Democracia & ‘Bolivarianismo': A Venezuela não é aqui

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Luciano Martins Costa, no Observatório da Imprensa

A mídia tradicional do Brasil está relegando a segundo plano a pauta da corrupção, que predominou durante a campanha eleitoral no rastro de reportagens, declarações, vazamentos e alguma ficção maquinada para alimentar debates e propaganda política.

A nova palavra de ordem da agenda que os jornais tentam impor ao campo político é: “bolivarianismo”. A expressão foi destacada na primeira página da edição de segunda-feira (3/11) da Folha de S.Paulo, em artigo do colunista Luiz Felipe Pondé e em entrevista do ministro do Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes, e ganhou as redes sociais na terça-feira (4).

No caso do articulista, pode-se arquivar o texto na “cesta seção”, onde um dia os arqueólogos do besteirol reacionário irão identificar os protagonistas que a imprensa classificava como “intelectuais” nas primeiras décadas do século 21. O problema cresce quando a imprensa se serve de um ministro da Suprema Corte para alimentar teorias conspiratórias.

O Brasil não é a Venezuela, não ocorreu no passado recente o advento de um líder caudilhesco que se possa comparar ao presidente Hugo Chávez, morto em 2013, e a política nacional inaugurada em 2003 com a ascensão da aliança liderada pelo Partido dos Trabalhadores não guarda a mais remota similaridade com o processo venezuelano.

O que há é um esforço de representantes do estrato mais conservador da sociedade para colocar o bode na sala e obrigar a presidente reeleita a negociar o bloqueio de qualquer projeto que se aproxime da regulação da mídia, nem que seja para cumprir o que determina a Constituição sobre a concentração dos meios de comunicação.

Assim age o cartel da imprensa: primeiro ameaça com uma crise por meio de boatos, especulações e meias-verdades, depois propõe a negociação. No caso que se evidencia nesta semana, trata-se de exacerbar os ânimos da massa de manobra que não aceita o resultado das urnas, com a tese de que a presidente vai transformar o Brasil numa ditadura em seu segundo mandato.

Por mais insano que possa parecer, esse é o mantra que vem sendo recitado na redação da revista Veja nos últimos dias. Os editores da revista dizem a quem quiser ouvir que estão empenhados em uma cruzada contra o fantasma de Hugo Chávez.

Jogo perigoso

A revista que já foi a joia da coroa do editor Victor Civita está preparando uma entrevista com um empresário venezuelano do setor de mídia para que ele diga como seria a imprensa num Brasil “bolivariano”. Depois das páginas amarelas de Veja, o conteúdo será reproduzido pelos jornais e provavelmente comentado pela TV Globo, no Fantásticoou no Jornal Nacional.

Protagonistas ensandecidos como o colunista da Folha acreditam piamente que “está em curso um processo de destruição da liberdade de pensamento no Brasil”. Ele chama Dilma Rousseff de “presidente bolivariana reeleita”.

O leitor fiel e de boa fé da Folha de S.Paulo pode argumentar que essa é apenas uma das muitas opiniões no diversificado cardápio de leituras que o jornal oferece diariamente. Afinal, personagens assim destrambelhados podem trazer alguma graça ao cotidiano da imprensa, para temperar a sisudez de um Clovis Rossi ou um Janio de Freitas. Mas não é possível dissimular que se trata de um texto de encomenda, ou seja, que faz parte da estratégia de edição.

Senão, vejamos: o assunto foi levantado na segunda-feira (3) em entrevista do ministro Gilmar Mendes, mas qual seria a oportunidade para transformar o jurista em notícia, se nada o destaca entre seus pares neste momento? Se ele estivesse dirigindo o Tribunal Superior Eleitoral, haveria aí uma pauta natural, uma vez que o principal partido da oposição questiona oficialmente o resultado das urnas. Fora isso, entrevistar Gilmar Mendes é apenas uma manobra para colocar na boca dele o que os editores querem dizer: que em dois anos o novo governo deverá nomear novos ministros do STF, e Mendes e os jornais acham que isso irá transformar a Suprema Corte em um “tribunal bolivariano”.

Não importa o argumento segundo o qual um tribunal formado por maioria de ministros nomeados por governos petistas condenou à prisão a antiga cúpula do PT. A imprensa teme que o tribunal se torne permeável ao cumprimento da regra constitucional sobre a concentração da mídia. O objetivo da manobra é dar credibilidade ao desvario sobre intenções totalitárias da presidente da República.

