Arquivo da tag: Nossa

De um jeito ou de outro, o Brasil não será mais o mesmo

foto: Estadão

foto: Estadão

título original: A passeata do dia 18 de junho de 2013

Ricardo Gondim

Mal conseguíamos nos espremer no metrô superlotado. A excitação de participar do momento histórico, porém, nos deixava gostosamente inquietos. Eu estava acompanhado de um punhado de jovens de minha comunidade de fé, a Betesda, e isso me renovava. Logo que desembarcamos, corremos na direção de um mar de gente que se locomovia lentamente. À distância já se ouviam as palavras de ordem. Vários helicópteros davam uma sensação estranha – parecia que estávamos sendo acompanhados por um grande vigilante celestial que, vez por outra, disparava fachos de luz em nossa direção.

O que foi a passeata? – vou dividir por pontos, meu jeito de ordenar o relato.

  1. Quem marchou? Predominantemente jovens. A faixa etária ficava entre os 16 e os 30, no máximo. Eu, no alto dos meus cinquenta, era exceção. Uma senhora de 82 anos (segundo a turma ao meu lado constatou) foi alvo de várias fotos. É importante mencionar a faixa etária. A maioria desses jovens usava fraldas quando Lula foi eleito para o primeiro mandato. Eles não conheceram o PT das ruas, das reivindicações trabalhistas, interlocutor de grupos sociais, como MST. Para eles, o PT é mais um partido fisiológico, igual a todos – que negociou o Marco Feliciano na Comissão dos Direitos Humanos da Câmara, que deu o Ministério de Minas e Energia a um comparsa do Sarney, e que é réu sentenciado do mensalão.
  2. Qual era a atitude? Ao contrário do que se disse dos Caras Pintadas que derrubaram o Collor, eles não estavam fazendo um “carnaval-fora-de-hora”. Fiquei comovido com a militância solitária da moça que segurava um cartaz que dizia Apesar de toda a merda, eu ainda acredito nessa porra. Seu rosto expressava uma determinação que raras vezes observei em toda a minha vida. Vários jovens pararam de marchar para subir nas muretas e mostrar para todos as reivindicações que escreveram em cartolina, faixas e camisetas. Eles não estavam ali para brincadeira. Queriam avisar: já pingou a gota d’água que entorna o vaso.
  3. O que reivindicavam? Ouvi refrão de todo tipo. Alguns mandavam a Dilma tomar naquele lugar. Outros diziam que professor vale mais que um Neymar. Outros pediam saúde, escola e trabalho. Não esqueceram de gritar que o povo não se encanta com Copa, mas deseja viver em um país em que as escolas têm padrão Fifa. Marco Feliciano (a cura gay passou na comissão presidida por ele no dia da passeata) é um vilão nacional. Um cartaz particularmente me chamou atenção, dizia: quem se dispõe pagar para ler uma revista safada como a Veja, 0,20 não vale nada mesmo.
  4. Vândalos. Marchamos por quase 10km. Ninguém conseguirá me explicar  que “mão invisível” separou os ordeiros, que rumaram para a Paulista, dos vândalos, que tomaram a direção da prefeitura. Mais ainda, eu quero que alguém me explique porque eu e o grupo da Betesda ficamos entre os “bonzinhos”. Duas questões me vêm à mente: a) entre a Praça da Sé e o entroncamento da Paulista e Brigadeiro não havia nenhuma, absolutamente nenhuma, polícia. Zero! Ora, como cidadão que exerce o direito de protestar, eu quero, sim, que a polícia me proteja de eventuais ladrões, batedores da carteira e vândalos. Se acontecesse algum tumulto, não tínhamos ninguém para recorrer. Por que? A polícia não é para proteger? Ou ela só vai para a rua para reprimir? Fica a pergunta: essa ausência não foi proposital? A intenção não foi “deixa correr frouxo para que esse protesto degringole, vire baderna e seja desmerecido da opinião pública”? b) Quem era o cara fortão, bombado, que jogou grades de proteção contra as paredes da prefeitura? Os contemporâneos do atentado do Riocentro sabem da sordidez de infiltrar agentes para jogar bomba, insuflar revolta e desencadear tumulto. A baderna pode ser patrocinada por órgãos de segurança. No caso da passeata do dia 18 em São Paulo, devido a disparidade entre o que aconteceu na Paulista e o tumulto da prefeitura, estou certo, o tumulto foi orquestrado.
  5. Onde vai dar tudo isso? Nenhuma, eu disse nenhuma, revolução começou ordeira. Jesus virou mesas, a França experimentou o caos, Berlim teve carnaval em cima do muro. É próprio dos processos transformadores que se iniciem assim, meio anárquicos. Ainda é cedo para se especular sobre o futuro do “outono brasileiro”. As coisas podem se acalmar e voltarmos à pasmaceira de sempre (o que acho improvável). O regime pode recrudescer – “para evitar baderna” – e impor um “estado de sítio” ou “leis de exceção até que tudo volte à normalidade”. Podem surgir novas lideranças políticas que desbanquem as oligarquias que mandam no Brasil desde sempre. Tudo está em aberto, com certeza. O povo, entretanto, já deixou claro para os políticos: eles não poderão continuar encastelados em Brasília, cinicamente tratando de seus interesses pessoais ou representando grupos que financiam suas campanhas. De um jeito ou de outro, o Brasil não será mais o mesmo. E eu me sinto feliz por estar vivo em um tempo perigoso como este.

