Cartilha eleitoral

Documento da CNBB sobre as eleições examina a conjuntura política do país à luz da doutrina social da Igreja

consequencias

Frei Betto, em O Globo

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) lançou este mês o documento “Seu voto tem consequências: um novo mundo, uma nova sociedade”, no intuito de orientar os católicos nas próximas eleições.

Trata-se de um documento apartidário, porém à luz da doutrina social da Igreja e dos documentos papais e episcopais. “As eleições deste ano de 2014 são importantes, não só porque presidente, deputados, senadores e governadores têm uma incidência muito grande na vida da população, mas porque está em jogo também o projeto político, social e econômico para o Brasil”, afirma o texto.

Será que a Igreja Católica, ao emitir o documento, estaria “se metendo em política”, como alardeiam os ingênuos? Primeiro, nós, cristãos, somos todos discípulos de um prisioneiro político. Jesus não morreu doente na cama. Foi preso, torturado e condenado à pena de morte dos romanos (a cruz) por dois poderes políticos!

Segundo, em política ninguém é neutro, seja por omissão, seja por participação. Terceiro, historicamente a Igreja sempre tendeu a fazer a política dos nobres, dos opressores, dos escravocratas e dos poderosos.

A CNBB elenca as conquistas significativas dos governos do PT: “Os dados mostram que, nos últimos dez anos, cerca de 28 milhões de brasileiros deixaram a extrema miséria e a pobreza e passaram a ter uma renda melhor. Este foi um salto significativo na nossa realidade social. Um dos fatores importantes para este resultado foi o aumento real do salário-mínimo — acima da inflação. Outra contribuição veio do programa de transferência de renda para famílias extremamente pobres, o Bolsa-Família. A taxa de desemprego vem caindo regularmente desde 2003 e ficou em 5,4% em 2013. O Brasil foi um dos países onde se registrou maior redução da pobreza nesse período.”

Quanto aos aspectos negativos, diz o documento: “Como apontaram as manifestações, os recursos para a saúde e para a educação — as principais políticas sociais de um país — são bastante limitados e vêm aumentando muito lentamente.”

Quanto aos gastos com a dívida pública: “Se quisermos saber para quem um governo trabalha, temos de examinar para onde estão indo os recursos. Atualmente, eles são destinados, em primeiro lugar, para o pagamento da dívida pública e de seus juros. Em 2013, quase metade do orçamento público (40%) foi destinado para os juros, amortização e rolagem da dívida, enquanto menos de 5% foi para a saúde e menos de 4% para a educação. Este ‘sistema da dívida’ é o grande devorador dos recursos públicos. É o maior gasto do governo, e faz com que faltem recursos para o transporte, a saúde, a educação, o saneamento básico e outras políticas sociais.”

O documento critica ainda a violação dos direitos indígenas e dos quilombolas; a lentidão da reforma agrária; as privatizações; os megaprojetos que afetam as populações mais pobres. E reforça o apoio ao Projeto de Lei de Iniciativa Popular, que recolhe assinaturas em prol da reforma política, e conclama à participação no plebiscito por uma Constituinte exclusiva pela reforma política, que ocorrerá na Semana da Pátria, entre 1 e 7 de setembro.

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Movimento dos Sem sexo

Alianças do movimento Eu escolhi esperar, que defende o sexo depois do casamento (foto:  Daniela Dacorso)
Alianças do movimento Eu escolhi esperar, que defende o sexo depois do casamento (foto: Daniela Dacorso)

Roberta Salomone, em O Globo

No último ano do curso de Turismo de uma universidade em Teresópolis, a carioca Bruna Nunes teve que conciliar os estudos com trabalho durante a Copa do Mundo. Selecionada entre várias outras meninas, ela conseguiu uma vaga de promotora de eventos do espaço de uma marca de sabão em pó na Granja Comary. Entre uma demonstração e outra do produto, a jovem, de 22 anos, via, de longe, a comissão técnica e os astros da seleção brasileira, que ficaram concentrados no local. Um dia, resolveu chegar mais perto de David Luiz.

— Descobri que ele também tinha escolhido esperar. Como eu — conta, enigmática.

