Mirian Goldenberg: “Mulheres são cúmplices da violência”

Ao comentar pesquisa sobre estupro, antropóloga Mirian Goldenberg critica submissão feminina.

‘Não somos nada Leila Diniz. Quem dera se fôssemos’

A antropóloga Mirian Goldenberg (foto: Divulgação)
A antropóloga Mirian Goldenberg (foto: Divulgação)

Juliana Prado, em O Globo

RIO – Pesquisadora há 25 anos do universo feminino, a antropóloga Mirian Goldenberg acha que o comportamento submisso das mulheres as torna cúmplices da violência contra elas próprias. Ao comentar a pesquisa do Ipea segundo a qual 65% das pessoas acham que mulheres com “pouca roupa” merecem ser estupradas, ela ressaltou que um dos pontos da mais graves é o próprio público feminino endossar as posturas de submissão. “Não somos nada Leila Diniz. Quem dera se fôssemos”, conclui a pesquisadora.

Qual a avaliação você faz da pesquisa?

O interessante dessa pesquisa é que expôs aquele discurso das pessoas de que ‘eu não sou machista’. Eles conseguiram, com as perguntas, revelar o que é invisível, ou melhor, o indizível. A realidade é muito pior do que o que foi dito. A mulher é culpada de ser mulher. Ninguém diz o tamanho da saia ou do decote. Diz apenas que ela, a mulher, é a responsável. O problema não é o que você veste, mas o fato de você ser mulher. Fiz uma pesquisa tratando da posição da mulher no relacionamento, na sexualidade. O que ouvi (de ambos os sexos) foi: ‘as mulheres estão desesperadas’, estão atacando, passando a mão. Foi uma coisa assustadora. Pesquiso há 25 anos esse tema e digo: não vejo mulheres atacando ninguém. Noventa e nove por cento delas ficam em casa esperando o cara ligar, o que significa que as mulheres continuam numa quase posição de submissão, de espera, de pouca iniciativa. Só que as pessoas falam dessa zero vírgula zero zero… por cento de mulheres que é agente na sua sexualidade e no seu corpo…. São elas as que acabam virando algo negativo, por serem sujeitos, agentes. Eu sempre digo: ‘não somos nada Leila Diniz’. Quem dera se fôssemos.

Muitas das mulheres que entram para a história com atitudes que desafiam essa submissão…

Quanto mais mulheres fizerem essas revoluções, públicas ou privadas, mais mulheres serão livres. Quanto mais mulheres não admitirem que um homem – ou outra mulher – controle sua sexualidade, ou sua roupa… mais exemplos de libertação teremos. As mulheres têm inveja da liberdade do homem. Quando você inveja a liberdade, você não é livre. Mas não precisa ser a Leila Diniz. Podem ser pequenos gestos, na sua casa, quando você usa o que você quiser, faz o que você quiser… Hoje a revolução é micro. Mas conheço poucas mulheres que têm (postura libertária). Nem eu mesma tenho. Tenho 57 anos, vou sair com uma saia mais curta? Vão me chamar de velha ridícula?

Esse posicionamento exposto pela pesquisa é típico do nosso país? Como seria isso na Europa?

Nossa situação é muito pior. Tenho uma pesquisa grande com mulheres alemãs, realizada em 2007 e 2008. Uma alemã não aceita nem as coisas que são óbvias pra gente, como receber um elogio. Todo mundo me diz: ‘você parece tão jovem…’ Na Alemanha, elas acham isso uma infantilidade. Elas me deram vários tapas na cara. Elas pensam assim: ‘por que eu preciso do elogio de um homem?’. As mulheres lá não entendem a nossa lógica. São muito mais livres, ‘dão um banho’ mesmo. Ser interessante pra elas tem outro simbolismo. Elas são fortes. Apesar do poder objetivo que nós temos, que é inegável, nós temos uma miséria subjetiva. É o conceito de capital marital: ter um marido por aqui é uma riqueza. Se você não tem um marido é um problema.

Temos saída? É possível mudar o comportamento?

Claro que sim. Muitas pessoas, depois que me ouvem falar disso, se sentem livres. Você vê que aquilo está ali, é só dar um empurrãozinho. Mas há mudanças, sim. As mulheres já estão se casando menos, ficando solteiras, tendo filhos mais tarde, ou mesmo não tendo filhos, tendo mais parceiros…. Tudo já esta acontecendo. Mas, claro, a miséria subjetiva ainda existe. É aquela história: ‘ai, meu Deus, o que vão dizer de mim?’ Mas as coisas estão sim mudando.

