“Obrigado, Senhor, pelo Rock’n Rio”

RocknRio-764x1024título original: Eu fui ao Rock’n Rio

Publicado por Fabricio Cunha

Eu fui ao Rock’n Rio pela primeira vez na vida.

Não me pergunte por que demorei tanto… Foi a primeira coisa que veio à minha cabeça quando dei meus primeiros passos na mágica Cidade do Rock.

Lembro-me de todas as edições.

Na primeira, me lembro dos burburinhos. Minha família já era “crente” e a repercussão em minha casa era ruim. Uma concentração densa do mal.

Na segunda , eu já era adolescente. Minha mãe não me deixava assistir. Em casa, só tínhamos uma TV, na sala, que fazia divisa com o temido quarto de minha mãe. Eu acordava de madrugada, horário em que a Globo fazia aquele review do dia, enchia a fresta da porta que separava a sala do quarto com almofadas para não passar claridade da TV e assistia bem baixinho, quase que inaudivelmente.

A terceira edição eu gravei no vídeo cassete e guardei as fitas sei lá onde.

A quarta, assisti pela TV. Arrependido… Arrependidíssimo.

Na quinta, fui!!! E fui dois dias, pra tirar o atraso.

O QUE VI

Muita gente. Gente de todo lugar, com bandeiras dos estados, dos times de futebol. Gente de todas as idades e estilos.

Aquilo era mesmo uma cidade. Uma cidade bonita, organizada, limpa e cara.

Vi uma mistura de gerações como há tempos, não via. Pais com camisetas das bandas mais antigas, acompanhados dos filhos com as camisetas das bandas mais novas.

Morri de vontade de levar minhas crianças nas próximas edições.

O QUE NÃO VI

Para sua surpresa, não vi drogas, brigas, lixo fora da pista (porque quem entra lá, não sai mais), falta de educação, empurra/empurra, bagunças desproporcionais.

Não vi…

E fui dois dias.

AS BANDAS

Muitas. Muito boas.

Mas as inesquecíveis são as mesmas: Mettalica e Bon Jovi.

Mettalica, uma banda de trash metal cordialíssima no tratar e pesadíssima no som. Gosto desde minha adolescência. Fiz um trabalho no ensino médio sobre a sua história. Uma banda que começou de um anúncio de jornal, onde o baterista Lars Ulrich procurava outros jovens para montarem uma banda.  Mettalica é célebre. Tem horas e horas de sucessos para se tocar direto.

Bon Jovi é uma banda que gosto há muito tempo, mas que tinha vergonha de dizer que gostava. Têm sucessos que marcaram as vidas de todos os que frequentaram os bailinhos de escola. Eu frequentei.

Prefiro o Mettalica, mas o show que mais curti foi o do Bon Jovi.

Também gostei demais do Frejat, do Ben Harper, do Nickelback.

Meu amigo Pr. Lucinho reclamou que tinha bandas de todos os estilos, mas nenhuma gospel. Gospel não é um estilo. Gospel é um segmento de mercado bem controverso, composto por muita porcaria e alguma coisa de qualidade. Teríamos bons “representantes” do segmento para se apresentarem no Rock’nRio? Acho que sim. Tanto internacionais (P.O.D., Switchfoot…) quanto nacionais (Oficina G3, Resgate, Palavrantiga, TanLan…).

Mas o “não convite” pode ser um reflexo do quão segmentados estamos, exatamente por sermos “segmento”. O quão longe estamos de onde deveríamos estar: no meio das gentes.

OS “CRENTE”

Na entrada:

-“Você sabe para onde foram Janis Joplin, Jimy Hendrix, Elvis Presley e John Lennon?”

– Não, não sei, por quê?

– Foram para o inferno. O mesmo lugar para onde você irá se passar por essas portas.

– o.O

Todo tempo é tempo de evangelizar, mas assim? Do lado de fora?  Condenando ao inferno os do “lado de dentro”.

