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Projeto no Iraque reduz idade para mulher casar a 9 anos

Os opositores ao projeto afirmam que a decisão representa um retrocesso e que pode agravar as tensões no Iraque

foto: Ahmad Al-Rubaye / AFP

foto: Ahmad Al-Rubaye / AFP

Publicado em O Dia Online

Um projeto de lei que, segundo seus opositores, legaliza o casamento das meninas e o estupro conjugal provocou uma polêmica no Iraque, semanas antes de eleições previstas para o fim de abril.

Os opositores ao projeto – que, segundo analistas, tem poucas chances de ser adotado – afirmam que representa um retrocesso em matéria de direitos da mulher e que pode agravar as tensões entre diferentes confissões do país.

Seus opositores ressaltam que um de seus artigos permite que as crianças se divorciem a partir dos nove anos, o que significa que podem se casar antes desta idade, e que outro prevê que uma mulher seja obrigada a ter relações sexuais com seu marido quando ele pedir.

Segundo um estudo de 2013 do grupo de pesquisa americano Population Reference Bureau (PRB), um quarto das mulheres no Iraque se casam com menos de 18 anos.

— Este projeto de lei é um crime humanitário e uma violação dos direitos das crianças — declarou Hanaa Edwar, que dirige a associação Al-Amal (“esperança”, em árabe).

Os partidários do projeto de lei afirmam que o texto apenas regula práticas que já existem.

— A ideia da lei é que cada religião regule e organize a condição jurídica pessoal em função de suas crenças — estimou Ammar Toma, um parlamentar xiita do partido Fadhila.

No entanto, analistas consideram muito improvável que o parlamento iraquiano vote este projeto e afirmam que se trata de uma manobra política.

Assim, o primeiro-ministro xiita Nuri al-Maliki pode estar tentando deixar aberta a possibilidade de uma aliança com Fadhila após as eleições, que, acredita-se, não fornecerão maioria parlamentar absoluta a nenhum partido.

Fonte: Zero Hora

Projeto fotográfico registra história de mulheres do sertão

Publicado no Catraca Livre

Histórias de vidas, de mulheres, que com as próprias mãos moldaram a paisagem da Serra do Espinhaço, em Minas Gerais, são retratadas no projeto documental “Mulheres Sempre Vivas”.

De forma independente, a pesquisadora Marina Moss e o jornalista Thiago Almeida registram diferentes biografias, diferentes verdades e trajetórias de um Brasil pouco lembrado nas capas dos jornais.

Sertões e veredas 

No ensaio, a grandeza de histórias de carvoeiras, colhedoras de chá, lenheiras no distrito de Lavras Novas, garimpeiras na região do Alto Jequitinhonha, benzedeira das Àguas Vertentes ou de guardiã dos tambores do candomblé no Cipó.

Exemplos de luta, anônimas mulheres, que construíram diferentes caminhos e deixaram suas marcas no chão: sempre vivas.

Fotos: Thiago Almeida 

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Contra padrão de beleza irreal, revista do Chile bane retoques em fotos

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Atrizes de novela do Chile posam para foto sem Photoshop de revista “Ya” Ulises Nilo

Publicado no UOL

Em janeiro deste ano, a revista “Ya”, do jornal El Mercurio, a publicação feminina mais lida do Chile, resolveu parar de retocar as fotos de modelos com a ajuda do programa Photoshop. A seguir, a editora de revistas do jornal, Paula Escobar, explica as razões da mudança e as reações provocadas por ela:

“Uma contradição passou a rondar as reuniões de pauta da revista ‘Ya’.

Por um lado, queríamos falar de temas relevantes sobre a mulher moderna e com pés no século 21, como prova nossa cobertura de assuntos da atualidade, de questões sociais e de entrevistas com mulheres influentes, como a empresária e ativista Sheryl Sandberg, a presidente Michelle Bachelet, várias ministras e reitoras de universidades, economistas e empreendedoras.

Mas as páginas de moda e beleza –as seções mais tradicionais de uma revista feminina– iam contra esse princípio: com frequência, exibiam modelos muito jovens e magras que eram assim de verdade ou, pior, que eram rejuvenescidas ou ‘perdiam peso’ com as técnicas do Photoshop, que alguns de nossos fotógrafos externos usavam, apesar de pedirmos para não fazerem isso.

Começamos a persuadir esses fotógrafos e as agências a nos enviar modelos mais velhas e com corpos mais saudáveis e que suas fotos não fossem alteradas digitalmente. Mesmo assim, não funcionou completamente, porque muitos têm uma visão de estilo e beleza que está ligada aos corpos mais jovens e andróginos.

A ideia de beleza, por assim dizer, é sem curvas, sem rugas, sem carne ou sem marcas do tempo. Sem humanidade.

