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Boneco desbocado de Ratinho vira pastor e critica Macedo e Santiago

Eduardo Mascarenhas manipula Xaropinho em culto da Igreja Evangélica Missão Vida em Cristo (foto: Arquivo pessoal)

Eduardo Mascarenhas manipula Xaropinho em culto da Igreja Evangélica Missão Vida em Cristo (foto: Arquivo pessoal)

Paulo Pacheco, no Notícias da TV

O rato Xaropinho, personagem desbocado do Programa do Ratinho, virou pastor. Seu manipulador, Eduardo Mascarenhas, pastor da Igreja Evangélica Missão Vida em Cristo há quatro meses, leva o boneco aos cultos, mas não para orar ou ler a Bíblia, e sim para tirar sarro dos fiéis. A liderança religiosa faz parte da nova rotina do artista, que pretende, aos poucos, deixar o mascote da atração do SBT, por problemas de saúde e para se dedicar à igreja.

“Eu não descaracterizo o Xaropinho. Na igreja, ele continua doido, brincalhão, falando abobrinha. Não quero ficar podando meu humor por causa do puritanismo. Quando não estou fazendo humor, sou pastor Eduardo. Não vou deixar de fazer piada, mas sem falar nenhum palavrão cabeludo”, diz Mascarenhas, que pede permissão a Ratinho, dono de Xaropinho, para manipular o personagem nos cultos.

A ideia de levar Xaropinho à igreja surgiu após Mascarenhas perceber que os frequentadores dos cultos não fazem outra atividade cultural senão ir à igreja: “Quando anuncio o Xaropinho, claro, sempre atrai um ou outro curioso para a igreja, mas levo porque a Igreja é muito séria, sisuda, carrancuda. Pensei nas famílias que não podiam pagar para irem ao cinema, ao teatro”.

O artista, hoje pastor, faz questão de se manifestar contrário às grandes igrejas, como a Mundial, de Valdemiro Santiago, e a Universal, de Edir Macedo. Para Mascarenhas, essas igrejas são “caça-níqueis” e visam apenas o dinheiro.

“Sou contra essas igrejas caça-níqueis que surgem a todo instante. Os caras não fazem nada útil, só fazem igreja para encher de gente, tomar grana [dos fiéis] e comprar emissoras de TV”, critica o pastor, que se sustenta com o salário do SBT e arrecada dinheiro na igreja para seu projeto social, o Instituto Xaropinho.

Na igreja, Mascarenhas manipula Xaropinho como ventríloquo. O rato já aparece gritando e xingando. Chama os fiéis de “feios” e diz que os pastores se parecem com o pugilista Adílson Maguila ou o apresentador José Luiz Datena:

Xaropinho - Beleza, Brasil, vai começar o Programa do Ratinho!

Mascarenhas - Está louco, Xaropinho? Você está na igreja!

Xaropinho - Meu Deus, que povo estranho… aquele é o Maguila ou o Datena?

Mascarenhas - Não, ele é o pastor.

Xaropinho - Pastor é para pastar?

Mascarenhas - Não, é para pastorear!

Xaropinho - Pastorear o quê?

Mascarenhas - As ovelhas. Todo esse povo são as ovelhas!

Xaropinho - Nossa, tem cada ovelha feia! Sabia que ovelha faz cocô redondinho?

Mascarenhas - Você está louco! Aqui é a casa de Deus!

Xaropinho - Deus está me ouvindo? Estou ferrado!

O pastor Eduardo Mascarenhas manipula o boneco Xaropinho durante culto (foto: Arquivo pessoal)

O pastor Eduardo Mascarenhas manipula o boneco Xaropinho durante culto (foto: Arquivo pessoal)

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Ator pornô que atuou com Rita Cadillac e se tornou pastor lança livro

Em ‘Luz, câmera, ação e tranformação’, Giuliano Ferreira – estrela de mais de 300 filmes – revela histórias como o envolvimento com uma atriz famosa.

