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Nas UPPs, uma geração em busca do tempo perdido

UPP do São Carlos é uma das 36 na cidade do Rio Agência O Globo / Luiz Ackermann

UPP do São Carlos é uma das 36 na cidade do Rio Agência O Globo / Luiz Ackermann

Ludmilla de Lima em O Globo

RIO – Eles são a geração UPP, mas ainda não deixaram de ser “Nem-Nem”. Mais de um quarto dos jovens de favelas pacificadas do Rio — entre 15 e 29 anos — nem estuda nem trabalha. E, à medida que a idade avança, a situação piora. Entre os que têm de 18 a 29 anos, esse total pula para 34%, como mostra a Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan) na pesquisa “Somos os jovens das UPPs”. No levantamento, foram entrevistados 1.652 moradores (de 15 a 29 anos), de junho a novembro deste ano, das comunidades de Vidigal; Coroa, Fallet e Fogueteiro (do complexo do Cosme Velho), Prazeres e Escondidinho (em Santa Teresa); São Carlos; Manguinhos e Mangueira.

Como foi dividida em faixas etárias, a pesquisa revela uma trajetória comum a muitos moradores de favelas: a dos adolescentes que não conseguem manter um vínculo com a escola e, sem formação adequada nem projeto de carreira, acabam não se firmando no mercado de trabalho. Há casos também em que, no meio do caminho, eles abrem mão da vida escolar e da possibilidade de uma profissão por causa da chegada precoce de um filho. A Firjan constatou que as meninas formam a maioria da geração “Nem-Nem”, como já identificara o IBGE: 36% de todas as entrevistadas não têm emprego nem estão nos bancos escolares, enquanto o percentual de garotos que se encaixam nesse perfil é de 16%.

Grande parte das jovens mulheres (48%) que interromperam os estudos alega que o motivo foi o nascimento de um filho. No caso dos meninos, apenas 5,2% dão a mesma justificativa. Eles dizem ter deixado a escola, principalmente, por ter decidido trabalhar (48,5%). Já para elas, o trabalho aparece em segundo lugar (com 24,1%) entre as razões.

Moradora do Cantagalo, Ana Cristina de Jesus é um caso clássico de adolescente que engravidou e acabou trocando o caderno e os livros pelas fraldas e mamadeiras. Aos 26 anos e mãe de quatro meninas, ela tenta recuperar o tempo perdido e concluir o ensino médio.

— Quando tive meu primeiro filho precisei parar de estudar. Eu era muito nova, tinha 13 anos, e ela nasceu prematura. Preferi não deixar a neném aos cuidados de outras pessoas, mesmo sendo da família. Eu gostava de estudar, tirava notas boas, tinha passado para a 6ª série. Depois tive outra filha e fiquei um bom tempo sem estudar — lembra Ana Cristina, que só pôde terminar o ensino fundamental aos 21 anos, após a terceira filha.

Agora com a quarta filha, de 2 anos, ela resolveu voltar para os bancos escolares porque hoje, reconhece, qualquer emprego exige o ensino médio. Ana Cristina ainda faz um curso particular para auxiliar de dentista. Sem emprego formal, ela trabalha por conta própria, a domicílio, como manicure e depiladora.

Educação e emprego como objetos de desejo

A gerente de pesquisas do Sistema Firjan, Hilda Alves, diz que a pesquisa ajuda a explicar a dificuldade de moradores de favela com o mercado de trabalho, diretamente relacionada à trajetória instável no campo da educação.

— Aos 15 anos, esses jovens estão estudando, mas já pararam algumas vezes ou repetiram de ano. Há dificuldades para levar a escola adiante — afirma Hilda.

A evasão escolar detectada não significa que os jovens dessas comunidades tenham total desinteresse pelo aprendizado. O discurso é favorável à escola, o que é provado em números: 94% valorizam a conclusão do ensino médio, 74% dizem que a chegada a essa etapa representa mais conhecimento e 41% acreditam que o colégio prepara para o trabalho. Por outro lado, 51% sentem a falta de um curso profissionalizante. Fazer uma faculdade é um sonho de 49%.

Apesar do retrato preocupante mostrado pela Firjan, também há avanços. Em comparação com o histórico escolar dos pais, os jovens pesquisados mostram que foram além da geração anterior. A parcela de maiores de 21 anos com ensino médio completo é de 48%, enquanto somente 14% dos pais e 16% da mães chegaram até lá. Outro dado otimista é em relação aos que conseguiram entrar para a faculdade: se apenas 3% dos pais pisaram numa universidade, 12% dos entrevistados maiores de 21 anos conquistaram uma vaga no ensino superior.