Que liberdade é essa?
Ao mesmo tempo, tanto no Chile quanto em outras partes do mundo, duas epidemias avançam: os problemas alimentares e a cirurgia plástica, ambos consequências desta cultura que impõe um ideal de beleza tão inalcançável quanto irreal e, muitas vezes, perigoso para a saúde.

Se não se pode nem comer ou envelhecer, qual é a liberdade que estamos propondo para essas mulheres?

É paradoxal que o século 21, época em que as mulheres têm mais direitos do que nunca, seja o século em que prevaleça a ideia de que, para ser bela, é necessário ter um determinado tipo de corpo que não o seu próprio e, além disso, um tipo que requer privação de alimentos.

Por esse motivo, os corpos anoréxicos dizem muito sobre nossa sociedade, que diz que mulheres têm uma liberdade sem limites, e ao mesmo tempo impõe essa rejeição de seu próprio corpo.

Exemplos internacionais
Depois de muito buscar, nos inspiramos em várias iniciativas internacionais. Primeiro, estudamos o projeto de 2008 da deputada francesa Valerie Boyer, que, mesmo não tendo sido promulgado, deu início ao debate. Roselyne Bachelot, então ministra da Saúde da França, assinou a ‘Carta de Compromisso voluntário sobre a imagem corporal e contra a anorexia’.

Alguns anos antes, o governo havia começado um movimento parecido na Itália para regular a idade e o peso da participação de modelos nos eventos em Milão, a capital da moda italiana, e recomendar que não fossem contratadas jovens com um índice de massa corporal (IMC) inferior a 18,5 –determinado por uma proporção entre o peso e a altura– ou menores de 16 anos.

Também foi muito útil a recente lei aprovada em Nova York que estende a modelos menores de 18 anos os benefícios de qualquer outra criança que trabalha no mundo dos espetáculos. Essa lei impõe limites rígidos de tempo e horário de trabalho e cria um processo burocrático que busca desestimular o uso de meninas como modelos.

Mudança cultural
Tendo em vista esses exemplos e nosso compromisso com nossas milhares de leitoras, criamos a Campanha de Boas Práticas.

Em uma iniciativa de autorregulação inédita no Chile, nos comprometemos, em nossas páginas editoriais, a contratar modelos maiores de 18 anos e com um índice de massa corporal acima de 18,5, que é o estabelecido internacionalmente como um peso normal, certificado por um médico; a não usar o Photoshop para alterar a imagem real de uma pessoa; e a promover a reflexão sobre a imagem da mulher nos meios de comunicação, por meio de um seminário anual e fóruns com mulheres líderes nos meios de comunicação de nosso país.

Foi a nossa maneira de resolver essas contradições entre o discurso a favor da mulher e certas práticas da fotografia de moda e beleza.

Tem sido um caminho complexo, com vários obstáculos, mas também com aliados. A principal dificuldade é cultural: é preciso pensar as reportagens por outra lógica e, especialmente, romper com a ideia de que o corpo mais bonito é magro e jovem.

Desconstruir, de certa forma, a própria ideia do que é belo e dar a ela um novo significado, de acordo com a realidade chilena. E também evitar o tom de regra aos conselhos de beleza: fugir da armadilha de dizer que as mulheres ‘devem’ consumir certas coisas para ‘serem’ aceitas.

Nas revistas de estilo masculinas, o tom é mais lúdico e divertido. Estão orientadas ao prazer, não ao ‘dever ser’. Aí está outra inspiração.

Mesmo que alguns fotógrafos tenham me considerado exagerada ou dogmática, muitos se uniram com gosto à nossa campanha, porque estavam fartos do excesso de retoques digitais, que, ao serem mal usados, fazem com que a fotografia verdadeira seja criada no computador e não na realidade.

Por fim, várias agências de modelos quiseram participar e enviar suas modelos a uma consulta médica para obterem o certificado de idade e peso normal. Muitas mulheres influentes e formadoras de opinião também apoiaram nossa campanha.

Agora, estamos próximos de realizar nosso primeiro seminário sobre o tema. Convidaremos a uma reflexão sobre as mulheres e sua representação nos meios de comunicação. Não só nos jornais e nas revistas, mas também na televisão, no cinema e outros.

Sabemos que é só o começo, mas isso nos enche de esperança de que seja possível ajudar para que nossas filhas deixem de sonhar em ser bonecas quando crescerem e se aceitem como são.”

* A jornalista Paula Escobar Chavarría é editora de revistas do El Mercurio e autora de três livros. Em 2006, foi eleita uma das 100 mulheres líderes do Chile e nomeada Jovem Líder Global pelo Fórum Econômico Mundial.