Soli Deo Gloria

fonte: site do Ricardo Gondim

Mulheres aprendem a ‘desmunhecar’ em curso para ‘atrair partidão’

A psicóloga e cupido Eliete de Medeiros, em seu escritório em São Paulo (foto: Avener Prado/Folhapress)

A psicóloga e cupido Eliete de Medeiros, em seu escritório em São Paulo (foto: Avener Prado/Folhapress)

Marianne Piemonte, na Folha de S.Paulo

Uma manhã cinza de sábado em São Paulo é um convite à preguiça, a um livro e àquela esticada na cama.

Mas só pode se dar a esse luxo quem não quiser se tornar “magnética” para conquistar um partidão, promessa do treinamento intensivo oferecido pela agência de relacionamentos Eclipse Love.

Dezenove mulheres a R$ 1.000 por cabecinha estavam lá, em uma sala da avenida Paulista, diante de um “powerpoint” que anunciava mudar suas vidas. Eram secretárias, arquitetas e psicólogas com idades entre 30 e 60 anos.

A criadora do programa, a psicóloga Eliete Amélia de Medeiros, 47, há 15 anos trabalha unindo casais e há dois abriu uma agência. Ela diz ser a primeira “heart hunter” (caçadora de corações) e chega a cobrar R$ 12 mil pelos seus serviços, que, segundo afirma, têm êxito de até 70%. Atualmente, diz, 2.500 pessoas contam com seu auxílio para ter sorte no amor.

SUTIÃ DA DISCÓRDIA

Na abertura do curso, Eliete explica que, como a Lua, as mulheres têm fases e é preciso respeitá-las. Pelo menos uma vez por mês, a mulher deve tomar um banho mais demorado e tirar um dia para apenas ingerir líquidos, cuidados que, avisa, se perderam com o tempo.

Após esse breve prólogo, dá-se início a um capítulo sobre etiqueta. Na tela está uma imagem de um sutiã em chamas. A professora diz: “Não foi nossa culpa que elas fizeram isso, mas precisamos resgatar a feminilidade e a tolerância se quisermos relacionamentos duradouros”.

Nessa aula, as mulheres aprendem que não devem falar com o garçom durante um jantar romântico; que homens reparam se a pedicure está em dia e que é proibido comer muito em um primeiro encontro.

Para a psicóloga Ana Letícia Pereira, 30, o capítulo foi bastante proveitoso. Ela acredita que perdeu um partidão por ter feito um pedido diretamente para o garçom durante um jantar. “Demonstrei ser independente demais.”

O que se fala à mesa também é importante: nada de tagarelar sobre trabalho. “Deixe esse assunto para eles, que já se sentem muito inferiorizados”, ensina.