Não vi “graça” nenhuma.

EU

  • Realizei um sonho e arrumei um problema. Não há como não ir em todas as próximas edições;
  • Fiquei feliz e à vontade no meio daquela gente, da minha gente. Gente com a qual me pareço. Gente que parece comigo;
  • O rock é uma bela companhia para a vida, mas não é fonte de sentido e significado. Ajuda, mas não dá conta. Essa gente toda precisa de sentido. Essa minha gente precisa de significado. São tão vivos, tão bonitos, têm tanta energia. Que encontrem fonte de sentido e significado para suas vidas;
  • No meio de tanta gente assim, como cumprir o chamado bonito de ser sal e luz? Sendo gente, sendo cordial, inclusivo, agradável, olhando com amor, sem julgamento, sem condenação, pulando junto, cantando junto, cedendo o lugar pra quem come de pé, olhando com olhos de graça pra toda aquela gente que anda como “ovelhas que não têm pastor”;
  • Levei a Lua comigo. Linda Lua. Minha Lua. Não se pode estar sozinho em algo que vai virar história em sua vida. Deve ter, mais do que para quem, com quem se contar;
  • Mettalica me aproxima de Deus. Bon Jovi me aproxima de quem sou;

Foi muito louco!!!

Obrigado, Senhor, pelo Rock’nRio…

Leia Mais

As muitas previsões de Isaac Asimov em 1964 que se tornaram realidade

isaac-asimov-previsões

Publicado no Gizmodo

Em 1964, após visitar a gigantesca Feira Mundial de Nova York, o escritor Isaac Asimov, então com 42 anos, viu o que ele considerou os primeiros passos de um futuro distante. Um futuro, mais precisamente, em 2014. Quase 50 anos depois, é assustadora a precisão de Asimov em alguns dos pontos que ele decidiu prever.

É importante lembrar, claro, que a missão da clarividência é sempre muito perigosa – as chances de errar são enormes, e até hoje caçoamos daqueles que não tiveram uma visão muita precisa (oras, é só lembrar que a piada nostradâmica de Ballmer ao falar sobre o possível insucesso do iPhone é lembrada até hoje).

Mesmo assim, com uma tarefa considerada ingrata por muitos, Asimov era o personagem ideal para fazer esse tipo de previsão. Afinal, Asimov foi um dos grandes nomes da literatura de ficção científica, criando marcos como as Três Leis da Robótica, publicado originalmente no livro Eu, Robô – livros e histórias que até hoje servem de base para filmes futuristas, mesmo tantas décadas depois.

Assim, acompanhe conosco onde Asimov acertou, errou ou passou perto em seu belo texto prevendo um futuro extremamente tecnológico, mas que não necessariamente seria um lugar utópico e incrível. Eis o texto completo. E, após a leitura, recomendamos o exercício mental: você consegue arriscar o que estaremos usando em 2064?

Onde ele acertou em cheio

isaac-asimov-previsões1

 

As comunicações combinarão som e imagem, e você vai ver e ouvir a pessoa para quem você telefonar. A tela pode ser usada não só para ver as pessoas para quem você liga, mas também para o estudo de documentos e fotografias, e para ler trechos de livros. Satélites síncronos, pairando no espaço, permitirão a você ligar diretamente para qualquer ponto da Terra, incluindo as estações meteorológicas da Antártida…

Asimov acertou ao prever o futuro das telecomunicações. O conceito de videochamada, de usar a tela do telefone para outros fins, e de conectar o mundo através da telefonia, se realizaram nos últimos 50 anos. (A imagem acima é do filme 2001: Uma Odisseia no Espaçolançado alguns anos depois que Asimov publicou seu texto.)


Um número enorme de conversas simultâneas… poderão ser feitas por raios laser modulados, que são fáceis de se manipular no espaço. Na Terra, no entanto, os feixes de laser terão de ser conduzidos através de tubos de plástico, para evitar a interferência material e atmosférica. Os engenheiros ainda vão lidar com esse problema em 2014.

