Arquivo da tag: paulista

Por que tudo custa tão caro no Brasil

Alexandre Verignassi, no Crash

Perguntaram ao ganhador do Big Brother:

- E aí? O que você vai fazer com o seu milhão?

- Vou comprar um apartamento em Brasília.

- E com o resto?

- O resto eu financio pela Caixa!

Essa piada já rola há um tempo em Brasília. Mas serve em qualquer lugar. De 2008 para cá, só em São Paulo, os imóveis subiram 163%. R$ 1 milhão é o novo R$ 380 mil no Banco Imobiliário da vida real. O metro quadrado na capital paulista e no Rio já está entre os mais altos do mundo. Nos bairros ricos, então, haja Big Brother: um apartamento de 100 m² no Leblon custa a mesma coisa que um em Paris – R$ 2 milhões. E já começam a aparecer nos classificados coberturas de R$ 20, R$ 30 milhões.

Aqui embaixo, as leis não são diferentes. O Big Mac brasileiro é o quinto mais caro do mundo. Enquanto os moradores de Tóquio pagam R$ 7 por ele, nós gastamos R$ 11,25 – e olha que o Japão não é exatamente um país conhecido pelo baixo custo de vida. Em Paris, que também não está na lista das cidades mais baratas da Terra, você paga R$ 25 por uma coxa de pato. Isso no Chartier, um restaurante badalado do bairro mais fofo da cidade, Montmartre. Na nem tão fofa assim São Paulo, o mesmo pedaço de pato pode custar até R$ 70 – e não consta que o dono do restaurante pague ao pato para que ele venha voando de Montmartre até a Vila Madalena.

dinheiro

Com o frango é diferente: ele vai voando, sim. Boiando, na verdade – congelado dentro de um cargueiro, mas vai. Daqui até a Europa. O Brasil tem de frango quase o que a China tem de gente (1,26 bilhão, segundo o IBGE). É o maior exportador do mundo. Parte desse efetivo galináceo vai para a Alemanha após a morte. E alguns desses penados possivelmente acabam no Görlitzer Park, onde os berlinenses fazem fila para comprar pratinhos de halbHähnchen (meio frango). Custa R$ 9,50 lá, com batata frita. No Brasil é quase R$ 20. Sem batata frita.

E não é só frango que a gente manda ao mar e que é vendido mais barato lá fora. Mandamos carros. O Gol sai da fábrica em São Bernardo do Campo (SP) e desliza de cargueiro até o México. O modelo básico lá é o 1.6 quatro portas, com ar-condicionado. Aqui, um Gol assim sai por R$ 37 mil. Lá, Dona Florinda e Professor Girafales podem pagar R$ 23 mil pelo mesmo “Nuevo Gol”. Se o Quico fizer birra e quiser um carro mais vistoso, dá até dá para pensar num Camaro. Lá custa R$ 65 mil. Aqui, R$ 190 mil. Com a diferença, dá para pagar um ano e quatro meses de diárias no Las Brisas Acapulco, um dos melhores hotéis do balneário mexicano.

ricos

Agora, quando o carro é caro mesmo, a diferença fica épica. Sigam-me os bons: o conversível mais invocado da história deve chegar ao Brasil em 2013. É o Lamborghini Aventador LP 700-4 Roadster. Aqui, ele vai ter uma etiqueta de preço tão grande quanto o nome: R$ 3 milhões. E pelo menos três brasileiros já reservaram os deles. Mas então, Eike: se você deixar para gastar esses R$ 3 milhões nos Estados Unidos, pode comprar um helicóptero, um apartamento em Manhattan e mais o mesmo Lamborghini! Olha só: lá ele custa R$ 890 mil. Com os R$ 2,1 milhões de diferença dá para comprar o apartamento (R$ 1,2 milhão) e o helicóptero (R$ 920 mil).