Um dos slides mostra que 50% das pessoas não querem parceiros acima do peso. A própria Eliete costuma rejeitar gordos em sua agência. “Sou carinhosa e assertiva, digo que se ela emagrecer aumentará seu leque de oportunidades”, explica. Mas há gordos magnéticos, não?, a reportagem pergunta. “Não é o que dizem as pesquisas.”

Depois de um breve curso de maquiagem –porque cara lavada é sinal de desleixo–, Eliete volta com um guia prático do magnestismo. Todas as participantes estão com caneta em punho.

A primeira regra é a pontualidade. “Qual o problema em deixar um pretendente com uma Mercedes esperando na porta da sua casa por 15 minutos?” “Todos”, responde a plateia. São Paulo é uma cidade perigosa, além de ser sinal de falta de respeito, segundo as participantes.

Outro item elementar é o salto alto. “Sei que rasteirinhas e sapatilhas estão na moda, mas para atrair devemos usar salto”, diz Eliete. Ela mesma não descansou um segundo do seu salto 12.

FORÇA NO REQUEBRADO

As magnéticas são maleáveis, “batem cabelo” (jogo de cabeça para os lados), quebram os pulsos (sim, desmunhecar) e movem os quadris enquanto conversam.

Quem quer relacionamentos duradouros não deve transar na primeira noite, e o homem é quem paga o primeiro jantar. Mas a magnética também pode ser ousada e ligar no dia seguinte para agradecer o passeio, diz a professora, que informa estar há um ano e meio com um novo amor, após o divórcio.

Por volta das 15h acontece o segundo momento leve do curso, com dicas de como se vestir. Lembra a regra do salto? Então, ela vale também para praia ou piscina. “Como você não usa sapato nessas ocasiões, deve andar na ponta dos pés. Além de chamar atenção e olhares, gordurinhas e celulites ficam disfarçadas”, afirma Eliete. Nesse instante, ela demonstra como deve é esse andar. As alunas a seguem com o pescoço.

Para finalizar, a mestra pede que as mulheres fechem os olhos: vai começar uma técnica de relaxamento que, de quebra, promete aumentar a (estava faltando esta palavra) autoestima. Elas têm de visualizar uma “cena positiva” com o homem dos sonhos e guardar esse retrato. Depois, devem pensar numa pessoa muito especial, alguém que amem acima de tudo. Nessa hora, Eliete toca o ombro de cada uma, sinal para que abram os olhos. Um espelho está diante delas. Algumas não resistem e choram.

A bancária Milena Jorge, 35, do interior de São Paulo, foi uma. Depois de 14 anos de namoro, três de casamento e um bebê de um ano, descobriu a traição do marido em uma mensagem no celular.

Há cinco meses separada, resolveu acelerar a volta por cima. O caminho mais breve foi a agência e o curso.

“Sou caseira, não conseguiria me expor nas baladas. Tenho filho, por isso preciso de alguém que faça a primeira triagem. Vai que me deparo com um ladrão?” Se o curso fez diferença na vida dela? Absolutamente.

Naquele mesmo sábado, ela foi a um “happy hour” promovido pela agência. Conheceu um rapaz e colocou seu magnetismo à prova. Ela não era o perfil que o cara buscava –ele queria mulher sem filhos. Mas o rapaz não resistiu. No próximo fim de semana, Milena receberá o pretendente em sua cidade.

Eliete programa a versão do curso para homens no próximo semestre, com dicas de culinária, dança e enologia.

dica do Sidnei Carvalho de Souza

Grupos religiosos preparam ofensiva contra indicação de Barroso ao STF

Advogado constitucionalista, Barroso tem uma atuação marcante na área dos direitos humanos. Ele enfrenta resistência de católicos e evangélicos.

Foto: Lula Marques - 9.set.2009/Folhapress

Foto: Lula Marques – 9.set.2009/Folhapress

Publicado originalmente na Folha de S. Paulo

Incomodados com a escolha do advogado Luís Roberto Barroso para o Supremo Tribunal Federal (STF), grupos religiosos preparam uma ofensiva no Senado para tentar derrubar a indicação da presidente Dilma Rousseff.

