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Vida é pior que ‘Game of Thrones’: não sobra ninguém

game-of-thrones-poster_85627-1920x1200título original: Spoilers

Gregorio Duvivier, na Folha de S.Paulo

Uma mulher é assassinada no Baixo Gávea ao meio-dia. Um avião é derrubado e mata 300 pessoas. Morre João Ubaldo Ribeiro. Israel invade a Faixa de Gaza.

A morte dos outros é um spoiler. Parece te revelar algo que você não sabia, ou fingia não saber sobre você mesmo: você vai morrer. Olhe à sua volta. Todo o mundo vai morrer. A vida é pior que “Game of Thrones”. Não sobra nem o anão.

A vida só é possível enquanto a gente esquece que a morte está à espreita. Os jornais, como a revista “Minha Novela”, contam o que a gente não quer saber. “Olha a morte ali, te esperando. Nada disso faz sentido. Nunca fez.”

Há quem busque um sentido na religião, que jura que o melhor está por vir. O padre dá ao beato o mesmo conselho que um fã de “Breaking Bad” dá àquele que está começando a série: só vai ficar bom mesmo lá na última temporada. Mas não pode pular nenhum capítulo. Você vai ser recompensado. Confia em mim.

O que vale para “Breaking Bad” não vale para a vida. O câncer não regride quando você começa a vender droga —infelizmente. A vida está mais pra “Lost”. A cada episódio que passa surgem novos mistérios. Prometem que no final tudo vai se esclarecer mas tudo acaba de repente, com todo o mundo se abraçando. Só te resta a perplexidade: mas e aquele pé gigantesco? E aqueles números malditos? E aquele moço que usa lápis no olho e não envelhece? E o Rodrigo Santoro? Esquece. A vida vai morrer na praia.

O que entendi é que é melhor desistir de entender. O roteirista da vida é preguiçosíssimo. Personagens queridos somem do nada. Personagens chatíssimos duram pra sempre. Tem episódios inteiros de pura encheção de linguiça e, de repente, tudo o que deveria ter acontecido numa temporada inteira acontece num dia só. As coincidências não são críveis -e numerosas demais. A vida é inverossímil.

Aí você me pergunta: vale a pena ver um seriado tão longo que pode ser interrompido a qualquer momento sem que te expliquem p*%#@ nenhuma?

Talvez valha, como “Seinfeld”, pelas tardes com os amigos tomando café e falando merda. Ou, como “Girls”, pelas cenas de sexo. E pela nudez. Talvez valha, como “Chaves”, pra rir das mesmas piadas e chorar quando você menos espera. E vale pelos churros. E pelos sanduíches de presunto.

E vale, de qualquer maneira, porque a vida, chata, óbvia ou repetitiva, é só o que está passando.

 

Menino de 9 anos atende pedido de mortos e se casa com mulher de 62

Saneie Masilela, 9, uniu-se a Helen Shabangu, 62, para deixar parentes mortos felizes

Saneie Masilela, 9, uniu-se a Helen Shabangu, 62, para deixar parentes mortos felizes

Publicado no UOL

Um menino de 9 anos atendeu o pedido de antepassados mortos, casou-se com uma mulher de 62 anos e tornou-se o noivo mais jovem do mundo. Saneie Masilela uniu-se a Helen Shabangu, que já é mãe de cinco filhos, com idades entre 28 e 38 anos. Eles celebraram seus votos na frente de cem convidados em Ximhungwe, na África do Sul.

A cerimônia aconteceu na frente daquele que é marido há mais tempo de Helen: Alfred Shabangu, 66. Ao jornal britânico “Mirror“, Shabangu disse que não vê problema na união, e nem ele nem seus filhos se importam com opiniões contrárias ao relacionamento.

O casamento faz parte de um ritual em que se respeita o desejo de antepassados mortos de Saneie, que lhe pediram que se casasse no ano passado. “Escolhi a Helen porque eu a amo. Apesar de nós não vivermos juntos o tempo todo, nós nos encontramos no lixão onde minha mãe trabalha”, contou o garoto. “Quando eu crescer, casarei com uma mulher da minha idade”. A família do menino –o mais novo entre cinco filhos– pagou 500 euros à noiva e outros 1.000 euros pela cerimônia. O amor é mesmo i-nex-pli-cá-vel!

