreja evangélica Missão Internacional de Milagres, em São Gonçalo, com uma responsabilidade que muito adulto não aguentaria. Ela ora, se junta aos colegas. E assim que sobe ao palco, a menina conhecida por fazer milagres se dirige a uma multidão devota, que vê nela sua chance de salvação.

Depois que Alani canta e prega como se fosse gente grande, os fiéis se aproximam com os seus problemas. Passaram por ali pessoas com HIV, hérnia, câncer, dores de cabeça, na coluna. E muitos deles se dizem curados.

Rosenilda Maria Klem, de 46 anos, hoje obreira da igreja, foi no culto da menina pela primeira vez há cinco anos após ouvir falar que ela fazia milagres. Moradora do bairro de Santa Isabel, em São Gonçalo, contou que a filha sofria de alergia e não conseguia dormir:

— Um dia ela (a filha) foi à igreja e, de repente, percebemos que melhorou. Não reclamava mais. Nunca tinha visto isso, mas agora pra mim se tornou normal.

O pai de Alani e pastor da igreja onde a menina ficou famosa por realizar curas, Adauto, de 47 anos, conta que o primeiro ‘milagre’ aconteceu quando ela tinha 51 dias de vida. Uma senhora que sofria com um mioma há 9 anos tocou as mãos do bebê e foi jogada para trás. “Assim que se levantou, sua barriga começou a desinchar”, descreveu.

— Até então nunca tinha ouvido falar que uma criança da idade dela tinha feito isso. Fiquei espantado. Minha filha é usada por Deus para curar as pessoas — define Adauto.

A notícia da menina “milagreira” rapidamente se espalhou. A igreja hoje recebe fiéis de todo mundo em busca da missionarinha, como Alani é chamada. No último culto, foram evangélicos de vários bairros do Rio de Janeiro, de São Paulo e até dos Estados Unidos.

— Sempre falo para procurar um médico. Não tenho nada contra a medicina. Pelo contrário. Minha filha será médica — defendeu o pai, que jura que nunca foi chamado de mentiroso, mesmo quando alguém deixou a igreja sem estar curado.

Com boas notas na escola (a mais baixa do último bimestre foi 9.1) e cursando o 5º ano, Alani confirma que quer estudar medicina para curar também aqueles que não acreditam no poder de Deus. Além de estudar, a menina adora dançar, cantar hip hop e comandar sua rádio on line Pérola kids, que traz temas evangélicos.

— Eu fico triste quando alguém não é curado, mas acredito que atingirá a graça um dia.

Desde o momento que Sandra, de 36, ficou grávida, acreditou que Alani seria um milagre. Isso porque ela teria sido avisada por médicos que seria muito difícil ter filhos.

— Passei a orar e pedir. Pouco tempo depois, pastores começaram a falar que eu ia ter uma pérola e fiquei sabendo que estava grávida. Sempre quis que essa criança fosse usada pelas mãos de Deus, mas pensei em uma pregadora, cantora… Não que ela teria esse dom. Sou abençoada por ter uma filha assim — elogiou a mãe de Alani.

Ela explica que mesmo sendo tão nova, a menina sabe que não é ela que cura as pessoas, e sim “que é instrumento de Deus”.

Apesar de a “milagreira” ter sido criada no meio evangélico, seus pais nem sempre foram da religião. Sandra passou a frequentar a igreja quando conheceu seu marido, aos 17 anos. Já Adauto começou a ir aos cultos aos 27 anos, quando estava preso no Carandiru, em São Paulo, condenado por roubo, por influência do seu irmão, o Pastor Adão. Há 10 anos o casal saiu de lá e foi para Maricá. A igreja em São Gonçalo foi montada há um ano e meio. Toda segunda-feira, Alani dos Santos, de 10 anos, deixa as brincadeiras com os amigos de lado e chega à igreja evangélica Missão Internacional de Milagres, em São Gonçalo, com uma responsabilidade que muito adulto não aguentaria. Ela ora, se junta aos colegas. E assim que sobe ao palco, a menina conhecida por fazer milagres se dirige a uma multidão devota, que vê nela sua chance de salvação.

