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Irmãos unidos pela dor

florhRicardo Gondim

Carrego uma sucessão de “cs” e com eles, uma miríade de preconceitos: cearense, canhoto, corintiano e careca. A ordem dos “cs” obedece uma importante cronologia. Na infância, notei que outros canhotos iguais a mim também eram tratados como portadores de deficiência. Depois, anos mais tarde, me mudei para São Paulo e descobri que muitos sulistas têm reservas contra nordestino. Mesmo em tom de brincadeira, ouvi expressões baixas para descrevê-los. Baiano é preguiçoso. Paraibano é burro. Nem preciso falar dos corintianos: gambá, maloqueiro, bandido. A inferência não repousa na provocação entre torcedores, mas na necessidade de tornar o pobre malcheiroso ou igualar o maloqueiro a bandido. Por último, crescentemente careca, amargo comentários jocosos – e bobos – sobre calvos.

Desde cedo, ouvi pessoas da família dizerem que eu era menino desastrado. Coincidentemente, além de sinistro, não tinha boa coordenação motora. Para piorar, sem relação alguma com o fato de ter que escrever com a mão torta, nunca alcancei excelência escolar. Minhas notas sempre foram medianas. Jamais ganhei um campeonato de matemática. Nenhum professor tratou minha redação como modelo. Entrei para a universidade pública em penúltimo lugar. Não recordo quase nada do que me ensinaram de estatística, macro-economia ou direito.

Nas relações sociais, nem que tente, consigo ser a alegria da festa. Prefiro ambientes intimistas. Não sei dançar. Canto pior que as gralhas. Sou introvertido em pequenos grupos.

Tenho raríssimos prodígios para relatar como líder de uma comunidade evangélica. As igrejas que pastoreei são frequentadas por pessoas comuns que lutam, diariamente, contra as circunstâncias cruéis do Brasil da periferia. Vivemos apertados. Nunca sobra dinheiro na tesouraria. Preparo sermões na base do suor, estudo e, vez por outra, lágrimas. Não tenho boa memória, por isso estudo feito um condenado.

Não pretendo polemizar com os inteligentíssimos mestres da teologia fundamentalista. Eles me dariam um banho de lógica. Nem entendo porque faço inimigos. (Não anseio começar um novo movimento ou escola de pensamento). Só escrevo e tensiono as ideias por não querer me acomodar às limitações que trago desde o berço. Se acabei antipatizado por gente que não conheço, foi sem intenção.

Há poucos dias conversei com um jovem também cearense. Sua história me comoveu. Ele também tinha uma lista, sem os “cs“, mas bem mais sofrida que a minha: Ricardo, você não imagina a carga de preconceito que rapazes iguais a mim sofrem: nordestino, negro, pobre e homossexual, morando na periferia de São Paulo. Depois que ouvi a história do meu conterrâneo, desejei sair da posição de conselheiro e ser, simplesmente, seu amigo.

Imaginei o Everest de problemas que ele enfrentava, bem mais altos e íngremes que os meus. Passei a dividir com ele um pedaço da minha história. Enquanto repartíamos nossas inquietações, sonhamos com um mundo em que ninguém seria discriminado devido a gênero, cor da pele, status social ou orientação sexual. (Lembrei da criança que foi espancada até a morte pelo pai por ter trejeitos femininos).

Quem sabe, jogamos algumas sementes no chão árido em que pisamos juntos. Resta esperar que elas se tornem árvores frondosas, onde a próxima geração buscará sombra. Ali em meu escritório, sem estardalhaço, sem messianismo e sem oportunismo, éramos parceiros. Nossas dores nos uniam e a esperança nos fazia irmãos.

Soli Deo Gloria

fonte: site do Ricardo Gondim

Justiça de SP condena shopping a indenizar músico negro barrado

Músico cubano afirma que foi levado a local remoto e interrogado.
Shopping Cidade Jardim ainda não se manifestou.

Publicado no G1

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Pedro Bandera (Foto: Arquivo pessoal)

A Justiça de São Paulo condenou o Shopping Cidade Jardim, localizado na Zona Oeste, a pagar indenização de R$ 6,7 mil ao músico cubano Pedro Damian Bandera Izquierdo como indenização por danos morais.  Bandera diz ter sido vítima de racismo ao ser abordado por seguranças do shopping em agosto de 2010, no momento em que entrava no centro de compras para fazer um show. Procurada pelo G1 neste sábado, a assessoria do  shopping não atendeu aos telefonemas e nem retornou e-mail.

“Gostei muito da decisão. A gente vê situações de discriminação o tempo inteiro e muitas vezes as pessoas terminam não fazendo nada. Acho que o fato de que existe essa discriminação é um alerta”, afirmou. “Sou músico, preparado intelectual e fisicamente. O dinheiro é totalmente simbólico. O que vale é a condenação”, afirmou.

Bandera diz que entrava no shopping pelo mesmo lugar que outros músicos da banda, brancos, também entraram, mas só ele, negro, foi abordado, levado para uma área remota e submetido a uma bateria de perguntas antes da chegada da polícia.

“Alegaram que era por causa dos instrumentos, mas eu estava sem instrumentos. Senti hostilidade mesmo. Não foi como ‘por favor, nos acompanhe’. Me senti atropelado, violentado, foi por causa da minha cor”, afirmou.