A opção de Bruna e David Luiz é um dos pilares do movimento Eu Escolhi Esperar (EEE), que defende o sexo somente depois do casamento:

Bruna Nunes e David Luiz
Bruna Nunes e David Luiz

— Entreguei um pacote com camiseta, livros e pulseiras da campanha, e a gente tirou uma foto que foi publicada em vários lugares, incluindo um jornal da Índia. Fiquei impressionada com a repercussão.

Antes do encontro e da pífia campanha do time no Mundial, o jogador do Paris Saint-Germain tinha citado o EEE duas vezes em suas redes sociais. Ao contrário do jogador Kaká, que afirmou ter casado virgem, David Luiz, de 27 anos, sempre foi discreto e pouco comenta sobre suas relações — muito menos as sexuais. Mas o fato é que, depois do breve encontro dos dois, a campanha atraiu milhares de adeptos e curiosos. Na página do grupo no Facebook, o número de curtidas quadruplicou desde 2012 e já batem os dois milhões. O zagueiro, que já conquistara a fama de muso fora de campo, acabou virando garoto-propaganda informal do movimento — a ponto de ganhar uma paródia, “David Luiz, eu resolvi esperar você”, numa página de fãs na internet.

— Graças a ele, o movimento saiu das quatro paredes das igrejas católica, batista e evangélica, gerou interesse num número ainda maior de pessoas e, para a nossa surpresa, foi parar até em outros países — comemora Carla Duarte, secretária executiva de uma multinacional de Engenharia e integrante do EEE desde 2011.

No currículo da vida afetiva de Carla, de 27 anos, alguns rolos, namoros, um noivado, decepções amorosas e, sim, experiências sexuais. Ao contrário do que se imagina, quem não é mais virgem também pode voltar à sala de espera. O segredo está em não renegar o passado e aceitar que, a partir dali, é preciso se guardar totalmente para o futuro cônjuge.

— Algumas amigas me chamaram de louca, mas posso dizer que sou muito mais feliz assim — garante Carla, sem namorado há três anos. — É claro que tenho desejos. Eu não sou poste, né? O negócio é controlar a mente e não beijar ninguém na boca. Pra mim, se acender em cima, acaba esquentando embaixo.

Ana Carolina Terto, de 20 anos, é virgem e quer continuar assim, intacta, até o casamento. O grande desafio é segurar a vontade de acender em cima, já que está sem namorado firme no momento. Colunista do site do EEE, Ana escreve sobre os mais diferentes assuntos em seus posts. O último deles foi intitulado “Muita calma nessa hora”. Por causa de seus textos, recebe e-mails de gente de todo o país, e virou uma espécie de consultora virtual para quem quer aprender a resistir às tentações.

— Da noite para o dia virei uma referência para outros jovens, e o que eu explico é que não é exatamente a castidade que buscamos. Queremos relacionamentos saudáveis e duradouros — diz Ana Carolina, funcionária de uma seguradora.

A oficial da Marinha Mercante Nelsiane Carrara conheceu o Eu Escolhi Esperar via internet, há três anos. Desde então, ela confessa que teve algumas recaídas. Namorou durante seis meses e ainda ficou com alguns rapazes depois. Mas ela jura: não rolou nada além de beijo.

— Foi aí que eu percebi que isso não estava me fazendo bem e que estava indo contra o que eu mesmo acreditava. Agora, estou há um ano e três meses sem me envolver com ninguém. Ninguém mesmo — afirma Nelsiane, 25 anos.

Até antes de se conhecerem e começarem a namorar, Cássio Pedroso e Sara Costa pensavam como a colega do EEE. Juntos há pouco mais de um ano, não são mais tão radicais. Quando se encontram, por exemplo, não economizam nas carícias. Tem beijo, abraço e conversa ao pé do ouvido seguida de risadas e outros carinhos. Transar, eles garantem, só depois de subir ao altar, na noite de núpcias.

— Não me finjo de santa. Cássio sabe de tudo que já vivi e não tenho por que esconder nada. Mas agora tudo é diferente: resolvi esperar por ele — afirma a estudante de História, de 22 anos, ainda sem previsão de quando será o grande dia.