Fotógrafo retrata a beleza de pessoas com sardas

Publicado no Catraca Livre

Sardas, um charme para poucos: para registrar as “pintinhas” causadas pelo aumento da melanina (pigmento que dá cor à pele) na pele, o fotógrafo Fritz Liedtke reuniu pessoas “sardentas” numa exposição que destaca a beleza singular dessa incomum característica.

Para a série “Astra Vellum”, o fotógrafo busca um olhar incessante dessas pessoas, onde sobrepõe o rosto dos modelos, criando um efeito lindo com as sardas e valorizando muito o charme.  Para deixar o trabalho ainda mais incrível, a fotogravura foi o meio utilizado para geração das imagens. O resultado você confere aí:

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O dia em que visitei o Egito

patriarca coptaRicardo Gondim

Há 4 anos visitei o Egito. Andei pelas ruas de Cairo. Tudo me chamou a atenção. As mulheres, escondidas sob véus negros, pareciam monjas reclusas. Os homens, magros em sua grande maioria, caminhavam pela ruas de mãos dadas.

Rodopiei. Um tornado cultural me deixou tonto. Tentei decifrar uma história milenar, que jamais entenderei completamente. Islam, quase onipresente, prevalece por todo o Egito. Notei que era minoria – de novo. Eu não conseguia me esconder, destaquei no meio da multidão. Me senti frágil. Tive medo. Nas alamedas estreitas de Cairo, notei a força da paranóia que a mídia ocidental passa. A propaganda imperial de que o Oriente médio é inimigo gruda na gente. Eu pressentia – erroneamente – que uma bomba estava prestes a explodir na próxima esquina. Cheguei a ver terroristas onde não existia nenhum.

Me perdi no árabe. Eu simplesmente não conseguia decifrar duas letras de um alfabeto que poderia ajudar a saber em que esquina eu estava. Em outra cultura vemos como somos provincianos. É difícil lidar com cheiros, paladares e paisagens novos. Em uma cultura em que tudo espanta, tudo choca, tudo fascina, a gente consegue avaliar a estreiteza da própria mente.

Compareci a uma Igreja Ortodoxa Copta. O padre era um velhinho, mistura de Frei Damião com pastor evangélico.  A igreja, iniciada no aterro de lixo da cidade, virou centro de romaria. O padre copta conduz uma paróquia que luta para mudar a sorte de centenas de milhares que vivem nos arredores do lixão de Cairo. Seu trabalho visa aliviar a miséria mais abjeta. Seu ministério oferece espaço de esperança e reconstrução para mulheres e crianças. No Brasil, entretanto, uma igreja que atrai tantos pobres e sincretiza vários perfis religiosos jamais seria tolerada pelo status quo evangélico. No Egito, aquela igreja é tida como uma renovação dentro da ortodoxia copta.

Fui ao Egito para participar de uma reunião de pastores e líderes evangélicos de países do sul do Equador. Éramos 40. Por acontecer no Egito, a reunião ganhou ares de conspiração. Como há muito abandonei a ambição de ganhar o mundo, eu me senti fora das aspirações do grupo. Querer ganhar o mundo desestabiliza a alma. Megalomania mina o dia a dia despretensioso e sufoca as relações desinteressadas. Me preocupei sobremaneira em notar um ambiente belicoso e intolerante entre os pastores. Em determinado momento ouvi de um deles: o islamismo é o último gigante a ser abatido antes da volta de Cristo. Minha reação imediata foi: em que essa atitude difere dos terroristas que odeiam os ocidentais, e os tratam como irmãos de satanás?

Anos depois da viagem, medito. O que significa ser cristão no mundo atual? Quem poderia amenizar tanta hostilidade? Um neo-ateísmo destila rancor contra a religião. Religiosos se estapeiam em nome da verdade que acreditam possuir. Palestinos sofrem horrores, acossados pela miséria e por um poder militar portentoso. O Islam cresce com taxas vertiginosas em diferentes regiões do mundo. Séculos depois, os mouros retomam a Europa. A França impactada pelo Iluminismo não se conforma em conviver com tanta burca, mesquista monumental e tapete estendido para reza.

Noto os líderes evangélicos assustados. Com todo o planejamento gerencial, com todo o discurso triunfalista de que Deus é por nós, pastores não entendem como os seguidores de Maomé se multiplicam como cogumelo. Enquanto os evangélicos se perdem com cultos ensimesmados e tentam provar a autenticidade da mensagem com milagre, o fenômeno religioso islâmico continua forte. Ficam as perguntas: até quando a brecha entre cristianismo e islamismo favorecerá interesses geopolíticos? Quando ortodoxos russos, gregos, coptas, armênios, católicos romanos e protestantes – junto com os longínquos evangélicos – começam a dialogar?

Soli Deo Gloria

fonte: site do Ricardo Gondim