Helen, que trabalha com reciclagem, diz que o casamento é apenas para agradar os ancestrais. “Sanele vai crescer normalmente e, um dia, terá sua própria família e se casar. Toda essa cerimônia é para deixar os antepassados felizes”.

Para a mãe do menino, de 47 anos, caso ele não tivesse atendido o pedido dos ancestrais, algo ruim poderia ter acontecido à família.

Acessório para iPhone promete facilitar o uso do celular permitindo segurar aparelho de maneira “mais confortável”

publicado no TecMestre

Se você acha cansativo o movimento de levantar o braço e levá-lo até o ouvido com o celular, terá agora a chance de ter uma vida mais confortável. Um acessório (bizarro) foi criado para permitir segurar o iPhone de modo incomum. 

Apelidado de Fonhandle, o dispositivo, disponível essencialmente para aparelhos iPhone, conta com um cabo extensor anexado. Com isso, o usuário pode segurá-lo na ponta de tal cabo, fazendo com que o telefone chegue até a altura dos ouvidos com “menos trabalho”. 

O dispositivo também possui uma função interessante para aqueles fissurados por selfies. Com ele é possível ter um ângulo maior para registrar esses tipos de conteúdos. 

Inútil? Acessório para iPhone promete facilitar o uso do celular permitindo segurar aparelho de maneira "mais confortável"

A invenção é de Yonatan Assouline, empresário que vive em Tel Aviv, em Israel. Ele afirma que o dispositivo fica “mais chique” com a presença do acessório.

O produto foi colocado no Kickstarter, a fim de arrecadar fundos para sua produção. Ele estará disponível nas cores preta, branca, rosa, verde e marrom. Os modelos disponíveis até então são apenas dos iPhones 5 e 5S.

Leia mais em: http://www.techmestre.com/inutil-acessorio-para-iphone-promete-facilitar-o-uso-do-celular-permitindo-segurar-aparelho-de-maneira-mais-confortavel.html#ixzz37rTFuNMj

Uma casa onde o morador decide o que fica dentro (ou fora)

Inspirada em projeto conceitual, casa construída em Bauru, pelo escritório FGMF, traz cobertura e pérgolas deslizantes

publicado no Estadão

Em 2009, a revista britânica Wallpaper elencou o escritório paulistano FGMF, dos arquitetos Fernando Forte, Lourenço Gimenes e Rodrigo Marcondes Ferraz, em seu Architects Directory: uma edição especial que elenca, a cada ano, os 30 escritórios de arquitetura considerados pela publicação como os mais promissores do mundo.

Para constar no diretório, que pela primeira vez incluía um escritório brasileiro, o trio elaborou, a pedido, um projeto conceitual batizado de Casa Tic Tac, uma residência unifamiliar na qual paredes dotadas de trilhos permitiriam a seus moradores recriar permanentemente a planta do imóvel.

Capa da edição 251 de nosso suplemento, o projeto encantou um leitor residente na cidade de Bauru, interior de São Paulo, que não hesitou em contatar o FGMF movido pelo desejo de morar em uma casa nos moldes da apresentada pela reportagem. E ele conseguiu.

“Desde nosso primeiro encontro, ficou claro que ele gostaria de algo no espírito, mas não de construir uma réplica da Tic-Tac”, conta Gimenes. “A mulher dele disse até aceitar paredes móveis, mas a casa deveria ser ‘normal’ e não ultrapassar 200 m²”, completa Forte.

Com esses condicionantes em mente, a equipe foi visitar o terreno, em um condomínio. “Era uma área no limite do empreendimento, sem grandes vistas a privilegiar. Optamos, então, por criar uma casa-pátio, voltada para dentro e na qual, no lugar das paredes, seria a cobertura que se movimentaria”, diz.

“Percebemos que, enfatizando as transparências com painéis de vidro abertos para uma sequência de pequenos pátios, poderíamos sugerir uma área construída ampliada, diminuindo a sensação de confinamento. Além disso, a construção ficaria mais orgânica, apesar do traçado ortogonal”, explica Gimenes.