Este é praticamente o conceito da fibra óptica, que conecta o mundo inteiro através da telefonia e internet. A comunicação via fibra óptica começou a ser desenvolvida na década de 70, portanto depois das previsões de Asimov. E não só os engenheiros têm problemas com os cabos submarinos: eles são os tubos pelos quais os EUA espionam o mundo.


Quanto à televisão, TVs de parede terão substituído os aparelhos comuns; mas cubos transparentes terão aparecido, nos quais será possível ver vídeos na terceira dimensão.

Sim! A TV cresceu e se tornou fina o bastante para ser presa à parede. Com as resoluções 4K e 8K, elas podem ficar ainda maiores sem perder a qualidade de imagem. E a ideia do cubo transparente é quase uma TV holográfica, que pode ser vista em três dimensões e de fato ainda está em seus estágios iniciais.

isaac-asimov-previsões2

 … até 2014, apenas naves não-tripuladas terão aterrissado em Marte, mas uma missão tripulada estará sendo planejada…

Sim! A Curiosity está explorando o planeta vermelho agora mesmo, em busca de sinais de vida passada, e o presidente Obama já disse que planeja enviar humanos a Marte. Ainda há o projetoMars One, para instalar uma colônia humana no planeta e ocupá-la a partir de 2023. Sensacional, Asimov.


Em 2014, há uma enorme probabilidade de que a população mundial será de 6,5 bilhões, e a população dos EUA será de 350 milhões.

Prever esses números há cinquenta anos e chegar tão perto, para mim, é um acerto. Estamos em 7,1 bilhões de pessoas no mundo; os EUA têm 317 milhões de habitantes.


Nem toda a população do mundo vai aproveitar ao máximo o mundo do futuro cheio de gadgets. Uma parte maior do que hoje será privada disso, e embora possa estar numa situação materialmente melhor do que hoje, eles estarão ainda mais atrasados quando comparados com as partes avançadas do mundo.

Os avanços tecnológicos, infelizmente, são para a minoria em uma escala global. Asimov acertou em cheio.


Mesmo assim, a humanidade sofrerá gravemente com a doença do tédio, uma doença que se espalhará de forma mais ampla a cada ano e crescendo em intensidade. Isso vai ter consequências mentais, emocionais e sociológicas sérias, e ouso dizer que a psiquiatria será, de longe, a especialidade médica mais importante em 2014.

É de dar arrepios essa previsão de Asimov. Nossas relações com a tecnologia acaba nos deixando mais tristes. Não é por ser “tedioso”: é que não estamos interagindo de fato com outras pessoas. A internet está nos deixando deprimidos. Ou você nunca teve aquela sensação de vazio depois de ficar horas com o celular na mão, ou em frente ao computador? E os gadgets têm mesmo um impacto na sociedade: pense no Google Glass, por exemplo, e a polêmica que seu uso trouxe.


Os poucos sortudos que puderem se envolver no trabalho criativo de qualquer espécie serão a verdadeira elite da humanidade, pois farão mais do que servir a uma máquina.

Sim. À medida que adotamos a automação, os trabalhos criativos continuaram a ganhar destaque.


Na verdade, a especulação mais sombria que eu posso fazer sobre 2014 d.C. é que em uma sociedade de lazer forçado, a única palavra mais gloriosa no vocabulário se tornará o trabalho!

Nunca se discutiu tanto as questões de trabalho versus lazer. Você faz o que gosta? Gosta do que faz?

Onde ele acertou em parte

Dispositivos sem fio e com bateria duradoura: Sim, nossos gadgets estão se tornando cada vez mais móveis, e a tecnologia caminha para que fios se tornem cada vez mais obsoletos. No entanto, a bateria deles ainda dura pouco, não usa material radioativo, e ainda dependemos dos fios. Até o carregador wireless tem fio!