Luciana Tecidio, no EGO

Giuliano Ferreira, ex-ator pornô que agora é pastor

Giuliano Ferreira, ex-ator pornô que agora é pastor

Quem vê o paulistano Giuliano Ferreira, de 35 anos, vestido com um terno, de bíblia embaixo do braço, palestrando sobre Deus, não faz ideia que há dez anos sua identidade era outra. O rapaz era conhecido como Júlio Vidal, ator pornô com cerca de 300 produções no currículo. Seu último trabalho foi há dez anos, atuando ao lado de Rita Cadillac no filme “A primeira vez”. E foi daquele set que ele seguiu para uma consulta médica que iria mudar sua vida  para sempre.

Giuliano conta que estava com forte dor de dente. E mesmo após ter sido medicado por um dentista teve uma séria inflamação, que se espalhou para outros órgãos do corpo e contaminou os rins e os pulmões. O paulistano foi internado e ficou cinco dias em coma.

No hospital, ele diz que teve uma experiência sobrenatural. “Tive um encontro com Deus. Ouvi uma voz falar para mim: ‘Chegou o momento de você fazer a minha vontade’. Assim que me recuperei e deixei o hospital, abandonei a carreira de ator pornô”, lembra Giuliano, que a partir dali tornou-se evangélico.

Toda esta trajetória de vida é contada no livro escrito por ele, “Luz, câmera, ação e transformação”. Na obra, Giuliano revela – sem citar nomes – o seu envolvimento com uma atriz famosa e as propostas que recebeu para subir na vida. “Muitos apresentadores famosos me ofereceram subir na vida de forma fácil, mas nunca aceitei”, garante ele.

Giuliano nasceu em uma família pobre e foi pai aos 18 anos. Depois de ser demitido do emprego de auxiliar de redação de um jornal paulistano, ele resolveu aceitar o convite para ser gogo boy. Para atuar em filmes pornôs foi um pulo. “Precisava de dinheiro para sustentar meu filho, que era criado por mim e pela minha mãe. Passei três anos me dividindo entre a Europa e o Brasil, atuando em filmes ponôs”.

Considerado estrela nesse segmento, Giuliano conta que seu salário girava em torno de R$ 12 mil e era direcionado para a mãe e para o sustento do filho, hoje com 18 anos: “Conseguimos comprar dois terrenos e construir duas casas”.

Quando acordou do coma e resolveu abandonar a indústria pornô, o ator viu sua situação financeira sofrer uma queda vertiginosa. Casado há 12 anos com a ex-secretária da escola de seu filho, Giuliano ganha a vida como representante de livros evangélicos e as suas palestras são gratuitas.

Focado na divulgação do livro, Giuliano  garante que não tem mais o que esconder. “Por causa do meu filho e do meu enteado, hoje com 17 anos, escondi minha história de ator pornô. Para que eles não sofressem bullying na escola. Mas agora é o momento de contar tudo. Com o livro, quero mostrar que a pessoa tem direito a ter a vida que quer e que também pode escolher um novo recomeço”.

Leia um trecho do livro:
“Passei um tempo dançando em uma boate em Moema, São Paulo. Era um grupo de Gogo Boys dançando ao som do DJ Mauro Borges. Um local também daqueles elitizados, onde havia muitos artistas frequentando. Em uma das noites de apresentação, acabei conhecendo uma jovem muito linda, ex-modelo. Na época, trabalhava em uma grande emissora de TV. Um verdadeiro furacão.

Vivemos momentos muito bons de paixão e loucura. Sempre que ia ao Rio de Janeiro, ficava um tempo com ela. Uma pessoa que tinha uma história de vida muito complicada, mas que, no fundo, cativava a gente com seu jeito meigo de ser.”