Como Cássio e Sara, cada casal tenta estabelecer suas próprias regras dentro do relacionamento. No entanto, o idealizador do movimento, o carioca Nelson Junior, destaca alguns “mandamentos’’ importantes. Em vídeo publicado no canal do EEE no YouTube, que tem mais de 1,3 milhão de visualizações, ele diz: “A maioria das pessoas que se casou virgem só guardou a merenda para o recreio. Mas o que adianta fazer isso se o parquinho está liberado? É uma hipocrisia.”

A masturbação, outro tema polêmico, é sumariamente condenada. “Toda pessoa que se masturba precisa abusar da criatividade sexual e fantasiar sendo tocado por uma outra pessoa. Por exemplo, ninguém se masturba pensando num iPhone”, brinca o pastor de 37 anos, sempre usando uma linguagem engraçadinha e cheia de gírias.

A história de Nelson foi a inspiração para a criação de uma conta no Twitter em 2011. Ele se casou virgem aos 21 anos e até hoje vive com a mesma mulher. Com a repercussão crescente, a campanha virou um instituto, tem uma equipe de oito pessoas baseada em Vila Velha, no Espírito Santo, e uma loja virtual que vende diversos produtos temáticos, como livros, DVDs, chaveiros e pulseiras.

— Eu mesmo sofri bullying por parte dos meus amigos quando dizia que não tinha tido relação sexual com ninguém, que foi uma decisão pessoal e não uma imposição religiosa. Mas hoje, mais do que falar sobre virgindade, queremos debater a cultura dos relacionamentos descartáveis e mostrar que não somos extraterrestres só porque achamos que prazer sexual não pode estar em primeiro lugar — acredita o pai de Ana Carolina, de 7 anos, e Milena, de 4 anos.

Com 80% dos integrantes mulheres e com idade entre 18 e 30 anos, o Eu Escolhi Esperar tem como símbolo uma mão espalmada com um anel no dedo anelar. A aliança é um dos produtos de maior sucesso, o único que não é vendido pelo site. Os aneis em prata só estão disponíveis para quem participa de encontros, que normalmente acontecem nos finais de semana e têm taxa simbólica de até R$ 20. Em fevereiro, cerca de oito mil pessoas estiveram em Fortaleza para ouvir Nelson e, por que não?, conhecer possíveis candidatos a futuros maridos e esposas.

— Acho que esse é o melhor lugar para você encontrar alguém que pense exatamente como você. Estou ansiosa aguardando o próximo evento no Rio — conta a corretora de seguros Adriana Laurindo, de 33 anos, simpatizante do grupo há sete meses.

Antes de São Gonçalo, que tem seminário marcado para o dia 22 de setembro, Nelson embarca no sábado que vem para Pernambuco, onde explana suas ideias sobre sexo, castidade e casamento em Recife e Caruaru. Até outubro, passará ainda por Brasília, Campinas, Carapicuíba, Goiânia e São José dos Campos. Em 29 de agosto, Coral Springs, na Flórida, será seu destino.

Para os próximos meses estão marcadas palestras para as comunidades brasileiras em Portugal, Itália, Japão e Guiné Bissau. No fim do ano, a grande atração é um cruzeiro com atividades para os “casados e os não casados”. O navio Costa Favolosa, com teatro, cinema 4D, piscinas e academia de ginástica, sai de Santos no dia 13 de dezembro, numa viagem de três dias por Angra dos Reis e Ilhabela, com preços entre R$ 1.266 (cabine interna dupla) e R$ 2.116 (externa single).

Escolha de alguns famosos, como Miley Cyrus, Jonas Brothers e Selena Gomez — ainda que muitos deles não tenham ido adiante no compromisso com a castidade —, a virgindade é tema também de um programa na MTV americana, que estreou no último dia 16. “Virgin territory” acompanha e mostra os questionamentos de 15 virgens entre 19 e 23 anos. Até o final da série, o público vai descobrir quem conseguiu (ou não) controlar os próprios desejos.

— É muito importante dar aos jovens alternativas para que eles possam, sem pressão, fazer escolhas verdadeiras — acredita a americana Wendy Shalit, especialista no assunto e autora dos livros “The good girl revolution” (2008) e “A return to modesty: discovering the lost virtue”, não lançados no Brasil.

Para a sexóloga e colunista do GLOBO Laura Muller, não há regra que funcione para todos quando o tema é sexo:

— Cada um deve escolher como viver sua própria sexualidade, descobrindo os seus limites e caminhos. Mas é importante lembrar que é possível, sim, viver o sexo com amor, e também apenas por prazer. Na minha opinião, a palavra de ordem deve ser respeito.

