Crivella condena postura de pastor que aparece em vídeo pedindo votos dentro de uma Igreja Universal

‘Acho que não se devia fazer nenhuma política dentro de igrejas’, disse o candidato do PRB

Crivella caminha na feira de Campo Grande (foto: Fabio Seixo / Agência O Globo)
Crivella caminha na feira de Campo Grande (foto: Fabio Seixo / Agência O Globo)

Rafael Galdo, em O Globo

Em caminhada com a militância do PT neste domingo em Campo Grande, na Zona Oeste, o candidato do PRB ao governo no Rio, Marcelo Crivella, condenou a campanha política dentro de igrejas. Num vídeo publicado neste fim de semana pelo GLOBO, um pastor da Catedral da Fé, da Igreja Universal do Reino de Deus (Iurd), em Del Castilho, aparece pedindo explicitamente, na antevéspera do primeiro turno, que os fiéis votassem em Crivella e em candidatos a deputado do PRB. O senador, no entanto, afirmou que “igreja não é lugar de pedir voto”.

– Acho que não se devia fazer nenhuma política dentro de igrejas. Eu não faço desde que me elegi. E, antes disso, também nunca fiz. Agora, compreendo. Está todo mundo muito revoltado com a questão da saúde, do transporte e, sobretudo, com a corrupção, com a roubalheira do governo. Então, às vezes, as pessoas extravasam aquilo que não deviam fazer. Eu não recomendo – defendeu-se Crivella, que na última semana tem sofrido ataques do seu adversário, Luiz Fernando Pezão (PMDB), que o tem relacionado repetidamente à Iurd.

Na propaganda política na TV deste sábado, por exemplo, a aliança do peemedebista exibiu uma reportagem de 1995, do Jornal Nacional, da Rede Globo, em que o bispo Edir Macedo, líder da Iurd, aparece num vídeo amador orientando pastores sobre como proceder diante dos fiéis e arrecadar dinheiro dos religiosos. Macedo é tio de Crivella. E Pezão vem insistindo, neste segundo turno, em referências ao bispo, para vinculá-lo a seu opositor. O senador, no entanto, classificou o programa de TV como “baixaria”.

– Ele está tentando ganhar apelando, botando a mão na bola. São coisas de 15 anos atrás, já passadas e superadas – diz Crivella. – Acho que nem devo responder. Agora o povo vai responder nas urnas, porque tem horror à baixaria. Isso é choro – completou.

Por outro lado, Crivella voltou a ligar o peemedebista ao ex-governador Sérgio Cabral (PMDB), chamando Pezão de “Cabrão”. E insinuou que o tom da campanha de seu adversário na segunda rodada do pleito é mais próprio de Cabral do que de Pezão.

– O Pezão acho até que reagiria melhor. Mas o Cabral não admite ficar agora sem os helicópteros e perder o dinheiro do governo para ir a Paris, fazer festas com guardanapos – disse o senador.

Durante a caminhada, numa feira em Campo Grande, tanto a militância do PT quanto a do PRB fizerem campanha também para a presidente Dilma Rousseff (PT), com músicas relacionando Crivella à petista. O senador novamente pediu votos à aliada. Ele já tinha feito um discurso na feira, sem citar Dilma, quando retornou ao microfone para falar sobre a postulante à reeleição, destacando o veto dela à redistribuição dos royalties do petróleo.

CANDIDATO DIZ QUE MANTERÁ O ‘RIO SEM HOMOFOBIA’

No dia em que ativistas LGBT convocaram, pela internet, uma parada gay não oficial em Copacabana (que ganhou o nome de I Nova Parada LGBT, com objetivo de exigir que os candidatos à Presidência se posicionem sobre temas como a criminalização da homofobia), Crivella também se comprometeu com a continuidade de programas e de direitos da população homossexual no Rio. Segundo ele, se eleito, vai manter o programa Rio Sem Homofobia, criado no governo Cabral para implementar a política LGBT no estado.

– Vou manter o programa Rio Sem Homofobia e todos os direitos, além de ser contra qualquer tipo de violência, seja física ou mesmo psicológica. Quero respeitar os homossexuais, assim como espero que eles me respeitem – disse Crivella, dias depois de lideranças da causa LGBT se articularem para pregar uma campanha contra o senador que, segundo eles, ameaçaria as conquistas obtidas pelo movimento nos últimos anos.