‘Estudos mostram que Jesus existiu. Se ele fez milagres, é outra história’

"A Anunciação", de Tintoretto (1518-1594)

“A Anunciação”, de Tintoretto (1518-1594)

título original: Desculpaí, mas Jesus existiu: um preâmbulo

Reinaldo José Lopes, no blog Darwin e Deus

Em plena Semana Santa, achei que seria o caso de abordar a fundo aqui no blog a questão da historicidade do personagem central destes sete dias: Jesus de Nazaré, é claro. Como o papo é complicadíssimo e o tempo de todo mundo (principalmente o meu, hehehe) é limitado, o único jeito é “quebrar” a discussão em vários posts. Este, portanto, é o preâmbulo — a ideia é publicar mais um post por dia até a Sexta-Feira Santa. Allons-y (como diria um certo doutor)!

Primeiro de tudo:

POR QUE MEXER NESSE VESPEIRO?

Como o título da série de posts deixa claro, a ideia é defender que algum sujeito chamado Jesus de fato nasceu em Nazaré (ou nasceu em Belém e cresceu em Nazaré, como queiram), andou pelas estradas da Galileia e da Judeia pregando e foi crucificado em Jerusalém lá pela terceira década do século 1º d.C. A questão é que, embora a esmagadora maioria dos historiadores sérios, tanto religiosos quanto agnósticos ou ateus, defenda que esse personagem existiu, há uma pequena minoria de amadores, e um ou outro historiador sério (em geral não especialista na análise das fontes bíblicas como documentos históricos), que diz que Jesus é basicamente um mito, inventado por Paulo ou por outros membros da primeira geração de cristãos. É claro que as afirmações desse pequeno grupo se tornaram populares, viraram “virais” na internet e seduziram boa parte das pessoas que, com bons ou maus motivos, querem dar umas porradas na crença cristã tradicional.

Bem, meu objetivo é demonstrar que essa ideia, desculpaí, beira a pseudociência. Se você usar os critérios SECULARES, “não religiosos”, que todos os historiadores usam para estudar o resto da Antiguidade clássica, e for honesto e equilibrado com os dados, a tendência esmagadora da lógica é aceitar a historicidade básica de Jesus de Nazaré.

MAS DIZEM QUE O CARA ANDOU SOBRE AS ÁGUAS E VOLTOU DOS MORTOS! COMO ISSO PODE SER HISTÓRICO?

Calma, calma, não criemos pânico. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Quando digo “historicidade básica”, quero dizer exatamente isso: os documentos históricos que chegaram até nós da Antiguidade são suficientes pra estabelecer que um sujeito chamado Jesus de Nazaré existiu, morreu lá pelo ano 30 d.C. e fez algumas coisas interessantes, como atuar como pregador, reunir discípulos e se indispor com as autoridades em Jerusalém. Usar esses documentos pra “provar” que ele tinha poderes sobrenaturais é outra história, completamente diferente — aliás, não é história, é teologia. O ponto central desta série de posts é tão somente demonstrar que não é razoável negar a existência histórica da figura. O resto está aberto à discussão.

É FÁCIL PRA VOCÊ FALAR, AFINAL VOCÊ É CATÓLICO, MANÉ!

Nunca escondi de ninguém e já abordei diversas vezes aqui no blog a minha crença religiosa. É claro que isso cria um viés, ainda que inconsciente, em favor de “acreditar em Jesus” — do ponto de vista da fé, bem entendido. Minha pergunta é: E DAÍ? Se eu fosse ateu, não é improvável (ainda que não fosse garantido) que existisse um viés contrário para “desacreditar”. Viés é que nem bumbum, gente: todo mundo tem o seu. A questão não é fazer com que os vieses inexistam — isso é impossível! –, mas sim fazer todo o esforço para “colocá-los entre parênteses” (ou colchetes!), para tentar, como metodologia, enxergar os dados que temos em mãos da maneira mais desapaixonada possível, deixando as evidências falarem, em vez de torturá-las para que elas digam o que queremos que elas digam.

