Indignação insana

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Ricardo Gondim

A Bíblia narra que o rei Davi se fez de maluco para safar-se de uma situação perigosa – mordeu a moldura de uma porta e babou, alucinado, querendo enganar um inimigo. Eu também tenho vez por outra o ímpeto de fugir dos padrões da normalidade. Diante da injustiça, dos desmando e, principalmente, da indiferença, quero me deixar tomar por uma indignação insana. Um idealismo pueril me possui e quero cuspir marimbondos, chutar o pau da barraca, gritar impropérios, esmurrar ponta de faca.

Assaltam-me surtos de raiva diante do emburrecimento televisivo, do analfabetismo político e da alienação religiosa. Inconformado com a sordidez da estrutura política, quase chego a surtar quando noto prevaricação com o dinheiro público, sempre a beneficiar os mesmos.

Leio o jornal todo dia e muitas vezes perco a paz. As notícias me chegam filtradas ideologicamente e a imprensa chapa branca (ou de qualquer cor) plastifica a crueza histórica para que o povo não se rebele contra a desigualdade social. É ruim notar como as notícias do cotidiano são distorcidas para satisfazer o viés conservador dos ricos proprietários dos meios de comunicação. O descaso com os doentes, que agonizam nos corredores dos hospitais, fica amenizado pelo contraponto bem mais enfático, que afirma: avanços estão sendo feitos; tenhamos paciência. A morte de crianças em UTIs mal aparelhadas não pode ser tolerada em nome da paciência. Revolta notar que falta quem denuncie não apenas os acidentes nas estradas de péssima qualidade, mas a riqueza desproporcional das construtoras e empreiteiras que “acertam o preço” da obra. No pânico da insegurança pública, a condição medieval das penitenciárias e das cadeias superlotadas parece justa.

Todavia, as decepções se acumulam e transbordam para além da política. Dá vontade de assumir um desatino profético ao notar como a religião vai se comportando, descaradamente, com uma instituição alienante. Quero escarnecer dos discursos religiosos carolas que não passam de encenação, e desmascarar a desfaçatez de hipócritas que esbravejam uma santidade inumana. Os eventos espetaculares em nome de Deus entristecem. Se a injustiça social gera escombros emocionais, a religiosidade midiática devasta.

Na nulidade dos que movimentam as massas, renasce o anseio de expor certas igrejas como empresas – elas não se envergonham de propor uma espiritualidade instrumental. Seria pecado calar diante dos novos cambistas que agem desavergonhadamente como empresários, tratando Deus como produto. Existe sim um cristianismo entorpecido pela magia de um poder que o Apocalipse chama de Babilônia – que comercializa ilusão como esperança, alucinação como fé, beligerância como coragem e a alma de homens e mulheres como bugiganga. Não dá para calar diante da oferta do milagre como trampolim de ascensão social; e sequer aceitar que bênção continue oferecida como solução mágica para os problemas da vida; ou admitir que Deus seja proclamado como mero apanágio, que promove casamento, valida divórcio, cura caroço inexistente, faz passar no vestibular e resolve causa na justiça.

Se a religiosidade televisiva soa tão competente, vale questionar mesmo em devaneio: por que ela não resolve os “grandes” problemas que afligem a humanidade? Por que os milagreiros de plantão não trazem uma paz duradoura aos morros do Rio de Janeiro? Será que algum evangelista de renome conseguiria diminuir, com suas afirmações peremptórias, os latrocínios que castigam São Paulo? Se os neo-apóstolos pentecostais têm o poder espiritual que propalam, não deveriam, no mínimo, desbaratar a prostituição infantil que infesta as rodovias brasileiras?

Sei, de nada adiantaria perder o equilíbrio emocional. Não resolve enrubescer os olhos. É preciso agir. Decido, portanto, dedicar o resto da energia que me resta, apoiando os que não hesitam em lutar por um mundo mais justo, mais solidário e mais sensível. Desejo que meus gestos e pregação tenham convocatória de mobilizar cristãos, católicos e protestantes, para começarmos a adensar o Reino de Deus na terra. Reconheço: de nada vale propalar que o futuro chegará melhor se permitirmos que o presente –  o aqui e o agora – continue péssimo.

Soli Deo Gloria

fonte: site do Ricardo Gondim

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Livro sobre tragédia na Kiss deixa familiares de vítimas indignados

Trechos de ‘Kiss – Uma Porta para o Céu’ desagradaram parentes.
Associação dos Familiares solicitou retirada da circulação da obra. 