E um apartamento nos Jardins então, à venda por R$ 30 milhões? Cinco suítes, oito vagas na garagem… Uau. Mas com essa grana você compra um palácio na França (R$ 14,4 mi), uma vila em Portugal (R$ 8,6 mi), uma fazenda na Itália (R$ 3,4 mi), uma cobertura no litoral da Espanha (R$ 2,2 mi) e mais um chalé nos Alpes (R$ 1,4 mi). E ainda sobra um troco para o lanche. Se for um Big Mac, melhor ainda. Ele é mais barato em todos esses países.

E é isso que os brasileiros vêm fazendo, por sinal: deixar para comprar em outros países. Você sabe: iPad, enxoval de bebê, maquiagem… Todo mundo volta carregado. O português das vendedoras de Miami já está melhor que o nosso. E tinha de estar mesmo: o gasto de brasileiros no exterior é o que mais cresce no país. O PIB travou, mas a quantidade de dólares que gastamos lá fora sobe que é uma beleza. Eram US$ 10,9 bilhões em 2009. Hoje são US$ 22 bi. Dá um crescimento de 19,5% ao ano. O do PIB, no mesmo período, subiu só 2,7% por ano. Ou seja: estamos consumindo o PIB dos outros, já que o nosso está caro demais. Por que está caro demais?  Porque o Brasil ganhou na Mega-Sena. E está gastando tudo no bar.

Continue lendo

Filha de pastores, Lena assume lugar de Champignon em nova formação do Charlie Brown Jr.

Filha de pastores evangélicos, Lena teve seu primeiro contato com a música dentro de uma igreja.

A Banca, nova banda dos integrantes do Charlie Brown Jr., terá Bruno Graveto na bateria, Lena no baixo, Champignon nos vocais, Thiago Castanho e Marcão na guitarra.

A Banca, nova banda dos integrantes do Charlie Brown Jr., terá Bruno Graveto na bateria, Lena no baixo, Champignon nos vocais, Thiago Castanho e Marcão na guitarra.

Por Adriana de Barros, no UOL

Helena de Andrade Papini é o toque feminino na banda A Banca, formada pelos remanescentes do Charlie Brown Jr, após a morte do líder e vocalista Chorão no dia 6 de março. Lena, como é chamada, assume o posto de Champignon no baixo, que por sua vez, será a voz do novo grupo.

Filha de pastores evangélicos, Lena teve seu primeiro contato com a música dentro de uma igreja. “Comecei a tocar na igreja evangélica com meu irmão mais velho.  Só depois, com 17 anos, é que passei tocar nos bares”, contou ela ao UOL.

No repertório de sua antiga banda Mecanika, onde tocava há dez anos, já figuravam algumas canções do Charlie Brown Jr. “Eu já tocava ‘Tudo Que Ela Gosta de Escutar’ e outras, mas era uma banda de menina. A gente fazia versão rock and roll de Spice Girls, de Katy Perry. A formação era de três meninos e duas meninas”.

Na noite de Santos, no litoral paulista, ela conheceu o Charlie Brown Jr. e manteve amizade com Champignon e o guitarrista Marcão. “Eu estava trabalhando em São Paulo, em um escritório de arquitetura. Não imaginava [receber o convite]. Foi o Marcão que me ligou e falou da proposta. Pedi demissão do trabalho no dia 1º de abril”, lembrou.

Embora não esconda a ansiedade e o nervosismo no novo trabalho, ela garante que tem recebido apoio dos companheiros de banda –além de Champignon e Marcão, o guitarrista Thiago Castanho e o baterista Bruno Graveto.

Já com Chorão, o contato foi mais restrito. “Encontrei com ele algumas vezes. Acho que ele me viu tocar, mas infelizmente não tive a oportunidade de conviver com ele como convivi com os outros meninos da banda. Sempre achei um grande músico”, contou.

“Agora é uma ansiedade porque batalhei a vida toda para isso acontecer. Preparado a gente nunca está, né? Mas é uma responsa, e o Champ está me dando uma puta força”, explica.