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Francisco em terreno minado

Na visita à Terra Santa, o papa terá de tratar do delicado caráter religioso de Israel, sendo ele mesmo o chefe de um Estado religioso

foto: R7
foto: R7

Frei Betto, em O Globo

A visita de três dias do papa Francisco ao Oriente Médio, a partir do próximo sábado, visa a comemorar os 50 anos da viagem de Paulo VI à região, em 1964, quando se encontrou com o patriarca de Constantinopla, Athénagoras. A viagem tem muitas implicações políticas. Ocorre em um contexto geopolítico complexo, agravado pela guerra na Síria, que entra em seu terceiro ano consecutivo e provoca forte impacto nos países vizinhos, sobretudo no que se refere à segurança e aos refugiados (1 milhão proveniente da Síria, acampado na Jordânia).

Após voar de Roma a Amã, o papa irá de helicóptero diretamente a Belém, onde será recebido por Mahmoud Abbas, presidente do Estado da Palestina. Será o terceiro chefe de Estado a dispensar Israel como “porta de entrada” nos territórios palestinos. Os dois primeiros foram o rei da Jordânia e o emir do Qatar.

À beira do rio Jordão, onde Jesus foi batizado por seu primo e precursor João Batista, Francisco encontrará refugiados sírios e palestinos. Em Belém, receberá famílias palestinenses e crianças dos campos de refugiados de Dheisheh, Aida e Beit Jibrin. Hóspede de Mahmoud Abbas, o papa dará visibilidade e confirmará reconhecer o Estado da Palestina (reconhecido pelo Brasil desde 2010), o que sem dúvida cria um constrangimento diplomático aos países que ainda não o reconhecem, como Israel, EUA e toda a Europa Ocidental, excetuando Islândia e Malta.

No domingo e na segunda, a agenda de Francisco em Israel prevê encontros com autoridades políticas e religiosas. Acompanhado por dois velhos amigos de Buenos Aires, o rabino Abraham Skorka e o professor muçulmano Omar Abboud, o papa enfatizará a importância do diálogo entre as religiões monoteístas.

O tríduo na Terra Santa, que abrange 20 etapas e 15 pronunciamentos, entre homilias e discursos, ocorre em um momento difícil entre o governo israelense e a Autoridade Palestina, cujas relações estão congeladas desde o acordo entre a OLP (Organização para a Libertação da Palestina) e o Hamas, no mês passado. O discurso papal diante do muro que separa a Cisjordânia está sendo aguardado com expectativa por palestinos e israelenses.

A questão mais delicada que Francisco terá de enfrentar é o caráter religioso de Israel, oficialmente um “Estado judeu e democrático”. Sobretudo porque a Palestina decidiu, há pouco, suprimir da carteira de identidade de seus cidadãos o item de identificação religiosa. A diplomacia vaticana teme que a declaração de uma nação religiosa hebraica incentive países árabes a se proclamarem estados islâmicos, o que poderia favorecer o fundamentalismo e dificultar ainda mais o atribulado caminho da paz no Oriente Médio.

O recomendável seriam estados democráticos, laicos, constituídos sobre a igualdade de direitos e deveres para todos os cidadãos. Ocorre que Francisco se encontra no olho do paradoxo: o Estado do Vaticano também é religioso, e seu chefe de Estado se confunde com o líder de uma determinada confissão religiosa, o catolicismo.

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Papa Francisco já enfrenta resistência no Vaticano

Ala tradicionalista da Igreja condena abertamente mudanças promovidas pelo Pontífice

O Papa Francisco acena para a multidão durante cerimônia do Angelus na Praça de São Pedro: Pontífice demonstrou uma maior abertura às transformações das sociedades modernas, o que está lhe rendendo ataques de conservadores STEFANO RELLANDINI / Reuters/STEFANO RELLANDINI
O Papa Francisco acena para a multidão durante cerimônia do Angelus na Praça de São Pedro: Pontífice demonstrou uma maior abertura às transformações das sociedades modernas, o que está lhe rendendo ataques de conservadores STEFANO RELLANDINI / Reuters/STEFANO RELLANDINI

Publicado no O Globo

Não é raro o Papa Francisco deixar sua sala de trabalho na Residência de Santa Marta, na Cidade do Vaticano, tirar uma moeda do bolso e se servir de um café expresso na máquina instalada no corredor. Em mais de seis meses de pontificado, o sucessor de Bento XVI manteve seus austeros hábitos de cardeal franciscano, renunciou aos aposentos papais no Palácio Apostólico e a tradicionais símbolos do vestuário do cargo, como os sapatos vermelhos ou a cruz de ouro (ele usa uma de prata).