Com os aloprados golpistas assanhados nas ruas, trata-se de um jogo muito perigoso.

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(Tele)Jornalismo como crença

Iluska Coutinho, no Observatório da Imprensa

Prefácio de Discurso, identidade, representação: a presença evangélica no telejornalismo brasileiro, de Hideíde Brito Torres, 198 pp., Editora Filhos da Graça, 2012; título original “(Tele)Jornalismo como crença: sobre os limites da representação de uma sociedade nas telas de televisão”; intertítulo do OI

Personagem de destaque na sociedade brasileira, a televisão pode ser motivo ou pretexto para o lazer, para a informação, para os encontros, e ainda para as críticas, com maior ou menor grau de precisão. Apesar disso, ou talvez exatamente pela sua intensa presença em nosso cotidiano, sua análise se constitua um desafio, que se renova junto ao seu fluxo, e às mudanças tecnológicas e mesmo sociais.

Desde 1950, quando chega ao país em emissões inicialmente restritas a São Paulo (TV Tupi), a TV acenava com a perspectiva de reduzir as diferenças no acesso ao entretenimento, nos anúncios que prometiam a chegada do cinema às casas de quem adquirisse um aparelho receptor. Ainda que presente desde o segundo dia de programação, o jornalismo televisivo só veio a consolidar-se mais tarde, à medida que essa mídia se popularizava, e os avanços tecnológicos permitiam o surgimento de práticas de reportagem capazes de utilizar as potencialidades e mesmo a linguagem desse meio.

Desde a década de 1970 contudo o telejornalismo ocupa um lugar central como meio de informação de significativa parcela da população brasileira. Marcada pelo predomínio da oralidade como forma preferencial de expressão, a sociedade é narrada, e-ditada , pelos jornais televisivos, por meio dos quais deveria em tese se atualizar e (re)conhecer. Mas seria essa promessa cumprida, em um país que também tem como uma de suas características grandes diferenças ou variações de hábitos, costumes, origens, sotaques, culturas e religiões, sem contar com a grande desigualdade social?

As respostas a essa questão também podem ser diversas, conforme o grau de proximidade com a televisão, suas práticas de produção e consumo. De maneira geral, contudo, as queixas de que haveria uma excessiva superficialidade costumam destacar-se, especialmente entre aqueles que analisam a televisão a partir de sua inserção social, ou a partir do que Wolton denomina ideologia política da TV. Os mais envolvidos com as práticas costumam responder a essas críticas ressaltando as características, sobretudo técnicas, do veículo.

Percepção da imagem

Nos últimos anos, o telejornalismo tem se constituído no Brasil também como objeto de estudo em profundidade, e mobilizado pesquisadores que se reúnem sobretudo por meio de sociedades científicas da área de Comunicação. Desde 2009 a Intercom, Sociedade Brasileira de Estudos em Telejornalismo, mantém um grupo de pesquisa voltado especialmente para o jornalismo audiovisual, com a apresentação de cerca de 100 trabalhos nos últimos três anos. Nos encontros anuais da Associação Brasileira de Pesquisadores de Jornalismo (SBPJor), desde 2004 há sessões coordenadas voltadas à apresentação de pesquisas sobre telejornalismo, além de uma rede que reúne seus pesquisadores.

Grande parte dos textos apresentados dedica-se a analisar os programas jornalísticos na televisão, ou algumas coberturas em particular. Outros trabalhos buscam discutir as características da linguagem ou as especificidades da narrativa no telejornalismo e sua qualidade, sendo menos numerosas as pesquisas que se voltam à análise da recepção dos conteúdos noticiosos televisivos, ou de sua eficácia informativa. Dessa forma, a publicação desse livro, “Discurso, identidade, representaç?o – A presença evangélica no telejornalismo brasileiro” constitui-se em uma importante contribuição para que possamos compreender melhor os noticiários televisivos, e por meio deles, a própria sociedade brasileira.

Resultado da dissertação de mestrado da autora, o trabalho ainda representa a oportunidade de suprir uma lacuna nos estudos que tratam da relação entre mídia e religião. Vista com desconfiança ou restrição em algumas correntes religiosas, a televisão teria ocupado um lugar próximo a um altar como apontam estudos que tratam dos programas religiosos ou das estratégias de evangelização eletrônica. A presença da religião em telenovelas, ou mesmo a propriedade de emissoras de TV por grupos religiosos é foco de outras pesquisas já publicadas no país.

