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Se Jesus andasse por aí hoje, certamente apanharia do povo

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Publicado por Leonardo Sakamoto

Hoje é Sábado de Aleluia. Dia da Malhação do Judas.

Para quem não é ou não foi cristão, nem acompanha as notícias, a tradição consiste em fazer um boneco de pano, papel, serragem, jornal, o que seja, para representar Judas Iscariotes – o delator de Jesus – e humilhá-lo, xingá-lo, surrá-lo, queimá-lo, alfinetá-lo, explodi-lo.

Quando me lembro das vezes em que dei paulada em Judas na época de moleque, fico pensando como essas tradições esquisitas são consumidas por nós como a coisa mais normal do mundo, assentando-se em nossa formação com seu rosário de símbolos e significados (lembrando, é claro, que Judas resolveu ele próprio se enforcar, não sendo necessária nenhuma turba enfurecida, de acordo com a mitologia cristã). Não estou dizendo que é por causa da Malhação de Judas que aceitamos tão passivamente o ato de linchar alguém quando reina a sensação de que a Justiça convencional não será o bastante. Mas essas ações públicas de justiciamento com as próprias mãos me dão calafrios.

A massa na sua versão descontrolada – a turba – é idiota. Em 2010, um homem foi espancado até a morte e teve a casa incendiada e o bar destruído após ser acusado de ter sido o responsável pela morte de uma adolescente no interior de São Paulo. A investigação, contudo, mostrava que a jovem poderia ter morrido por outro motivo. A turba idiota não quis saber e rolou, ladeira abaixo, uma bola de neve de rumores, fofocas e maldizeres, decidindo que ele era culpado. Ao final, questionado pela barbárie, um dos participantes da loucura declarou: “Se a gente fez, ele deve. Alguma coisa ele deve”.

Adoraria discordar de Oscar Wilde. Mas, nesse caso, ele cai como uma luva: “Há três tipos de déspotas. Aquele que tiraniza o corpo, aquele que tiraniza a alma e o que tiraniza, ao mesmo tempo, o corpo e a alma. O primeiro é chamado de príncipe, o segundo de papa e o terceiro de povo”…

Conversei com amigos de denominações protestantes revoltados com os Felicianos da vida, que jogam na lama a fé de milhões de outras pessoas no intuito de realizar seus projetos pessoais.

(Aliás, durante a Santa Inquisicão que se tornou a campanha eleitoral de 2010, cravei que, um dia, a gente iria descobrir que tanto Dilma quando Serra são ateus ou, no máximo, agnósticos não-praticantes, mas que ajoelharam e fizeram o sinal da cruz para vencer. E como na política cabe tudo, de repente o presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias também é ateu e a gente ainda não sabe…)

Mas o discurso fácil que, consumido, decantado, enraizado e ativado, transforma a massa em turba provoca distorções de entendimento sobre as palavras que estão na origem da fé das pessoas. Estudei em escola adventista por nove anos e, ao mesmo tempo, participei bastante da vida na igreja católica perto de casa, tendo sido até coroinha. Por conta, sei razoavelmente o que está escrito nos evangelhos – inclusive nos apócrifos, bem mais interessantes, mas isso é outra história. E, certamente, não é esse discurso de intolerância que grassa em muitos cultos, dos católicos aos neopentecostais.

Sei que cada um interpreta do jeito que melhor lhe cabe. E que o processo de decodificação de uma mensagem é sim um ato que depende do filtro de cada um que, por sua vez, depende da experiência de vida, classe social, formação, enfim, de cada um. Mas a interpretação é um processo que pode ser conduzido e é carregado de política, pois dá o tom da forma como algo deve ser visto pelos demais. Quem faz prevalecer a sua visão de mundo ganha o rebanho.

Não dá para entrar num culto do Malafaia e gritar a pelos pulmões algo como “vocês não entenderam nada do que o Nazareno disse!”. Seria muito arrogante e ofensivo à liberdade de que ele dispõe. Mas que dá vontade, ah, dá, principalmente porque liberdade não é algo absoluto, acaba quando você a usa para causar dor a alguém. O fato é que se tivessem interpretado por uma forma mais humana o que significa amar o seu semelhante como a si mesmo, dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus, e todo o restante, entenderiam que professar homofobia, racismo e machismo não faz sentido algum. O que significa amar alguém de verdade? E o que significa submeter alguém à minha vontade?

