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‘Meu público é todo mundo, não tem religião’, diz cantora Aline Barros

Cantora é um dos maiores nomes da música gospel no Brasil

Aline Barros comenta sobre a carreira (foto: Rafael Kistenmacher / Divulgação)

Aline Barros comenta sobre a carreira (foto: Rafael
Kistenmacher / Divulgação)

Anna Gabriela Ribeiro, no G1

Vencedora de cinco Grammys, a cantora Aline Barros já vendeu milhões de discos e é um dos maiores nomes da música gospel no Brasil. Mas para a artista, passar mensagens de fé é muito mais importante do que a fama. Aline Barros faz show em Santos, no litoral de São Paulo, neste sábado (28) e conversou com o G1 sobre a carreira.

O show que será apresentado na cidade faz parte da turnê que marca os 20 anos de carreira de Aline Barros. “Estamos preparando um mix de 20 anos de ministério, e relembrar um pouco de toda essa história vai ser lindo e impactante. Vamos ver as pessoas adorando ao Senhor, várias gerações reunidas”, diz.

A cantora comenta ainda sobre as premiações que já recebeu e como lida com o sucesso. “Prêmios até consolidam a carreira de um artista, principalmente no exterior, mas me preocupo apenas em fazer aquilo que está no coração de Deus e passar para essa geração a essência da verdadeira adoração. O chamado para a minha vida é pregar o amor de Deus e ser testemunha desse amor por onde eu passar. A única coisa que posso dizer de tudo que aconteceu é que o Espírito Santo é lindo. É Ele quem convence o homem, quem trabalha o nosso coração. E esta é a minha missão”, ressalta Aline.

Sobre a grande participação do público gospel em shows atualmente, a cantora diz que acredita não ter um público definido. “Meu público eu acho que é todo mundo, não tem tamanho, nem idade e muito menos religião. Aliás, não prego religião, mas a vida que há em mim através de Jesus, isso sim é evangelho”, afirma.

Aline Barros conta que admira alguns cantores, mas que não tem ídolos. “No começo da carreira, Michael W. Smith e a Banda Jesus Culture me inspiraram. ‘Consagração’ é a música que não pode faltar no meu show, é minha favorita”, revela.

Questionada sobre a importância de falar sobre Deus, Aline Barros comenta que a música é um objeto muito poderoso. “A música tem o poder de tocar o homem sim, e é um instrumento muito poderoso, por isso devemos saber usa-lá da melhor forma, para que ela traga o ser humano para perto de Deus. Essa intimidade com Deus nos ensina cada dia mais a amar, perdoar, ser agradecido, ter um coração que deseja mais e mais esse Deus”, finaliza Aline.

foto: Rafael Kistenmacher / Divulgação

foto: Rafael Kistenmacher / Divulgação

dica do Deiner Urzedo

O cidadão Teletubbie

Pensar pra quê? Ouvir o voto pra quê? Em nosso primário exercício de assimilação, tudo “termina em pizza” e ninguém precisa de juiz. Basta votar em enquete

Matheus Pichonelli, na CartaCapital

O método Telettubies de assimilação política: basta ver uma imagem e repetir “bo-bo, “ban-di-do”, “sa-fa-dos”, “ca-na-lha”

O método Telettubies de assimilação política: basta ver uma imagem e repetir “bo-bo, “ban-di-do”, “sa-fa-dos”, “ca-na-lha”

Há um momento da vida em que o mundo ao redor é um amontoado de signos sem significados. Chama-se infância. Nessa fase, uma pedra não é uma pedra. Não tem sequer nome. É apenas um material disforme que simplesmente existe. À medida que aprendemos que uma pedra é uma pedra e não um ovo, passamos a assimilar a ideia de valor e grandeza. De significado, enfim. Leva tempo.

Mal resumindo, é assim que aprendemos a compreender o mundo, até então uma associação inicial e pouco sofisticada de ideias projetadas em sílabas repetidas vagarosamente. Como numa peça de Lego, encaixamos as sílabas “a” “ma” “re” e “lo” e associamos o borrão apresentado em um cartaz, ou na tevê, ao nome das cores. Vemos o desenho de um arco ascendente e alguém explica ser um “sor-ri-so”. E descobrimos que a bola de fogo a-ma-re-la de-se-nha-da é o “sol”. Daí o sucesso de programas como Teletubbies na formação dos nossos quadrúpedes (porque ainda engatinham) não alfabetizados. Peça por peça, eles aprendem a codificar o mundo. E se tornam adultos.