84% esperam ganhos maiores

Ana Cristina de Jesus é uma que pode dizer que avançou em relação aos pais. A mãe é analfabeta e o pai foi até a 3ª série. Dividindo-se entre marido, quatro filhas, o trabalho e os estudos, a moradora do Cantagalo imagina um futuro melhor:

— Ainda não parei para pensar no que vou fazer. Posso fazer uma faculdade na área odontológica, que gosto muito. Obstáculos sempre existirão em tudo, mas basta querer. Tenho muita força de vontade e acredito que o ensino é importante.

As ideias dela refletem o clima geral de esperança entre os jovens. Nada menos que 84% têm expectativas de uma vida melhor do que a de seus pais.

Os Primeiros Comentários

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Por Rob Gordon, no Papo de Homem

– Senhor?

– Pois não?

– Adão na linha nove.

– Pode passar.

– Só um minuto.

– Alô?

– Oi, Adão. Tudo bem?

– Tudo. E o Senhor?

– Tudo em ordem. Como posso ajudá-lo?

– Eu liguei para tirar uma dúvida.

– Pois não.

– Foi o Senhor que fez o tatu cair do barranco?

– Fui Eu que fiz o quê?

– Que fez o tatu cair do barranco. Ele está todo machucado.

– Eu não faço ideia do que você está falando.

– Bom, é o que está no mural de recados.

– Que mural de recados?

– O mural de recados que temos aqui embaixo. Onde penduramos as notícias com os avisos sobre o que está acontecendo no Paraíso. Ontem, colocaram uma folha de bananeira com a notícia de que o tatu havia tentado escalar um barranco, escorregou e se espatifou no chão.

– Certo.

– E logo abaixo disso colocaram outra folha de bananeira falando que foi o Senhor quem fez isso.

– Eu?

– Sim. Foi uma raposa que colocou. Estou com a folha aqui.

– O que ela diz?

– “Foi bem feito para este tatu. Estes animais que não respeitam a vontade do Senhor acabam se perdendo no meio do caminho. E cada vez mais os jovens do Paraíso estão escalando barrancos. E o Senhor castiga. Precisamos rezar para que outros animais, especialmente os mais jovens, não sigam este exemplo”.

– Eu castigo?

– É o que diz aqui. O senhor tem algum problema com o tatu subir um barranco?

– Adão, faz cinco dias que eu estou refazendo meus mandamentos, porque me contaram que só cabem dez nas pedras que serão usadas. Então, estou tendo que cortar um monte de coisa. Você realmente acha que eu estaria preocupado com um tatu e um barranco?

– Bom, estou apenas falando o que eu vi no mural. Não é a primeira vez que vejo algo assim. Aliás, isso tem acontecido todo dia.

– Como assim?

– O Senhor ficou sabendo que semana passada uma tartaruga e um pelicano brigaram feio na praia?

– Não.

– Bom, brigaram. No dia seguinte, tinha uma folha de bananeira no mural contando o que havia acontecido. E a raposa havia comentado que “certamente foi por causa de inveja e outros pecados e certamente a alma destes animais pagarão por isso”.

– Como é que é?

– Logo embaixo tinha outra folha de bananeira, escrita por um leopardo. Dizia que é isso que acontece quando animais diferenciados começam a andar pela praia. Que eles sempre causam confusão e sujam tudo.

– O que são animais diferenciados?

– Não sei. Mas esta folha de bananeira tinha mais respostas. Tinha uma mensagem de um daqueles bichos que eu nunca lembro o nome… aquele, que tem bico, mas não é pássaro. O otorrino.

– O ornitorrinco?

– Isso. Ele colocou uma folha de bananeira dizendo que não é a primeira vez que este pelicano briga com outros animais. E que não adianta prender o pelicano em algum lugar porque, infelizmente, no Paraíso, os criminosos são tratados melhores que os animais honestos, por isso sempre estaremos nessa situação horrível. O que são criminosos? É um bicho?

– Não… deixa para lá. Não vem ao caso.

– Enfim, este ornitorrinco fala isso em todas as folhas de bananeira. Sempre fala que nada aqui dá certo porque todo mundo quer levar vantagem, enquanto os animais honestos trabalham cada dia mais. E ele está sempre falando sobre o mar.

– Do mar?