Dito isso, tenho a certeza de que se Jesus, o personagem histórico, vivesse hoje, defendendo a mesma ideia presentes nas escrituras sagradas do cristianismo, mas atualizando-a para os novos tempos, seria humulhado, xingado, surrado, queimado, alfinetado e explodido não só num Sábado de Aleluia, mas também em dias menos santos. Seria tachado de defensor de bicha, mendigo e sem-terra vagabundo. Olhada como subversivo, acusado de “heterofóbico” e “cristofóbico”. Alcunhado como agressor da família e dos bons costumes.

Pelos príncipes. Pelos papas. Pelo povo.

Daí, outra passagem que gosto muito, em Lucas, capítulo 23, versículo 34: “Pai, perdoai. Eles não sabem o que fazem.”

‘Nova classe média’ tem trabalho precário, pouca instrução e moradia inadequada

Inserção do grupo ocorreu principalmente no comércio, serviço e pequenas indústrias, segundo pesquisador

Rosani e Carlos Augusto, com a filha Manuela e o neto Miguel. Donos de um bar, trabalham de 7h às 20h (foto: Mônica Imbuzeiro / Agência O Globo)

Rosani e Carlos Augusto, com a filha Manuela e o neto Miguel. Donos de um bar, trabalham de 7h às 20h (foto: Mônica Imbuzeiro / Agência O Globo)

Nice de Paula, em O Globo

As estatísticas não deixam dúvidas. Com o ganho de renda dos trabalhadores nos últimos anos, o Brasil é um país de classe média. Economistas calculam que 55% da população podem ser considerados assim. Mas que classe média é essa?

A acompanhante de idosos Fernanda Nascimento, 25 anos, e seu marido, o pedreiro Carlos Rogério de Oliveira, de 31, não terminaram o ensino fundamental. O casal mora em Nova Iguaçu, com as filhas de 5 e 1 ano de idade. Fernanda e Carlos Rogério não têm casa própria, cartão de crédito nem plano de saúde. Suas filhas não estão em escola particular e o casal enfrenta uma jornada de trabalho de mais de dez horas por dia. Mas a renda mensal da família, de R$ 2.100, faz dela um retrato da nova classe média brasileira. Será mesmo?

— Não — diz o sociólogo Jessé Souza, para quem esse grupo forma uma “nova classe trabalhadora precarizada”. — É uma classe que foi inserida principalmente no comércio, em serviços e em pequenas indústrias. É mais explorada, aceita trabalhar 12, 14 horas por dia. A ascensão dessa classe ao consumo é real. E isso é extremamente positivo, porque antes nem essa possibilidade existia. A sociedade moderna têm dois capitais importantes, o econômico e cultural. Essa visão empobrecida (de classe média) considera apenas a renda.

As sociólogas Christiane Uchôa e Celia Kerstenetzky, da UFF, analisaram os indicadores sociais da nova classe média, com base na Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) do IBGE de 2009. E se surpreenderam ao perceber que 9% dos pais de família do grupo são analfabetos, 71% das famílias não têm planos de saúde e 1,2% das casas (cerca de 400 mil) sequer têm banheiros. “A chamada nova classe média não se parece com a classe média como a reconhecemos” concluem as pesquisadoras.

Criador do conceito “nova classe média”, o economista Marcelo Neri, presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), vê nas críticas uma reação de sociólogos que, para ele, “se sentem um pouco invadidos”:

— Desde o começo a gente não está falando de classe sociais, mas de classes econômicas. Economistas são pragmáticos, talvez simplifiquem demais as coisas. Mas, entre 2003 e 2011, 40 milhões de pessoas se juntaram à classe C no Brasil, que passou para 105 milhões de pessoas.

No recorte feito por Neri em 2009, eram consideradas como classe média famílias com renda mensal entre R$ 1.200 R$ 5.174 Agora, as faixas foram atualizadas para entre R$ 1.750 e R$ 7.450.

— É claro que essa não é uma classe média europeia ou americana, é a classe média brasileira. Mas não olhamos só a renda, é uma métrica mais sofisticada. Há melhoras em indicadores de educação e, principalmente, de trabalho, que dá sustentabilidade às conquistas. O grande símbolo dessa classe média não é o celular nem o cartão de crédito, mas a carteira assinada. Eu até gostaria de ver mais empreendedorismo — diz Neri.

O empreendedorismo faz parte da rotina de Rosani Pifani, 50 anos, e seu marido Carlos Augusto Ferreira, 53 anos, donos de um bar no Morro do Pinto, onde conseguem uma renda de R$ 2 mil, vendendo de cerveja a detergente, das 7h às 20h. Nos fins de semana, a jornada se estende até 2h.

— Não tenho conforto nem fim de semana, e queria ter um carro. Mas quando olho a pobreza em volta, vejo que pelo menos tenho casa própria, comida e televisão — diz Rosani, que não completou o ensino fundamental.