Investigar a relação entre o jornalismo e os evangélicos, grupo que tem se tornado a cada ano mais numeroso, como apontam os levantamentos censitários, permanecia uma promessa, agora cumprida com esta publicação. Em seu estudo, Hideíde Brito Torres avalia a forma de representação de dois grupos protestantes históricos – Batistas e Metodistas – em dois telejornais veiculados em rede nacional de televisão: Jornal Nacional (TV Globo) eJornal da Record (TV Record). O trabalho apresenta uma análise atenta das estratégias narrativas e discursivas utilizadas por uma emissora laica e outra ligada a uma denominação religiosa para representar os evangélicos, buscando construir assim sentidos de identidade e alteridade.

Mas se para os produtores dos telejornais a audiência permanece presumida, como conceituou o pesquisador Alfredo Vizeu (2005), as percepções dos evangélicos acerca de sua imagem, narrada nos noticiários televisivos, também foram levantadas no trabalho da autora. Será que os batistas e metodistas se reconhecem nos discursos que os telejornais ofertam aos seus telespectadores? Para responder a essa questão, resta um convite-provocação: à leitura!

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Resumo

A obra, fruto da dissertação de mestrado da autora, aborda a construção identitária dos evangélicos no Jornal Nacional e no Jornal da Record, pelos marcadores discursivos da identidade e da alteridade. Também contempla um estudo de recepção das notícias analisadas junto a fiéis metodistas e batistas de uma cidade do interior de Minas Gerais, indagando se o fato de uma emissora estar ligada a esse segmento promove ou não uma identificação dos evangélicos com a mesma. Os referenciais teóricos envolvem as discussões promovidas pelos Estudos Culturais Britânicos e o Interacionismo Simbólico e as metodologias incluem a análise de discurso com base em Foucault, a dramaturgia do telejornalismo e grupos focais.

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Moqueca à Crivella

A presidente Dilma Rousseff cumprimenta o novo ministro da Pesca e Aquicultura, Marcelo Crivella, durante a cerimônia de posse no Palácio do Planalto (Foto: Roberto Stuckert Filho / PR)

Alberto Dines, no Diário de S.Paulo [via Observatório da Imprensa]

Histórias de pescador são geralmente fantasiosas, mas ao afirmar que sequer sabe enganchar a minhoca no anzol o novo ministro da Pesca, senador Marcelo Crivella (PRB-RJ), não apenas fez uma rara opção pela verdade como escancarou a enganação embutida na criação e manutenção deste Monumento ao Desperdício chamado Secretaria Especial da Pesca.

O herdeiro da Igreja Universal do Reino de Deus, líder da bancada evangélica do Legislativo, completou seu breve convívio com a transparência ao negar que a nova carreira piscatória tenha algo a ver com o esforço do governo federal em reforçar a candidatura de Fernando Haddad à prefeitura de São Paulo. Com isso, só confirmou o real objetivo da manobra. No que foi ajudado pelo devoto ministro Gilberto de Carvalho, ao declarar que a nomeação do Pescador-Mor “vai facilitar a relação com as igrejas.”

Esta indigesta moqueca à Crivella tem o mérito de trazer para a agenda nacional a escamoteada questão do secularismo. O Brasil está retornando rapidamente ao estágio teocrático que vigeu sem interrupções do descobrimento até a votação da primeira Carta Magna republicana, em 1891. Embora seja pacífico que o nosso atraso em matéria de educação, ciência, cultura e imprensa decorra da prolongada sujeição do Estado à Igreja, nada se fez para reverter tão grave deficiência institucional. O Estado de Direito no Brasil é capenga, todos sabem disso. Ninguém tenta reabilitá-lo, tanto na esfera simbólica como administrativa.

O vale-tudo no terreno da fé

Antes do velocíssimo crescimento das seitas evangélicas no Brasil, quem ousava contrapor-se à hegemonia da Igreja eram as diferentes confissões luteranas. O general-ditador Ernesto Geisel, único chefe de Estado ostensivamente anti-católico, em 1976, numa das freadas da sua distensão, aproveitou-se do arsenal autoritário para emplacar de forma solerte a dissolução do casamento e a legitimação do divórcio, o que abalou a Igreja, enfraqueceu sua formidável cruzada em defesa dos direitos humanos e deu à ditadura um amplo apoio popular.