Triunfo da energia nuclear e solar, inclusive coletada no espaço: A energia nuclear ainda é um ponto muito polêmico – vide o desastre em Fukushima, no Japão – por isso boa parte da energia consumida no mundo ainda vem de combustíveis fósseis. Nossa visão para o futuro agora está voltada para fontes renováveis, como a energia eólica e solar, assim como Asimov aponta. No entanto, obter a energia do Sol direto do espaço ainda é um sonho futurista.

Robôs mais espertos, movidos a computadores, porém longe do ideal: Cinquenta anos foi o bastante para criarmos robôs incríveis, como o BigDog e outros da Boston Dynamics, que agem quase como seres vivos. E temos robôs muito bons atuando na indústria, é claro. Existem até robôs sociais, cuidando de idosos no Japão, por exemplo. E eles realmente usam pequenos computadores para receber comandos e realizar ações. No entanto, ainda estamos engatinhando em muitos aspectos da robótica, assim como Asimov previu.

isaac-asimov-previsões3

Veículos autônomos: Veículos que se guiam sozinhos são praticamente uma realidade na aviação. Eles já existiam na época de Asimov: em 1947, um US Air Force C-54 fez um voo transatlântico, incluindo decolagem e pouso, apenas usando o piloto automático. No entanto, o “autopilot” se popularizou, e agora estamos nos esforçando para criar carros que andam sozinhos, como os do Google.

Comida congelada domina a alimentação, mas cozinha ainda tem espaço para preparo manual: Já existiam refeições congeladas na época de Asimov: elas começaram a ganhar espaço na década de 50. Asimov acertou que elas iriam se popularizar. No entanto, elas não substituem a comida feita no fogão, o “pequeno canto” onde são feitas as refeições de forma manual.

Janelas polarizadas: Nos anos 60, foi criada a película para janelas, que escurece quando recebe luz solar. Elas são usadas ao redor do mundo, porém não na escala que Asimov imaginava.

Máquinas fazem trabalhos rotineiros melhor que humanos, e servimos apenas para cuidar das máquinas: Quando um emprego é substituído por um robô, por exemplo, surge a demanda por pessoas que saibam controlá-lo, e que possam fazer sua manutenção. No entanto, ainda estamos longe de uma sociedade que apenas cuida de máquinas, porque a automação ainda não chegou ao ponto que Asimov esperava.

Computação e programação como disciplina nas escolas: Asimov acertou que computadores se tornariam onipresentes o bastante para aprendermos a usá-los na escola. No entanto, ele dizia algo além: previa que nós iríamos aprender a criar código para elas. Quem dera! Ensinar programação deveria mesmo ser obrigatório no ensino médio.

Dispositivos que substituem ou consertam partes do corpo; expectativa de vida em 85 anos; iniciativas para controle de natalidade: Ainda não usamos órgãos artificiais com a frequência que Asimov imaginou, mas estamos rumando a um futuro assim. A medicina também avançou muito nos últimos 50 anos, e fizeram a expectativa de vida aumentar ao redor do mundo. A taxa de fertilidade, por sua vez, também caiu: à medida que as famílias migrara para as cidades, e à medida que as mulheres entraram no mercado de trabalho, muitos decidiram por ter menos filhos. Iniciativas como a Planned Parenthood nos EUA, o limite de um filho por casal na China, e a luta pelo direito ao aborto também surgiram desde a época de Asimov.

isaac-asimov-previsões4

Cozinha que prepara refeições automaticamente: Asimov previu que vários aparelhos tornariam a cozinha mais automática. Nesse sentido, ele acertou: o micro-ondas, por exemplo, só foi lançado em 1967. Ele até cita objetos como a cafeteira automática, lançada em 1972! No entanto, ele ia mais longe, imaginando dispositivos que fariam uma refeição inteira com mínima interação humana. Por exemplo, bastaria programar a cozinha na noite anterior para fazer o café da manhã, e ela o faria automaticamente, fritando ovos e bacon na hora marcada.