Nessa nova fase, aprendemos – ou deveríamos aprender – que existe uma infinidade de tamanhos, formas e cores de pedras, algumas com muito mais do que cinquenta tons numa mesma superfície, tenham elas nomes inventados ou não. Umas têm valor de uso, e servem para a guerra. Outras têm valor de troca, e vão parar nos pescoços mais endinheirados. Alguns dirão a vida toda que, não importa o que te ensinam, é sempre bom desconfiar de afirmações categóricas de quem jura que uma pedra é uma pedra e que isto não se discute. E se uma pedra é capaz de provocar tanto embate, o que não se vê e nem se toca é nitroglicerina pura. Ao longo dos séculos, o que dá dentro da gente e e não devia também recebe nome, valor e peso, mesmo sem ter forma nem espessura. Com base nestes nomes, criamos as leis (filosóficas, físicas, jurídicas e até sentimentais). São elas as responsáveis por regular as mais complexas, inconfessáveis, inacabadas, incompletas, mal diagnosticadas e muitas vezes inomináveis relações humanas. Alguns estudam estas leis. Por anos. Pela vida toda. Mais do que qualquer outro bípede, que a essa altura da vida já não engatinha.

No mundo ideal, seria prudente ouvi-los antes de tomar posição. Mas, no mundo real, ainda estamos conectando peças de Lego, as sílabas jogadas por variações de um mesmo Teletubbie que nos ensinou a falar quando nossa manifestação verbal era ainda gutural. Tornamo-nos bípedes, mas continuamos babando, repetindo com a boca e os olhos hipnotizados, com vozes vacilantes, as associações criadas neste grande programa Teletubbies que é a televisão, o rádio, a revista, o jornal, o meme de duas frases do Facebook e o e-mail da tia indignada: “ban-di-do”, “im-pu-ni-da-de”, “is-so-é-u-ma-ver-go-nha”, “cor-ruP-Tos”, “cu-ba-nos-mal-va-dos”, “va-mos-a-ca-bar-como-a-Ve-ne-zu-e-la” (custa crer que alguns aprenderam a repetir as sílabas dos “embargos infringentes” sem a ajuda do lexotan).

As associações, muitas vezes, são criadas por cores ou rostos. Não é preciso saber o que é massa nem energia nem teoria nem relatividade para associar Albert Einstein a valores como “in-te-li-gên-cia”, “ge-ni-a-li-da-de”. Não é preciso sequer formular uma frase inteira. Basta repetir uma ideia pronta. Ou praguejar. Dizer se é bom ou ruim sem explicar os porquês. E dar sequência às reações coletivas, de manada, diante do vermelho. Ou do azul. Ou da foto um ex-presidente com barba. Ou de um ex-presidente sem barba. Não é preciso ler jornal, só a primeira frase do título; basta reagir diante de uma foto. Não é preciso sequer analisar o conteúdo. Nem diferenciar uma Constituição de uma capivara. Operamos, afinal, com símbolos prontos, acabados, imutáveis. E, assim, basta ao rockeiro boa-pinta colocar um nariz de palhaço para, como um bom Teletubbie, se comunicar com a sua plateia de Teletubbie: “bo-bo, “ban-di-do”, “sa-fa-dos”, “ca-na-lhas”.