Só pra constar: embora seja cristão, eu sei — e não tenho problemas pra aceitar — que um sem número de narrativas da Bíblia (a Criação, o Dilúvio, o Êxodo, muito do que se diz sobre David e Salomão etc.) não tem como ser história “real” no sentido como a entendemos hoje. O caso de Jesus, porém, é diferente DO PONTO DE VISTA HISTÓRICO — e não apenas do ponto de vista da fé.

A QUESTÃO DA “INVISIBILIDADE ARQUEOLÓGICA”

É claro que, em tese, todo o debate sobre a (in-)existência do Nazareno poderia ser resolvido de uma tacada só. Bastaria que alguma escavação em Jerusalém — digamos, na área da antiga Fortaleza Antônia, a praça-forte do poderio romano na Cidade Santa — achasse uma ordem de execução assinada por Pôncio Pilatos para um certo galileu. Ou que achassem a tumba com os restos mortais do dito cujo, o que, de quebra, enterraria o “mito da Ressurreição” (não, a tal “tumba de Jesus” que acharam e puseram em documentários de TV a cabo muito provavelmente não é a dele, mas isso é tema pra outro post).

Infelizmente, a chance de uma descoberta dessas acontecer é próxima de zero. Explico.

O fato, brava gente, é que boa parte das pessoas comuns do Império Romano, em especial os camponeses de uma população conquistada como os judeus da Galileia e da Judeia, são virtualmente invisíveis para nós com base na arqueologia. Sabemos um bocado sobre suas casas, seus instrumentos de trabalho, suas sinagogas e seus utensílios de cozinha, mas não conseguimos “colocar um rosto” nesse povo todo: não sabemos seus nomes, as histórias que contavam em volta da fogueira, o que pensavam, nada — a começar pelo fato de que quase todos, se não todos, devem ter sido analfabetos. É verdade que temos monumentos funerários de padeiros, açougueiros e ex-escravos romanos, que contam um pouco da história dessas pessoas, mas é preciso lembrar que esse é o povo “que deu certo”: gente que veio de baixo e acabou conseguindo uma posição econômica de destaque, e/ou tinha patronos com mais dinheiro e poder do que eles — fazer um monumento funerário era caro, pra começar.

Nada disso parece ter sido o caso de Jesus, de sua família ou de seus discípulos, oriundos, como eram, de um vilarejo de 200 pessoas nas colinas da Galileia. É natural que eles tenham sido “invisíveis” — ou, melhor dizendo, só tenham se tornado visíveis por meio de documentos literários, criados décadas depois da morte de Jesus por discípulos que tinham nível educacional e econômico mais elevado. É, aliás, o que acontece com todos os outros camponeses da Antiguidade: suas caras e suas vozes só aparecem quando são registradas — e, inevitavelmente, alteradas — pelos textos de gente que não pertencia à camada social deles.

O fato de que os Evangelhos retratam Jesus como alguém que arrebanhou milhares de seguidores antes de ser crucificado não refresca muito as coisas. Primeiro, é claro que os Evangelhos podem estar exagerando (até sem má intenção, apenas por distância cronológica) o número de seguidores de Jesus. Mas, fora isso, é importante lembrar que profetas, pregadores e milagreiros eram um fenômeno comum na Palestina do século 1º d.C. Entre a ascensão de Herodes, por volta de 40 a.C., e a revolta judaica contra Roma em 66 d.C. — um século, portanto — há pelo menos uns dez casos registrados de rebeldes messiânicos ou profetas que bagunçaram o coreto na região. Nada indica que, para aquele momento inicial, Jesus era mais importante do que esses sujeitos.