Qual o grau de retrocesso na ideia de que “em briga de marido e mulher ninguém mete a colher?”

Não é um retrocesso porque nunca saímos disso.As mulheres é que alimentam a violência contra elas mesmas, quando elas aceitam esse tipo de ‘provérbio’ ou quando aceitam que digam, por exemplo, que uma mulher que usa biquíni é uma velha baranga e ridícula. As mulheres são cúmplices da violência contra todas as mulheres, quando aceitam que o parceiro xingue e desrespeite. Ainda não vejo um quadro de grande mudança. Uma minoria das minorias é que emerge e todas continuam levando porrada. Aquela história da Betty Faria, por exemplo, é assustadora. Ela foi chamada de velha baranga, velha sem noção (por ter ido à praia de biquíni). O que me choca mais, que mais me mobiliza, é como as mulheres são cúmplices dessa violência.

Leia Mais

Maioria diz que mulher com roupa curta ‘merece’ ser atacada, diz Ipea

estupro2Wellington Ramalhoso, no UOL

Um estudo divulgado nesta quinta-feira (27) pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) revela que a maioria da população brasileira acredita que “mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas” e que “se as mulheres soubessem como se comportar, haveria menos estupros”.

A pesquisa do Sistema de Indicadores de Percepção Social, do Ipea, sobre a tolerância social à violência contra as mulheres, entrevistou 3.810 pessoas em todas as unidades da federação durante os meses de maio e junho de 2013, sendo que as próprias mulheres representaram 66,5% do universo de entrevistados.

O estudo é divulgado logo após a ocorrência de casos de violência contra mulheres no transporte público em São Paulo. No Pará, a Justiça passou a adotar em Belém um dispositivo conhecido como Botão do Pânico para que as mulheres denunciem casos de violência.

Na pesquisa do Ipea, os entrevistados foram questionados se concordavam ou não com frases sobre o tema. Nada menos que 65% concordaram que a mulher que usa roupa que mostra o corpo merece ser atacada — 42,7% concordaram totalmente, e 22,4%, parcialmente.

Em relação à frase “se as mulheres soubessem como se comportar, haveria menos estupros”, 35,3% disseram estar totalmente de acordo e 23,2% afirmaram concordar parcialmente.

“Por trás da afirmação, está a noção de que os homens não conseguem controlar seus apetites sexuais; então, as mulheres, que os provocam, é que deveriam saber se comportar, e não os estupradores”, afirmam os pesquisadores no relatório do estudo.

O resultado da pesquisa é visto com preocupação pela assistente social Sonia Coelho, integrante da equipe técnica da Sempreviva Organização Feminista (SOF), que tem sede em São Paulo. Para ela, a sociedade trata como natural a violência contra a mulher, mas não poderia culpar a própria vítima em casos de estupro.

A maioria – 65% — discorda, porém, da frase “a mulher casada deve satisfazer o marido na cama, mesmo quando não tem vontade”. Os pesquisadores dizem, no entanto, que o fato de que 27% dos entrevistados concordarem ao menos parcialmente com a frase traz à tona “a delicada questão do estupro no âmbito do casamento”.

violencia-domestica

Violência doméstica é condenada

Por outro lado, a pesquisa mostra que a maior parte dos entrevistados condena a violência doméstica contra a mulher. O índice de concordância com a frase “Homem que bate na esposa tem que ir para a cadeia” alcança os 91%.

Também são altas as taxas de concordância com frases que representam decisões que a mulher deve tomar caso seja agredida pelo marido. Chega a 85% a proporção dos que entendem que o casal deve se separar se houver violência. E passa de 82% o índice dos que discordam da frase “A mulher que apanha em casa deve ficar quieta para não prejudicar os filhos”.

A pesquisa revela, entretanto, que ainda há certa dubiedade na avaliação do caráter público ou privado dos casos de violência doméstica. Beira, por exemplo, os 82% a taxa dos que estão de acordo com a frase “O que acontece com o casal em casa não interessa aos outros”.

“O primado do homem sobre a mulher ainda é bastante aceito pela população, mas a violência física não é tolerada”, afirmam os responsáveis pelo estudo.