Capa do livro de Giuliano Ferreira (foto: Divulgação)

Capa do livro de Giuliano Ferreira (foto: Divulgação)

 

Superando preconceito, pastor evangélico é também drag queen

Ele defende releitura do livro sagrado e prega a liberdade como ‘o maior presente de Cristo’

Superando preconceito, pastor evangélico é também drag queen

Superando preconceito, pastor evangélico é também drag queen

Fabíola Leoni, em O Globo

Numa hora, ele pega a Bíblia na cabeceira para fazer uma pregação. Na outra, pega os cílios postiços para a próxima parada gay. Apesar de soarem antagônicas, as opções fazem parte do cotidiano do líder pastoral Marcos Lord — ou drag queen Luandha Perón, para os íntimos. Professor da rede pública há sete anos, em Duque de Caxias, Marcos é um carioca de sorriso largo, que demonstra sua crença religiosa com uma devoção para fiel fervoroso nenhum botar defeito. Evangélico de berço, ele diz ter sofrido quando se revelou homossexual, há dez anos, aos 26. A saída para não abandonar a fé foi entrar na Igreja da Comunidade Metropolitana (ICM). O ramo evangélico é conhecido por ter a maior parte dos fiéis integrantes da comunidade LGBT, o cenário propício para o nascimento, em 2011, de Luandha — “uma subversão, uma exaltação do feminino”, como define o pastor.

— Quando o Marcos está no trabalho, Luandha fica guardadinha ali no lugarzinho dela, como um gênio na garrafa — afirma o professor do 3º ano do ensino fundamental, que diz que os alunos não sabem da existência da personagem.

A transformação leva 30 minutos. Usando o próprio altar da igreja como mesa de maquiagem, Marcos pinta o rosto, sobe no salto alto e põe uma peruca de cabelos castanho-escuro com mechas californianas.

Perguntado sobre como é feita a pregação de um gay num ambiente com preceitos evangélicos, que levantam a bandeira contra a homossexualidade, o líder pastoral, sem tirar os olhos da Bíblia, defende de forma categórica uma releitura do livro, seu “manual de fé”. A ICM é considerada uma igreja inclusiva, o que, segundo Marcos, é uma expressão redundante — já que, para ele, todas as igrejas deveriam ser inclusivas. O pastor prega a liberdade como “o maior presente de Cristo” e acredita que “o essencial é o amor e a mensagem que a palavra de Deus transmite”. Para ele, a questão está no que ainda pode ser considerado sacrilégio ou não a partir das antigas escrituras.

— Se você for ler a Bíblia ao pé da letra, terá muitos problemas. Ela fala sobre escravidão, que você tem direito a ter um irmão escravo seu por sete anos. Ela diz que você não tem direito de comer carne de porco. Mas quem vai abrir mão de comer o seu presunto e o seu pernil? Se nós mantivéssemos a mesma visão que sempre tivemos da religião evangélica, a mulher estaria até hoje calada — argumenta, seguro. — Eu não posso simplesmente pegar a Carta aos Romanos e lê-la como se ela tivesse sido escrita para os brasileiros do século XXI. A Carta aos Romanos foi escrita para os cristãos de Roma, daquele período histórico, do primeiro século. Então eu não posso achar que ela é válida para hoje. Mas eu posso tentar pegar alguns ensinamentos que estão ali e achar novos significados para os dias de hoje? Posso. Assim como pego os ensinamentos da minha avó e tento trazer para minha vida até hoje. Mas isso não quer dizer que eu não vá pedir manga com leite numa lanchonete porque ela disse uma vez, lá atrás, que faz mal.

Foi nos idos de 1968, nos Estados Unidos, que surgiu a Metropolitan Community Church, liderada pelo pastor Troy Perry, que se revelou homossexual. O estudo da Bíblia feito a partir de um novo viés, com enfoque nos contextos histórico e social, ocorreu de forma concomitante com perseguições e ameaças à igreja, que cresceu desde então. Perguntado se é reconhecida internacionalmente, Marcos diz que ela é chamada de “a igreja dos direitos humanos” e que sua líder mundial, Nancy Wilson, faz parte de um grupo de aconselhamento, com representantes de organizações sem fins lucrativos, religiosas e laicas, que assessora o presidente Barack Obama.