Taurina do dia 29 de abril, Lena exaltou suas influências. “O Champ sempre foi uma referência para mim. Além dele, curto o Flea (Red Hot Chili Peppers). Também são influências Foo Fighters e No Doubt”.

 

Anistia Internacional diz que escolha de Feliciano é ‘inaceitável’

Protesto "Fora Feliciano!" contra a permanência do deputado Marcos Feliciano na Comissão de Direitos Humanos na avenida Paulista, região central de São Paulo (foto: Joel Silva/Folhapress)

Protesto “Fora Feliciano!” contra a permanência do deputado Marcos Feliciano na Comissão de Direitos Humanos na avenida Paulista, região central de São Paulo (foto: Joel Silva/Folhapress)

Publicado originalmente na Folha de S.Paulo

Em nota divulgada ontem (24), a Anistia Internacional afirma que a escolha do deputado Marco Feliciano para a presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara é “inaceitável”, por suas “posições claramente discriminatórias em relação à população negra, LGBT e mulheres”.

Feliciano, eleito no início do mês para o cargo, é acusado por movimentos sociais de ser homofóbico e racista. Eles pedem a renúncia do parlamentar do comando da comissão. Feliciano nega as acusações e diz que apenas defende posições comuns aos evangélicos, como ser contra a união civil homossexual.

“É grave que tenha sido alçado ao posto a despeito de intensa mobilização da sociedade em repúdio a seu nome”, diz a nota da Anistia.

O texto prossegue afirmando que a Anistia Internacional espera que os parlamentares brasileiros “reconheçam o grave equívoco cometido” com a indicação de Feliciano e “tomem imediatamente as medidas necessárias à sua substituição”.

A Anistia afirma ser essencial que integrantes da comissão “sejam pessoas comprometidas com os direitos humanos e possuam trajetórias públicas reconhecidas pelo compromisso com a luta contra discriminações e violações” e que “direitos fundamentais não devem ser objeto de barganha política ou sacrificados em acordos partidários”.

COMISSÃO DOS DIREITOS HUMANOS

Nesta terça-feira (26) acaba o prazo dado pelo presidente da Câmara, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), para que o PSC encontre uma solução para a comissão. Embora não diga publicamente, ele pressiona para que o partido convença Feliciano a renunciar.

“Do jeito que está, situação da Comissão de Direitos Humanos e Minorias se tornou insustentável, disse Alves na última quinta-feira (21).

Ontem, o presidente da Casa disse que a situação não avançou no fim de semana. “Não tive notícias.”

Apesar de ter manifestado a colegas insatisfação com a permanência do pastor no comando da comissão, Alves tem dito, contudo, que não há margem regimental, como uma intervenção direta, para tirá-lo da presidência. Por isso, apelou à cúpula do partido.

Em entrevista ao programa ‘Pânico’, da Band, gravada na semana passada, mas levada ao ar apenas ontem, Feliciano disse que só deixaria o cargo morto.

“Estou aqui por um propósito, fui eleito por um colegiado. É um acordo partidário, acordo partidário não se quebra. Só se eu morrer”, disse o pastor.

dica do Sidnei Carvalho de Souza

Romário pede prisão de Marin: “está na hora de dar exemplo ao Brasil”

O deputado federal Romário (PSB-RJ) voltou a proferir duros ataques ao presidente da CBF (foto: Marcelo Camargo/Folhapress)

O deputado federal Romário (PSB-RJ) voltou a proferir duros ataques ao presidente da CBF (foto: Marcelo Camargo/Folhapress)

Publicado originalmente no UOL

O deputado federal Romário (PSB-RJ) pediu nesta quarta-feira a prisão do presidente da CBF, José Maria Marin. Romário fez referência a um vídeo de autoria desconhecida, publicado no Youtube e reproduzido no blog do Juca Kfouri (veja/ouça no final do post), que traz uma gravação supostamente de Marin dando a entender que tem conhecimento de negociatas.