De lá para cá, ditadores e presidentes enfrentaram o poderoso vetor teocrático com a mesma esperteza: contentando de forma equitativa católicos e protestantes, facilitando seus imensos privilégios, concedendo-lhes o ilegítimo acesso aos meios de comunicação eletrônicos e sepultando nas gavetas qualquer debate que possa nos aproximar do Estado de Direito democrático, secular e isonômico. Mesmo o Poder Judiciário – teoricamente comprometido com suas prerrogativas e independência – convive no plenário da Suprema Corte com a discrepante exibição da cruz acima das armas da República. Na Espanha, muito mais católica, isto seria um acinte. Aqui, não chama a atenção dos eleitores, políticos, nem confronta os meritíssimos.

Esta incapacidade de defender o secularismo e a ideia do Estado laico manifesta-se com igual intensidade nas hostes do governo e da oposição. PT e PSDB, geneticamente de esquerda, deram um jeito de driblar os respectivos DNAs e não resistem à tentação de comungar e persignar-se em atos oficiais, mesmo sabidamente ateus, agnósticos ou céticos. Os confessores de hoje não se importam com ave-marias erradas e padre-nossos incompletos, diferentemente do que acontecia nos tempos da Inquisição.

O vale-tudo infiltrou-se no terreno da fé. Crivella, suas minhocas e peixes são o símbolo de um sincretismo que parece coisa do diabo.

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Googlar antes de tuitar ou blogar

Carlos Castilho, no Observatório da Imprensa

Esta é a versão brasileira da frase “Google before you tweet is the new think before you speak”, popularizada num cartaz criado pelo designer Jon Parker e que sintetiza, no jargão digital, a principal mudança de comportamento que nos está sendo imposta pela internet. É a nossa forma de lidar com a informação que está sendo posta em xeque e com ela toda uma série de rotinas e valores transmitidos por gerações, há décadas.

O tema não é novo porque já foi tratado aqui e em vários outros blogs e colunas especializadas. Minha preocupação não é com o ineditismo, mas com o debate continuado sobre o que os especialistas chamam de leitura crítica. A recomendação do cartaz é “pesquise uma informação antes de publicá-la num blog, twitter ou rede social”, o que equivale ao nosso velho e conhecido  “pense antes de falar”.  Não basta decorar a frase, é necessário torná-la automática em nosso trato diário com as notícias e informações.

A recomendação de refletir antes de dizer qualquer coisa procura evitar que uma pessoa diga asneiras ou idiotices, visando evitar embaraços públicos pessoais. O “googlar antes de twitar”  tem um sentido bem mais amplo porque busca, acima de tudo,  evitar a disseminação de boatos, mentiras, difamação e fofocas antes que elas acabem se transformando num fato aceito de forma também irrefletida. Trata-se de evitar danos à imagem alheia mais do que impedir problemas para quem originou o boato.

A internet transformou a todos nós em produtores de informação, o que nos obriga a assumir muitas das atitudes que até agora eram cobradas apenas dos jornalistas profissionais.  Não  fomos educados para checar informações, dados e notícias. Bastava sair na imprensa para que os leitores assumissem o que foi publicado como verdade acima de qualquer suspeita. Hoje isso está mudando rapidamente, tanto no que se refere aos jornalistas como aos jornais.

Alterar  uma atitude como essa não é uma coisa que acontece da noite para o dia. O americano Daniel Yankelovich vem pesquisando a mudança de valores das pessoas desde 1995 e é categórico ao afirmar que “mesmo com a velocidade vertiginosa da internet, uma mudança de valores demora anos” para incorporar-se ao cotidiano das pessoas.

Daí a necessidade de periodicamente voltarmos a bater nesta tecla porque ela afeta o nosso relacionamento com a informação e, portanto, com o item que a cada dia que passa mais condiciona a nossa vida social, política, econômica e cognitiva. A transformação da nossa cultura informativa é muito mais relevante do que a avalancha de gadgets eletrônicos que mudaram o nosso dia a dia.