Com tv a cabo, mas sem escola particular

No andar de cima da casa, vive a família da filha, Manuela Pifani Lago, de 25 anos, seu marido Jonatas Oliveira, de 30 anos, e o filho Miguel, de 4 anos. Com ensino médio completo, os dois trabalham com carteira assinada, ela como caixa numa grande rede de varejo e ele, como técnico de informática. Juntos ganham cerca de R$ 2 mil.

— Temos plano de saúde, graças à empresa, e alguns confortos, como TV a cabo. Mas escola particular para o Miguel ainda não dá — conta Manuela.

O publicitário Renato Meirelles, do Instituto Data Popular acha que o brasileiro tem uma visão errada de sua própria condição.

— Quem se considera de classe média está na ponta da pirâmide, é mais intelectualizado, mais erudito. Temos pesquisa mostrando que 35% das classes A e AB se consideram de classe média. No Brasil, o 1% mais rico têm renda per capita de R$ 6 mil por mês e há um monte de gente que faz parte deste 1%, mas jura que é classe média. Mas não se pode dizer que classe média é só quem concluiu o curso superior e gosta de música erudita.

Ex-babá e hoje sócia de uma loja de decoração em Copacabana, Evangelina Ribeiro, de 40 anos, diz que só passou a se sentir de classe média depois de concluir seu curso superior em pedagogia.

— Um mundo se abriu. Almoço em casa, compro o que quero e visto o que eu gosto. Infelizmente, a sociedade ainda tem muito preconceito, e a primeira impressão é o que você tem e o que você compra — diz ela, dona de renda mensal que varia de R$ 2.500 a R$ 3 mil, e que já pensa em cursar outra faculdade, de gastronomia.

Veículo de R$ 30 mil só vale a pena em SP se rodar mais de 17 km ao dia

Maria Paula Autran e Carolina Matos, na Folha de S.Paulo

A inflação em alta e o reajuste do preço dos combustíveis deixaram mais caro manter um carro na garagem.

Cálculos do professor da FGV Samy Dana para a Folha mostram que, em São Paulo, hoje, só vale a pena financeiramente ter um veículo –considerando um carro pequeno, no valor de R$ 30 mil– se o proprietário roda ao menos 17 quilômetros por dia, seja com álcool ou gasolina. Menos que isso, é mais econômico andar de táxi.

As contas consideram preço médio da gasolina em R$ 2,80 e do álcool em R$ 1,94, segundo pesquisa da Folha em 50 postos da capital paulista.

O quadro mais abaixo traz detalhes das comparações para veículos abastecidos com gasolina. Para álcool e outros valores, consulte calculadora interativa a seguir.

A simulação inclui, além do preço do veículo e de gastos com combustível, despesas como as com seguro, estacionamento e tributos, e a depreciação do bem.

“O custo de manutenção nunca para de aumentar”, diz Reinaldo Domingos, educador financeiro.

“E estacionamento é um item preocupante. Está cada vez mais escasso e hoje pode custar R$ 50 por dia.”

O IPCA (índice oficial de inflação) subiu 0,86% em janeiro, o maior valor para o mês desde 2003 e o mais alto mensal desde abril de 2005. A gasolina ficou 6% mais cara nos postos em São Paulo nos últimos 30 dias.

INVESTIMENTO

Para quem usa um carro pequeno basicamente para ir ao trabalho e voltar, por exemplo, e roda dez quilômetros por dia, a opção pelo táxi pode gerar uma economia de R$ 5.497 em um ano. Na poupança, essa quantia renderia R$ 279 no período.

Por isso, antes de comprar um automóvel, os especialistas recomendam avaliar todos os custos, e não apenas a parcela que cabe no bolso.

Editoria de Arte/Folhapress

Editoria de Arte/Folhapress

 

Leonardo Sakamoto: Vou trocar meus remédios por sessões de cura na igreja

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Publicado originalmente no Blog do Sakamoto

- Por favor, uma caixa deste opiáceo aqui.
- Tem receita e um documento da pessoa para quem é o remédio.
- A receita tá aqui. E é para mim. Hérnia de disco.
- Hum, me desculpe. É que você é tão novo… Pronto.
- E, aproveitando: tem esse antiinflamatório aqui da receita?
- Todo mundo pegou essa virose, né? Inflamação na garganta?
- Tenho uma artrose. Mas tudo controlado. Só nas mudanças bruscas de temperatura que o bicho pega.
- Coitado… Tá aqui.
- Por fim, pode me ver este remédio para pressão?
- Vai dizer que é para você também!
- Sim, ué.
- Nossa.
- Nossa, o quê? Algum problema?
- Nada, desculpe. Tô surpreso. Tanta coisa e tão jovem! Tem certeza que não é para seus pais? – hehe.
- Não, não é.
- Prontinho.