Ele conta que enquanto respondia aos questionamentos, cercado por seguranças, ele ouviu um dos seguranças dizer no rádio: “Estão suspeitando do indivíduo porque ele alega que vem fazer um show, está sem instrumentos e de táxi.” Mais do que as palavras, o que incomodou o músico foi o gestual, a postura do segurança.

Bandera disse que no dia seguinte entrou em contato com o Serviço de Atendimento ao Cliente (SAC) so shopping, que não tomou providências. “Não tive outra opção a não ser recorrer à Justiça”, afirmou. O processo criminal foi arquivado diante da dificuldade de localizar o segurança envolvido no episódio. Além do processo cível que o músico venceu em primeira instância, há outro processo administrativo na Secretaria Estadual de Justiça que prevê multa e até lacração do estebelecimento.

dica do Sidnei Carvalho de Souza

Manequim negro “acorrentado” no Pão de Açúcar gera protestos

Críticas de consumidores na internet fizeram estátua de criança negra com correntes nos pés ser retirada do local

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Publicado na Exame

Alguns consumidores usaram as redes sociais para protestar contra a escolha de um manequim infantil negro e de pés acorrentados como parte da decoração de uma unidade da rede de supermercados Pão de Açúcar, em São Paulo.

A estátua, com grilhões no tornozelo, foi considerada de mau gosto por internautas, e motivou críticas em páginas do Facebook e fóruns especializados essa semana. Os comentários negativos consideraram infeliz a escolha de uma imagem associada à escravidão, além do status “decorativo” dado à obra. Alguns ainda associaram o manequim à apologia ao trabalho infantil. “O cesto é de proporções incompatíveis à estatura da criança e seria um sacrifício, seja pelo tamanho ou pelo peso para ser carregado”, condena post da página Site Mundo Negro.

Após a recepção controversa, a rede divulgou um posicionamento nesta quinta-feira lamentando o ocorrido, a afirmando que providenciou a retirada da estátua, que estava presente em uma unidade no bairro da Vila Romana, capital. Segundo o Pão de Açúcar, o manequim em questão foi adquirido como parte de uma coleção de peças decorativas, “sem intenção ou apologia a qualquer tipo de discriminação”.

O texto prossegue: “A rede agradece os contatos recebidos dos clientes e lamenta o fato ocorrido, uma vez que pauta suas ações na ética, promoção e respeito à diversidade”.

“Tinha que ser preto mesmo!” e a nossa ignorância diária

Leonardo Sakamoto, no Blog do Sakamoto

Tinha que ser preto mesmo!

Preto quando não faz na entrada faz na saída.

Sabe quando preto toma laranjada? Quando rola briga na feira.

Amor, fecha rápido o vidro que tá vindo um escurinho mal encarado.

Olha, meu filho, não sou preconceituoso, não. Até tenho amigos negros.

Ouviu aquele batuque? É um terreiro de macumba. Logo aqui na nossa rua! Mas o João Vítor vai dar um jeito nisso, ele conhece uma pessoa na subprefeitura que vai tirar essa gente daí. Essas coisas do diabo me dão arrepios.

Eu adoro o Brasil porque é um país onde não existe racismo como nos Estados Unidos. Aqui, brancos e negros vivem em harmonia. Todos com as mesmas oportunidades e desfrutando dos mesmos direitos.

Se eu deixaria minha filha casar-se com um negro? Claro! Se ela conhecer um, poderá sem sombra de dúvida.

Tá tão difícil encontrar uma empregada decente ultimamente. Ainda bem que achei a Maria. Ela é de cor, mas super honesta.

Quilombolas são pessoas indolentes. Erra o governo ao mantê-los naquele estado de selvageria.
 A terra poderia estar sendo usada para produzir algo, sabe? Ainda mais com tanta gente vivendo apertada em favelas! É o Brasil…

Vê se me entende que eu vou explicar uma vez só. A política de cotas é perigosa e ruim para os próprios negros, pois passarão a se sentir discriminados na sociedade – fato que não ocorre hoje.

É aquele ali, ó. Sim, o “moreninho”.

Meu filho não vai fazer um projeto de escola sobre coisas da África. A gente é evangélico e queremos que ele leia a bíblia e não esses satanismos como… como…como era o nome daquele livro mesmo que a professora passou? Sim! Macunaíma.

Cotas ameaçam o princípio de que todos são iguais perante a lei, o que temos conseguido cumprir, apesar das adversidades.

Ele é um exemplo. É negro e, mesmo assim, virou ministro do Supremo Tribunal Federal sem ajuda de ninguém.

No 20 de novembro, quando se rememora a morte de Zumbi dos Palmares, é celebrado o Dia da Consciência Negra em várias cidades do país. Um momento de reflexão e de resistência sobre os frutos da escravidão, de um 13 de maio incompleto (que significou mais uma mudança na metodologia de exploração da força de trabalho do que uma abolição de fato), sentido no dia a dia. Dia que deveria ser aproveitado por todos aqueles que têm seus direitos fundamentais rasgados para uma análise mais profunda do que têm feito para sair da condição de gado.

Alguns vão dizer que o tema é repetido neste blog. Mas era preciso.

Porque a nossa idiotice não tem limites. E a ignorância é um lugar quentinho.

imagem: Grupo Escolar

dica do Sergio Luiz