JESUS DE NAZARÉ E LEÔNIDAS DE ESPARTA: UM ESTUDO DE CASO

Queria, agora, chegar ao cerne do nosso papo de hoje. O fato é que, se formos usar a escassez de indícios arqueológicos diretos e a falta de fontes propriamente contemporâneas, escritas por “testemunhas oculares da história”, para rejeitar a historicidade de Jesus, teríamos de rejeitar a historicidade de… bem, de uns 70% dos personagens da Antiguidade clássica, ou talvez mais. Ficaríamos só com os monarcas e os membros da alta nobreza. E olhe lá: pra quem assistiu os dois filmes “300″, é bom lembrar que não daria pra aceitar a historicidade de ninguém menos que Leônidas, um dos reis de Esparta, o sujeito que morreu defendendo a Grécia da invasão persa em 480 a.C.

Vejamos: qual a primeira e mais confiável fonte documental histórica sobre a vida de Leônidas? Os textos do historiador grego Heródoto, que escreveu sobre as guerras entre gregos e persas por volta de 440 a.C., 40 anos depois da morte de Leônidas (coincidência ou não, Marcos, o mais antigo Evangelho, foi escrito uns 40 anos depois da morte de Jesus). Parece que Heródoto entrevistou alguns dos ex-combatentes dos dois lados, mas muito do que escreve tem algum cheiro de invenção épica ou de convenção literária, como o relato sobre a luta desesperada dos espartanos para proteger o corpo de seu rei depois que ele tombou.

Tem alguma evidência arqueológica contemporânea sobre a existência do hómi? Um túmulo, um epitáfio, moedas com a cara dele? Nada. Zero. Depois de Heródoto, temos apenas os textos do historiador grego Éforo (que só chegaram até nós por fragmentos), que escreveu mais de um século depois das Termópilas, por volta de 350 a.C. E, muito mais tarde, textos da época romana, produzidos por gente como Diodoro Sículo e Plutarco.

Dá para fazer o mesmo exercício que fiz com Leônidas com uma série de personagens da Antiguidade clássica. Sob esse ponto de vista, Jesus é um personagem histórico muito mais bem documentado do que Leônidas, já que há fontes independentes cristãs, judaicas e pagãs, todas compostas de algumas décadas a um século depois da morte dele, a respeito do Nazareno.

Meu próximo post começa a abordar essas fontes, partindo de Flávio Josefo, um historiador judeu cujos textos parecem ter sido alterados por copistas cristãos posteriores — mas, ao que tudo indica, não de maneira irreparável. Até lá!

Conheça o pastor Cesar Peixoto, que engorda o seu rebanho oferecendo o milagre da ‘lipoaspiração divina’

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Publicado no Estadão Título original: O fiel da balança

Preterindo medicina ortomolecular, personal trainers, diet shakes milagrosos e dietas esdrúxulas, 13 mulheres, 1 menino e 1 menina pedem a Deus que os liberte de quilos em excesso. Não são os únicos em busca de leveza física e espiritual nessa noite. Na unidade da igreja evangélica Cristo Verdade que Liberta, de São Roque do Canaã, cidadezinha com algumas casas e poucos prédios a 110 km de Vitória, no Espírito Santo, havia também quem quisesse resolver nó no pescoço, coluna travada, mal-estar geral. Esperavam por “cirurgias divinas”, intervenções sobrenaturais que, além de aliviar suas almas, resolvessem, por assim dizer, dores da carne.

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Gabriel Lordello/Mosaico Imagem/Estadão

O “cirurgião” é Cesar Peixoto, pastor carioca radicado no município capixaba de Cariacica. Fazia uma “campanha sobrenatural” a convite da pastora Enedina Ribeiro, com dificuldades para atrair fiéis a sua Casa da Bênção, construída no primeiro andar da própria casa, em São Roque. Além da adoração a Deus, a ação é uma estratégia de marketing: visitas programadas em que Peixoto realiza “libertações”: do tabagismo, da obesidade e de outras doenças, prometidas por um panfleto distribuído na cidade uma semana antes – às vezes, de porta em porta. No papel, “Emagrecimento na hora” em letras garrafais e um texto dando fé sobre os milagres do pastor Peixoto. Ao pé do anúncio, uma parte destacável em que o fiel escreve o nome e entrega aos realizadores do culto. É assim que se tem o controle de quem e quantos são os novatos.