Advogado constitucionalista, Barroso tem uma atuação marcante na área dos direitos humanos. Ele enfrenta resistência de católicos e evangélicos.

No STF, Barroso defendeu pesquisas com células-tronco e a equiparação das uniões homoafetivas às uniões estáveis convencionais.

“Vamos fazer uma espécie de dossiê com todas as declarações dele sobre os assuntos que nos são caros”, disse o advogado Paulo Fernando, do grupo Pró-Vida, ligado à Igreja Católica. “Dificilmente o nome dele será derrubado, mas ele precisa saber que estamos de olho”, disse.

Representantes do grupo católico esperam conseguir apoio especialmente de parlamentares ligados aos segmentos religiosos.

O nome do constitucionalista agradou aos ativistas gays, que o consideram “maravilhoso aliado da dignidade humana”. “Foi a melhor pessoa para a nossa comunidade”, diz texto de Toni Reis, secretário de Educação da Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais.

A indicação de Barroso foi lida ontem no plenário do Senado. Ele terá de passar por uma sabatina na Comissão de Constituição e Justiça, que deve ser realizada na metade de junho, e por uma votação no plenário. (MÁRCIO FALCÃO, JOHANNA NUBLAT e GABRIELA GUERREIRO)

Dica do Guilherme Basilio

Os 14 tipos de fotos de perfil nas redes sociais

Como a capa de um livro ou um trailer de filme, sua imagem de perfil diz às pessoas como você é, e do que você mais gosta.

perfil00014

Por Leslie Horn, no Gizmodo

Uma foto do perfil representa quem você é. Você quer mostrar que é divertido, interessante, viajado, sagaz, ou quaisquer outras qualidades desejáveis. Mas somos também muito previsíveis: nossas fotos de perfil podem ser resumidas em 14 categorias específicas.

Como a capa de um livro ou um trailer de filme, sua imagem de perfil diz às pessoas como você é, e do que você mais gosta. É uma oportunidade para você se gabar, e nós indexamos as formas de fazer isso.

Claro, isso não quer dizer que alguma destas opções esteja errada – embora algumas possam ser meio irritantes. Veja os perfis de seus amigos. Veja o seu próprio perfil. Vocês provavelmente se encaixam em uma dessas 14 categorias:

1) O “Olá, Estamos Apaixonados”

14-fotos-perfil-10

Noivou há pouco tempo? Recém-casado? Cego pelo poder do amor? Este é simples de detectar. É uma imagem da cerimônia, talvez uma foto de um casal abraçado, com a mão esquerda da moça na posição “ele é meu, olha só o anel” (mão esquerda no peito).

2) O “Olhe Para o Bebê”

14-fotos-perfil-2

Você procriou! Sabemos disso porque vemos sua prole na sua foto de perfil. E mesmo que todos estejam muito felizes por você – e que seu bebê seja uma gracinha – ficamos levemente confusos e nos perguntamos se, de alguma forma, você entrou em uma situação Benjamin Button.

3) A Lembrança

14-fotos-perfil-3

Esta pode ser uma série de coisas: uma foto sua em um uniforme de escola, uma foto de bebê fofinho tirada de um álbum dos seus pais – é um mergulho de volta ao passado.

4) O Viajante

14-fotos-perfil-3

Olha, você já passou duas semanas na Europa, enquanto nossas férias ainda estão longe de chegar. Você precisa esfregar isso na nossa cara, mudando seu avatar para uma foto de você passeando bem longe do trabalho?

5) O Animal de Estimação

14-fotos-perfil-5

Claro, você adora seu animal de estimação – e quem não adora? Mas você ama tanto que seu pet É você… pelo menos de acordo com a sua imagem de perfil.

Continue lendo

Nós, incompletos

Desde quando ficou feio precisar do carinho e da atenção do outro?

foto: Internet

foto: Internet

Ivan Martins, na Época

Gente perfeita não precisa dos outros. São tipos como você e eu que necessitam das qualidades dos parceiros. Eles nos emprestam organização, paciência e disciplina, em troca de humor, espontaneidade e imaginação. Eles nos dão coragem quando somos covardes, nos acalmam se estamos em fúria e elucidam, com a sua inteligência, tramas que nós seriamos incapazes de enxergar. Eles não são melhores do que nós, mas são diferentes – e isso, boa parte das vezes, é essencial.