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Estrangeiros que vieram para a Copa do Mundo continuam no Rio de Janeiro meses após a final

‘Copariocas’ se somam aos 69,3 mil estrangeiros que já residem na capital. No Mundial, Rio foi a cidade mais visitada

A americana Elle Bergmann prepara caipirinhas em um 'hostel' na Lapa (foto: Adriana Lorete / Agência O Globo)
A americana Elle Bergmann prepara caipirinhas em um ‘hostel’ na Lapa (foto: Adriana Lorete / Agência O Globo)

Caio Barretto Briso, em O Globo

Elle Bergmann abre o freezer e pega uma cerveja gelada. Entrega a um inglês sem camisa que acabara de acordar. O relógio na parede marca 14h, ela pega outra longneck, tira a tampinha com a mão e bebe no gargalo. Não poderia sentir-se mais à vontade, como reforçam seus pés descalços. A cena se passa num descolado hostel na Lapa, onde a americana de 25 anos trabalha preparando caipirinhas. Embora não fale português, é ela quem vai às compras e escolhe as frutas da época num mercado na Rua do Riachuelo.

— Meu pai diz que vivo numa bolha — conta, com olhos de um azul translúcido. — Mas estou feliz. Muita gente no meu país só viaja pelo mundo depois de se aposentar. Nunca sonhei com essa vida para mim — completa.

Elle deixou para trás a pequena ilha de Hilton Head, no estado da Carolina do Sul (com menos de 40 mil habitantes), para viver in loco a emoção de sua primeira Copa do Mundo. Já estivera aqui no começo do ano, em pleno carnaval, durante um mochilão pelo continente. Quando desembarcou no Rio pela segunda vez, pouco antes de o Mundial começar, estava decidida a permanecer após o torneio. Conseguiu o trabalho de bargirl, que não chega a ser lucrativo, mas ela ainda tem as economias que fez durante um ano trabalhando como garçonete nos Estados Unidos.

O Rio foi a cidade mais visitada durante a Copa, com 886 mil turistas, mais da metade formada por gente de outros países, segundo o Ministério do Turismo. Pelos encantos da vida praiana, pelo espírito de aventura e também pela dificuldade de emprego na terra natal, muitos se recusam a ir embora e encorpam os 69,3 mil estrangeiros que já residem na capital — dado do Censo de 2010. Continuam espalhados por aí, prolongando a estadia o quanto podem, todos querendo “sugar a essência da vida”, como diria o escritor Henry David Thoreau em seu clássico “Walden’’.

Num bar vazio da Avenida Mem de Sá, o alemão Ritter Milan, de 24 anos, espera a namorada. O olhar se ilumina quando Camila chega, cabelos cacheados, sorriso solar. Foi uma dessas loucuras da vida que os uniu. Era sábado à noite, começo de Copa, e o Rio fervia, com gente de todo o planeta bebendo e cantando pelas ruas. Conheceram-se sob os Arcos da Lapa, na fila de uma barraca de caipirinha. No batuque de um samba, o primeiro beijo.

— Ele é meu conto de fadas — derrete-se Camila Barros, arquiteta, de 27 anos.

— Ela mudou minha vida — devolve Milan.

Ritter Milan veio com um namorada alemã, mas apaixonou-se por uma carioca e está no Rio até hoje (foto: Adriana Lorete / Agência O Globo)
Ritter Milan veio com um namorada alemã, mas apaixonou-se por uma carioca e está no Rio até hoje (foto: Adriana Lorete / Agência O Globo)

QUANDO O FIM É SÓ O COMEÇO

Nascido em Munique e torcedor do poderoso Bayern, ele era outro quando chegou ao Rio. Desembarcou na cidade com a ex-namorada alemã, um relacionamento que durava seis anos. Sonhava viver o clima da Copa por duas semanas e, quem sabe, ver sua seleção vencedora. Antes de chegarem, passaram alguns meses perambulando pelo mundo. Mas o amor era vacilante — a própria ideia de viajar foi uma tentativa de despertar sentimentos adormecidos. No Rio, a menina pôs um ponto final na história e voltou para Munique. Milan, que trabalha como corretor de imóveis e tirou uma licença não remunerada para viajar, decidiu continuar sozinho sua estada no Rio.