No discurso, o novo Pontífice demonstrou uma maior abertura às transformações das sociedades modernas, na rejeição de uma ingerência espiritual na vida pessoal, e criticou a “obsessão” da Igreja por temas como o casamento homossexual, o aborto ou os contraceptivos. A Igreja “dos pobres e para os pobres” do Papa Francisco tem suscitado entusiasmo entre fiéis, mas também desaprovação e severas críticas por parte de setores católicos conservadores.

Para o italiano Marco Politi, um dos mais respeitados vaticanistas, está em curso “uma verdadeira revolução”, num processo gradual de “desmontagem de uma Igreja imperial” em que o Papa era o monarca absoluto e a Cúria romana, o centro de dominação. O analista aponta uma firme intenção de Francisco em impor o “princípio de colegialidade” pela implementação de um mecanismo de consulta com os bispos para decidir sobre as mudanças necessárias à Igreja.

— Por isso que já ocorre uma resistência das forças conservadoras, não somente na Cúria, mas na Igreja. Mas até este momento, no escalão superior, os cardeais e bispos conservadores não falam abertamente contra o Papa, deixam as críticas mais furiosas aos sites na internet. Vemos em diferentes partes do mundo sites muito agressivos contra o Papa, acusando-o de populista, demagógico, pauperista, de não querer exercer o primado absoluto de Pontífice romano — nota Politi.

‘Enganador em turnês demagógicas’

O blog “Messainlatino.it”, que prega a renovação da Igreja “na esteira da tradição”, denunciou uma “real e verdadeira crise de identidade” do Pontífice por causa de uma de suas notórias declarações no voo de retorno à Itália da viagem ao Rio de Janeiro, onde participou da Jornada Mundial da Juventude (JMJ): “Se uma pessoa é gay, busca Deus e tem boa vontade, quem sou eu para julgá-la?”, disse Francisco. O site tradicionalista diagnosticou como “um sinal tangível de um extravio existencial que faz literalmente tremer os nervos e o corações dos fiéis”, e indagou de forma irônica: “Perdoe o atrevimento, vós não sois, talvez, o ‘Papa’? Não tendes, talvez, as chaves para abrir e fechar o Reino dos Céus?”.

Conservadores americanos reunidos no “Tradition in Action”, site baseado em Los Angeles que defende as “tradições católicas”, acusaram Francisco de ser um “enganador” que organiza “turnês demagógicas” em “estilo miserabilista”. Para o “Tradition in Action”, o Pontífice procura “dessacralizar os símbolos do papado a fim de aboli-los”. O site criticou seu gesto de retirar o solidéu para colocá-lo sobre a cabeça de uma menina: “Deste modo, quer parecer como um velho vovô que brinca com a sua netinha e, ao mesmo tempo, demonstrar que os símbolos do papado são inúteis”.

Bertone fora do caminho

Para o “Corrispondenza Romana”, setores da Igreja estão sendo controlados por “uma minoria de frades rebeldes de orientação progressista”. O site “Una Fides” censurou missas celebradas no Brasil em que sacerdotes distribuíram a eucaristia em copos de plástico: “O Senhor, um dia, pedirá contas pelos inumeráveis sacrilégios cometidos por milhões de crentes, milhares de sacerdotes, centenas de bispos, dezenas de cardeais e talvez até por alguns Papas.” Já a publicação americana “National Catholic Register” definiu a eleição de Jorge Mario Bergoglio como Papa como “mais um acréscimo à pilha das recentes novidades e mediocridades católicas”.

Para Marco Politi, haverá mais oposição entre bispos e cardeais no mundo do que dentro da Cúria, onde grande parte de seus integrantes estava decepcionada com a ineficácia administrativa de Bento XVI e com o autoritarismo do cardeal Tarcisio Bertone, secretário de Estado do Vaticano.