No vídeo, uma voz que parece ser a de Marin conversa com interlocutores não identificados sobre um recado que daria aos irmãos Balsinelli, donos da BWA, que estariam usando indevidamente o nome dele e de Marco Polo del Nero, presidente da Federação Paulista e vice-presidente da CBF.

“Este último vídeo do Marín comprova que a CBF está nas mãos de uma quadrilha”, falou Romário no microblog. “Prende esses caras, está na hora de dar um exemplo para o Brasil”.

Ainda nesta quarta, Romário conseguiu aprovar  um requerimento para uma audiência pública para debater a relação entre futebol e a ditadura no Brasil.

Romário e Marin viveram ‘entre tapas e beijos’ desde que o presidente da CBF assumiu o cargo há pouco mais de um ano. Em abril do ano passado, o deputado trocou afagos com o dirigente em encontro na Câmara e prometeu apoio.

Mas desde o fim de 2012, Romário iniciou uma cruzada contra Marin. O deputado tem batalhado por uma CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) na CBF e pedido mais transparência na entidade.

Os ataques ao presidente da CBF aumentaram após a divulgação do envolvimento de Marin com a Ditadura Militar. “As suspeitas sobre o presidente da CBF são graves e constrangedoras”, disse Romário em discurso no último dia 14.

O discurso áspero do deputado contra Marin tem sido cada vez mais eloquente no último mês. Após ser chamado de “sem expressão” como político pelo presidente da CBF, Romário devolveu. “Um cara que rouba medalhas e energia de um vizinho não tem moral para falar de Romário ou de qualquer deputado nesta Casa”.

PSC vai se reunir para discutir sobre vídeo divulgado pelo pastor Feliciano

Líder do partido na Câmara disse que legenda discorda da iniciativa.
Sigla, no entanto, descarta a possibilidade de o deputado paulista renunciar.

O deputado Pastor Marco Feliciano (PSC-SP), durante primeira reunião em que presidiu a Comissão de Direitos Humanos (Foto: José Cruz/ABr)

O deputado Pastor Marco Feliciano (PSC-SP), durante primeira reunião em que presidiu a Comissão de Direitos Humanos (Foto: José Cruz/ABr)

Fabiano Costa, no G1

O líder do PSC na Câmara, deputado André Moura (SE), afirmou nesta terça-feira (19) que sua bancada irá se reunir nesta tarde para discutir sobre o vídeo divulgado na internet pelo presidente da Comissão de Direitos Humanos, Pastor Marco Feliciano (PSC-SP), que ataca opositores políticos e lideranças do movimento pelo fim da homofobia. Segundo Moura, o partido discorda da iniciativa do pastor paulista, que, na avaliação dele, mantém a tensão em torno do colegiado voltado para as minorias.

“Já orientamos ele [Feliciano], e vamos reafirmar essa posição, de que agora é o momento de ele divulgar ações positivas, não de estar divulgando posicionamento de que não vai renunciar. Não concordamos com isso. É o momento de produzir e prestar contas à sociedade”, criticou o líder do PSC.

Intitulado “Marco Feliciano renuncia”, o vídeo questionado pelo PSC foi postado nesta segunda (18) na conta do pastor no microblog Twitter. Com imagens de protestos contra o deputado e sessões da comissão, a narração do filme fala que a comissão sempre foi presidida por “simpatizantes de movimentos homossexuais” que fazem “discursos políticos inflamados contra cristãos”. O vídeo qualifica como “rituais macabros” os protestos contrários a Feliciano.Ao final, o vídeo diz que Feliciano decidiu “renunciar, renunciar sua privacidade, renunciar noites de paz e sono tranquilo, renunciar momentos preciosos com a própria família, a fim de não renunciar à Comissão de Direitos Humanos, para que a sua família seja preservada” e convoca os telespectadores a renunciarem também.