— Fiquei triste, mas éramos como amigos, nem sexo rolava mais. Pensei que teria uma vida de solteiro no Rio, mas conheci a Camila uma semana depois. Foi uma coisa maluca — conta.

As duas semanas que ele passaria na cidade já viraram três meses. Os dois estão morando juntos no apartamento dela, no Largo do Machado. Milan joga basquete no Aterro do Flamengo, faz musculação nos aparelhos da praia, apaixonou-se por molho vinagrete (“nunca comi nada igual”, afirma). Ele acha graça da maneira como é abordado por traficantes na orla de Copacabana:

— Primeiro oferecem uma canga, depois maconha, por último cocaína.

Mesmo sem falar inglês, os familiares de Camila já o tratam como filho. No último churrasco dos Costa, em Campo Grande, o avô pronunciou o nome do casal como se fosse um só (“Camilan”), em seguida desenhou no ar um coração.

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Cartilha eleitoral

Documento da CNBB sobre as eleições examina a conjuntura política do país à luz da doutrina social da Igreja

consequencias

Frei Betto, em O Globo

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) lançou este mês o documento “Seu voto tem consequências: um novo mundo, uma nova sociedade”, no intuito de orientar os católicos nas próximas eleições.

Trata-se de um documento apartidário, porém à luz da doutrina social da Igreja e dos documentos papais e episcopais. “As eleições deste ano de 2014 são importantes, não só porque presidente, deputados, senadores e governadores têm uma incidência muito grande na vida da população, mas porque está em jogo também o projeto político, social e econômico para o Brasil”, afirma o texto.

Será que a Igreja Católica, ao emitir o documento, estaria “se metendo em política”, como alardeiam os ingênuos? Primeiro, nós, cristãos, somos todos discípulos de um prisioneiro político. Jesus não morreu doente na cama. Foi preso, torturado e condenado à pena de morte dos romanos (a cruz) por dois poderes políticos!

Segundo, em política ninguém é neutro, seja por omissão, seja por participação. Terceiro, historicamente a Igreja sempre tendeu a fazer a política dos nobres, dos opressores, dos escravocratas e dos poderosos.

A CNBB elenca as conquistas significativas dos governos do PT: “Os dados mostram que, nos últimos dez anos, cerca de 28 milhões de brasileiros deixaram a extrema miséria e a pobreza e passaram a ter uma renda melhor. Este foi um salto significativo na nossa realidade social. Um dos fatores importantes para este resultado foi o aumento real do salário-mínimo — acima da inflação. Outra contribuição veio do programa de transferência de renda para famílias extremamente pobres, o Bolsa-Família. A taxa de desemprego vem caindo regularmente desde 2003 e ficou em 5,4% em 2013. O Brasil foi um dos países onde se registrou maior redução da pobreza nesse período.”

Quanto aos aspectos negativos, diz o documento: “Como apontaram as manifestações, os recursos para a saúde e para a educação — as principais políticas sociais de um país — são bastante limitados e vêm aumentando muito lentamente.”

Quanto aos gastos com a dívida pública: “Se quisermos saber para quem um governo trabalha, temos de examinar para onde estão indo os recursos. Atualmente, eles são destinados, em primeiro lugar, para o pagamento da dívida pública e de seus juros. Em 2013, quase metade do orçamento público (40%) foi destinado para os juros, amortização e rolagem da dívida, enquanto menos de 5% foi para a saúde e menos de 4% para a educação. Este ‘sistema da dívida’ é o grande devorador dos recursos públicos. É o maior gasto do governo, e faz com que faltem recursos para o transporte, a saúde, a educação, o saneamento básico e outras políticas sociais.”

O documento critica ainda a violação dos direitos indígenas e dos quilombolas; a lentidão da reforma agrária; as privatizações; os megaprojetos que afetam as populações mais pobres. E reforça o apoio ao Projeto de Lei de Iniciativa Popular, que recolhe assinaturas em prol da reforma política, e conclama à participação no plebiscito por uma Constituinte exclusiva pela reforma política, que ocorrerá na Semana da Pátria, entre 1 e 7 de setembro.

