Google vai emprestar mochila digital para quem quiser fotografar o mundo

Bruno Garattoni, na Superinteressante

A mochila, que se chama Trekker, pesa 19 kg e vem lotada de equipamentos eletrônicos – principalmente uma câmera com 15 lentes, que tira fotos em 360 graus. Conforme a pessoa vai andando, o sistema vai capturando imagens, que depois serão usadas para alimentar o Google Maps. A ideia é contar com voluntários dispostos a explorar locais remotos e incríveis, cujas fotos o Google ainda não tenha. Para se candidatar, é preciso preencher um formulário em inglês, dizendo qual local você gostaria de explorar – e porque ele merece ser explorado.

dica do Jarbas Aragão

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Mexendo só um dedo, sobrevivente do AVC chega ao pós-doutorado

Luciana Scotti ficou muda e tetraplégica por causa da doença mas diz não ter parado no tempo. “Ser forte foi minha única opção”

Aos 22 anos, Luciana Scotti sobreviveu à doença que mais mata as mulheres no País . Não entrou para os 49 mil casos de mortes femininas anuais por acidente vascular cerebral (AVC) , mas aos 40 faz parte dos 400 mil brasileiros que todos os anos passam a carregar as sequelas físicas e psicológicas deste problema de saúde.

Ao abrir os olhos no hospital em São Paulo – após três meses de inconsciência – Luciana estava muda, sem os movimentos de braços e pernas e com dificuldade para engolir e respirar. Estava também mergulhada na angústia de não poder falar sobre o que fazer com a promissora carreira de farmacêutica, com o namoro recém começado e com os planos de conhecer o mundo só com uma mochila nas costas.

Com o movimento que restou apenas no dedo médio da mão esquerda, ela – que era a mais bonita da turma da USP, diziam os colegas – descobriu que palavra escrita pode ser gritada, chorada ou sussurrada. Escreveu em 1997, com todas estas entonações que cabem nas letras, o livro “Sem asas ao amanhecer” (Ed. Nome da Rosa).

A publicação chega em 2012 na 11ª edição, dezoito anos depois do AVC de Luciana. O título, reconhece a autora, perdeu um pouco do sentido: com o mesmo dedo médio que desabafou a revolta e a superação em letras, Luciana Scotti voou longe.

Aprendeu a escrever em inglês, espanhol e italiano. Em 2002, terminou o mestrado na USP, seis anos depois concluiu o doutorado e virou referência nacional em modelagem molecular (técnica usada na biologia e no tratamnto de doenças). Há cinco anos, terminou o pós-doutorado na Universidade Federal da Paraíba, Estado onde mora. Só este ano, o mesmo dedo assinou 10 produções bibliográficas. Ela dá aulas, é revisora científica e elabora palestras virtuais.

A fisioterapia e a ginástica intensa também renderam maior sustentação do dorso, melhor mobilidade no braço esquerdo, controle do fôlego e “gás” na autoestima. Pela internet, Luciana Scotti conheceu amores, desmanchou namoros e noivados, fez amigos, escreveu sobre saudades. A piscina, a praia e a cervejinha eventual – tomada de canudo – são os hobbies preferidos, além da leitura, do cinema e da música.

Único caminho

O AVC precoce que cruzou e moldou o caminho da farmacêutica responde por um em cada dez casos no País, segundo estudo inédito da rede Brasil AVC. Em mulheres com menos de 30 anos,  amistura entre cigarro e pílula anticoncepcional é o fator mais associado à doença.

“Estamos muito preocupados com a antecipação dos AVCs nas pacientes, um fenômeno mundial”, alerta a neurologista da Rede Brasil, Scheila Ouriques.

“As jovens estão mais obesas, mais hipertensas, mais estressadas, e tudo isso é gatilho para o AVC”.

O Ministério da Saúde elegeu a doença como problema crônico prioritário a ser combatido e quer fortalecer a rede com 200 hospitais para o atendimento de qualidade. Quando não mata, o AVC incapacita sendo a causa mais recorrente nos serviços de reabilitação públicos.

Luciana Scotti, que fumava e tomava pílula aos 22 anos, é rápida ao responder como conseguiu transformar a doença mais letal e incapacitante do mundo em um acidente no percurso, hoje repleto de realizações: “Por pura falta de opção”, escreveu. “Aprendi a ser forte, quando ser forte era a minha única opção”.

Aos 40 anos, Luciana não está entre os 49 mil mortos anuais por AVC e seu currículo renega a informação de que representa os 400 mil incapacitados pela doença. Se fosse para escolher um grupo numérico mais representativo, a farmacêutica pode ser incluída entre os 10 mil profissionais com títulos de doutores no País.