Mesmo pressionado por movimentos sociais e parlamentares, André Moura reafirmou nesta terça que o PSC continuará defendendo a permanência de Feliciano no comando do colegiado de direitos humanos. De acordo com ele, neste momento, não há a possibilidade de o pastor de São Paulo renunciar ao cargo.

“Vamos discutir essa situação com ele [o vídeo postado no Youtube]. Nós entendemos que agora é um momento de distensionar, de produzir para a comissão. O pastor Marco Feliciano tem uma responsabilidade muito grande. No meu entendimento, muito maior do que a dos outros presidentes que já passaram por ali. Toda a opinião pública e toda a imprensa vão estar acompanhando cada passo dele”, analisou Moura.

Histórico de polêmicas
O pastor Marco Feliciano causou polêmica, em 2011, ao fazer declarações polêmicas em redes sociais sobre o continente africano e homossexuais. “Sobre o continente africano repousa a maldição do paganismo, ocultismo, misérias, doenças oriundas de lá: ebola, Aids, fome…”, escreveu o parlamentar na ocasião.

Pastor da igreja “Tempo de Avivamento”, Feliciano é alvo de dois processos no Supremo Tribunal Federal (STF): um inquérito que o acusa de homofobia e uma ação penal na qual é denunciado por estelionato. A defesa do parlamentar nega as duas acusações.

Desde que o deputado do PSC foi indicado para a presidência da Comissão de Direitos Humanos, tradicional palco de defesa das minorias do país, integrantes de movimentos sociais passaram a reivindicar que ele renuncie ao cargo. Na estreia de Feliciano no comando do colegiado, na última quarta (13), houve um embate entre militantes de direitos humanos e fiéis de igrejas pentecostais.

O filho de Franciscos

Os sapatos do papa Francisco são vistos enquanto ele participa de conferência com os mais de 5.000 jornalistas que estiveram no Vaticano cobrindo a escolha do novo pontífice. Tradicionalmente, os sapatos do líder da Igreja Católica são vermelhos, mas o novo papa resolveu usar sapatos pretos e de cadarço (foto: Max Rossi/Reuters)

Os sapatos do papa Francisco são vistos enquanto ele participa de conferência com os mais de 5.000 jornalistas que estiveram no Vaticano cobrindo a escolha do novo pontífice. Tradicionalmente, os sapatos do líder da Igreja Católica são vermelhos, mas o novo papa resolveu usar sapatos pretos e de cadarço (foto: Max Rossi/Reuters)

Frei Betto, no UOL

Temos um novo papa com o nome de dois Franciscos: o de Assis (1182-1226) e o Xavier (1506-1552), este jesuíta como ele. Papa que, ao se apresentar ao mundo, da sacada do Vaticano, dispensou as vestes pontificais e pediu aos fiéis que rezassem por ele.

É significativo que dom Cláudio Hummes, cardeal brasileiro, tenha aparecido ao seu lado no momento em que se apresentou. Agora sabemos que foi um convite do próprio eleito. Dom Cláudio se sentou ao lado do cardeal Bergoglio durante o conclave. E foi o principal articulador de sua eleição. Não me surpreendeu saber que o nome de Francisco foi sugerido pelo ex-bispo do ABC paulista, pois dom Cláudio é franciscano e, no início da década de 1980, defendeu os metalúrgicos em greve liderados por Lula.

O nome de um papa revela um programa. No caso de Francisco, vários fatores são relevantes. São Francisco de Assis é o santo que, filho de Bernardone, pioneiro do capitalismo, criticou o novo sistema produtivo que gerava miséria. Até então a pobreza na Europa Ocidental decorria de guerras e pestes. Todos tinham ao menos uma gleba de terra para cultivar seus alimentos e criar uns poucos animais que garantissem seu sustento.

Graças à sua manufatura, Bernardone levou à falência inúmeros artesãos que produziam tecidos. As tinturas eram importadas da França. Tamanha a sua admiração pela nação que exercia hegemonia sobre a Europa Ocidental que batizou o filho com o nome de Francesco –aquele que vem da França.

