Brasil não assina declaração para zerar desmatamento até 2030

País não foi convidado a participar da criação do documento, diz ministra.
Declaração sobre florestas foi assinada por 28 governos, segundo a ONU.

A presidente Dilma Rousseff, durante discurso na conferência da ONU sobre mudanças climáticas (foto: Roberto Stuckert Filho / PR)
A presidente Dilma Rousseff, durante discurso na conferência da ONU sobre mudanças climáticas (foto: Roberto Stuckert Filho / PR)

Publicado no G1

O Brasil não assinou a “Declaração de Nova York sobre Florestas”, documento que foi apresentado na Cúpula do Clima, que acontece nesta terça-feira (23), na sede da Organização das Nações Unidas, em Nova York. A informação foi confirmada pelo Itamaraty no fim da tarde desta terça-feira.

A declaração prevê reduzir pela metade o desmatamento até 2020 e zerá-lo até 2030. Segundo a ONU, 150 parceiros assinaram o documento, incluindo 28 governos, 35 empresas, 16 grupos indígenas e 45 ONGs e grupos da sociedade civil.

A ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, tinha dito nesta segunda-feira à agência Associated Press que o país não fora “convidado a se engajar no processo de preparação” da declaração. Em vez disso, segundo ela, o país recebeu uma cópia do texto da ONU, que pediu para aprová-lo sem a permissão de sugerir qualquer alteração.

“Infelizmente, não fomos consultados. Mas eu acho que é impossível pensar que pode ter uma iniciativa global para florestas sem o Brasil dentro. Não faz sentido”, disse ela nesta segunda.

O Itamaraty acrescentou que o documento não é da ONU, mas dos países que o assinaram, e que o texto necessitava de melhorias, por isso o Brasil optou por não assinar.

Em entrevista à Rádio ONU na tarde desta terça, a ministra Izabella Teixeira disse que ainda não tinha sido informada sobre a decisão do Brasil em relação à declaração, acrescentando que quem estava conduzindo esse entendimento era o Itamaraty.

“O Brasil tem interesse de estar em toda e qualquer iniciativa que dialogue de fato com a proteção das florestas e com a conciliação das atividades de desenvolvimento, crescimento econômico e inclusão social”, disse a ministra à Rádio ONU. Ela acrescentou que a cúpula foi uma iniciativa importante por parte do secretário-geral da ONU e que a reunião tem sido “extremamente positiva” do ponto de vista do Brasil.

Para o coordenador do Greenpeace, Marcio Astrini, para o Brasil ser um modelo de desenvolvimento sustentável, o governo deveria não apenas ter assinado a declaração, como ter pressionado para que o documento fosse ainda mais ousado.

“Temos uma meta mais ousada, de zerar o desmatamento até 2020. O que não quer dizer que achamos esse acordo ruim. É uma medida que propõe a redução do desmatamento e toda proposta de redução é bem-vinda”, diz Astrini.

Ele observa que só o fato de esse documento ter sido elaborado e que alguns países tenham se comprometido a cumpri-lo e ajudar com recursos financeiros já é um progresso. “Já é um bom passo, mas precisa de muito mais do que isso. Normalmente, essas cúpulas são muito tímidas e apresentam propostas aquém do que se necessita.”

Sobre a não adesão do Brasil ao documento, o conselheiro-sênior de política ambiental do Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas (PNUD) Charles McNeill declarou que “houve esforços para chegar às pessoas do governo brasileiro, mas não houve resposta”. “Não havia vontade alguma de excluir o Brasil. É o país mais importante nesta área. Um esforço que envolve o Brasil é muito mais poderoso e impactante do que um que não envolve”, explica McNeill.

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Lula, Marina e o dia em que Deus entrou no meio

foto: Mídia Recôncavo
foto: Mídia Recôncavo

Mônica Bergamo, na Folha de S.Paulo

Lula gosta de falar do dia em que ele e Marina Silva conversaram com Deus sobre a permanência da então ministra do Meio Ambiente no governo dele. Gosta tanto que a história já se espalha: quatro políticos muito próximos do ex-presidente –três deles, ex-ministros de sua equipe– a reproduziram para a coluna, em momentos diferentes.