Pensar pra quê? Ouvir o decano, ou quem quer que seja, para quê? Não importa o que se diga, nem em que se embase. No fim a única associação que conseguimos fazer do amontoado de palavras voadoras de significantes sem significados durante o voto de um ministro da Suprema Corte é que tudo é só uma grande “piz-za”. Ou uma vitória da “de-mo-cra-cia”. Ou uma resposta aos “gol-pis-tas”. Ou uma “in-fâ-mia” à opinião pública que grita, sonolenta, “A-cor-da-Bra-sil” e sonha com o dia em que o Congresso e o Judiciário se transformem em um grande estacionamento privado. No país do “que país é este”, os porta-vozes da suposta maioria se ressentem pela “o-fen-sas” constantes de uma corte de 11 juízes que usam as leis para afrontar a “jus-ti-ça” e proclamar a “im-pu-ni-da-de”. Ou de 594 parlamentares, “pa-gos-às-nos-sas-cus-tas” para, “on-de-já-se-viu”, criarem leis. Leis para quê? Dependesse dessa maioria de pensamento binário, todas as contradições e penas e direito de defesa se resumiriam a uma grande enquete. “Se você acha que eles erraram e devem morrer, curta. Se acha que devem ser linchados, compartilhe. Participe. A sua opinião é muito importante. O final, você decide”. Nesta forma curiosa de aprimoramento democrático, pensar é dispensável, mas grunhir, feito porco, é exercício pleno de cidadania.

dica do Jénerson Alves ‏

As muitas previsões de Isaac Asimov em 1964 que se tornaram realidade

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Publicado no Gizmodo

Em 1964, após visitar a gigantesca Feira Mundial de Nova York, o escritor Isaac Asimov, então com 42 anos, viu o que ele considerou os primeiros passos de um futuro distante. Um futuro, mais precisamente, em 2014. Quase 50 anos depois, é assustadora a precisão de Asimov em alguns dos pontos que ele decidiu prever.

É importante lembrar, claro, que a missão da clarividência é sempre muito perigosa – as chances de errar são enormes, e até hoje caçoamos daqueles que não tiveram uma visão muita precisa (oras, é só lembrar que a piada nostradâmica de Ballmer ao falar sobre o possível insucesso do iPhone é lembrada até hoje).

Mesmo assim, com uma tarefa considerada ingrata por muitos, Asimov era o personagem ideal para fazer esse tipo de previsão. Afinal, Asimov foi um dos grandes nomes da literatura de ficção científica, criando marcos como as Três Leis da Robótica, publicado originalmente no livro Eu, Robô – livros e histórias que até hoje servem de base para filmes futuristas, mesmo tantas décadas depois.

Assim, acompanhe conosco onde Asimov acertou, errou ou passou perto em seu belo texto prevendo um futuro extremamente tecnológico, mas que não necessariamente seria um lugar utópico e incrível. Eis o texto completo. E, após a leitura, recomendamos o exercício mental: você consegue arriscar o que estaremos usando em 2064?

Onde ele acertou em cheio

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As comunicações combinarão som e imagem, e você vai ver e ouvir a pessoa para quem você telefonar. A tela pode ser usada não só para ver as pessoas para quem você liga, mas também para o estudo de documentos e fotografias, e para ler trechos de livros. Satélites síncronos, pairando no espaço, permitirão a você ligar diretamente para qualquer ponto da Terra, incluindo as estações meteorológicas da Antártida…

Asimov acertou ao prever o futuro das telecomunicações. O conceito de videochamada, de usar a tela do telefone para outros fins, e de conectar o mundo através da telefonia, se realizaram nos últimos 50 anos. (A imagem acima é do filme 2001: Uma Odisseia no Espaçolançado alguns anos depois que Asimov publicou seu texto.)


Um número enorme de conversas simultâneas… poderão ser feitas por raios laser modulados, que são fáceis de se manipular no espaço. Na Terra, no entanto, os feixes de laser terão de ser conduzidos através de tubos de plástico, para evitar a interferência material e atmosférica. Os engenheiros ainda vão lidar com esse problema em 2014.

Este é praticamente o conceito da fibra óptica, que conecta o mundo inteiro através da telefonia e internet. A comunicação via fibra óptica começou a ser desenvolvida na década de 70, portanto depois das previsões de Asimov. E não só os engenheiros têm problemas com os cabos submarinos: eles são os tubos pelos quais os EUA espionam o mundo.


Quanto à televisão, TVs de parede terão substituído os aparelhos comuns; mas cubos transparentes terão aparecido, nos quais será possível ver vídeos na terceira dimensão.

Sim! A TV cresceu e se tornou fina o bastante para ser presa à parede. Com as resoluções 4K e 8K, elas podem ficar ainda maiores sem perder a qualidade de imagem. E a ideia do cubo transparente é quase uma TV holográfica, que pode ser vista em três dimensões e de fato ainda está em seus estágios iniciais.