Ao despir-se na praça de Assis, Francisco rejeitou o processo produtivo inaugurado por seu pai e fez opção pelas vítimas, os pobres. São Francisco é também o padroeiro da ecologia, amigo dos animais e enamorado do sol e da lua, aos quais dedicou cânticos.

Ao entrar na capelinha de São Damião, em Assis, o jovem Francisco escutou Jesus pedir-lhe que reconstruísse a igreja. Com seus amigos, Francisco se dispôs a restaurar a igreja da Porciúncula (hoje dentro da catedral de Assis) que estava em ruínas. Até que se deu conta de que a voz divina lhe fazia um apelo mais abrangente: tratava-se de reformar a Igreja Católica, o que o levou a fundar a Ordem dos Franciscanos.

Bergoglio é jesuíta. E nos primórdios dessa Ordem religiosa se destaca São Francisco Xavier, que evangelizou indianos e japoneses. Com certeza o novo papa, ao adotar o nome de Francisco, pensou no que significam para a Igreja os exemplos dos dois Franciscos.

A notícia de que Bergoglio, quando padre e bispo, teria sido cúmplice da ditadura argentina (1976-1983) não procede, segundo afirmação de Adolfo Perez Esquivel, prêmio Nobel da Paz, em quem confio. Bem comparando, Bergoglio não teve uma atuação profética como tiveram, sob a ditadura no Brasil, dom Paulo Evaristo Arns, dom Hélder Camara e dom Pedro Casaldáliga. Esteve mais próximo da atuação de dom Eugênio Sales, que preferiu agir nos bastidores em defesa dos perseguidos.

Um detalhe merece atenção. Karol Woityla, cardeal da Polônia, foi eleito papa no momento em que a Guerra Fria esquentava e Reagan desempenhava forte ofensiva ao socialismo no Leste Europeu. O pontificado de João Paulo 2º foi marcado pela queda do Muro de Berlim.

Nessa atual conjuntura em que governos populares e progressistas se disseminam pela América do Sul –Kirchner, Maduro, Dilma, Mujica, Morales, Correa– e Raúl Castro, de Cuba, preside a CELAC (Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos), verá a Casa Branca no novo papa um aliado para recuperar sua hegemonia sobre o Sul de nosso continente?

*Carlos Alberto Libânio Christo, 68, o Frei Betto, é frade dominicano, escritor, educador, teólogo e assessor de movimentos sociais. Foi coordenador de mobilização social do programa Fome Zero, do governo federal, durante parte do primeiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Além disso, é autor do romance “Minas do Ouro” (Rocco), entre outros livros.

Hoje famoso, pastor Marco Feliciano já foi rejeitado por líderes evangélicos

Deputado Marco Feliciano foi eleito presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara; ele vem sofrendo pressão de grupos socias para deixar o cargo desde então (foto: Alan Marques/Folhapress)

Deputado Marco Feliciano foi eleito presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara; ele vem sofrendo pressão de grupos socias para deixar o cargo desde então (foto: Alan Marques/Folhapress)

Leandro Colon, na Folha de S.Paulo

O pastor Marco Feliciano é um “achado”. Quem diz isso é ele mesmo, num vídeo postado no YouTube em que se apresenta como uma novidade na cena evangélica. “Já perguntei para Deus por que ele me levantou. Fui pego a laço.”

Feliciano repete nos cultos que já leu a Bíblia mais de 30 vezes “da capa à contracapa” –a primeira delas aos nove anos. Diz ainda ter escrito 18 livros “acerca dela” e uma enciclopédia religiosa “de mais de 700 páginas”.

No palco, costuma recorrer a argumentos de autoridade. Falando sempre muito alto, quase gritando, garante ter conquistado o título de “doutor em divindade” após ter feito “mais de seis faculdades” e um mestrado “que me deu este anel de formatura que eu tenho no dedo”.

Aos 40 anos, o deputado federal pelo PSC paulista ganhou fama após ser eleito presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara.