Naquele domingo, quando Enedina terminou o louvor, Peixoto se apresentou, anunciando os milagres do dia, entre eles a “lipoaspiração divina”. Explicou que o primeiro exemplo de um procedimento como esse se encontrava já em Gênesis: Deus, quando arrancou a costela de Adão para criar Eva, fizera a primeira operação espiritual. A partir de então, mantendo suspense hitchcockiano, o pastor lançaria pequenos vislumbres do que aconteceria logo mais, contando histórias e pedindo testemunhos de fiéis que, da noite para o dia, tiveram suas medidas reduzidas.

Após uma fala sobre casamento, incluindo a promoção de um CD (de R$ 15 por R$ 10) sobre sexualidade no matrimônio, com orações de quebra da “maldição sentimental” que acomete a vida conjugal de tantos casais, Peixoto dá início aos procedimentos. Convida os presentes à sala vazada em que ministra e os dispõe em três fileiras voltadas para ele. De pé, os fiéis fecham os olhos enquanto Cesar invoca os poderes de Deus e seus auxiliares. “Quem vai te operar é o Espírito Santo”, grita o pastor. “Preciso de anjos para realizar a lipo espiritual. Cura a hipófise, o hipotireoidismo, os hormônios desequilibrados, quebra a maldição genética que faz essas pessoas gordas, meu Deus! Emagrece! Emagrece!”.

Peixoto então assopra, expirando sobre as filas à sua frente. “Recebe o sono profundo!”, brada. A princípio, todos permanecem de pé. Só quando ele passa de pessoa em pessoa, entoando palavras baixinho, com as cabeças dos “pacientes” seguras entre suas mãos, é que nove fiéis desabam, amparados por dois auxiliares que se antecipavam às pernas bambas. Quando uma das moças torce a cabeça para trás, pescoço alongado e coluna arqueada, Peixoto explica que ela dormia em pé, tão forte era seu transe.

Os desacordados, na verdade, não dormem apenas, Peixoto explica. Passam por uma espécie de anestesia celestial, um pré-operatório para as cirurgias que viriam a seguir. E, como o resultado do procedimento é fruto de um encontro de fés – a do fiel e a do pastor – têm mais chance de acordarem mais magros: por estarem inconscientes, não há espaço para a dúvida que os impediria de receber o milagre, afirma Peixoto.

As moças e o menino, que acordam de um “sono profundo” de 15 minutos, estão convictos de ter emagrecido. E quando todos os outros que pediam milagres saem do altar, são rapidamente entrevistados pelo pastor. Embora a promessa de emagrecimento instantâneo seja um tanto espantosa, os fiéis agradecidos a tratam com naturalidade: algumas mulheres dizem ter as calças mais frouxas, puxando o cós das roupas; outras asseguram que as dobras da barriga desapareceram; o menino, com a camiseta um pouco folgada, jura que ela antes estava justíssima.

Sempre que alguém se apresenta com calça legging ou segunda pele, o pastor reclama. Avisa que não se deve vir de roupas colantes porque desse jeito é mais difícil sentir o emagrecimento.

Marta Gonzalez, a estudante de biologia que dormiu em pé, tivera a cintura modelada no dia anterior como um bônus. Na verdade, fora ao culto para resolver uma dor na lombar, mas sentiu sua blusa se mexer inexplicavelmente, envolvida por uma força estranha. “Queria emagrecer pouco, só uns três ou quatro quilos, mas cheguei em casa depois do culto e uma calça que antes nem fechava, me coube. Daqui a pouco fico lisinha, com barriga tanquinho!”, ri. Já a cozinheira Rosilda Rodrigo fora ao culto na noite anterior com propósitos estéticos bastante claros. Tomava Fluoxetina e Rivotril para controlar a ansiedade e a gula, e já tentara queimar gorduras até com chá de berinjela e noni. Só Jesus a salvou. Relatou ter emagrecido seis quilos na noite anterior, e quando chegou sua vez de dar o testemunho à frente dos outros fiéis, puxava a blusa e a calça, mostrando quão frouxas ficaram.