Alimentos artificiais vindos de algas e fungos: Tem algo de bastante correto aí. Estamos rumando para comidas totalmente artificiais, como o hambúrguer de laboratório. E sim, existe uma forte resistência à adoção desse tipo de comida.

Onde ele errou

isaac-asimov-previsões5

Casas subterrâneas: Asimov imaginava que os humanos morariam debaixo da terra, deixando a superfície do planeta para a agricultura e parques. Fizemos o contrário: criamos edifícios cada vez mais altos para morar e trabalhar.

Casas subaquáticas: Ainda não estamos habitando os oceanos. Há projetos nesse sentido, mas como mencionamos: estamos morando em edifícios cada vez mais altos, em vez de mais profundos.

Tetos e paredes eletroluminescentes: Essa é uma visão futurista até hoje: transformar todo o ambiente da sua casa através da iluminação. O mais perto que chegamos disso é usando a Philips Hue, lâmpada que muda de cor e pode ser controlada sem fios.

Robôs que limpam toda a casa: Mais uma vez, Asimov imaginava uma casa bastante automatizada, o que não acontece hoje em dia. No máximo temos o Roomba, um robô aspirador que na verdade é pequeno e ágil, mas não é inteligente como previsto há 50 anos.

isaac-asimov-previsões6

Veículos sem contato com a superfície, sobre a terra e a água: Basicamente, Asimov apostava na evolução e popularização de hovercrafts, que flutuam em vez de tocar o chão. Isso não aconteceu.

Calçadas que se movem, elevadas por cima dos veículos: Calçadas que se movem ainda são raridade. Esta ideia foi aplicada a aeroportos e estações de metrô, no entanto.

Colônias na Lua: Os humanos continuam a exploração espacial, e alguns já moram na órbita da Terra – olá, astronautas da ISS! Mas colônias na Lua ainda estão longe de se tornar realidade.

General Electric, feiras mundiais, e filmes 3D: Toda previsão do futuro tem elementos do tempo em que a pessoa vive. Para Asimov, as Feiras Mundiais ainda seriam relevantes hoje em dia, o que não é o caso. (Elas ainda existem, no entanto, e a próxima será na Itália em 2015.) O mesmo pode ser dito sobre a General Electric: ela continua sendo uma empresa gigante, mas não vem à mente quando se trata de inovações futurísticas. E estamos nos livrando do 3D, felizmente!

Leia Mais

‘Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura’

Ricardo Gondim recita “O Haver”, de Vinicius de Moraes. #purolirismo

Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura
Essa intimidade perfeita com o silêncio
Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo
– Perdoai-os! porque eles não têm culpa de ter nascido…

Resta esse antigo respeito pela noite, esse falar baixo
Essa mão que tateia antes de ter, esse medo
De ferir tocando, essa forte mão de homem
Cheia de mansidão para com tudo quanto existe.

Resta essa imobilidade, essa economia de gestos
Essa inércia cada vez maior diante do Infinito
Essa gagueira infantil de quem quer exprimir o inexprimível
Essa irredutível recusa à poesia não vivida.

Resta essa comunhão com os sons, esse sentimento
Da matéria em repouso, essa angústia da simultaneidade
Do tempo, essa lenta decomposição poética
Em busca de uma só vida, uma só morte, um só Vinicius.

Resta esse coração queimando como um círio
Numa catedral em ruínas, essa tristeza
Diante do cotidiano; ou essa súbita alegria
Ao ouvir passos na noite que se perdem sem história.

Resta essa vontade de chorar diante da beleza
Essa cólera em face da injustiça e o mal-entendido
Essa imensa piedade de si mesmo, essa imensa
Piedade de si mesmo e de sua força inútil.

Resta esse sentimento de infância subitamente desentranhado
De pequenos absurdos, essa capacidade
De rir à toa, esse ridículo desejo de ser útil
E essa coragem para comprometer-se sem necessidade.