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 … até 2014, apenas naves não-tripuladas terão aterrissado em Marte, mas uma missão tripulada estará sendo planejada…

Sim! A Curiosity está explorando o planeta vermelho agora mesmo, em busca de sinais de vida passada, e o presidente Obama já disse que planeja enviar humanos a Marte. Ainda há o projetoMars One, para instalar uma colônia humana no planeta e ocupá-la a partir de 2023. Sensacional, Asimov.


Em 2014, há uma enorme probabilidade de que a população mundial será de 6,5 bilhões, e a população dos EUA será de 350 milhões.

Prever esses números há cinquenta anos e chegar tão perto, para mim, é um acerto. Estamos em 7,1 bilhões de pessoas no mundo; os EUA têm 317 milhões de habitantes.


Nem toda a população do mundo vai aproveitar ao máximo o mundo do futuro cheio de gadgets. Uma parte maior do que hoje será privada disso, e embora possa estar numa situação materialmente melhor do que hoje, eles estarão ainda mais atrasados quando comparados com as partes avançadas do mundo.

Os avanços tecnológicos, infelizmente, são para a minoria em uma escala global. Asimov acertou em cheio.


Mesmo assim, a humanidade sofrerá gravemente com a doença do tédio, uma doença que se espalhará de forma mais ampla a cada ano e crescendo em intensidade. Isso vai ter consequências mentais, emocionais e sociológicas sérias, e ouso dizer que a psiquiatria será, de longe, a especialidade médica mais importante em 2014.

É de dar arrepios essa previsão de Asimov. Nossas relações com a tecnologia acaba nos deixando mais tristes. Não é por ser “tedioso”: é que não estamos interagindo de fato com outras pessoas. A internet está nos deixando deprimidos. Ou você nunca teve aquela sensação de vazio depois de ficar horas com o celular na mão, ou em frente ao computador? E os gadgets têm mesmo um impacto na sociedade: pense no Google Glass, por exemplo, e a polêmica que seu uso trouxe.


Os poucos sortudos que puderem se envolver no trabalho criativo de qualquer espécie serão a verdadeira elite da humanidade, pois farão mais do que servir a uma máquina.

Sim. À medida que adotamos a automação, os trabalhos criativos continuaram a ganhar destaque.


Na verdade, a especulação mais sombria que eu posso fazer sobre 2014 d.C. é que em uma sociedade de lazer forçado, a única palavra mais gloriosa no vocabulário se tornará o trabalho!

Nunca se discutiu tanto as questões de trabalho versus lazer. Você faz o que gosta? Gosta do que faz?

Onde ele acertou em parte

Dispositivos sem fio e com bateria duradoura: Sim, nossos gadgets estão se tornando cada vez mais móveis, e a tecnologia caminha para que fios se tornem cada vez mais obsoletos. No entanto, a bateria deles ainda dura pouco, não usa material radioativo, e ainda dependemos dos fios. Até o carregador wireless tem fio!

Triunfo da energia nuclear e solar, inclusive coletada no espaço: A energia nuclear ainda é um ponto muito polêmico – vide o desastre em Fukushima, no Japão – por isso boa parte da energia consumida no mundo ainda vem de combustíveis fósseis. Nossa visão para o futuro agora está voltada para fontes renováveis, como a energia eólica e solar, assim como Asimov aponta. No entanto, obter a energia do Sol direto do espaço ainda é um sonho futurista.

Robôs mais espertos, movidos a computadores, porém longe do ideal: Cinquenta anos foi o bastante para criarmos robôs incríveis, como o BigDog e outros da Boston Dynamics, que agem quase como seres vivos. E temos robôs muito bons atuando na indústria, é claro. Existem até robôs sociais, cuidando de idosos no Japão, por exemplo. E eles realmente usam pequenos computadores para receber comandos e realizar ações. No entanto, ainda estamos engatinhando em muitos aspectos da robótica, assim como Asimov previu.