Pouco depois, saindo da loja, o atendente pesa a mão, grave, no meu ombro. Desta vez, menos brincalhão.

- Olha, casos como o seu não são coisa de remédio, não. Conhece as terças-feira da cura, da Igreja do Bananal da Várzea de Zeus? Aparece por lá, no templo maior. Acredito que, se você tiver fé, em sete ou oito terças seus problemas estão resolvidos.
- Eles curam tudo por lá?
- Olha, teve um rapaz com Aids que foi curado depois de 15 sessões. E dizem que uma dona de casa com câncer, desenganada pelos médicos, hoje está bem, tendo ido a 20. O seu caso se resolve com bem menos.

Há algumas denominações evangélicas neopentecostais que vendem prosperidade. Outras se utilizam da liturgia da prosperidade, mas também vendem saúde e cura. E há aquelas que se especializaram só nesta última área e têm feito mais sucesso.

Mesmo com muita reza, se você não nasceu em berço de ouro, dificilmente vai ficar rico (se é jornalista então, puf! Esquece…). Mas com dedicação, sorte e algum apoio, dá para sair da lama e remendar a vida. Os poucos que conseguem ir além disso tornam-se testemunhos vivos da intervenção de Deus. Aleluia!

Mas curar-se de um problema de saúde é mais fácil. Recentemente, ouvi um infectologista, em uma entrevista no rádio, comentar que a medicina é capaz de identificar e tratar efetivamente uns 10% das perebas. O restante, ou o corpo resolve sozinho ou não resolve. Aí, aquilo que era mérito do velho e bom sistema imunológico, da medicina ou do término do ciclo de uma doença, acaba caindo como benfeitoria divina, intermediada por seus terráqueos representantes. Gratuitamente, é claro, porque a comissão de 10% não é para os homens e sim para ampliar as obras de Deus (que incluem nababescas casas em belos condomínios fechados onde moram alguns desses representantes) e causar mais efeito placebo. Salve, aleluia, salve!

É um negócio sensacional. Veja só: a pessoa está descontente com o médico. Ouve falar de que um pastor tal tem poder na palavra. Ela continua com o tratamento, mas vai ao culto. Quando fica bem, o mérito é 100% da igreja. Quando não, a culpa é do pobre doente que não teve fé o suficiente. Até porque, como sabemos, Deus não falha nunca. Isso sem contar o fato de que clínica paga imposto, igreja não.

Dito isso, devia ter agradecido, mas negado prontamente ao simpático atendente, explicando que médico e remédio são – no final das contas – uma solução mais barata.

dica do João Marcos

Museu de Viena aceitará visitantes sem roupa

Pessoas fotografam o anúncio da exibição 'Naked men', um enorme retrato montado em uma escada em frente ao Leopold Museum em Viena, na Áustria
Pessoas fotografam o anúncio da exibição ‘Naked men’, um enorme retrato montado em uma escada em frente ao Leopold Museum em Viena, na Áustria

Após solicitação de associações nudistas, local fará um dia especial de visitas à exposição ‘Homens Nus’. Em 2005, experiência semelhante foi um sucesso

Publicado na Veja on-line

O Museu Leopold de Viena anunciou nesta terça-feira que prepara um dia especial para os que desejem visitar “bem à vontade” sua exposição Homens Nus, sobre a história da representação do corpo masculino na arte. Aberta até o dia 4 de março, a mostra reúne mais de 300 quadros, fotos e esculturas.

Após ter recebido várias solicitações por parte de associações nudistas, o local decidiu abrir suas portas no dia 18 de fevereiro, a partir das 18h, para quem quiser visitar o local sem roupa.

Homens Nus foi motivo de controvérsia em outubro por causa de um cartaz promocional com a imagem de um nu frontal de três homens. A  foto provocou diversos protestos, tanto de mulheres quanto de homens, o que levou os organizadores a cobrir os genitais da imagem com uma chamativa faixa vermelha em muitas das cópias distribuídas pela cidade.

Sucesso – Essa não é a primeira vez que o Museu Leopold promove uma ação do tipo. Em 2005, o local ofereceu entrada gratuita às pessoas que visitassem nuas a mostra A Verdade Nua: Klimt, Schiele, Kokoschka e outros escândalos. O evento foi um sucesso, com a visita de centenas de pessoas – que foram à exposição apenas com roupas de baixo ou completamente nuas.

foto: Peter Bader/Reuters

dica do Rodrigo Cavalcanti