Resta essa distração, essa disponibilidade, essa vagueza
De quem sabe que tudo já foi como será no vir-a-ser
E ao mesmo tempo essa vontade de servir, essa
Contemporaneidade com o amanhã dos que não tiveram ontem nem hoje.

Resta essa faculdade incoercível de sonhar
De transfigurar a realidade, dentro dessa incapacidade
De aceitá-la tal como é, e essa visão
Ampla dos acontecimentos, e essa impressionante

E desnecessária presciência, e essa memória anterior
De mundos inexistentes, e esse heroísmo
Estático, e essa pequenina luz indecifrável
A que às vezes os poetas dão o nome de esperança.

Resta esse desejo de sentir-se igual a todos
De refletir-se em olhares sem curiosidade e sem memória
Resta essa pobreza intrínseca, essa vaidade
De não querer ser príncipe senão do seu reino.

Resta esse diálogo cotidiano com a morte, essa curiosidade
Pelo momento a vir, quando, apressada
Ela virá me entreabrir a porta como uma velha amante
Mas recuará em véus ao ver-me junto à bem-amada…

Resta esse constante esforço para caminhar dentro do labirinto
Esse eterno levantar-se depois de cada queda
Essa busca de equilíbrio no fio da navalha
Essa terrível coragem diante do grande medo, e esse medo
Infantil de ter pequenas coragens.

15/04/1962

A poesia acima foi extraída do livro “Jardim Noturno – Poemas Inéditos”, Companhia das Letras – São Paulo, 1993, pág. 17.

Leia Mais

Amor à Vida: Valdirene dá os primeiros passos para se tornar evangélica

 Valdirene dá os primeiros passos para virar uma cantora gospel famosa foto:  Reprodução

Valdirene dá os primeiros passos para virar uma cantora gospel famosa
foto: Reprodução

Regina Rito, em O Dia

Rio – Valdirene (Tatá Werneck) dá os primeiros passos para se tornar evangélica e virar uma cantora gospel famosa fazendo dupla com Carlito (Anderson Di Rizzi), com quem se casa, em ‘Amor à Vida’, como estava escrito na sinopse de Walcyr Carrasco. A partir do dia 6, a periguete e a mãe, Márcia (Elizabeth Savalla), que estão em dificuldades financeiras — desde que o casamento com Ignácio (Carlos Machado) não vingou — pedem empréstimo a Atílio (Luis Melo).

Na recepção do hospital San Magno, são recebidas por Maristela (Vera Mancini), que há meses deu uma bíblia a Valdirene e quer saber se a jovem leu. Valdirene retruca: “Comecei, parei. É que tava muito ocupada tentando agarrar um milionário”. Maristela: “Acredite em Cristo e não te faltarão riquezas”. Valdirene: “Então tá fazendo o que aqui trabalhando, se é rica?”.

Mãe e filha sobem e intimam Atílio a lhes emprestar dinheiro. Ele explica que não está trabalhando e que o hospital passa por uma auditoria. Valdirene: “Auditoria? Oba, quero participar!”. Márcia se empolga e pede a Atílio, para encaixar a filha. Ele rebate: “Ela nem sabe matemática”. Valdirene se irrita: “Você não me ofende. Vamo falá da auditoria. Sei que nessas auditoria a gente canta, e depois pode aparecer na televisão. Me bota nessa, que sei cantar umas música da hora”. A ex-chacrete confirma: “A Valdirene tem jeito pra coisa, podia até ser cantora profissional”. Sem paciência, Atílio frisa: “Falei auditoria, não falei teste de audição”.

dica do Ailsom Heringer

Leia Mais

5 maneiras científicas de criar um hábito

k-bigpic-12-600x337

Guilherme de Souza, no HypeScience

Começar a frequentar uma academia, fazer aulas de espanhol, aprender a tocar piano… certas práticas parecem difíceis de encaixar na rotina, enquanto outras simplesmente passam a fazer parte dela sem que você sequer perceba. Para ajudar os leitores a terem mais controle sobre os hábitos que desejam criar, confira cinco dicas baseadas em estudos científicos sobre motivação e disciplina.