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Veículos autônomos: Veículos que se guiam sozinhos são praticamente uma realidade na aviação. Eles já existiam na época de Asimov: em 1947, um US Air Force C-54 fez um voo transatlântico, incluindo decolagem e pouso, apenas usando o piloto automático. No entanto, o “autopilot” se popularizou, e agora estamos nos esforçando para criar carros que andam sozinhos, como os do Google.

Comida congelada domina a alimentação, mas cozinha ainda tem espaço para preparo manual: Já existiam refeições congeladas na época de Asimov: elas começaram a ganhar espaço na década de 50. Asimov acertou que elas iriam se popularizar. No entanto, elas não substituem a comida feita no fogão, o “pequeno canto” onde são feitas as refeições de forma manual.

Janelas polarizadas: Nos anos 60, foi criada a película para janelas, que escurece quando recebe luz solar. Elas são usadas ao redor do mundo, porém não na escala que Asimov imaginava.

Máquinas fazem trabalhos rotineiros melhor que humanos, e servimos apenas para cuidar das máquinas: Quando um emprego é substituído por um robô, por exemplo, surge a demanda por pessoas que saibam controlá-lo, e que possam fazer sua manutenção. No entanto, ainda estamos longe de uma sociedade que apenas cuida de máquinas, porque a automação ainda não chegou ao ponto que Asimov esperava.

Computação e programação como disciplina nas escolas: Asimov acertou que computadores se tornariam onipresentes o bastante para aprendermos a usá-los na escola. No entanto, ele dizia algo além: previa que nós iríamos aprender a criar código para elas. Quem dera! Ensinar programação deveria mesmo ser obrigatório no ensino médio.

Dispositivos que substituem ou consertam partes do corpo; expectativa de vida em 85 anos; iniciativas para controle de natalidade: Ainda não usamos órgãos artificiais com a frequência que Asimov imaginou, mas estamos rumando a um futuro assim. A medicina também avançou muito nos últimos 50 anos, e fizeram a expectativa de vida aumentar ao redor do mundo. A taxa de fertilidade, por sua vez, também caiu: à medida que as famílias migrara para as cidades, e à medida que as mulheres entraram no mercado de trabalho, muitos decidiram por ter menos filhos. Iniciativas como a Planned Parenthood nos EUA, o limite de um filho por casal na China, e a luta pelo direito ao aborto também surgiram desde a época de Asimov.

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Cozinha que prepara refeições automaticamente: Asimov previu que vários aparelhos tornariam a cozinha mais automática. Nesse sentido, ele acertou: o micro-ondas, por exemplo, só foi lançado em 1967. Ele até cita objetos como a cafeteira automática, lançada em 1972! No entanto, ele ia mais longe, imaginando dispositivos que fariam uma refeição inteira com mínima interação humana. Por exemplo, bastaria programar a cozinha na noite anterior para fazer o café da manhã, e ela o faria automaticamente, fritando ovos e bacon na hora marcada.

Alimentos artificiais vindos de algas e fungos: Tem algo de bastante correto aí. Estamos rumando para comidas totalmente artificiais, como o hambúrguer de laboratório. E sim, existe uma forte resistência à adoção desse tipo de comida.

Onde ele errou

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Casas subterrâneas: Asimov imaginava que os humanos morariam debaixo da terra, deixando a superfície do planeta para a agricultura e parques. Fizemos o contrário: criamos edifícios cada vez mais altos para morar e trabalhar.

Casas subaquáticas: Ainda não estamos habitando os oceanos. Há projetos nesse sentido, mas como mencionamos: estamos morando em edifícios cada vez mais altos, em vez de mais profundos.

Tetos e paredes eletroluminescentes: Essa é uma visão futurista até hoje: transformar todo o ambiente da sua casa através da iluminação. O mais perto que chegamos disso é usando a Philips Hue, lâmpada que muda de cor e pode ser controlada sem fios.

Robôs que limpam toda a casa: Mais uma vez, Asimov imaginava uma casa bastante automatizada, o que não acontece hoje em dia. No máximo temos o Roomba, um robô aspirador que na verdade é pequeno e ágil, mas não é inteligente como previsto há 50 anos.

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Veículos sem contato com a superfície, sobre a terra e a água: Basicamente, Asimov apostava na evolução e popularização de hovercrafts, que flutuam em vez de tocar o chão. Isso não aconteceu.