Enfatizo tamanha obviedade porque estamos sufocados pela ideia de perfeição. Para garantir a nossa posição no relacionamento (e no mundo) temos de ser bonitos, inteligentes e bem-sucedidos. Além de totalmente independentes, claro: estou com você porque eu quero, não porque preciso, entendeu? Precisar do amor e da atenção do outro é feio.

Tenho um amigo que há pouco menos de um mês quebrou o braço direito. Nas primeiras semanas depois da queda – e da cirurgia que se seguiu – ele virou um dependente físico. Precisava da namorada para amarrar o seu sapato, ajudá-lo a tomar banho, vestir a camiseta e cortar o bife. Vendo os dois naquela cena de enfermagem, num almoço de domingo, me ocorreu que, sem ela, ele estaria frito. Iria se virar de algum jeito, claro, mas sem a sensação gostosa de ser cuidado e querido, que deve ter feito diferença enorme durante a chatice da recuperação.

Acho que esse caso encerra uma metáfora sobre os nossos relacionamentos.

Nós todos nascemos com algo quebrado dentro de nós. Essa fratura primordial impede a auto-suficiência e exige a presença do outro. Uma pessoa amada, querida ou apenas desejada mitiga a nossa dor original e provê, com a sua presença, algumas sensações essenciais. Ela nos dá o prazer do contato corporal, ela garante a segurança de não estarmos sós, ela oferece, com seus olhares e seus gestos, a admiração e o carinho sem o qual a nossa personalidade murcha.

Todos precisam de atenção, mas nem todos são capazes de aceitá-la calmamente. Ao sentir-se dependente – isto é, ligado ao outro – muita gente pira. Arruma razões fúteis para brigar, enlouquece de ciúme, sente-se sufocar pela presença do outro. Ao final, dá um jeito de chutar o pau da barraca e acabar com aquilo, para enlouquecer de dor logo em seguida. É um paradoxo triste e comum. As pessoas sofrem sozinhas, mas não conseguem permitir que alguém chegue tão perto a ponto de comovê-las – e ameaçá-las com a possibilidade de uma dor ainda maior.

Isso tem a ver também com o espírito do tempo que vivemos.

As pessoas tornaram-se vigorosamente individualistas. As virtudes do século XXI são aquelas do sujeito solitário e decidido que se impõe a um mundo amorfo. Pense nos heróis da nossa época: Steve Jobs, Neymar e até a presidente Dilma. Eles fazem tudo sozinhos, não fazem? O resto da empresa, do time, do governo, existe apenas para executar sua vontade onisciente ou para permitir que ele ou ela exerça o seu gênio autoritário.

Esse mito – da pessoa que não precisa de ninguém – é uma falsidade que invadiu o nosso modo de pensar. E até a nossa intimidade. Agora, todos seremos gênios solitários. Ou pelo menos burros independentes. Bonito é não precisar emocionalmente de ninguém.

Acho isso tudo uma babaquice, claro. Nós precisamos dos outros. Sempre. Do cara que nos vende o bilhete de metrô à mulher que nos abraça no meio da noite, somos profundamente dependentes das pessoas que nos cercam. Sem as ideias e os sentimentos alheios o nosso próprio mundo não avança – e não há nada de errado em admitir isso.

Se for o caso, claro, a gente se aguenta sozinho. Todos já passamos por isso e é bom saber que resistimos. Estar só, afinal, pode ser inevitável – mas não precisamos fingir que é a melhor maneira de viver. Na qualidade de pessoas imperfeitas e dependentes, florescemos na presença de outros como nós, para quem a nossa presença também é essencial. Entender isso ajuda a ter paciência com quem está ao lado. E a desfrutar melhor da sua presença. A nossa humanidade requer o outro. Sejamos humildes. Sejamos modestos. Quanto mais desarmados estivermos na presença do outro, melhor.