Leia abaixo trechos do bate-papo feito por email, em que Luciana Scotti avaliou a vida pós-AVC. As entonações de suas letras não deixam dúvida. Luciana é sobrevivente e não vítima do acidente vascular cerebral.

iG Saúde: Como é a sua rotina? Como é despertada a curiosidade de uma pesquisadora?

Luciana: Durmo tarde, 23h, 24h, 1h. Dependendo do trabalho, acordo cedo, 6h ou 7h. E já coloco o biquíni, aqui no prédio tem um espaço legal para tomar sol. Esse solzinho da manhã é uma DELÍCIA. Depois de uma hora de sol, tomo banho, vou para frente do computador e trabalho até as 19h. Malho, faço alongamento por uma hora e volto para o computador. Mas não tenho muita rotina. Tudo depende das necessidades e planos do dia. A curiosidade do pesquisador nasce na vontade de aprender mais sobre um fenômeno.

iG Saúde: Você dá aulas e palestras. Como é este processo? Ficou com medo na primeira vez que fez essas coisas?

Luciana: Com medo, nunca! Apenas não acho legal fazer palestras sem a infraestrutura que necessito. Nessas horas minha mãe me ajuda bastante e fala por mim. Mas o ideal é ter um data-show e computador. Assim, mostro slides. Antes redijo um texto e imprimo. Na medida em que mostro os slides, qualquer um vai lendo o texto, entende?

iG Saúde: Fazer pesquisa no Brasil não é nada fácil. Como decidiu seguir nessa área? Foi muito difícil?

Luciana: Não decidi, o destino decidiu por mim. Quando tive o AVC era recém-formada, trabalhava em uma multinacional e planejava mudar de país. Veio o AVC e MUDOU TUDO. Depois de viver 3 anos em uma cama hospitalar, fiz mestrado em Cosmetologia. Já no doutorado fui tendendo para a modelagem molecular. Hoje, com 5 anos de pós-doutorado em modelagem voltada para quimioterapia, posso dizer que AMO O QUE FAÇO. Usando estatística e química, analiso a estrutura molecular. Quando estou trabalhando me sinto tão bem. GOSTO DE VER AS COISAS DANDO FRUTOS.

iG Saúde: E quando não está trabalhando, o que gosta de fazer?

Luciana: AMO O SOL. AMO TOMAR O SOLZINHO NO MEU PRÉDIO. Também é demais um CHURRASCO COM OS AMIGOS à beira da piscina ou passar o dia na praia com cervejinha e petiscos. AMO MUITO TUDO ISSO!

iG Saúde: Você faz fisioterapia ainda? Como estão os seus movimentos?

Luciana: Tento malhar todo dia uma hora. Também ensino alongamentos para as moças que me ajudam, ou seja, montei uma miniclínica no meu quarto. Não sei dizer sobre os meus movimentos. O IMPORTANTE É MANTER UM PONTO DE REFERÊNCIA. Se você pensar que eu me comunicava piscando e hoje teclo num teclado normal, acho QUE ESTOU BEM.

iG Saúde: Li seu livro “Sem asas” há muitos anos. Lembro que você dizia sentir falta da palavra falada, mas tinha aprendido o peso e a importância da palavra escrita. O que é escrever para você?

Luciana: A escrita é um poderoso meio de comunicação. Serve como um desabafo sigiloso, nunca vai espalhar por aí os seus segredos

iG Saúde: A beleza também é uma constante na sua vida. No “Sem asas” lembro que você passou por uns períodos de revolta com o corpo. Hoje está em paz com o espelho?

Luciana : Sim, ainda mais malhando e tomando sol. A revolta faz parte do processo de luto que vem com a deficiência. Mas a aceitação é a saída do luto.

iG Saúde: De uns tempos para cá, a sexualidade e o prazer perderam um pouco do tabu (um pouco, porque ainda existe muito). Parte da sociedade entendeu que cadeira de rodas não aniquila apetite sexual. Como você lidou com isso?

Luciana: Eu sou uma mulher, só que estou numa cadeira de rodas e, infelizmente, muda. Não entendo porque eu deva ser diferente das outras mulheres. Essa pergunta é bem comum, como lido com o apetite sexual…Ué, como todo mundo. Mas por ser uma mulher madura e que já sofreu muito, agora sou BEM seletiva. Sexo e prazer é pouco pra mim…não interessa.

iG Saúde: O seu dedo médio da mão esquerda e a sua mente inquieta levaram você para um patamar onde poucos brasileiros conseguem chegar. O que ainda quer alcançar?