Diet dom. Pastor há 30 anos, Cesar Peixoto conta que se tornou evangélico por causa de incongruências entre o que a Bíblia e o catolicismo pregam. Era essa a religião que seguia aos 19, quando começou a namorar uma moça evangélica que acabou chamando sua atenção para a adoração de imagens e de santos, proibida no Livro Sagrado e tão característica do catolicismo. Não teve respostas satisfatórias quando resolveu levar questões como essa a um frade e decidiu sair da igreja. Ex-torneiro mecânico, trabalhou na Fábrica de Escovas Suissa enquanto fazia o curso de teologia no Instituto Teológico Monte Calvário, no Rio de Janeiro. Até o dia em que sentiu um chamado divino e resolveu se tornar pastor.

O namoro com a evangélica terminou, mas Peixoto seguiu com a religião e acabou se transformando numa espécie de pastor nômade. Desde que começou a pregar, já morou – e lapidou silhuetas – no Rio de Janeiro, em Ribeirão Preto (SP), Cachoeiro de Itapemirim (ES) e outras cidades, ajudando a erguer em várias delas Casas da Bênção, como são chamadas as unidades da Cristo Verdade que Liberta, ministério evangélico fundado em Belo Horizonte, em 1964.

“A Cristo não é diferente de outras igrejas evangélicas. Somos como a Quadrangular, como a Universal: acreditamos que os milagres que Jesus fez no passado ele pode fazer hoje”, prega Peixoto. Atualmente existem, na contabilidade do pastor, 3 mil Casas da Bênção, “algumas nos EUA, em Portugal, em Angola e na África do Sul”. A sede, com capacidade para 10 mil fiéis, fica em Brasília.

Foi em Conselheiro Lafaiete, cidade de quase 200 mil habitantes em Minas Gerais, que Peixoto adquiriu o dom que hoje lhe dá fama. Em 1993, ele já oferecia o cardápio básico de milagres pentecostais: curava doenças, levantava paraplégicos e fazia sumir dores inexplicáveis. Em busca de um diferencial e com a esperança de pedir a Deus o dinheiro necessário para erguer uma igreja no centro da cidade, conta que orou no topo de um monte, quase à meia-noite, por 40 dias consecutivos. Peixoto explica que a prática remete a Jesus, que também tinha o costume de rezar em lugares ermos, adequados aos pregadores que querem adorar a Deus no volume que julgarem adequado, sem constrangimentos.

No início dos 40 dias, o pastor subia o monte com 20 pessoas de sua congregação, que acabaram afugentadas pelo frio até o fim da provação. Ele, no entanto, perseverou sozinho até o 40º dia e alcançou a graça: depois disso, começou a perceber que, ao fim de seus cultos, algumas pessoas acordavam com as roupas largas. Seu novo – e popular – dom era curar a obesidade. Cura, aliás, que pode ter contornos bastantes flexíveis. Uma das fiéis impôs a Enedina uma condição antes de receber a bênção: “Ele só não pode tirar nada da minha bunda, que eu ainda quero casar”.

O pastor, no entanto, faz questão de ressaltar que o objetivo da oração não tem a ver só com vaidade. “A obesidade é uma doença. Mata 40% mais que a aids no mundo”, explica, professoral, citando a hipófise como a glândula que controla a fome e exorcizando males como o hipotireoidismo, que pode provocar aumento de peso. Pouco antes do culto, pastor Peixoto tirou de uma pasta de couro recortes de jornais e revistas, entre eles um tabloide capixaba notório pela inverossimilhança, com os títulos: “Profissional obeso ganha salário menor”, “Eliminados por estarem acima do peso”, “Galera não quer saber de gordinhos”. Vade retro!