– Isso. Quer dizer, não é bem sobre o mar, é sobre a lula. Acho que ele não gosta muito da lula, porque qualquer coisa que colocam no mural, ele cola uma folha de bananeira dizendo que é culpa da lula. “Porque a lula que começou com isso”, “porque deviam prender a lula”, “porque é isso que acontece num paraíso onde acreditam na lula”. Acho que a lula, coitada, nem sabe que o ornitorrinco fala isso.

– Entendi. Mas pelo que percebi, são apenas alguns animais que fazem isso.

– Sim, mas tem mais alguns outros. A lebre também. Ela posta respostas em todas as folhas de bananeira que colam no mural de recados.

– E o que ela diz?

– Ela fala dos coríntios.

– Coríntios?! Como a lebre sabe o que são coríntios?

– Não sei. Aliás, o que são coríntios?

– É algo que você não precisa saber. Nem a lebre.

– Bom, em todas as folhas de bananeira que colocam no mural, ela coloca uma folha de bananeira embaixo com a mensagem “Coríntios!”. Em todas! Tatu caiu do barranco? “Coríntios!”. Rinoceronte derrubou uma árvore? “Coríntios!”.

– Só fala isso?

– Só. Aliás, outro dia ela e o ornitorrinco brigaram feio. A lebre colocou uma folha de bananeira com “Coríntios!” e o ornitorrinco colou uma folha de bananeira respondendo, logo abaixo, que “os coríntios são sempre favorecidos pela lula, por isso que o Paraíso é assim”. Ficaram dias discutindo. Cada vez que eu olhava o mural tinha uma folha de bananeira nova. Mas eu parei de ler, não entendia mais nada.

– Entendi.

– Eu mesmo cheguei a postar algumas folhas de bananeira respondendo algumas notícias, mas desisti.

– Por quê?

– Foi quando colocaram uma folha de bananeira dizendo que os pombos estavam voando baixo demais e passando perto dos outros animais. A raposa colocou uma resposta dizendo que “esta juventude está perdida e que suas almas serão castigadas pelo Senhor, pois trilham um caminho perigoso”. Aí eu escrevi numa folha de bananeira que “olhe, acho que o Senhor está ocupado demais para se preocupar com os pombos”.

– Bem, você acertou.

– Logo depois colaram uma folha de bananeira para mim. Dizia: “não é você que mora naquela caverna e usa somente uma folha de parreira? Eu já tentei ler os avisos que você coloca aqui no mural, e eles são muito ruins. Você não está qualificado para julgar o que se escreve no mural”.

– Sério?

– Sim. Foi o tamanduá. Ele sempre faz isso com meus comentários. O gozado é que eu nunca vi o tamanduá escrevendo nada ali. Ele fala mal do que escrevo, mas escrever, mesmo, ele não escreve nada.

– Isso é normal.

– Mas o pior é que não dá mais nem para ler o mural direito. Você coloca uma folha de bananeira e, logo em seguida, tem dezenas de folhas de bananeiras falando sobre a lula, sobre o Senhor que vai castigar todo mundo, sobre os Coríntios, sobre os animais diferenciados… não dá.

– Mas este mural não funcionava bem?

– Sim, mas mudou desde que os macacos começaram a pedir aos outros animais para comentarem todas as notícias.

– Como assim?

– Bem, eles queriam criar um mural de recado deles, mas aí eu disse que o Paraíso precisava só de um mural de recados e que, com dois, ficaria tudo confuso. Eles acabaram concordando comigo, mas agora ficam pedindo para os outros animais encherem o mural com folhas de bananeira comentando tudo.

– Entendi.

– E a maior parte das folhas de bananeira comentando o que está no mural é de animais que não têm muito a dizer. São coisas que não interessam a ninguém e ficam ali apenas ocupando espaço.

– Adão, Eu acho que os macacos estão fazendo isso somente para sabotar o mural. Você não permitiu que eles criassem o próprio mural, então eles resolveram estragar o que vocês usam.

– Bem, faz sentido. Isso é bem a cara dos macacos. Eles fizeram até um concurso.

– Concurso?

– Sim. Se você colar quinze folhas de bananeira com comentários, os macacos escrevem uma folha de bananeira sobre você. O concurso chama “Quinze Folhas de Fama”. Então, todos comentam e respondem tudo que os macacos postam. Não sabia que todos os animais aqui queriam ficar famosos. Quer dizer, não que aparecer no mural de recados seja exatamente ficar famoso, mas…

– Concordo.