No Brasil, a comunidade existe há cerca de dez anos, segundo o pastor. Há unidades em Fortaleza, Maceió, Teresina, Cuiabá, Maringá (Paraná), Caxias do Sul (Rio Grande do Sul), Belo Horizonte, Vitória, São Paulo e Mariporã (São Paulo). No Rio, há unidades em São João de Meriti e a comunidade Betel, em Irajá, onde Marcos é o líder pastoral. Na unidade, os cultos ocorrem numa pequena sala, onde podem ser vistos banners com dizeres como “O Senhor é meu pastor, e Ele sabe que eu sou gay”. Apesar de ser uma comunidade mundial, a ICM não é ligada a nenhuma convenção nacional de igrejas evangélicas.

A aflita descoberta da homossexualidade

O líder pastoral Marcos Lord vestido como drag queen: Luandha Perón, para os íntimos (foto: Gustavo Miranda / Agência O Globo)

O líder pastoral Marcos Lord vestido como drag queen: Luandha Perón, para os íntimos (foto: Gustavo Miranda / Agência O Globo)

Para quem desde que se entende por gente ouviu que ser gay era pecado e tinha “espíritos malignos”, a descoberta do gosto por uma pessoa do mesmo sexo pareceu um martírio. Marcos disse que teve receio do preconceito e da reação da família — que, inicialmente, foi negativa — e que fez penitências contra si próprio, em prol de sua “libertação”. Numa delas, levantou-se de madrugada durante sete dias. Foi na época em que morava com o irmão, pastor de uma igreja evangélica, em Barra Mansa, no Sul Fluminense.

— Eu me lembro claramente de uma noite. Estava passando por aquele momento de crise existencial e de madrugada fazia poças de lágrimas, ajoelhado no chão, pedindo a Deus que me libertasse. No fim da sétima noite, eu percebi que não ia adiantar, que Deus não tinha que me libertar, que não havia do que ser libertado. E a crise foi tentar encontrar lugar na minha fé para a minha sexualidade, entender que eu poderia ser gay e ser cristão — diz Marcos, que conheceu a ICM por meio de um amigo. — No começo, eu tive muita resistência. Eu não queria uma igreja para gays. Eu queria uma igreja. Eu imaginava que ia ter uma drag queen dublando a Fernanda Brum e a Cassiane, e que na hora da pregação o pastor ia transformar todos os personagens da Bíblia em homossexuais. Mas fui, e eles estavam estudando a Bíblia, como eu estudava nas igrejas de onde vim. Percebi que era uma igreja como qualquer outra. Só que me aceitava como eu sou.

Luandha Perón, segundo Marcos, aparece em eventos — paradas gay e festas da igreja — como forma de militância. O nome tem justificativa: é uma homenagem à África e à paixão pelo Museu Evita, em Buenos Aires, que conheceu em sua primeira viagem internacional, feita há três anos. Já a ideia de virar drag queen teve inspiração política: uma apresentação de integrantes da ICM de São Paulo. Durante a parada gay, fiéis da igreja paulista foram às ruas vestidos de noivas, para criticar o governo brasileiro, que se coloca contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo.

— Quando você vai para a balada, vira um personagem Não é a mesma pessoa que vai trabalhar de segunda a sexta. E, no meu caso, a drag queen é um personagem político, exaltando a mulher. As pessoas não gostam só porque é gay, e sim também porque é pintosa. As pessoas gostam de falar “Ai, não basta ser gay, ainda tem que dar pinta?” Por que não se pode dar pinta? Por que ser feminino é tão ruim? — pergunta Marcos, já sendo maquiado para se transformar em Luandha. — Quando começa esse processo de maquiagem, o Lord vai para trás das cortinas, e a Luandha vai surgindo. Ela vai começando a criar corpo, forma, a personalidade de Luandha vai surgindo. Ela é diferente de mim. Ela é mais ousada. Eu sou um pouco mais contido. O grande problema de o Lord virar Luandha é a sobrancelha e o chuchu (a barba).