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Já Marina, consultada, reagiu num primeiro momento dizendo que o relato não é verdadeiro. Em seguida, afirmou que não comenta conversas reservadas por uma questão ética.

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Os quatro amigos de Lula contaram o que segue:

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Estava o ex-presidente em seu gabinete, envolto em mais uma das crises que sempre complicam a vida dos governantes. Era o começo do segundo mandato. Um assessor entra em sua sala, esbaforido: “Presidente, a Marina está aí. Quer falar com o senhor. Diz que é importante”.

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Lula, que àquela altura mal se lembrava de Marina, uma ministra que não lhe dava dor de cabeça, ordenou: “Manda ela entrar”.

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Marina chega (segundo um dos políticos que reproduziram para a coluna o que diz ter ouvido de Lula, ela estava acompanhada por um pastor). E solta a bomba: “Presidente, acho que chegou a hora de eu sair do governo”. Lula quase teria despencado do sofá. Como? Marina era uma estrela da equipe e ele não queria perdê-la.

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Ela apresenta seus argumentos. Lula tenta demovê-la. Ela diz que quer mesmo sair. Ele insiste. Até que ela afirma: “Presidente, eu conversei com Deus. E é o momento de eu sair”.

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Contra Deus, não há argumentos: Lula não tinha mais o que dizer. Teria então pedido um prazo para encontrar um novo ministro.

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Os dias se passaram e Lula até se esqueceu do pedido de demissão. Mas Marina, não. E voltou a pedir uma audiência, desta vez para formalizar sua saída. Lula pensou, pensou. Ao receber a então ministra, afirmou: “Marina, eu sonhei com Deus. Eu sonhei com Deus e ele me disse que ainda não está na hora de você sair do meu governo. Você ainda tem muito o que fazer na nossa equipe”.

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Desconcertada, Marina titubeou (no relato que inclui a presença de um pastor na audiência, o religioso teria dito a ela e a Lula: “Então empatou”). Ficou no governo por mais um tempo. Pediu demissão em maio de 2008.

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Na semana passada, durante um jantar na casa do empresário João Doria Jr., a coluna consultou Marina sobre a história que Lula conta. A primeira reação dela foi de indignação: “Eu não acredito que o presidente Lula está contando essa história porque ela não é verdadeira”.

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Pouco depois, voltou ao tema, elevando o tom de voz: “As pessoas me perguntam e eu sempre digo: o que tinha que falar do Lula, falei quando saí do governo. As minhas razões foram expostas naquele momento. Falar de conversas reservadas que tivemos quando estávamos no mesmo projeto, eu não falo. Porque isso seria uma completa falta de ética”. A assessoria de Lula não comenta.

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Povo vai escorraçar os ‘black blogs’ na Copa, diz ministra Marta Suplicy

Em Itapira, ministra da Cultura falou que povo agirá contra os ‘black blogs’.
Petista defendeu Lula e disse que estádios serão aproveitados para shows.

Publicado no G1

Marta Suplicy visita Itapira e defende a realização da Copa do Mundo (Foto: Reprodução / EPTV)
Marta Suplicy visita Itapira e defende a realização
da Copa do Mundo (Foto: Reprodução / EPTV)

A ministra da Cultura, Marta Suplicy, se enrolou na fala ao defender, nesta quinta-feira (6), a realização da Copa do Mundo de futebol no Brasil e discursar contra os protestos que eventualmente ocorram contra o evento esportivo. A petista, que esteve em Itapira (SP) para uma inauguração, trocou o nome da tática “black bloc” e disse que “o povo vai escorraçar os black blogs”, que agirem contra o mundial.

“A gente vai se dar a mão, vai ser a Copa das Copas. Então, nós temos é que ficar tão fortes e contentes que a gente conquistou essa Copa que, se aparecer ‘black blog’, o povo vai escorraçar  ‘black blocs, blogs”. O povo está achando que a Copa é uma oportunidade muito boa’, falou ao ser questionada sobre os recursos empenhados pelo governo federal para a realização do campeonato previsto para junho. (veja o erro de pronúncia no 1min10 do vídeo acima).