Luciana: Bom, apesar dos meus limites físicos produzo bastante, e trabalhos de qualidade. Só este ano já publiquei 10 artigos científicos, e tenho mais um outro aceito para publicação…. Dentro da comunidade científica essas conquistas são admiráveis, mesmo pra quem não possui limites físicos. Você não acha uma injustiça social e uma burrice não aproveitarem minha mão-de-obra especializada? Esse é meu sonho, ter um emprego na faculdade. Muitos colegas, com currículo e produtividade inferiores, prestam concurso e passam. Eu nem posso prestar concurso na faculdade, porque não falo. Depois dizem q os deficientes físicos não têm emprego por serem poucos especializados. E eu???????????????????

iG Saúde: O que é mais limitador: piedade ou preconceito?

Luciana : Ao meu ver, o preconceito. A piedade não limita, entendo e até concordo. Você não tem dó de quem tem sequelas de um AVC? Eu tenho, é humano. Mas me achar incapaz e pouco inteligente por ser deficiente física é comum. Isso é preconceito.

iG Saúde: O AVC é a doença que mais mata no Brasil e a que mais incapacita. Como você conseguiu transformar o AVC em um “acidente de percurso”?

Luciana : POR PURA FALTA DE OPÇÃO. ‘APRENDI SER FORTE, quando SER FORTE ERA MINHA ÚNICA OPÇÃO.

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Perfil: um homem simples

Rafael Bergamaschi, no iG

Onde você mora? “Eu não moro em lugar algum, estou sempre viajando”. É assim que Andrew Hyde, 27, responde quando alguém pergunta sobre seu lar. Viajando há um ano e meio, o webdesigner natural do Oregon, nos Estados Unidos, vendeu tudo o que possuía (carro, casa, roupas, televisão…) e botou o pé na estrada em busca de autoconhecimento. Hippie ou visionário?

“Eu estava muito confortável, precisava de um desafio, de algo novo”, diz sobre o momento em que decidiu mudar de vida, em agosto de 2010. “Eu tinha um apartamento cheio de coisas. Uma cama, um armário, um carro… Tudo que acumulei depois da faculdade”, descreve.

Durante o primeiro ano de viagem, Andrew carregou apenas 15 objetos: laptop, celular, algumas roupas e uma mochila. Segundo ele, a sensação ao se livrar de tudo é algo próximo da origem dos seres humanos: “foi fantástico. Eu me senti extremamente simples”. Ao longo do caminho, alguns itens foram adicionados – mas só alguns. “Agora estou com 39 coisas. Tudo tem que caber na mochila”.

Para bancar a extravagância, além do dinheiro conseguido com a venda dos pertences, Andrew trabalha como freelance (sem compromisso empregatício) para diversas empresas. O trabalho, é claro, pode ser realizado de qualquer lugar, bastam o laptop e uma conexão wi fi.

Até o momento, o norte-americano passou por 32 países espalhados por três continentes: Ásia, América e Europa. Ele conta que o país que ele mais gostou foi a Colômbia, pela vivacidade do povo, mas, claro que, passando por tantos lugares, nem todas as experiências foram positivas. “Nepal foi o mais difícil. Não digo que seja um país ruim, é apenas um lugar duro de visitar. Vi algumas coisas que não queria ter visto…”, diz, sem entrar em detalhes.

Como um profeta ou um guru, Andrew acumula seguidores por onde passa. “Muitos dizem que querem fazer o mesmo e me fazem um monte de perguntas para saber como agir”, garante.

Se conseguir “fiéis” não é um problema, a dificuldade está em encontrar um romance. “É difícil ter um relacionamento sério, pois você só estará naquele lugar por um período curto de tempo”.

A vida de viajante, aventureiro e arauto da simplicidade, pode dificultar a possibilidade de engatar um namoro, mas Andrew afirma que a experiência acumulada pelo caminho o ajudou no terreno das conquistas. “Você passa a se conhecer melhor e a gostar mais de quem você é. Acho que isso ajuda na hora de conhecer alguém”.

Um homem simples, Andrew não sonha com carros importados ou condomínios luxuosos. “Quero viajar por mais um tempo e depois me estabelecer em algum lugar no Colorado. Morar em uma cabana” diz, antes de finalizar: “acho que eventualmente vou acabar tendo um pouco mais de cem coisas, mas, por enquanto, aproveito a simplicidade”.

Foto: Arquivo pessoal

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