Para Marcos, a inclusão que acontece na ICM é algo radical, já que deve ser aceito tudo aquilo que pode até chocá-lo:

— Imagina uma drag queen no culto? Imagina a primeira vez que a Luandha for pregar? Mas tudo causa. Na primeira vez que uma mulher botou uma calça, as pessoas ficaram assombradas. Como ela tinha a ousadia de fazer aquilo? Então o processo é esse. No começo choca, causa estranhamento, mas as pessoas vão se acostumando. E se ninguém causar esse primeiro impacto, esse primeiro choque, nunca vai passar disso, sempre vai ser um choque.

Maquiador de Luandha, o professor de história Léo Rossetti — também drag queen e membro da ICM Betel — defende que as pessoas usem a maquiagem como forma de transitar entre gêneros e ser o que quiser. Ele afirma que Deus não está preocupado com os corpos e não se define nem como macho, nem como fêmea:

— Se falo que Deus é homem, eu o estou fechando, tornando-o menor. Ele é tudo. Deus está preocupado com outras coisas, com o coração e com a justiça, por exemplo.

Jesus na Lapa

Baseado no slogan da ICM de igreja inclusiva, o pastor Marcos afirma que Jesus Cristo era um ser extremamente inclusivo, que chamava para perto de si os excluídos da sociedade, como cegos e mulheres. E aposta que, se Cristo nascesse nos tempos atuais, isso aconteceria na Lapa, bairro boêmio carioca:

— A gente aqui costuma dizer isso e que ele seria amigo das travestis, dos transexuais, dos malandros da Lapa. Jesus sempre andou com quem estava à margem da sociedade. Nós procuramos fazer isso também, apesar de não ser fácil esse trabalho diário. É chamar quem acha que não tem lugar junto às pessoas.

Segundo Marcos, apesar de os princípios da ICM se chocarem com os de outras igrejas, existe diálogo entre elas.

— Todo ano participamos da caminhada pela liberdade religiosa, contra a intolerância. Falamos com muita tranquilidade com a igreja episcopal anglicana, e temos contato próximo com a igreja presbiteriana da Praia de Botafogo. Mas há uma verdadeira ojeriza por parte das igrejas neopentecostais, principalmente. A gente vê pastores aí que, se pudessem, botavam o porrete na mão do povo para bater, porque eles não batem. Eles não são homofóbicos — ironiza o pastor.

Sobre relacionamentos amorosos, Marcos diz não se sentir à vontade para se envolver com “alguma ovelha” da comunidade, que conta, por exemplo, com mais duas drag queens. Livre e desimpedido, como se intitula atualmente, ele afirma que pensa em ter uma filha, que se chamaria Maria Eduarda. Segundo Marcos, que já foi noivo de uma mulher, se até os 40 anos não achar um companheiro com quem construir uma família, dará entrada mesmo assim no processo de adoção.

O pastor-candidato que pode levar a eleição presidencial para o 2º turno

Líder da Assembleia de Deus, maior igreja evangélica do país, pré-candidato do PSC usa discurso liberal e conservador para conquistar insatisfeitos com Dilma

Pastor Everaldo Pereira, pré-candidato do PSC à Presidência da República discursa na Marcha dos Prefeitos, em Brasília  (foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Pastor Everaldo Pereira, pré-candidato do PSC à Presidência da República discursa na Marcha dos Prefeitos, em Brasília (foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Felipe Frazão, na Veja on-line

A cinco meses das eleições, pela primeira vez, pesquisas de intenções de votos indicaram que a disputa pelo Palácio do Planalto não deverá ser decidida no dia 5 de outubro, cenário que já tira o sono da presidente Dilma Rousseff e dos idealizadores da sua candidatura à reeleição. A queda de Dilma nas sondagens feitas pelos institutos de pesquisa provocou o natural crescimento das intenções de votos dos seus adversários. Na última rodada de pesquisas, um nome chamou a atenção no meio político: com 3% da preferência do eleitorado, segundo o Datafolha, o pastor Everaldo Pereira, do nanico Partido Social Cristão (PSC), pode ser decisivo para levar a eleição para o segundo turno.