Marta também defendeu o presidente Lula e disse que o evento será uma oportunidade de o Brasil mostrar que vai além do samba e do carnaval. “Vocês lembram o que o Lula fez para conseguir que viesse esta Copa? O esforço gigantesco que o Lula fez foi simplesmente porque ele gosta de futebol, gente? Ele fez esse esforço porque a Copa é uma oportunidade de o país se colocar, se mostrar. É a nossa oportunidade de a gente mostrar quem nós somos, que nós somos além do samba e do carnaval. Nós temos uma cultura maravilhosa.”, discursou.

Questionada sobre os gastos com os estádios, a ministra defendeu a utilização das estruturas para promover shows e outros eventos culturais após o término da Copa do Mundo. “Olha, eu fui para Brasília e fiquei impressionada. Não vai ser usada só para futebol. Lá, a agenda de shows está lotada para o ano inteiro. O Maracanã existe há 60 anos e nunca tinha tido reforma. No país do futebol, você não pode ter o Maracanã caindo aos pedaços”.

A ministra insistiu que a população é a favor do evento e vai se empenhar para que a realização transcorra normalmente. “O povo esta orgulhoso, vai dar o sangue para a Copa ser maravilhosa. Do que depender do povo, será. Agora, do que depender dos jogadores, a gente vai torcer”.

Truculência nos ‘rolezinhos
Marta, que inaugurava na cidade paulista um Centro de Artes e Esportes Unificados (CEU), espaço reservado para a formação artística em bairros de periferia, também comentou a realização dos rolezinhos. A petista acusou a polícia de ser despreparada e truculenta e disse que o não saber lidar com a situação causou uma “confusão que não precisava”.

“Houve um pânico dos grandes shoppings porque a gente vive um momento de  transformação do país. Tudo é muito novo, as pessoas não sabem lidar. Então, passa na internet que vai ter 2 mil jovens entrando no shopping. Bom, o cara fica em pânico, chama a polícia, não sabe o que fazer. E a polícia não tem preprao, é truculenta e aí desenvolveu toda uma confusão que não precisava”, afirmou. Marta disse que o Ministério prepara um encontro para ouvir jovens de diferentes segmentos para entender as demandas das pessoas dessa faixa etária.

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Senador italiano compara ministra negra a orangotango

ministra-negra-comparada-orangotango

Publicado no UOL

Um senador do partido da Liga do Norte comparou Cecile Kyenge, primeira ministra negra da história da Itália, a um orangotango, o que provocou a reação do chefe de Governo, Enrico Letta.

Sábado, durante uma reunião de seu partido em Treviglio (norte), o senador Roberto Calderoli, conhecido por suas declarações polêmicas, declarou que a ministra de origem congolesa Cecile Kyenge “faz bem de ser ministra, mas deveria o ser em seu país (…) Eu me consolo quando navego na internet e vejo as fotos do governo. Adoro animais (… ), mas quando vejo imagens de Kyenge, não posso deixar de pensar em suas semelhanças com um orangotango, mesmo que eu não diga que ela seja um deles”.

Essas declarações imediatamente repercutiram nas redes sociais, provocando uma onda de indignação.

Neste domingo, em um comunicado oficial, Enrico Letta reagiu pessoalmente: “as palavras que apareceram hoje na imprensa e atribuídas ao senador Calderoli sobre Cecile Kyenge são inaceitáveis e ultrapassam qualquer limite”.

Em um comunicado, ele também expressou “sua plena solidariedade e apoio à Cecile”.

O presidente do Senado, Pietro Grasso, exigiu desculpas formais de Calderoli.

Cecile declarou neste domingo à agência de notícias Ansa que “não toma pessoalmente as palavras de Calderoli, mas elas me entristecem por causa da imagem que dão à Itália”. “Eu acredito que todas as forças políticas devem considerar o uso que fazem da comunicação”.