Classificado por muitos como um fundamentalista religioso, racista e homofóbico, enfrenta a oposição de outros parlamentares e tem sido alvo de passeatas pelo país. Ontem mesmo houve protestos de rua em várias capitais.

Militantes dos direitos humanos citam, entre outras, uma mensagem no Twitter em que Feliciano classifica os africanos como descendentes de um ancestral “amaldiçoado por Noé”. Ele nega. Diz ter sido mal interpretado.

O INÍCIO

A história de Feliciano no mundo evangélico também é cercada de polêmicas. Apesar das credenciais que gosta de exaltar, ele enfrentou dificuldades para conseguir ser reconhecido como pastor.

Antes de fundar sua própria igreja, a Catedral do Avivamento, baseada em Orlândia, interior paulista, Feliciano tentou virar pastor da Assembleia de Deus no ramo Belém, o principal da denominação.

Após descobrirem que ele já pregava como pastor –uma espécie de estelionato religioso–, lideranças da Assembleia rejeitaram seu nome. A saída foi recorrer ao exterior. Aos 27 anos, viajou para os Estados Unidos, onde foi consagrado por Ouriel de Jesus, um dirigente de igrejas evangélicas brasileiras naquele país que já foi acusado de heresia por pastores brasileiros.

“No dia em que eu revelei para todo mundo que eu não era pastor, as portas se fecharam”, comentou anos atrás num programa próprio de TV.

Hoje, no comando de uma denominação com 14 “filiais” (expressão usada por membros da própria igreja) e astro de programas próprios de TV na CNT e emissoras regionais, Feliciano conseguiu retomar o diálogo com as lideranças do ramo Belém da Assembleia.

NÔMADE

A vida religiosa de Feliciano começou aos 15 anos. Filho de mãe solteira, ele era guardinha-aprendiz em Orlândia quando ficou curioso pelos assobios de músicas religiosas do amigo e hoje compadre Ronaldo Pulhes, bancário na região.

Foi Pulhes quem levou Feliciano à Assembleia. O jovem começou a trabalhar voluntariamente para a igreja e cresceu rápido nos estágios iniciais. “Ele sempre gostou de liderar”, diz o compadre.

O grande salto como pregador foi em 1999, aos 26 anos, quando subiu ao palco do tradicional encontro evangélico Gideões Missionários, que ocorre em Camboriú (SC).

Falando para a multidão, Feliciano surpreendeu os pastores tradicionais com o ritmo alucinante de sua pregação e, mais ainda, com a euforia dos fiéis. Mandou seu recado: “Sou um menino só por fora, por dentro tem um homem de Deus escondido aqui”.

No meio evangélico, Feliciano é tido como um “pregador itinerante”. Seu poder não advém da capacidade de fidelizar um público numa base fixa, como é o caso de Valdemiro Santiago, da Igreja Mundial, mas de uma a atuação mais intensa “no varejo”. Com auxílio da TV, ele vende livros, CDs e DVDs via internet e telefone. E vai percorrendo cidades em cultos menores. Já pregou em mais de 1.700, diz.

Esse tipo de atuação ajuda a explicar sua votação em 2010. Sem reduto, conseguiu 211 mil votos em 634 dos 645 municípios paulistas.

PATRIMÔNIO

Para impulsionar os negócios, o pastor montou uma pequena rede de empresas. A Marco Feliciano Empreendimentos Culturais e Eventos cuida dos shows. A Grata Music foi criada para vender CDs e DVDs. E a Tempo de Avivamento Empreendimentos, para publicidade. Sua assessoria diz que as duas últimas, embora ativas, não atuam.

Na pequena Orlândia (40 mil habitantes), Feliciano mora com a mulher e três filhas numa das maiores casas da região, num terreno de 600 metros quadrados. Tem mais seis imóveis no município.

À Justiça Eleitoral, também declarou três carros de luxo, um deles uma BMW avaliada em R$ 95 mil.