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Movimento dos Sem sexo

Alianças do movimento Eu escolhi esperar, que defende o sexo depois do casamento (foto:  Daniela Dacorso)
Alianças do movimento Eu escolhi esperar, que defende o sexo depois do casamento (foto: Daniela Dacorso)

Roberta Salomone, em O Globo

No último ano do curso de Turismo de uma universidade em Teresópolis, a carioca Bruna Nunes teve que conciliar os estudos com trabalho durante a Copa do Mundo. Selecionada entre várias outras meninas, ela conseguiu uma vaga de promotora de eventos do espaço de uma marca de sabão em pó na Granja Comary. Entre uma demonstração e outra do produto, a jovem, de 22 anos, via, de longe, a comissão técnica e os astros da seleção brasileira, que ficaram concentrados no local. Um dia, resolveu chegar mais perto de David Luiz.

— Descobri que ele também tinha escolhido esperar. Como eu — conta, enigmática.

A opção de Bruna e David Luiz é um dos pilares do movimento Eu Escolhi Esperar (EEE), que defende o sexo somente depois do casamento:

Bruna Nunes e David Luiz
Bruna Nunes e David Luiz

— Entreguei um pacote com camiseta, livros e pulseiras da campanha, e a gente tirou uma foto que foi publicada em vários lugares, incluindo um jornal da Índia. Fiquei impressionada com a repercussão.

Antes do encontro e da pífia campanha do time no Mundial, o jogador do Paris Saint-Germain tinha citado o EEE duas vezes em suas redes sociais. Ao contrário do jogador Kaká, que afirmou ter casado virgem, David Luiz, de 27 anos, sempre foi discreto e pouco comenta sobre suas relações — muito menos as sexuais. Mas o fato é que, depois do breve encontro dos dois, a campanha atraiu milhares de adeptos e curiosos. Na página do grupo no Facebook, o número de curtidas quadruplicou desde 2012 e já batem os dois milhões. O zagueiro, que já conquistara a fama de muso fora de campo, acabou virando garoto-propaganda informal do movimento — a ponto de ganhar uma paródia, “David Luiz, eu resolvi esperar você”, numa página de fãs na internet.

— Graças a ele, o movimento saiu das quatro paredes das igrejas católica, batista e evangélica, gerou interesse num número ainda maior de pessoas e, para a nossa surpresa, foi parar até em outros países — comemora Carla Duarte, secretária executiva de uma multinacional de Engenharia e integrante do EEE desde 2011.

No currículo da vida afetiva de Carla, de 27 anos, alguns rolos, namoros, um noivado, decepções amorosas e, sim, experiências sexuais. Ao contrário do que se imagina, quem não é mais virgem também pode voltar à sala de espera. O segredo está em não renegar o passado e aceitar que, a partir dali, é preciso se guardar totalmente para o futuro cônjuge.

— Algumas amigas me chamaram de louca, mas posso dizer que sou muito mais feliz assim — garante Carla, sem namorado há três anos. — É claro que tenho desejos. Eu não sou poste, né? O negócio é controlar a mente e não beijar ninguém na boca. Pra mim, se acender em cima, acaba esquentando embaixo.

Ana Carolina Terto, de 20 anos, é virgem e quer continuar assim, intacta, até o casamento. O grande desafio é segurar a vontade de acender em cima, já que está sem namorado firme no momento. Colunista do site do EEE, Ana escreve sobre os mais diferentes assuntos em seus posts. O último deles foi intitulado “Muita calma nessa hora”. Por causa de seus textos, recebe e-mails de gente de todo o país, e virou uma espécie de consultora virtual para quem quer aprender a resistir às tentações.

— Da noite para o dia virei uma referência para outros jovens, e o que eu explico é que não é exatamente a castidade que buscamos. Queremos relacionamentos saudáveis e duradouros — diz Ana Carolina, funcionária de uma seguradora.

A oficial da Marinha Mercante Nelsiane Carrara conheceu o Eu Escolhi Esperar via internet, há três anos. Desde então, ela confessa que teve algumas recaídas. Namorou durante seis meses e ainda ficou com alguns rapazes depois. Mas ela jura: não rolou nada além de beijo.

— Foi aí que eu percebi que isso não estava me fazendo bem e que estava indo contra o que eu mesmo acreditava. Agora, estou há um ano e três meses sem me envolver com ninguém. Ninguém mesmo — afirma Nelsiane, 25 anos.