“Não há características populacionais que determinem intensamente uma postura mais tolerante à violência, mas os primeiros resultados apontam que morar em metrópoles, nas regiões mais ricas do país, Sul e Sudeste, ter escolaridade mais alta e ser mais jovem são atributos que reforçam a probabilidade de uma adesão a valores mais igualitários, de respeito à diversidade, e de uma postura mais intolerante em relação à violência contra as mulheres”, dizem os pesquisadores do Ipea.

Para eles, é necessário investir em educação e punir os agressores para diminuir a violência contra a mulher.

Leia Mais

Botão do Pânico vai combater violência contra mulher no PA

Elias Santos, no UOL

O dispositivo conhecido como Botão do Pânico é instalado no cinto e pode acompanhar a portadora a qualquer lugar. Se a mulher se sentir ameaçada, ela aciona o botão e uma gravação é feita, além de conectá-la com uma central
O dispositivo conhecido como Botão do Pânico é instalado no cinto e pode acompanhar a portadora a qualquer lugar. Se a mulher se sentir ameaçada, ela aciona o botão e uma gravação é feita, além de conectá-la com uma central

Um dispositivo desenvolvido pelo Instituto Nacional de Tecnologia Preventiva (INTP), que recebeu o nome de Botão do Pânico, vai auxiliar o Tribunal de Justiça do Estado do Pará (TJ-PA) no combate à violência contra a mulher no Estado. O equipamento é parte de um projeto piloto em parceria com a prefeitura de Belém, lançado nesta semana para reduzir os altos índices de violência doméstica registrados na capital.

A cidade é a terceira do Brasil a implantar o projeto: Vitória (ES) e Londrina (PR) já utilizam a ferramenta portátil. De acordo com informações da assessoria de comunicação do TJPA, o botão do pânico é “um dispositivo eletrônico de segurança preventiva que possui GPS e gravação de áudio”.

O aparelho é acoplado a um cinto que pode ser encaixado em qualquer parte do corpo da mulher. Quando pressionado, o botão libera uma escuta monitorada por uma central gerenciada pela Prefeitura de Belém. A Guarda Municipal é acionada e, juntamente com a Patrulha Maria da Penha, vai até a localização repassada via GPS. A conversa gravada poderá ser utilizada como prova judicial contra o agressor.

O equipamento será distribuído inicialmente para mulheres que foram vítimas de casos extremos, como tentativa de homicídio e lesão corporal grave, com reincidência do agressor, e que estão sob medida protetiva na 1ª, 2ª e 3ª Varas de Violência Doméstica e Familiar Contra a Mulher. O botão pode ser acionado se o agressor decidir descumprir a medida e se aproximar da mulher.

Quando a portadora não utilizar o carregador do equipamento, um dispositivo alerta a central de monitoramento que envia imediatamente uma mensagem para o contato telefônico da mulher. Caso não entre em contato ou não carregue a bateria após três mensagens de aviso, uma viatura é enviada até a residência.

Parceria

A presidente do TJPA, desembargadora Luzia Nadja Guimarães Nascimento, e o prefeito de Belém, Zenaldo Coutinho, assinaram na última terça-feira (25) o termo de cooperação técnica para implantação do projeto “Botão do Pânico”.

Segundo o TJPA, o estado possui 11.300 ações penais e mais de 7.800 medidas protetivas contabilizadas em seis varas das Comarcas de Santarém, Altamira, Marabá e em três varas da Comarca de Belém.

Leia Mais

Estudo associa perda da virgindade à incidência de divórcios

Patricia Zwipp, no Terra

Pesquisa indica que mulheres que perdem a virgindade na adolescência estão mais expostas ao divórcio (foto: Getty Images)
Pesquisa indica que mulheres que perdem a virgindade na adolescência estão mais expostas ao divórcio (foto: Getty Images)

Começar a vida sexual mais cedo pode não ser vantajoso para as mulheres. Pelo menos é o que indica um estudo da Universidade de Iowa, nos Estados Unidos, que aponta que mulheres que perdem a virgindade na adolescência são mais propensas ao divórcio.

A conclusão foi baseada em informações fornecidas por 3793 voluntárias, casadas e divorciadas. Das voluntárias que fizeram sexo pela primeira vez quando adolescentes, com idades até os 16 anos, 31% se divorciaram em cinco anos e, 47%, em dez. O estudo não aponta se as pesquisadas se casaram com o mesmo homem com quem teriam tido as primeiras experiências sexuais.