Outra consequência é que, uma vez finalizada, a obra não contaria com fachadas definidas, com exceção da frontal. Não haveria, por exemplo, um jardim da frente ou dos fundos. Áreas externas seriam tratadas como as internas e, por fim, não existiria uma hierarquia espacial.

“Existe nesse projeto uma investigação sobre a casa enquanto objeto construído: não se trata simplesmente de um abrir e fechar de portas. Aqui o morador pode transgredir essa regra, vivendo em ambientes intermediários”, resume Forte, diante da obra, recém-construída, passados pouco mais de dois anos desde o primeiro encontro com o casal de proprietários.

Com fechamento realizado por meio de paredes de concreto aparente intercaladas com grandes áreas envidraçadas – e tendo sua cobertura deslizante como grande trunfo –, a casa Tic Tac de Bauru é bastante eficiente em termos de ventilação. Além de dispor de farta oferta de luz natural durante qualquer hora do dia.

Bem estudado, o jogo de cheios e vazios torna muito tênue a divisão entre o que é dentro e o que é fora e, como consequência, a sensação que se tem é de uma casa muito maior do que realmente é. “A separação entre paisagismo e construção se diluiu”, comenta outro autor do projeto, Rodrigo Marcondes Ferraz.

“Os clientes não faziam questão de piscina. No entanto, durante o desenvolvimento do projeto, nos pareceu que um trecho de água, era algo bastante importante. Pelo frescor, pelo reflexo do sol, pela importância paisagística”, diz Ferraz. Para ele, trata-se de um projeto em que foi possível, na prática, fazer ensaios construtivos, funcionais e formais – uma espécie de laboratório. Mas não sem esforços.

Acostumado a construir galpões industriais, o fornecedor das paredes de concreto, por exemplo, teve certa dificuldades em entender alguns dos detalhes propostos. “O ideal seria que todos os projetos tivessem esse viés de investigação. Para nós, isso faz parte da responsabilidade da arquitetura”, completa Gimenes.

A culpa por ser pobre e não ter estudado é totalmente sua

Publicado por Leonardo Sakamoto

A culpa por você ser pobre é totalmente sua.

A frase acima raramente traduz a verdade. Mas é o que muita gente quer que você acredite.

Aí a gente liga a TV de manhã para acompanhar os telejornais por conta do ofício e já se depara com histórias inspiradoras de pessoas que não ficaram esperando o Maná cair do céu e foram à luta. Pois a educação é a saída, o que concordo. E está ao alcance de todos – o que é uma besteira. E as cotas por cor de pele, que foram fundamentais para o personagem retratado na reportagem alcançar seu espaço e mudar sua história, nem bem são citadas.

Pra quê? No Brasil, não temos racismo, não é mesmo? Até porque o negro não existe. É uma construção social…

Quando resgato a história do Joãozinho, os meus leitores doutrinados para acreditar em tudo o que vêem na TV ficam loucos. Joãozinho, aquele self-made man, que é o exemplo de que professores e alunos podem vencer e, com esforço individual, apesar de toda adversidade, “ser alguém na vida”.

(Sobe música triste ao fundo ao som de violinos.)

Joãozinho comia biscoitos de lama com insetos, tomava banho em rios fétidos e vendia ossos de zebu para sobreviver. Quando pequeno, brincava de esconde-esconde nas carcaças de zebus mortos por falta de brinquedos. Mas não ficou esperando o Estado, nem seus professores lhe ajudarem e, por conta, própria, lutou, lutou, lutou (contando com a ajuda de um mecenas da iniciativa privada, que lhe ensinou a fazer lápis a partir de carvão das árvores queimadas da Amazônia), andando 73,5 quilômetros todos os dias para pegar o ônibus da escola e usando folhas de bananeira como caderno. Hoje é presidente de uma multinacional.

(Violinos são substituídos por orquestra em êxtase.)

Ao ouvir um caso assim, não dá vontade de cantar: Sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amoooooooor?

Já participei de comissões julgadoras de prêmios de jornalismo e posso dizer que esse tipo de história faz a alegria de muitos jurados. Afinal, esse é o brasileiro que muitos querem. Ou, melhor: é como muitos querem que seja o brasileiro.