– Por isso que liguei para o Senhor. Não tem como pedir para que uns anjos com espadas de fogo venham conversar com os macacos?

– Não, Adão.

– Aposto que se fosse comigo, os anjos já estavam aqui.

– Oi?

– Não, nada. É que uns anjos podiam resolver o problema.

– Adão, se Eu fizer isso, vou dar razão para a raposa. E ela nunca mais vai parar de espalhar por aí que Eu vou castigar quem faz qualquer coisa que ela não concorde, dizendo que quem não concorda sou Eu.

– Bem, tem razão. Mas não sei o que fazer.

– Os animais têm o direito de comentar o que está no mural de recado. O certo seria esperar que os animais fizessem isso somente notícias importantes e com respostas que acrescentassem algo ao assunto.

– Sim. Mas não há espaço para notícias importantes. Os animais ficam entupindo o mural com folhas de bananeira, comentando todos os assuntos. Não vejo como isso pode mudar.

– Talvez você tenha razão.

– Isso quer dizer que os anjos…

– Não, Adão. Nada de anjos.

– Certo.

– Quais são os animais que fazem os piores comentários mesmo?

– Bem, tem uma raposa, uma lebre… Que mais? Aquele ornitorrinco… Aquele tamanduá que xinga os meus textos… e… falta um… Ah! O leopardo! Aquele que fala dos animais diferenciados.

– Certo. Algum mais?

– Não. Esses são os piores. Esses cinco. Esses que causam o tumulto ali.

– Certo. Eu vou dar um jeito nesses animais.

– Mesmo? Obrigado.

–Agora esqueça este mural por uns dias. Deixe a poeira baixar.

– Obrigado.

– Algo mais?

– Não, Senhor.

Depois que desligou o telefone, Deus ficou pensando sobre como resolver o problema. Na verdade, sabia o que deveria fazer, mas estava procurando por uma alternativa. Pensou bastante e chegou à conclusão que não havia saída.

Ao cair da noite, jogou os cinco animais que faziam os piores comentários para uma caverna. E, usando Seus poderes, fez os cinco animais se transformarem em um só, formando assim uma criatura nova. Uma criatura raivosa e não muito inteligente; uma criatura que rosnava e praguejava alto, mas não tinha coragem de olhar nenhum outro animal nos olhos.

Fechou a caverna com uma rocha e chamou um anjo. Pediu a ele que escolhesse um nome para esta nova criatura. Um nome que simbolizasse os cinco animais comentaristas, para que Deus nunca mais esquecesse o que havia acontecido ali.  O anjo parou para pensar.

– Raposa. Lebre. Leopardo. Ornitorrinco. Tamanduá. Tem que representar os cinco?

– Isso. Um nome assustador.

– Que difícil… Que tal Rotol?

– Rotol?

– Isso. São as iniciais dos cinco nomes.

– Não. Rotol parece nome de produto de limpeza. Precisamos de algo mais assustador.

– Hum… Posso usar um “l” depois do outro?

– Como assim?

– O que o Senhor acha de troll?

Deus sorriu. Troll. Era um nome ameaçador e bruto. E meio burro. Era perfeito.

Assim, ordenou que o troll jamais pudesse sair da caverna até que aprendesse a emitir sua opinião de forma educada e que começassem a pensar antes de falar, e deu o assunto por resolvido.

Mas Deus não sabia que a serpente estava por perto, ouvindo os gritos e palavrões do troll preso na caverna. E já estava pensando em maneiras de soltar aquela criatura horrenda pelo mundo. Precisava apenas esperar o momento ideal para isso. E sabia que ele chegaria quando um mural de recados e notícias enorme, muito maior que aquele usado no Paraíso, fosse criado.

Não havia pressa.

Mulheres têm média de 107 peças de roupa, mas dizem não ter o que vestir

Posts de fotos nas redes sociais contribuem para insatisfação delas com as próprias roupas (foto: Getty Images)

Posts de fotos nas redes sociais contribuem para insatisfação delas com as próprias roupas (foto: Getty Images)

Publicado no Terra

Se você reclama do seu guarda-roupa, saiba que não é a única. Uma pesquisa realizada pela Sharps Bedrooms, no Reino Unido, constatou que as mulheres possuem, em média, 107 peças de roupa, mas, pelo menos uma  vez por semana, dizem que não têm o que vestir. Um dos motivos são as fotos postadas nas redes sociais, que fazem com que achem que os modelitos já estão ultrapassados. Os dados são do jornal Daily Mail.