Apenas 1% afirmou que quis ter relações sexuais aos 13 anos ou menos, comparado com 5% aos 14 ou 15 e 10% aos 16 ou 17. A perda da virgindade antes dos 18 não foi completamente desejada por 42%. Do total, 58% esperaram até os 18 ou mais para iniciar a vida sexual. Nesse grupo, 22% disseram que o ato foi indesejado e, 21%, desejado.

Relações com múltiplos parceiros representam a realidade de 31% das que perderam a virgindade na adolescência e de 24% das que aguardaram por mais tempo. Uma em cada quatro mulheres, que tiveram relações sexuais quando adolescentes, deu à luz antes de casar, contra uma em dez que esperou até a idade adulta.

Os pesquisadores concluíram que o sexo em si não pode aumentar a probabilidade de divórcio, mas sim maior número de parceiros sexuais e gravidez fora do casamento, por exemplo. “Se o sexo não foi completamente desejado ou ocorreu em um contexto traumático, é fácil imaginar como isso poderia ter um impacto negativo na forma como as mulheres podem se sentir em relacionamentos”, completou o autor da pequisa Anthony Paik ao jornal Daily Mail.

Leia Mais

Investidores preferem empresas de homens bonitos, diz estudo

Empresa de Mariana Penazzo (à esq.) e Bárbara Diniz recebeu R$ 1 milhão em 2013 (foto: Marlene Bergamo/Folhapress)
Empresa de Mariana Penazzo (à esq.) e Bárbara Diniz recebeu R$ 1 milhão em 2013 (foto: Marlene Bergamo/Folhapress)

Felipe Maia, na Folha de S.Paulo

Os investidores preferem colocar dinheiro em empresas que são apresentadas por homens, especialmente os bonitos -as mulheres ficam em clara desvantagem. Essa é a conclusão de um estudo publicado neste mês por pesquisadores de instituições como a Universidade Harvard e o MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts).

Em um dos experimentos, eles analisaram o gênero e a atratividade de empreendedores em 90 apresentações feitas em três competições de start-ups (empresas iniciantes de base tecnológica) nos EUA e sua taxa de sucesso em conseguir aportes. É comum que donos de ideias de negócio participem dessas disputas para conseguir recursos.

A probabilidade de conseguir investimento foi 60% maior entre os homens. E, considerando apenas eles, os “altamente atraentes” tinham 36% mais chances de receber o dinheiro. Os próprios investidores indicaram quem eles consideravam bonito ou feio.

Entre as mulheres, não houve relação entre beleza e êxito em receber aportes.

“Como as empreendedoras levam desvantagem em suas apresentações simplesmente por serem mulheres, elas vão continuar sendo pouco representadas no mercado”, escrevem os pesquisadores, liderados por Alison Wood Brooks, de Harvard.

Mayura Okura, 28, sócia-fundadora da B2Blue, uma plataforma virtual para venda de resíduos, é um contraexemplo dos do estudo. Ela recebeu dez prêmios de empreendedorismo e diz que ser mulher até ajuda -em um ambiente majoritariamente masculino, ela se destaca.

“É como na balada. É mais fácil a mulher conseguir chamar a atenção”, conta Okura, cuja empresa levantou cerca de R$ 1 milhão.

A jovem diz que a relação entre investidor e empreendedor é “quase como um casamento”. “Você não precisa necessariamente ser bonito, mas tem de ter algo que o seduza, que faça com que ele se apaixone pela sua ideia.”

Para Mariana Penazzo, 27, sócia da empresa de aluguel de roupas pela internet Dress & Go, que fez 15 apresentações para investidores, o que vale mesmo é a preparação.

“O investidor quer sentir que você acredita no projeto, que tem um ‘background’ e estudou bastante. Isso vale mais do que uma carinha bonita”, afirma Penazzo.

Do lado dos investidores, a tônica é a de que a beleza não tem grande influência na decisão de apostar em uma start-up. Mas o cuidado com a aparência conta.

“É lógico que estar bem vestido faz diferença”, afirma Gil Giardelli, professor da ESPM e da FIA (Fundação Instituto de Administração). “Boa aparência é estar bem apresentado, cuidar-se. É uma questão de valores da tribo em que você circula”, completa Cassio Spina, da associação de investidores Anjos do Brasil.

Leia Mais