E nessa mudança de comportamentos, nós os jornalistas temos um papel fundamental porque a experiência profissional nos ensinou que um dado, fato ou notícia devem ser confirmados antes da publicação, e que as consequências de uma informação falsa ou distorcida podem ser irreversíveis e letais. Só que a dinâmica industrial da produção noticiosa em jornais, revistas e noticiários da rádio e TV inviabilizou a checagem criteriosa e implantou a corrida pelo furo e pela exclusividade como valores máximos do jornalismo.

O deterioração dos valores morais e comportamentais no serviço público, nas atividades legislativas e na política brasileira fornece amplo material para denúncias de corrupção, o que por um lado é benéfico para a sociedade porque ela passa poder patrulhar o comportamento dos servidores e políticos; mas, por outro,  cria um ambiente favorável à multiplicação de suspeitas e dúvidas. É aí que a leitura critica e a regra do “googlar antes de tuitar” passam a ser essenciais.

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A ministra e a ira dos religiosos

Ligia Martins de Almeida, no Observatório da Imprensa

A ministra Eleonora Menecucci despertou a ira dos religiosos brasileiros – evangélicos e católicos – até mesmo antes de assumir a Secretaria de Política para Mulheres. E não foi por seu discurso de posse. Se houve culpa nessa história foi exclusivamente da imprensa – que apenas fez seu trabalho – ao lembrar que a nova ministra é a favor da descriminalização do aborto e, conforme entrevista à revista TPM, tem orgulho de ter uma filha gay.

O fato de a nova ministra ter dito que suas convicções pessoais deixam de ter importância ao assumir um ministério parece não ter convencido seus opositores. O deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) convocou – na véspera da posse – a união da bancada evangélica para “combater a abortista que nomearam ministra”. Mas se o deputado limitou-se a falar de aborto, um bispo católico foi bem além. O presidente da Comissão da Vida da regional Sul 1 (São Paulo) CNBB, dom José Benedito Simão, foi muito pouco cristão em sua análise da nova ministra:

“É uma pessoa infeliz, mal-amada e irresponsável, que adotou uma postura contra o povo e em favor da morte. Recebo com muita indignação as palavras da nova ministra, cuja pasta tem uma grande responsabilidade em favor da vida da mulher. Ela é infeliz, mas ninguém precisa ficar sabendo. Seu discurso mostra que ela pode estar reabrindo feridas que estavam cicatrizando” (O Estado de S.Paulo, 11/02/2012).

E não parou por aí. Segundo o jornal, o bispo também reclamou das declarações da ministra sobre as preferências sexuais de sua filha, afirmando que ela “deveria tomar mais cuidado para dar mau exemplo para nossos adolescentes”.

Nenhum dos opositores da ministra quis saber de suas propostas de trabalho à frente da Secretaria, nem considerou que o tema aborto sequer foi mencionado no discurso de posse, quando Eleonora Menecucci declarou:

“O desafio do Ministério de Políticas para as Mulheres – no conjunto do governo – é de incidir em mudanças relativas à remuneração, à segurança social, à educação e cultura, à saúde, à partilha de responsabilidades profissionais e familiares, além da busca de paridade nos processos de decisão.”

A imprensa precisa ficar de olho

Como diz a matéria de Veja sobre a posse (12/02/2012):

“Eleonora assumiu um ministério de orçamento magro, mas nem por isso politicamente menos relevante – tanto que era cobiçado por parlamentares do PT. As reações à sua nomeação começaram cedo e foram violentas. A escolha da ministra pode ter tido um caráter simbólico, mas as brigas que ela promete causar já se mostram concretas.”

A imprensa vai ter um papel importante no acompanhamento do ministério de Eleonora. Enquanto ela se limitar a falar dos direitos femininos e da defesa das mais pobres, pode ser que nem seja notícia. Mas deveria ser, pois se o tema aborto entrar em pauta, evangélicos e católicos prometem muito barulho. Isso, apesar de a ministra ter declarado, em sua primeira entrevista coletiva, que o projeto relativo ao aborto não depende do Executivo. É o Congresso que vai decidir se muda ou não a lei já existente.

Mesmo que não diga mais uma palavra sobre a descriminalização do aborto, a ministra vai continuar na mira dos religiosos. A sua história de vida e a coragem de assumir suas convicções – políticas e sexuais – são motivos mais do que suficientes para deixar os conservadores irados. E talvez a verdadeira razão para os ataques. A imprensa precisa ficar de olho.

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[Ligia Martins de Almeida é jornalista]

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