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Por Jessica Mello, no G1

A publicação de um livro sobre a tragédia na boate Kiss, em Santa Maria, causou revolta e indignação entre alguns familiares das 241 pessoas mortas no incêndio de 27 de janeiro. Trechos da obra foram considerados ofensivos e desrespeitosos pela associação que reúne parentes das vítimas. A entidade já protocolou em cartório um ofício extrajudicial pedindo a retirada de circulação da publicação.

“Kiss – Uma Porta para o Céu” foi escrito no início de março pelo padre Lauro Trevisan. Natural de Santa Maria, ele já publicou mais de 70 livros, com temas como o poder da mente e autoajuda, entre outros. Trevisan diz que teve três objetivos ao escrever a obra. “Primeiramente, queria levar conforto às famílias. Segundo, erguer o ânimo e a energia de Santa Maria. Por fim, oferecer uma lição à humanidade, para que se crie um mundo mais justo, mais solidário e com mais respeito à vida”, afirma.

Vendido ao preço de R$ 20, o livro já teve sua primeira edição esgotada. Segundo o autor, uma nova edição, com dois mil exemplares e sem os trechos considerados incômodos pela Associação dos Familiares das Vítimas e Sobreviventes da Tragédia de Santa Maria (AVTSM) será lançado nesta quarta-feira (10).

Dois pontos do livro foram considerados os mais problemáticos e deram início à polêmica. O primeiro chegou a levantar suspeitas de que algumas vítimas do incêndio estavam ainda vivas enquanto eram dadas como mortas: “No auge da balada celestial, o Pai perguntou se alguém queria voltar. Dois ou três disseram que sim e foram encontrados vivos no caminhão frigorífico que transportava os corpos ao Ginásio de Esportes”. O segundo narra uma suposta cena de resgate e foi considerado ofensivo pelo uso do verbo “agonizar”: “Num imenso gesto heroico de solidariedade, a salvar os que agonizavam em meio à fumaça funérea”.

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Lauro Trevisan (E) diz que pretende passar mensagem de conforto com a obra, mas presidente de associação de vítimas, Adherbal Ferreira, vê tentativa de aproveitamento (Fotos: Divulgação e Felipe Truda/G1)

Sobre o primeiro trecho, Trevisan diz que trata-se apenas de uma imagem, “de uma parte da alegoria que escrevi no início do livro”. A respeito do segundo, ele diz que utilizou o significado da palavra expresso do dicionário, de que “agonizar” seria o mesmo que “estar prestes a morrer” e não necessariamente sofrendo antes da morte.

Segundo o presidente da AVTSM, Adherbal Alves Ferreira, a publicação causou uma comoção na cidade, deixando muitos pais indignados com a forma escrita e com as palavras utilizadas para falar sobre o assunto. “Primeiro ele disse que pessoas relataram a ele como verdadeiras (as informações sobre vítimas encontradas vivas no caminhão). Depois, afirmou que eram ‘alegorias’. O pessoal ficou muito chateado. Nós precisamos de ajuda psicológica, da parte humana, de um abraço, de um voluntariado. A pessoa não pode brincar com essas coisas”, desabafa.

Por não querer mais nenhuma polêmica acerca do assunto, o padre disse que optou por retirar os trechos na segunda edição do livro. Segundo Trevisan, essa nunca foi sua intenção ao escrever. “Foi a minha maneira de ajudar as pessoas, escrevendo uma mensagem que poderia ser lida por todos. Podemos até ficar discutindo, mas não é a intenção do livro”, defende-se.

Para Adherbal, a decisão de veicular uma nova versão antes de conversar com a Associação dos Familiares é outro ponto de desrespeito. “Ele não ligou para mim, não falou com ninguém. Queríamos que ele tivesse respeito com os pais, viesse conversar com a gente antes de relançar o livro e ele não teve essa sensibilidade. Isso me dá a sensação de que ele está se aproveitando do momento para ter alguma lucratividade”, afirma.

 

 

 

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Galvão Bueno narra o fim do Mundo

Publicado originalmente no Virgula

O dia mais esperado de 2012, ao menos para boa parte da população está chegando. A dúvida se o mundo acabará mesmo nesta sexta-feira (21) ou não aflige alguns, outros preferem ignorar. Mas, têm pessoas que preferem se divertir com a situação.

Pensando nisso, um usuário resolveu montar um clipe do fim do mundo. Nada melhor que Galvão Bueno para narrar este evento.

Com o grito de “acabou” da Copa de 1994, quando o Brasil foi tetracampeão do mundo, e a famosa trilha sonora da vitória de Ayrton Senna, o trailer narra o fim do mundo.

dica do Rogério Moreira

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