Até antes de se conhecerem e começarem a namorar, Cássio Pedroso e Sara Costa pensavam como a colega do EEE. Juntos há pouco mais de um ano, não são mais tão radicais. Quando se encontram, por exemplo, não economizam nas carícias. Tem beijo, abraço e conversa ao pé do ouvido seguida de risadas e outros carinhos. Transar, eles garantem, só depois de subir ao altar, na noite de núpcias.

— Não me finjo de santa. Cássio sabe de tudo que já vivi e não tenho por que esconder nada. Mas agora tudo é diferente: resolvi esperar por ele — afirma a estudante de História, de 22 anos, ainda sem previsão de quando será o grande dia.

Como Cássio e Sara, cada casal tenta estabelecer suas próprias regras dentro do relacionamento. No entanto, o idealizador do movimento, o carioca Nelson Junior, destaca alguns “mandamentos’’ importantes. Em vídeo publicado no canal do EEE no YouTube, que tem mais de 1,3 milhão de visualizações, ele diz: “A maioria das pessoas que se casou virgem só guardou a merenda para o recreio. Mas o que adianta fazer isso se o parquinho está liberado? É uma hipocrisia.”

A masturbação, outro tema polêmico, é sumariamente condenada. “Toda pessoa que se masturba precisa abusar da criatividade sexual e fantasiar sendo tocado por uma outra pessoa. Por exemplo, ninguém se masturba pensando num iPhone”, brinca o pastor de 37 anos, sempre usando uma linguagem engraçadinha e cheia de gírias.

A história de Nelson foi a inspiração para a criação de uma conta no Twitter em 2011. Ele se casou virgem aos 21 anos e até hoje vive com a mesma mulher. Com a repercussão crescente, a campanha virou um instituto, tem uma equipe de oito pessoas baseada em Vila Velha, no Espírito Santo, e uma loja virtual que vende diversos produtos temáticos, como livros, DVDs, chaveiros e pulseiras.

— Eu mesmo sofri bullying por parte dos meus amigos quando dizia que não tinha tido relação sexual com ninguém, que foi uma decisão pessoal e não uma imposição religiosa. Mas hoje, mais do que falar sobre virgindade, queremos debater a cultura dos relacionamentos descartáveis e mostrar que não somos extraterrestres só porque achamos que prazer sexual não pode estar em primeiro lugar — acredita o pai de Ana Carolina, de 7 anos, e Milena, de 4 anos.

Com 80% dos integrantes mulheres e com idade entre 18 e 30 anos, o Eu Escolhi Esperar tem como símbolo uma mão espalmada com um anel no dedo anelar. A aliança é um dos produtos de maior sucesso, o único que não é vendido pelo site. Os aneis em prata só estão disponíveis para quem participa de encontros, que normalmente acontecem nos finais de semana e têm taxa simbólica de até R$ 20. Em fevereiro, cerca de oito mil pessoas estiveram em Fortaleza para ouvir Nelson e, por que não?, conhecer possíveis candidatos a futuros maridos e esposas.

— Acho que esse é o melhor lugar para você encontrar alguém que pense exatamente como você. Estou ansiosa aguardando o próximo evento no Rio — conta a corretora de seguros Adriana Laurindo, de 33 anos, simpatizante do grupo há sete meses.

Antes de São Gonçalo, que tem seminário marcado para o dia 22 de setembro, Nelson embarca no sábado que vem para Pernambuco, onde explana suas ideias sobre sexo, castidade e casamento em Recife e Caruaru. Até outubro, passará ainda por Brasília, Campinas, Carapicuíba, Goiânia e São José dos Campos. Em 29 de agosto, Coral Springs, na Flórida, será seu destino.

Para os próximos meses estão marcadas palestras para as comunidades brasileiras em Portugal, Itália, Japão e Guiné Bissau. No fim do ano, a grande atração é um cruzeiro com atividades para os “casados e os não casados”. O navio Costa Favolosa, com teatro, cinema 4D, piscinas e academia de ginástica, sai de Santos no dia 13 de dezembro, numa viagem de três dias por Angra dos Reis e Ilhabela, com preços entre R$ 1.266 (cabine interna dupla) e R$ 2.116 (externa single).