— Não podemos saber como tudo vai evoluir, mas é certo que à medida que o Papa avançar em suas reformas, o movimento de resistência por parte dos conservadores será cada vez mais forte — avalia.

Para o posto de Bertone, o segundo na hierarquia da Santa Sé, foi nomeado o arcebispo Pietro Parolin, “um homem de grande experiência, que não tem uma atitude ideológica, mas de atenção para a realidade contemporânea”, diz Politi. O vaticanista lista, ainda, algumas mudanças importantes já feitas ou sinalizadas pelo Papa: o saneamento do Banco do Vaticano, com tolerância zero para as contas opacas; a criação do grupo de trabalho constituído de oito cardeais para refletir e elaborar propostas de reformas na Cúria, a comunhão para os divorciados recasados ou a ascensão de mulheres a postos de decisão na hierarquia da Igreja.

— Uma de suas decisões que provocaram bastante ruído em Roma foi a demissão do prefeito da Congregação do Clero, o cardeal Mauro Piacenza (substituído por Beniamo Stella), responsável pelas centenas de milhares de padres no mundo — acrescenta Politi. — Era muito conservador, e contra qualquer mudança na lei do celibato. Esta troca é um sinal claro de que o Papa não quer um conservador num posto-chave como este.

‘A instituição irá se defender’

Para o sociólogo francês Olivier Bobineau, especialista em religiões no Instituto de Ciências Políticas de Paris (Sciences-Po) e autor de “O império dos Papas — uma sociologia do poder na Igreja”, haverá um limite para as reformas de Francisco. Na sua opinião, o Pontífice já deu sinais de abertura, simplificou o protocolo hierárquico e poderá alterar o “clima e o ambiente” na Igreja, mas terá enormes dificuldades se desejar promover transformações mais profundas.

— A primeira coisa que ele teria de fazer é mexer no edifício hierárquico. Mas nem João XXIII conseguiu fazê-lo. A instituição irá se defender. Há padres e bispos que amam este poder hierárquico, e vão tentar conservá-lo por todos os meios. Não se pode sair de uma estrutura católica que remonta ao século V. Há 1.500 anos é assim. Um só homem não pode mudar isto.

Bobineau acredita que o Papa centrará seu Pontificado nas mensagens de amor e pelos pobres e em mudanças de estilo:

— Em sua recente entrevista à revista dos jesuítas, ele disse que as reformas estruturais e organizacionais são secundárias. Ele sabe. Seria necessário explodir tudo. Ele está no topo de uma estrutura hierárquica que em algum momento vai lhe impor limites. Quanto mais ele empurrar no sentido de mudanças, mais sofrerá resistências dos conservadores — prevê.

Entre 1º e 3 de outubro, o Conselho de oito cardeais se reunirá com o Papa para preparar um documento de trabalho com propostas de reformas na Cúria. No dia 4, Francisco visitará, pela primeira vez como Papa, Assis, a cidade do santo que inspirou o nome de seu pontificado.

— A expectativa é de que fará um discurso bastante forte sobre a pobreza na Igreja — arrisca Politi.

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Adolescente chinês é preso por ser retuitado

Estudante teve postagens compartilhadas e foi enquadrado em lei contra disseminação do rumores

adolescente-preso-china-retuitadoPublicado no O Globo

Na terça-feira, dia 17 de setembro, Yang Hui foi chamado da sua aula de matemática pelo vice-diretor da escola, segundo o jovem estudante do Ensino Médio relatou a um jornal estatal chinês. O rapaz de 16 anos rapidamente descobriu que tinha um grande problema. Três policiais à paisana e um uniformizado esperavam por ele no gabinete do diretor. Eles perguntaram pelo celular de Yang, depois o interrogaram e levaram para a delegacia para esclarecer outros pontos e, então, trancaram-no em um centro de detenção local. O crime? Ele foi retuitado.

Há duas semanas, o governo anunciou novas regras destinadas a conter o suposto aumento da disseminação de rumores que, de acordo com as autoridades, atrapalham o desenvolvimento harmonioso da internet no país.

