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‘Não temos condições de ficar’, diz pastor de igreja atacada em Sumaré

Após adolescente de 16 anos levar tiro no braço, templo vai mudar de lugar. 
Pai e filho invadiram o local na noite de sábado incomodados com barulho. 

Foto: Marcello Carvalho/G1

Foto: Marcello Carvalho/G1

Publicado originalmente no G1

Depois de um adolescente de 16 anos ter sido agredido e levado um tiro no braço após um culto na Igreja Assembléia de Deus Ministério Gerizim, no Jardim Santa Clara, em Sumaré (SP), na noite de sábado (23), o pastor titular e os membros da igreja decidiram se mudar do local. “Estamos fechando a igreja, vamos nos mudar, não temos condições de ficar aqui”, disse o pastor Alessandro Pereira Godoy.

Segundo o religioso, o motivo da mudança é que os agressores são vizinhos da igreja e, por isso, o risco de acontecer outro ataque é grande. “Nós não sabemos o que vai acontecer, se eles conseguirem sair da delegacia podem vir aqui e matar todo mundo, nós não queremos morrer”, desabafou. Os suspeitos, identificados como Domingos e Pablo estão presos na cadeia de Sumaré, informou a Polícia Civil.

O local onde será criado o novo templo já está definido. Segundo os membros da congregação, um amigo, que pertence à outra igreja, já cedeu um barracão no mesmo bairro para que eles possam se mudar. Na manhã deste domingo (24), eles recolheram cadeiras, mesas, instrumentos musicais e todos os objetos da igreja para fazer a mudança para a nova sede.

Andréia Pacheco estava no salão no momento do ataque e ficou chocada com o que aconteceu. “Ficamos desesperados, queríamos defender o adolescente, mas não tínhamos como. É uma crueldade, eles ia matar um jovem de 16 anos”, contou a vendedora. Ela, que frequenta a igreja todos os dias, afirmou que não tem mais segurança nenhuma para ficar. “Se nós não mudarmos daqui eu não venho mais, é muito perigoso”, completou.

Ataque

O adolescente levou um tiro de raspão no braço e foi agredido com chutes e socos após o culto. Os suspeitos da ação são vizinhos do templo e estariam incomodados com o barulho, segundo a Polícia Militar. Eles foram presos.

De acordo com Godoy, os agressores são pai e filho, um de 57 anos e outro com idade entre 20 e 30 anos. Um pastor, de Bertioga (SP), também foi agredido, segundo testemunhas. Cerca de 30 pessoas estavam no local na hora da confusão.

Godoy disse que após o culto terminar os suspeitos atravessaram a rua e começaram a agredir com tapas e socos o religioso de Bertioga, que falava ao celular na calçada. Após a confusão, o agressor, de 57 anos, voltou para casa e pegou uma arma de fogo e foi para dentro do templo do Ministério Gerizim.

Ameaças

Dentro da igreja, apontou a arma para o pastor Godoy, que se escondeu no banheiro. Depois, pai e filho teriam ido em direção ao jovem de 16 anos para agredi-lo.

A cozinheira Lindinalva Pereira Cunha, que estava no culto, relata que tentou separar o adolescente dos agressores, mas não conseguiu. Depois de dar socos e pontapés no rapaz, o homem armado deu um tiro à queima roupa que acertou o braço do jovem.

Ele foi levado ao Hospital Estadual de Sumaré e não corre risco de morte. “Foi muita crueldade. Ele tentou matar um menino de 16 anos. Tentei separar, mas eles me jogaram do altar”, lembra Lindinalva. Na igreja ainda havia marcas de sangue na manhã deste domingo.

Tiros

Depois de atirar contra o jovem, segundo o pastor, o vizinho foi procurá-lo no banheiro. Como a porta estava trancada ele deu um tiro na fechadura, que ficou destruída. O religioso conseguiu fugir e o agressor teria disparado dentro do banheiro feminino e outro no teto do templo. Ao saírem da igreja pai e filho foram detidos pela Polícia Militar.

G1 foi até a casa dos suspeitos, mas ninguém quis comentar o caso. De acordo com a Polícia Civil, o caso foi registrado como tentativa de homicídio.

Drogas: por que a igreja pode pensar na descriminalização?

Drogas: por que a igreja pode pensar na descriminalização?Ronilso Pacheco, na Novos DiálogosA dependência química é um terreno que a igreja sempre soube pisar. Aprendemos com a Comunidade S8 e com o Desafio Jovem, já nos fins dos anos 1960 e início dos 1970, que esse tema era sério, e que o sujeito que enveredava por este caminho, continuava sendo sujeito, continuava sendo o alvo onde o amor de Cristo quer de fato chegar.Mas eis que mais de quatro décadas depois um desafio muito maior perturba o sono de todos nós. As drogas se tornaram um dilema, epidemia amedrontadora, celeuma sem solução e resposta eficiente da sociedade, que se encontra cada vez mais acuada, e do poder público, que depositou toda sua confiança na força da proibição e na repressão policial com sua “guerra às drogas” e vê, com demasiada frustração, que não chegou a lugar nenhum e que não há um único mísero dado que ajude a acreditar que alguma coisa dessa política deu certo. É fato, não há o que comemorar.