As roupas também são consideradas inadequadas por estarem apertadas demais, grandes, não-lavadas ou amassadas. As entrevistadas consideraram que 36% dos itens de vestuário que possuem não são usáveis e declararam que ainda não estrearam 15% deles.

A pesquisa também descobriu que 67% delas acham traumático ter que encontrar algo para vestir para um evento especial e 64% sempre acabam comprando algo novo. Além disso, 36% adquirem roupas e, em seguida, as escondem dos parceiros.

A devastadora “modernidade” do novo Iphone5

Suspeita de comprar estanho que é extraído por crianças e arrasa um paraíso ambiental, Apple reage tratando usuários como otários

Vinicius Gomes, no Outras Palavras

“Mineração sem regras reduz florestas a paisagem pós-holocausto, de areia e subsolo ácido. Crianças trabalham em condições chocantes. Um mineiro morre, em acidente de trabalho, a cada semana."

“Mineração sem regras reduz florestas a paisagem pós-holocausto, de areia e subsolo ácido. Crianças trabalham em condições chocantes. Um mineiro morre, em acidente de trabalho, a cada semana.”

Toda vez que um novo iPhone está para ser lançado, produz-se um frisson mundial. No caso do novo Iphone 5S, não foi diferente. Pessoas acamparam por semanas em frente à loja da Apple em Nova York, esperando que suas portas se abrissem. Quando isso finalmente ocorreu, foram saudadas pelos funcionários como se tivessem acabado de conquistar uma medalha de ouro nas Olimpíadas. Mas por trás de toda a fanfarra de marketing, existe uma realidade que quase nunca é acompanhada pela mídia com tanta empolgação como as filas em frente das lojas.

O jornalista britânico George Monbiot começou a revelá-la esta semana, em seu blog. A Apple, demonstrou ele, participa de um dos crimes ambientais que melhor expõem a desigualdade das relações Norte-Sul e a irracionalidade contemporânea. Ela provavelmente compra estanho produzido, na Indonésia, em relações sociais e de desprezo pela natureza que lembram as do século 19. Pior: convidada por ativistas a corrigir esta prática, a empresa esquiva-se – destoando inclusive de suas concorrentes. E, ao fazê-lo, usa argumentos que sugerem: trata o público s seus consumidores como se fossem incapazes de outra atitude mental além do ímpeto de consumo.

Monbiot refere-se ao uso, pelos fabricantes de celulares, do estanho extraído da ilha de Bangka, na Indonésia. O metal é indispensável para a soldagem interna dos smartphones. Cerca de 30% da produção global concentra-se na Indonésia – mais precisamente, em Bangka. O problema são as condições de extração.

O jornalista as descreve: “Uma orgia de mineração sem regras está reduzindo um sistema complexo de florestas tropicais e campos a uma paisagem pós-holocausto de areia e subsolo ácido. Dragas de estanho, nas águas costeiras, também estão varrendo os corais, os manguezais, os mariscos gigantes, a pesca e as praias usadas como ninhos pelas tartarugas”.

130926-bankga03A cobiça pelo estanho barato não poupa nem a natureza, nem o ser humano. Monbiot prossegue: “Crianças são empregadas, em condições chocantes. Em média, um mineiro morre, em acidente de trabalho, a cada semana. A água limpa está desaparacendo. A malária espalha-se e os mosquitos proliferam nas minas abandonadas. Pequenos agricultores são removidos de suas terras”

Estas condições desesperadoras desencadearam reação de ativistas. A organização internacional Amigos da Terra articulou o movimento. Não se trata de algo conduzido por rebeldes sem causa. A campanha reconhece que eliminar a mineração seria uma proposta inviável, por desempregar milhares de pessoas. Propõe, ao contrário, um pacto. Todo o estanho produzido em Bangka é adquirido pelas corporações que fabricam celulares. Se elas concordarem em respeitar condições sociais e ambientais decentes, a exploração de gente e da natureza não poderá prosseguir.

Sete fabricantes transnacionais abriram diálogo com a campanha: Samsung, Philips, Nokia, Sony, Blackberry, Motorola e LG. A única das grandes fabricantes a se recusar foi a Apple – também conhecida por encomendar a fabricação de seus aparelhos às indústrias de ultra-exploração do trabalho humano da Foxconn.