Em 2006, Calderoli precisou renunciar sob o governo Berlusconi após se exibir com um camiseta anti-islã sobre Maomé.

Desde sua nomeação, Kyenge precisou enfrentar várias manifestações hostis por parte da Liga do Norte, um partido aliado ao Povo da Liberdade de Silvio Berlusconi.

Desde sua posse, no final de abril, a ministra foi alvo de agressões verbais e até ameças de morte postadas em sites racistas e em sua página oficial no Facebook.

Dica do Sidnei Carvalho

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A ministra e a ira dos religiosos

Ligia Martins de Almeida, no Observatório da Imprensa

A ministra Eleonora Menecucci despertou a ira dos religiosos brasileiros – evangélicos e católicos – até mesmo antes de assumir a Secretaria de Política para Mulheres. E não foi por seu discurso de posse. Se houve culpa nessa história foi exclusivamente da imprensa – que apenas fez seu trabalho – ao lembrar que a nova ministra é a favor da descriminalização do aborto e, conforme entrevista à revista TPM, tem orgulho de ter uma filha gay.

O fato de a nova ministra ter dito que suas convicções pessoais deixam de ter importância ao assumir um ministério parece não ter convencido seus opositores. O deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) convocou – na véspera da posse – a união da bancada evangélica para “combater a abortista que nomearam ministra”. Mas se o deputado limitou-se a falar de aborto, um bispo católico foi bem além. O presidente da Comissão da Vida da regional Sul 1 (São Paulo) CNBB, dom José Benedito Simão, foi muito pouco cristão em sua análise da nova ministra:

“É uma pessoa infeliz, mal-amada e irresponsável, que adotou uma postura contra o povo e em favor da morte. Recebo com muita indignação as palavras da nova ministra, cuja pasta tem uma grande responsabilidade em favor da vida da mulher. Ela é infeliz, mas ninguém precisa ficar sabendo. Seu discurso mostra que ela pode estar reabrindo feridas que estavam cicatrizando” (O Estado de S.Paulo, 11/02/2012).

E não parou por aí. Segundo o jornal, o bispo também reclamou das declarações da ministra sobre as preferências sexuais de sua filha, afirmando que ela “deveria tomar mais cuidado para dar mau exemplo para nossos adolescentes”.

Nenhum dos opositores da ministra quis saber de suas propostas de trabalho à frente da Secretaria, nem considerou que o tema aborto sequer foi mencionado no discurso de posse, quando Eleonora Menecucci declarou:

“O desafio do Ministério de Políticas para as Mulheres – no conjunto do governo – é de incidir em mudanças relativas à remuneração, à segurança social, à educação e cultura, à saúde, à partilha de responsabilidades profissionais e familiares, além da busca de paridade nos processos de decisão.”

A imprensa precisa ficar de olho

Como diz a matéria de Veja sobre a posse (12/02/2012):

“Eleonora assumiu um ministério de orçamento magro, mas nem por isso politicamente menos relevante – tanto que era cobiçado por parlamentares do PT. As reações à sua nomeação começaram cedo e foram violentas. A escolha da ministra pode ter tido um caráter simbólico, mas as brigas que ela promete causar já se mostram concretas.”

A imprensa vai ter um papel importante no acompanhamento do ministério de Eleonora. Enquanto ela se limitar a falar dos direitos femininos e da defesa das mais pobres, pode ser que nem seja notícia. Mas deveria ser, pois se o tema aborto entrar em pauta, evangélicos e católicos prometem muito barulho. Isso, apesar de a ministra ter declarado, em sua primeira entrevista coletiva, que o projeto relativo ao aborto não depende do Executivo. É o Congresso que vai decidir se muda ou não a lei já existente.

Mesmo que não diga mais uma palavra sobre a descriminalização do aborto, a ministra vai continuar na mira dos religiosos. A sua história de vida e a coragem de assumir suas convicções – políticas e sexuais – são motivos mais do que suficientes para deixar os conservadores irados. E talvez a verdadeira razão para os ataques. A imprensa precisa ficar de olho.

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[Ligia Martins de Almeida é jornalista]

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