1. Grandes metas, pequenos passos

Ciotti sugere, citando um artigo publicado em 2006 no Journal of Personality and Social Psychology, que você tenha objetivos grandes, “abstratos” (como “ter inglês fluente” ou “ser um excelente goleiro”), contrabalanceados por passos pequenos (ou, nas palavras dele, “pequenas cotas” a serem preenchidas).

“Suas ‘metas’ devem ser os grandes objetivos que você deseja alcançar algum dia, e as suas ‘cotas’ são o mínimo de trabalho que deve ser feito diariamente para ajudar os grandes objetivos a se tornarem realidade”.

Ele cita o caso do escritor Nathan Barry, que se propôs a escrever pelo menos mil palavras por dia e, em menos de um ano, conseguiu publicar três livros, que foram sucesso de vendas.

2. “Correntes” de comportamentos

Se você puder aproveitar hábitos que você já tem, será mais fácil inserir novidades na sua rotina. “Por exemplo, ao invés de ‘vou manter a casa limpa’, você pode propor ‘quando eu chegar em casa, vou trocar de roupa e então limpar meu quarto/escritório’”. Essa estratégia aproveita a energia que você já gasta normalmente.

3. Sem excesso de opções

O atual presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, criou o hábito de sempre vestir ternos cinza ou azuis (mais ou menos como o cantor Roberto Carlos, mas por um motivo prático, e não por questões de crença). “Eu tento eliminar decisões”, explica. “Não quero tomar muitas decisões sobre o que vou comer ou vestir, porque tenho muitas outras decisões a tomar”.

Há estudos que mostram que tomar decisões, por mais simples que sejam, gastam “energia mental”. Em texto publicado no site Harvard Business Review, o professor Robert C. Pozen sugere que você “identifique os aspectos da sua vida que considera mundanos e os ‘rotinize’ tanto quanto puder”, para que possa economizar energia para manter uma disciplina.

Se quiser ter hábitos alimentares mais saudáveis, por exemplo, tire algumas “porcarias” do seu cardápio – parece óbvio, mas muita gente prefere simplesmente acreditar que pode “resistir à tentação”.

4. Fantasia objetiva

“O passo que muitas pessoas pulam quando ‘fantasiam’ a respeito de um certo hábito é o de responder com clareza qual a mudança que elas querem que aconteça”, aponta Ciotti.

Em estudo publicado em 1999, pesquisadores da Universidade da Califórnia em Los Angeles (EUA) concluíram que pessoas que incluem passos e objetivos específicos em suas idealizações (como se imaginar estudando para aprender um idioma) têm mais chances de permanecerem firmes do que aquelas que criam idealizações mais “genéricas” (como se imaginar falando fluentemente um novo idioma).

Ao pensar no sucesso, as pessoas conseguem manter o foco, e, ao pensar nos passos necessários, diminuem sua ansiedade.

5. Nada de “ah, dane-se”

“Novos hábitos normalmente são muito frágeis, e é por isso que devemos eliminar qualquer fonte de desgaste que possa nos desviar”. O raciocínio é parecido com o do item 3, só que nesse caso é focado em problemas específicos, não em opções que podem ser benéficas.

Ciotti cita o exemplo do palestrante e escritor Ramit Sethi: “Quando eu parei para analisar por que não estava indo à academia, percebi que meu armário ficava em outro quarto. Isso significava que eu tinha que andar no frio para colocar minhas roupas. Era mais fácil apenas ficar na cama”, explica Sethi. “Quando percebi isso, arrumei minhas roupas e os tênis na noite anterior. Quando acordei na manhã seguinte, eu vi minhas roupas de academia no chão. O resultado? Minha frequência na academia aumentou em 300%”. [99u, Journal of Personality and Social Psychology]

Leia Mais