Calçadas que se movem, elevadas por cima dos veículos: Calçadas que se movem ainda são raridade. Esta ideia foi aplicada a aeroportos e estações de metrô, no entanto.

Colônias na Lua: Os humanos continuam a exploração espacial, e alguns já moram na órbita da Terra – olá, astronautas da ISS! Mas colônias na Lua ainda estão longe de se tornar realidade.

General Electric, feiras mundiais, e filmes 3D: Toda previsão do futuro tem elementos do tempo em que a pessoa vive. Para Asimov, as Feiras Mundiais ainda seriam relevantes hoje em dia, o que não é o caso. (Elas ainda existem, no entanto, e a próxima será na Itália em 2015.) O mesmo pode ser dito sobre a General Electric: ela continua sendo uma empresa gigante, mas não vem à mente quando se trata de inovações futurísticas. E estamos nos livrando do 3D, felizmente!

Fora do eixo

Ex-integrantes da entidade controladora do Mídia Ninja falam com exclusividade para CartaCapital e condenam práticas da organização

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Publicado na Carta Capital

Na esteira dos protestos de junho, a Mídia Ninja emergiu como uma novidade instigante, um novo modelo de jornalismo. A concepção é simples e barata: por meio de celulares, os repórteres ninjas transmitem pela internet as imagens dos acontecimentos. Não há texto nem edição, apenas os vídeos em estado bruto em transmissões que facilmente duram seis horas. Na página do grupo no Facebook, há ainda fotos dos atos.

O sucesso repentino tornou-se, porém, uma fonte de dor de cabeça. Tudo começou com a presença de dois de seus expoentes no Roda Viva, programa de entrevistas da TV Cultura, em 5 de agosto. O jornalista paulistano Bruno Torturra, até então, era a única face do Mídia Ninja, acrônimo de “Narrativas Independentes, Jornalismo e Ação”. A novidade foi a presença de Pablo Capilé, criador do coletivo Fora do Eixo, guru de uma nova forma de ativismo. Ficou clara a ligação umbilical dos dois (Ninja e Fora do Eixo), antes praticamente desconhecida.

Por que essa relação virou alvo de tantas críticas? Em pequenos círculos, não é de hoje, corriam acusações contra o movimento. A exposição de Capilé amplificou as acusações nas redes sociais, espaço de excelência do grupo. Nos últimos dias, CartaCapital ouviu oito ex-integrantes e debruçou-se sobre a estrutura organizacional do coletivo. Metade deixou-se identificar. Os demais preferiram não ter seus nomes citados, por medo de represálias, mas confirmam as informações dos ex-colegas. Emergem da apuração um aglomerado controverso, acusações de estelionato, dominação psicológica e ameaças.

Nas casas, os integrantes dividem quartos, dinheiro, comida e roupas. E estão submetidos ao “processo” do Fora do Eixo. “Primeiro te isolam. Proíbem de sair na rua ´sem motivo´, impedem de encontrar amigos ou estabelecer qualquer contato com pessoas de fora. Depois, vem a apropriação de toda a sua produção. O cara sai sem grana, sem portfólio e distante dos amigos antigos. Sem apoio psicológico ou da família vai demorar a se restabelecer social e profissionalmente”, diz o fotógrafo Rafael Rolim, 29 anos, 3 deles na organização, em contato direto com Capilé. Rolim e os demais integrantes ouvidos pela revista endossam o depoimento da ex-integrante Laís Bellini, postado nas redes sociais.

A cineasta Beatriz Seigner foi a primeira a criticar o coletivo. Em texto postado no Facebook dois dias após o Roda Viva, diz, entre outros pontos, que o Fora do Eixo rompeu acordos e não lhe pagou por exibições de seu filme. Escreveu ainda sobre o volume de trabalho dos integrantes, que não teriam direito à vida pessoal ou diversão. Se disse ainda impressionada com a devoção à figura de Capilé. E comentou a repercussão: “Chegaram centenas de mensagens de coletivos e artistas do Brasil todo agradecendo o desmonte da rede. Estou aliviada.”