Diante deste dilema, uma alternativa ganha força e discussão: a descriminalização do consumo de drogas. No Brasil, o dilema gira em torno de proposta enviada ao congresso, para alteração da Lei 11.343, de 2006. Tinha ela a intenção de separar o usuário e dependente (aquele que apenas consome, por curtição ou por doença/dependência química) do traficante (aquele que vende e quer lucrar e enriquecer com isso, ligado ao crime organizado).

Mas algo saiu errado. A falta de critérios objetivos nesta lei não ajudou a distinguir quem era usuário e quem era traficante, e assim sendo, prevaleceu muitas injustiças, o estigma como uma categoria a priori. Negros e pobres (muitos sem antecedentes criminais e sem nenhuma associação direta com o crime organizado) lotaram penitenciárias; jovens brancos da Zona Sul se livraram da cadeia, mas permaneceram carregando a alcunha de viciados, maconheiros que sustentam o tráfico. Então uma nova campanha busca corrigir este detalhe, e pede, convoca a sociedade para reconhecer que esta lei de drogas precisa mudar, tendo como exemplo maior, a política de drogas empreendida em Portugal há cerca de dez anos. E a igreja, não vai dizer nada?

É verdade que alguns equívocos confundem a compreensão da proposta da descriminalização, e tais equívocos é que muitas vezes fazem anoitecer a claridade da compreensão do que estamos lidando e buscando conversar.
Um deles é pensar que a ideia da descriminalização se apresenta como uma solução para acabar com o consumo e com o tráfico: não vai. Há quem pense no interesse das indústrias que querem descriminalizar a maconha para comercializá-la em paz e faturar muito: não faz sentido. E há ainda quem pense que a igreja está sendo um “inocente útil” nessa história, e que estaria sendo usada para legitimar a liberação da maconha: é um risco, mas é também subestimar a capacidade de avaliação e discernimento da igreja. Porque o que a Bíblia nos diz é que aquele que sabe fazer o bem e não o faz, comete pecado. A omissão expõe o pecado que escolhemos.

Mas ainda há quem diga: “o Brasil não é a Holanda nem Portugal”. É verdade, mas mesmo não sendo também os Estados Unidos, adotamos a política de repressão e “guerra às drogas” como se lá fosse um sucesso, e o que os fatos nos evidenciam é que só colhemos fracasso, estigmas, violência e morte.

Portanto, se a descriminalização não vai resolver o problema do tráfico, o que ela quer e por que a igreja deveria se meter nisso? Deseja abrir espaço para os cuidadores, e, sabendo que o estado não pode dar conta disso sozinho — a igreja se apresenta, pois é cuidadora por excelência. Deseja que os bilhões de recursos gastos com a manutenção de presos indevidamente nas penitenciárias abarrotadas e do aparato militar da guerra às drogas, sejam repensados para o tratamento e a saúde — e aí a igreja se apresenta para mostrar o que sempre fez, pois é uma aliada que o estado não deve ignorar. Deseja tratamento mais humano, sobretudo para o sujeito das comunidades periféricas, cuja entrada no mundo do tráfico ou a chegada ao consumo e dependência não pode ser tratada de uma maneira tão simplista e estigmatizante — e aí a igreja se apresenta, pois sabe ressignificar sujeitos segundo o olhar de Cristo.

Eu lembraria a pensadora Judith Butler que diz que uma das formas de dominação é a construção de sujeitos. Portanto esse sujeito construído a partir da perspectiva da desigualdade, pelo viés da droga (o traficante, o viciado, o dependente, o doente, o drogado, o maconheiro, o marginal), não é o sujeito onde Jesus para, porque Deus não para no sujeito construído, Deus quer chegar ao sujeito como foi criado. Talvez o grande papel da igreja seja esse. Ajudar a emergência do sujeito como fora criado.

O fato é que ninguém tem uma saída pronta e definitiva. Tudo precisa ser construído, repensado. Vale sim observar o que deu certo em outros lugares, pois precisamos de ajuda, de ouvir e aprender. Precisamos de uma alternativa. Eu creio que “é preciso mudar”, e que, neste momento, o único pecado que não podemos cometer é a omissão de discutir.

Ronilso Pacheco é de São Gonçalo, no Rio de Janeiro. Estuda Teologia na Pontifícia Universidade Católica do Rio, integra a RENAS-Rio, afiliada da Rede Evangélica Nacional de Ação Social, o Congresso Nacional Underground Cristão (CNUC). É pesquisador no Programa de Iniciação Científica da PUC-Rio (Ética e Alteridade) e congrega na Comunidade Cristã S8 Rio. Interlocutor para as igrejas na Ong Viva Rio.