Os recortes parecem ecoar a ambiguidade de Peixoto e seus milagres, no limite do verificável. Seu tom mescla a seriedade concisa dos executivos e palestrantes de autoajuda com um traquejo informal das ruas. Usa a gíria “suave” da mesma maneira que alguns jovens paulistanos e, aos 54 anos, tem um ligeiro ar de garotão, quase imperceptível. Parece acreditar no que faz, e não é do tipo falastrão desesperadamente simpático: fala só o necessário. Com 1,74m de altura e 67 quilos, diz que em sua família ninguém jamais precisou de dieta. “Posso comer até um boi que não engordo”, exagera. Rosane Peixoto, mulher de Cesar, tem “peso normal”, ele avalia. Também é pastora, mas não é capaz da miraculosa queima de gordura que Peixoto pratica. A filha do casal, Estefani, de apenas 9 anos, é magra o suficiente para também não precisar do auxílio paterno nesse quesito.

Ainda assim, com fé em Deus, Peixoto tem feito cerca de 16 campanhas por ano atraindo mais fiéis à igreja e divulgando os milagres de que o Espírito Santo é capaz, a convite de pastores de outras congregações ou de pessoas que tomam conhecimento de seu trabalho pela internet, em vídeos no YouTube que exibem fiéis apertando os cintos e forçando a cintura das calças e saias, com a graça de Deus – em imagens que trazem seu número de telefone. Peixoto jura que não cobra pela oração, mas tem as excursões de evangelização bancadas, quando convidado. Nesse esquema, conta que já foi ao Paraguai e à Argentina emagrecer hermanos.

Foi em solo brasileiro, em Cariacica, que a vendedora de roupas Selma Bergamim recebeu o milagre da lipoaspiração do pastor Cesar Peixoto. No relato de Enedina, ela teria emagrecido oito quilos em uma semana. Entrevistada pelo Aliás, esclareceu que o “milagre” levou na verdade dois meses. Da primeira vez que recebeu a oração, diz Selma, não funcionou porque ela não teve fé o bastante. Na segunda bênção, percebeu a graça divina na saia jeans justinha que usava – que inexplicavelmente se fez larga. Confessa que andava um pouco deprimida nos últimos tempos e sentiu “uma leveza” logo após o procedimento. Quando lembra de como era gordinha, ri satisfeita. A prova do milagre? Uma foto 3 x 4, que Selma tira do bolso e mostra ao repórter, o rosto espremido entre bochechas cheíssimas.

Latas de Coca-cola Zero agora vão ter nomes de destinos turístico

Foram escolhidos os 100 destinos mais desejados pelos brasileiros. Na campanha anterior, embalagens estampavam nomes de pessoas.

publicado no G1

A nova campanha da Coca-Cola zero traz o conceito “Quanto Mais Viagens Melhor” nas embalagens do refrigerante. De acordo com a empresa, foram escolhidos os 100 destinos mais desejados pelos brasileiros, sendo 80 nacionais e 20 internacionais, como São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Floripa, Milagres, Torres, Maraú, Jalapão, Londres e Dubai.

Latas de Coca-Cola zero trazem o nome de 100 destinos turísticos (Foto: Divulgação/Coca-Cola)Latas de Coca-Cola zero trazem o nome de 100 destinos turísticos (Foto: Divulgação/Coca-Cola)

Na campanha anterior, as embalagens do refrigerante estampavam os nomes mais comuns entre jovens adultos. “Foram feitas diversas ações com o consumidor e a campanha teve amplo engajamento nas redes sociais. Somente no aplicativo da marca, foram mais de 7 milhões de latas virtuais criadas”, disse a companhia.

As novas embalagens já estão sendo produzidas, e a previsão, segundo a empresa, é que até o final do mês o comércio da maioria das regiões do país já tenha o refrigerante dessa campanha à venda.