Poucos chineses acreditam que as novas normas sejam muito diferentes da tentativa anterior – e mais pesada – de checar dissidências on-line e reassegurar o controle sobre o que a China pensa, fala e tuíta sobre seus líderes. Os termos estipulam que qualquer um cuja mensagem seja retuitada mais de 500 vezes em perfis chineses ou vista por mais de 5 mil usuários pode ser condenado a até três anos de prisão se a postagem original for falsa. Esta é uma das poderosas ferramentas da repressão governamental.

A aventura de Yang começou em 12 de setembro, em Zhangjiachuan, um condado remoto na província de Gansu. Naquela semana, o corpo de um homem foi encontrado perto de um clube de karaokê. Na China, esses locais são fortemente associados à prostituição e ao crime organizado. As autoridades disseram que o homem cometeu suicídio pulando do último andar da construção (versão suspeita, já que o prédio tinha apenas dois níveis, segundo o jornal “Los Angeles Times”). Em uma entrevista à imprensa chinesa, Yang contou ter ouvido de testemunhas que a vítima morreu depois de ter sido agredida por policiais.

Há cinco anos, Yang provavelmente teria guardado esta história. Mas ele faz parte da geração conectada às redes sociais e, dois dias depois da morte em frente ao karaokê, ele publicou o primeiro de seus posts, agora apagados, em dois serviços chineses de microblogs similares ao Twitter, o “China’s QQ” e o “Sina Weibo”. As mensagens questionavam a versão do governo, afirmavam que o dono do clube era um oficial de justiça (aparentemente, a informação não era verdadeira, e o karaokê pertencia à esposa de outro oficial) e convocava protestos (houve realmente um encontro, mas não ficou claro se ele foi gerado pelos apelos do jovem).

“Passaram-se três dias e duas noites desde o assassinato de Zhangjiachuan em 12 de setembro, e a polícia ainda não age, a mídia não reporta, e as pessoas não sabem a verdade”, denunciava uma das mensagens no QQ, de acordo com o jornal “Southern Metropolis Daily” que, embora estatal, é bastante independente do governo. “Ele, que morreu, pode descansar em paz, nós vamos buscar justiça por vocês!”

Até o dia 20 de setembro, a postagem havia sido compartilhada 962 vezes, conforme dados obtidos pelo “Southern Metropolis Daily”.

Em algumas ocasiões durante esta sequência de eventos – um pouco confusa pelas interpretações conflitantes e atividades on-line apagadas – a conduta de Yang descumpriu a lei contra a disseminação de rumores, pelo menos do ponto de vista do governo de Zhongjiachuan. Assim começaram a jornada ao gabinete do diretor e o que parecia ser uma passagem só de ida para a detenção administrativa, sistema que permite à polícia prender criminosos que cometeram ofensas leves por até 15 dias sem uma análise judicial.

Após protestos, jovem é libertado

A prisão do jovem acabou chamando a atenção: as notícias se espalharam na internet praticamente desde o momento da detenção. Boa parte da raiva das pessoas foi canalizada para a lei a respeito da disseminação de rumores e para o bullying feito contra Yang. A reação tomou proporções tão grandes que alguns termos associados ao caso – como “detenção administrativa” – foram bloqueados das buscas do “Sina Weibo”.

Uma das postagens de protesto dizia que o chefe de polícia local havia comprado o cargo e teve mais de 14.900 compartilhamentos e 5.600 comentários. Ainda assim, não foi deletado nem gerou qualquer forma de processo para o autor. Na verdade, eles surtiram efeitos, e Yang foi liberado da detenção na manhã do último domingo. No mesmo dia, o governo de Zhangjiachuan anunciou a suspensão do chefe de polícia denunciado pelos internautas e a prisão do superior dele.

Este é um pequeno progresso para a luta por liberdade de expressão na internet, afinal, trata-se de uma pequena localidade afastada de Pequim. As punições por lá aplicadas significam quase nada para os líderes nacionais que passaram os últimos dois meses aumentando o controle sobre a internet. A liberdade de Yang pode até ser usada como bandeira pelo partido, sob a alegação de que as regras serão usadas com critérios, diferente do que se teme.

Questionado sobre como a experiência o modificou, Yang respondeu à mídia chinesa:

– Eu vou continuar a seguir microblogs, mas minhas postagens serão mais prudentes, baseadas em evidências verificáveis e sem linguagem chula.

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