Escolha de alguns famosos, como Miley Cyrus, Jonas Brothers e Selena Gomez — ainda que muitos deles não tenham ido adiante no compromisso com a castidade —, a virgindade é tema também de um programa na MTV americana, que estreou no último dia 16. “Virgin territory” acompanha e mostra os questionamentos de 15 virgens entre 19 e 23 anos. Até o final da série, o público vai descobrir quem conseguiu (ou não) controlar os próprios desejos.

— É muito importante dar aos jovens alternativas para que eles possam, sem pressão, fazer escolhas verdadeiras — acredita a americana Wendy Shalit, especialista no assunto e autora dos livros “The good girl revolution” (2008) e “A return to modesty: discovering the lost virtue”, não lançados no Brasil.

Para a sexóloga e colunista do GLOBO Laura Muller, não há regra que funcione para todos quando o tema é sexo:

— Cada um deve escolher como viver sua própria sexualidade, descobrindo os seus limites e caminhos. Mas é importante lembrar que é possível, sim, viver o sexo com amor, e também apenas por prazer. Na minha opinião, a palavra de ordem deve ser respeito.

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Francisco em terreno minado

Na visita à Terra Santa, o papa terá de tratar do delicado caráter religioso de Israel, sendo ele mesmo o chefe de um Estado religioso

foto: R7
foto: R7

Frei Betto, em O Globo

A visita de três dias do papa Francisco ao Oriente Médio, a partir do próximo sábado, visa a comemorar os 50 anos da viagem de Paulo VI à região, em 1964, quando se encontrou com o patriarca de Constantinopla, Athénagoras. A viagem tem muitas implicações políticas. Ocorre em um contexto geopolítico complexo, agravado pela guerra na Síria, que entra em seu terceiro ano consecutivo e provoca forte impacto nos países vizinhos, sobretudo no que se refere à segurança e aos refugiados (1 milhão proveniente da Síria, acampado na Jordânia).

Após voar de Roma a Amã, o papa irá de helicóptero diretamente a Belém, onde será recebido por Mahmoud Abbas, presidente do Estado da Palestina. Será o terceiro chefe de Estado a dispensar Israel como “porta de entrada” nos territórios palestinos. Os dois primeiros foram o rei da Jordânia e o emir do Qatar.

À beira do rio Jordão, onde Jesus foi batizado por seu primo e precursor João Batista, Francisco encontrará refugiados sírios e palestinos. Em Belém, receberá famílias palestinenses e crianças dos campos de refugiados de Dheisheh, Aida e Beit Jibrin. Hóspede de Mahmoud Abbas, o papa dará visibilidade e confirmará reconhecer o Estado da Palestina (reconhecido pelo Brasil desde 2010), o que sem dúvida cria um constrangimento diplomático aos países que ainda não o reconhecem, como Israel, EUA e toda a Europa Ocidental, excetuando Islândia e Malta.

No domingo e na segunda, a agenda de Francisco em Israel prevê encontros com autoridades políticas e religiosas. Acompanhado por dois velhos amigos de Buenos Aires, o rabino Abraham Skorka e o professor muçulmano Omar Abboud, o papa enfatizará a importância do diálogo entre as religiões monoteístas.

O tríduo na Terra Santa, que abrange 20 etapas e 15 pronunciamentos, entre homilias e discursos, ocorre em um momento difícil entre o governo israelense e a Autoridade Palestina, cujas relações estão congeladas desde o acordo entre a OLP (Organização para a Libertação da Palestina) e o Hamas, no mês passado. O discurso papal diante do muro que separa a Cisjordânia está sendo aguardado com expectativa por palestinos e israelenses.

A questão mais delicada que Francisco terá de enfrentar é o caráter religioso de Israel, oficialmente um “Estado judeu e democrático”. Sobretudo porque a Palestina decidiu, há pouco, suprimir da carteira de identidade de seus cidadãos o item de identificação religiosa. A diplomacia vaticana teme que a declaração de uma nação religiosa hebraica incentive países árabes a se proclamarem estados islâmicos, o que poderia favorecer o fundamentalismo e dificultar ainda mais o atribulado caminho da paz no Oriente Médio.

O recomendável seriam estados democráticos, laicos, constituídos sobre a igualdade de direitos e deveres para todos os cidadãos. Ocorre que Francisco se encontra no olho do paradoxo: o Estado do Vaticano também é religioso, e seu chefe de Estado se confunde com o líder de uma determinada confissão religiosa, o catolicismo.

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