O mais bizarro, conta Monbiot, são os estratagemas primitivos usados pela Apple para evitar um compromisso de respeito aos direitos e à natureza. O jornalista procurou por duas vezes, nos últimos dias, o diretor de Relações Públicas da empresa. Propôs, em nome da transparência, um diálogo gravado. Sugestão negada. Na conversa reservada, relata, não obteve informação alguma, exceto uma sugestão: dirija-se a nosso site.

Mas é lá, diverte-se Monbiot, que a Apple mais zomba da inteligência dos consumidores. A corporação informa, placidamente, que “a Ilha de Bangka, na Indonésia, é uma das principais regiões produtoras de estanho no mundo. Preocupações recentes sobre a mineração ilegal de estanho na região levaram a Apple a uma visitas de inspeção, para saber mais”. Mas a Apple não reconhece que compra o metal produzido em Bangka – provavelmente para não se comprometer com a campanha contra a exploração devastadora. O jornalista, então, pergunta: “Por que dar-se ao trabalho de uma visita de inspeção, se você não usa o estanho da ilha? E se você usa, por que não admiti-lo?”

Tudo isso sugeriria renunciar a um celular? Claro que não, diz Monbiot. Trata-se de exigir das empresas respeito a normas sociais e ambientais. Pressionadas, sete corporações transnacionais ao menos admitiram debater o tema. A Apple destoou. Quem tem respeito pelos direitos sociais e pela natureza deveria evitar os aparelhos da empresa, recomenda o jornalista.

130926-bangka02Quem quer ir além pode, por exemplo, optar pelo Fairphone, celular produzido por empreendedores expressamente interessados em proteger direitos e ambiente. Estará disponível a partir de dezembro. Porém, mais de 15 mil unidades já foram vendidas, nos últimos meses a consumidores conscientes.

dica do Leandro Miranda da Gloria

Nova orientação para psicólogos prega que adolescência agora vai até os 25 anos

Diretriz propõe extensão do período para que a maturidade emocional e o desenvolvimento hormonal esperem desenvolvimento total do córtex pré-frontal

Infantilização: mais anos dependentes dos pais (foto: Julia Freeman-Woolpert / StockPhoto)

Infantilização: mais anos dependentes dos pais (foto: Julia Freeman-Woolpert / StockPhoto)

Publicado em O Globo

LONDRES – Uma nova orientação para psicólogos americanos prega que a adolescência agora vai até os 25 anos, e não apenas até os 18 anos como estava previsto.

- A ideia de que de repente, aos 18 anos, a pessoa já é adulta não é bem verdade – disse à BBC a psicóloga infantil Laverne Antrobus, que trabalha na Clínica Tavistock, em Londres. – Minha experiência com jovens é de que eles ainda precisam de muito apoio e ajuda além dessa idade.

A mudança serve para ajudar a garantir que quando os jovens atingem a idade de 18 anos não caiam nas lacunas no sistema de saúde e educação – nem criança, nem adulto – e acompanha os acontecimentos em nossa compreensão de maturidade emocional, desenvolvimento hormonal e atividade cerebral.

Há três estágios da adolescência: dos 12 aos 14, dos 15 aos 17 e dos 18 em diante. A neurociência tem mostrado que o desenvolvimento cognitivo de uma pessoa jovem continua em um estágio mais tardio e que, sua maturidade emocional, a autoimagem e o julgamento são afetados até que o córtex pré-frontal seja totalmente desenvolvido.

O professor de sociologia Frank Furedi, da Universidade de Kent, defende que já há um grande número de jovens infantilizados e que a medida só vai fazer com que homens e mulheres fiquem ainda mais tempo na casa dos pais.

- Frequentemente se apontam as razões econômicas para este fenômeno, mas não é bem por causa disso – diz . – Houve uma perda da aspiração por independência. Quando eu fui para a universidade, se fosse visto com meus pais decretaria minha morte social. Agora parece que esta é a regra.

Furedi acredita que esta cultura da infantilização intensificou o sentimento de dependência passiva, que pode levar a dificuldades na condução dos relacionamentos maduros. E não acredita que o mundo virou um lugar mais difícil para se viver.

- Acho que o mundo não ficou mais cruel, nós seguramos nossas crianças por muito tempo. Com 11, 12, 13 anos não deixamos que saiam sozinhos. Com 14, 15, os isolamos da experiência da vida real. Tratamos os estudantes universitários da mesma maneira que tratamos alunos da escola, então eu acho que é esse tipo de efeito cumulativo de infantilização que é responsável por isso.