O desempenho do pastor Everaldo nas pesquisas recentes evidencia o peso de um segmento da sociedade brasileira que, em 2010, ultrapassou 42 milhões de pessoas: os evangélicos. Everaldo é vice-presidente nacional do PSC e pastor auxiliar da Assembleia de Deus, maior igreja evangélica do país, com 12,3 milhões de fieis – 28% do total. Ele nasceu e foi criado na Assembleia de Deus Ministério Madureira – dissidência fundada no Rio de Janeiro que, estima-se, reúne a segunda maior quantidade de seguidores, superada apenas pelo Ministério Belém, o mais tradicional.

É fato que a pré-candidatura de Everaldo possui uma série de fragilidades e seria difícil encontrar alguém hoje que apostasse na sua vitória. O PSC é um partido pequeno, ainda não tem nenhuma aliança formalizada e deve conseguir tempo reduzido no horário eleitoral na TV – cerca de 1 minuto e 30 segundos. O maior ativo do PSC é justamente o potencial de votos que o pastor pode arregimentar no meio religioso, caso consiga unificar os apoios declarados das igrejas pentecostais e neopentecostais. Para isso, terá de desenvolver propostas convincentes que ainda são uma incógnita até para os líderes evangélicos.

“Uma grande parte dos evangélicos vota apenas por causa da palavra ‘pastor’”, vaticina o bispo Robson Rodovalho, fundador da Sara Nossa Terra e ex-deputado federal . “Há uma pré-disposição geral do evangélico e do cristão em ver o pastor Everaldo com bons olhos. Grande parte das igrejas tende a estar com ele, se ele conseguir responder às expectativas na formação das demais agendas.”

A tendência é que Everaldo receba adesão de igrejas que tradicionalmente indicam voto em candidatos antipetistas, enquanto a presidente Dilma deve manter a aliança com a Igreja Universal do Reino de Deus, do bispo Edir Macedo, cuja moeda de troca é o Ministério da Pesca, hoje chefiado pelo pastor Eduardo Lopes (PRB). Igrejas pentecostais, como a Batista e Presbiteriana, tendem a “liberar o voto”, sem indicar candidatos.

A Confederação dos Conselhos de Pastores do Brasil (Concepab), que reúne líderes das principais igrejas evangélicas, definirá na próxima semana um calendário de sabatinas com a presidente Dilma, o senador Aécio Neves (PSDB-MG) e o ex-governador de Pernambuco Eduardo Campos (PSB). A entidade quer conhecer o posicionamento dos três pré-candidatos mais bem posicionados nas pesquisas sobre os valores cristãos. “O evangélico busca alguém que o represente na questão do aborto, do casamento tradicional, vida, família e que valorize a fé e a igreja. Estamos num momento muito intenso, de muita pressão e militância das minorias”, afirma Rodovalho. No caso de Everaldo, que também será convidado, as igrejas querem descobrir que plano de governo ele apresentará ao país.

“As pessoas já sabem o que o pastor Everaldo defende: sou a favor da vida sempre, e casamento para mim é entre homem e mulher”, diz Everaldo.

Privatização – O pastor se define como um político liberal-conservador, de centro-direita, e prega o Estado mínimo. Promete reduzir a cota de cargos comissionados no governo federal e manter apenas vinte ministérios: “Nós vamos passar tudo o que for possível para a iniciativa privada. Vamos privatizar de verdade, não esse engodo aí de concessão com dinheiro do BNDES”.

“O balanço contábil é uma maquiagem, os setores produtivos estão penalizados, com carga tributária de primeiro mundo e serviços prestados de submundo. As desonerações são analgésicos e não vão ao cerne da questão”, critica.