No dia seguinte foi a vez de Laís Bellini. Segunda ex-integrante a se manifestar, seu longo relato é considerado por outros ex-membros o mais completo e fiel retrato do dia-a-dia do coletivo. Laís descreve uma estrutura radicalmente rígida e verticalizada, baseada em forte dominação psicológica. Para exemplificar, revela que foi afastada de um amigo antigo que vivia sob o mesmo teto – “Disseram: ´Laís, o Gabriel era seu amigo lá em Bauru. Aqui vocês não têm que ficar de conversa. Aqui dentro vocês não são amigos”; Laís revelou ainda o “choque-pesadelo”, prática que consiste em por uma pessoa na sala e “quebrá-la” moralmente, aos berros; a moça narrou ainda que a cúpula controla horários e saídas à rua e que o trabalho é extenuante e sem folga nem aos domingos. São vigiados até bate-papos no Facebook ou Gtalk. Laís está em meio a uma longa viagem pela América Latina, sem data pra voltar. A distância, diz, lhe deu coragem para falar. “Quando postei, tirei toneladas do ombro e comecei a chorar. Tomei coragem para dizer o que muitos têm medo mas que todos sabem que é verdade”.

Um dos pontos levantados pelos entrevistados é o uso dos integrantes como uma espécie de isca sexual, o chamado Catar e Cooptar. “Há reuniões na cúpula para definir quem vai dar em cima de você e te fisgar pra dentro da rede”, afirma Laís. O designer Alejandro Vargas, que morou por 3 anos na Casa Fortaleza, dá mais detalhes: “Numa viagem rolou um papo que ‘deveria ficar ali’, sobre ‘fazer a entrega para a rede’. Diziam: ‘tem o cara ou menina mais feios, mas que trampam muito’ e tem aqueles com ‘mais chances de ter relações’. Tem que fazer a entrega para alimentar o estímulo de quem é menos provido de beleza, inclusive de fora da rede, para trazer para dentro”.

Rolim acrescenta: “‘Catar e Cooptar’ é o termo usado pelo Pablo, com todas as letras e constantemente. Eu mesmo fui proibido por ele de me aproximar de uma pessoa com quem tinha afinidade porque, ‘para o processo’, eu deveria estar solteiro, eu era uma boa ‘isca’. Relações espontâneas entre dois integrantes, por amor, também não são bem vistas. Casais assim são pressionados a desmanchar, e é proibido ter relações com pessoas de fora da rede, a não ser por ordem superior. Capilé nega a prática. “As relações afetivas não são determinadas por regras do movimento, mas construídas por cada indivíduo, a partir dos desejos de cada um.”

O Fora do Eixo nasceu em 2005, e seu nome faz menção ao fato de a iniciativa ter começado em centros distantes de São Paulo e do Rio. Capilé é de Cuiabá. Do Mato Grosso, o coletivo expandiu-se para Uberlândia (MG) e Rio Branco (AC), e dali para outras cidades. A relação com os artistas funciona assim: uma banda iniciante entra na programação de eventos culturais do grupo e faz shows em algumas cidades. Não paga passagem, hospedagem e alimentação (fica nas casas Fora do Eixo). Em contrapartida, não recebe cachê. O dinheiro arrecadado com suas apresentações financia o movimento.

Capilé e seus apoiadores calculam 2000 integrantes, mas o Fora do Eixo se resume a sete casas (São Paulo, Belo Horizonte, Brasília, Fortaleza, Porto Alegre, Belém e Porto Velho), onde vivem em média dez ativistas, ou seja, cerca de 70 no total. Há ainda algumas casas de coletivos parceiros, como em Bauru e São Carlos. Quando se soma os agregados, na estimativa mais otimista, a organização tem hoje 200 participantes.

Oficialmente, o financiamento é baseado em shows e editais do governo ou de empresas estatais e privadas. Existe, no entanto, uma terceira fonte significativa: a apropriação de dinheiro e bens particulares de colaboradores. “Solicitaram um cartão de crédito que eu tinha em conjunto com meus pais para comprar passagens. Como a confiança era total, fui induzido a compartilhar a senha. Em um mês e meio gastaram 21 mil reais no meu cartão. Compraram um Macbook Pro novo para o Capilé, o que só soube quando a fatura chegou”, lamenta Rolim.

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