Everaldo defende a redução da maioridade penal, fala em reequipar as Forças Armadas e as polícias. Uma das apostas dele é incentivar a formação profissionalizante na educação militar. Sobre os protestos de rua, afirma que teria “tolerância zero com baderneiros”. “O governo implantou a desordem nesse país. O cidadão de bem está preso em casa e os bandidos estão nas ruas”, diz.

Ele convidou o ex-senador Marcondes Gadelha (PSC-PB) para coordenador o programa de governo e Antonio Cabrera, ex-ministro da Agricultura de Fernando Collor, para criar as propostas nos setores agrícola e ambiental. Suas inspirações são dois políticos mineiros, o ex-vice-presidente Pedro Aleixo e o ex-presidente Itamar Franco: “Ele arrumou o país e elegeu um sucessor que não era do seu partido [Fernando Henrique Cardoso]“.

PT – Com discurso de oposição, Everaldo nem parece um ex-apoiador da presidente Dilma. Nas eleições de 2010, o PSC chegou a negociar o apoio ao tucano José Serra, mas fechou aliança com a petista. O pastor participou inclusive da frente evangélica em defesa da presidente no debate sobre a legalização do aborto, que marcou a campanha.

Em março deste ano, o PSC anunciou o desembarque da base de Dilma. Everaldo afirma que a legenda havia optado por lançar um candidato à Presidência há dois anos. “Nós decidimos ter candidato próprio em janeiro de 2011, porque o governo do PT aparelhou o Estado para atender seus interesses partidários. Nós não indicamos nem um garçom”, diz Everaldo. “O governo deixou de ser dos brasileiros para ser de um partido só, para a hegemonia de um sistema que está vencido no mundo. Não queremos que o Brasil se torne uma Cuba nem uma Venezuela.”

Everaldo nega que a candidatura do PSC tenha sido influenciada pela superexposição que a legenda ganhou ao emplacar o deputado Marco Feliciano (SP) na presidência da Comissão de Direitos Humanos na Câmara. Ao dar espaço a projetos de lei incentivados por religiosos, o parlamentar foi atacado por partidos de esquerda. “Foram uns detratores e baderneiros. Pior que o Marco Feliciano na Comissão de Direitos Humanos foram os mensaleiros na Comissão de Constituição e Justiça”, diz Everaldo.

Palanques – Além do provável voo solo na disputa pela Presidência, o PSC tentará dobrar a bancada na Câmara – hoje tem doze cadeiras – e eleger, pela primeira vez, um governador de Estado. Nos principais colégios eleitorais brasileiros, porém, o partido não terá candidatos próprios por estar vinculado aos nomes situacionistas – fator desfavorável à candidatura de Everaldo. O PSC apoia gestões do PSDB em Minas Gerais, no Paraná, onde indicou o deputado Ratinho Júnior para uma secretaria estadual, e em São Paulo, com a nomeação de Gilberto Nascimento Júnior para a chefia adjunta da pasta de Desenvolvimento Metropolitano. No Rio, o PSC abocanhou duas secretarias no governo Sérgio Cabral (PMDB): Ronald Ázaro (Turismo) e outra com o filho de Everaldo, deputado Filipe Pereira (Prevenção à Dependência Química).

Na contramão, Everaldo garantiu recentemente espaço nos palanques do senador Pedro Taques (PDT), candidato ao governo de Mato Grosso, e do presidente da Câmara, Henrique Eduardo Alves (PMDB), postulante ao governo do Rio Grande do Norte. Agora, negocia apoio ao senador Lobão Filho (PMDB) à sucessão do clã Sarney no governo do Maranhão. É o que o pastor chama de “remover as pedras no caminho”, em alusão a passagens bíblicas. Fiel a sua religiosidade e confiante em uma intervenção divina para chegar ao Palácio do Planalto, Everaldo repete quase em ladainha: “Sou um homem de fé e acredito em milagre”.