Enfim, a moral da história é:

“Se não consegue ser como Joãozinho e vencer por conta própria sem depender de uma escola de qualidade, com professores bem capacitados, remunerados e respeitados, e de um contexto social e econômico que te dê tranquilidade para estudar, você é um verme nojento que merece nosso desprezo. A propósito, morra!”

Uma vez, recebi reclamações da turma ligada a ações como “Amigos do Joãozinho”. Sabe, o pessoal cheio de boa vontade genuína e sincera, mas que acredita que o problema da escola é que falta gente para pintar as paredes. Um deles me disse que acreditava na “força interior” de cada um para superar as suas adversidades. E que histórias de superação são exemplos a serem seguidos.

Críticas anotadas e encaminhadas ao bispo, que me lembrou de que eu iria para o inferno – se o inferno existisse, é claro.

O Brasil está conseguindo universalizar o seu ensino fundamental, mas isso não está vindo acompanhado de um aumento rápido na qualidade da educação. Mesmo que os dados para a evolução dos primeiros anos de estudo estejam além do que o governo esperava no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), grande parte dos jovens de escolas públicas têm entrado no ensino médio sabendo apenas ordenar e reconhecer letras, mas não redigir e interpretar textos.

Enquanto isso, o magistério no Brasil continua sendo tratado como profissão de segunda categoria. Todo mundo adora arrotar que professor precisa ser reconhecido, mas adora chamar de vagabundo quando eles entram em greve para garantir esse direito.

Ai, como eu detesto aquele papinho-aranha de que é possível uma boa educação com poucos recursos, usando apenas a imaginação. Aulas tipo MacGyver, sabe? “Agora eu pego essa ripa de madeira de demolição, junto com esses potinhos de Yakult usados, coloco esses dois pregadores de roupa, mais essa corda de sisal… Pronto! Eis um laboratório para o ensino de química para o ensino médio!”

É possível ter boas aula sem estrutura? Claro. Há professores que viajam o mundo com seus alunos embaixo da copa de uma mangueira, com uma lousa e pouco giz. Por vezes, isso faz parte do processo pedagógico. Em outras, contudo, é o que foi possível. Nesse caso, transformar o jeitinho provisório em padrão consolidado é o ó do borogodó.

Pois, como sempre é bom lembrar, quem gosta da estética da miséria é intelectual, porque são preferíveis escolas que contem com um mínimo de estrutura. Para conectar o aluno ao conhecimento. Para guiá-lo além dos limites de sua comunidade.

“Ah, mas Sakamoto, seu chato! Eu achei linda a história da Ritinha, do Povoado To Decastigo, que passa a madrugada encadernando sacos de papel de pão e apontando lascas de carvão, que servirão de lápis, para seus alunos da manhã seguinte. Ela sozinha dá aula para 176 pessoas de uma vez só, do primeiro ao nono ano, e perdeu peso porque passa seu almoço para o Joãozinho, um dos alunos mais necessitados. Ritinha, deu um depoimento emocionante ao Globo Repórter, dia desses, dizendo que, apesar da parca luz de candeeiro de óleo de rato estar acabando com sua visão, ela romperá quantas madrugadas for necessário porque acredita que cada um deve fazer sua parte.”

Ritinha simboliza a construção de um discurso que joga nas costas do professor a responsabilidade pelo sucesso ou o fracasso das políticas públicas de educação. Esqueçam o desvio do orçamento da educação para pagamento de juros da dívida, esqueçam a incapacidade administrativa e gerencial, o sucateamento e a falta de formação dos profissionais, os salários vergonhosamente pequenos e planos de carreira risíveis, a ausência de infraestrutura, de material didático, de merenda decente, de segurança para se trabalhar. Esqueçam o fato de que 10% do PIB para a educação está longe de sair do papel.

Joãozinho e Ritinha são alfa e ômega, os responsáveis por tudo. Pois, como todos sabemos, o Estado não deveria ter responsabilidade pela qualidade de vida dos cidadãos.

Vocês acham sinceramente que “a pessoa é pobre porque não estudou ou trabalhou”?

Acreditam que basta trabalhar e estudar para ter uma boa vida e que um emprego decente e uma educação de qualidade é alcançável a todos e todas desde o berço?

E que todas as pessoas ricas e de posses conquistaram o que têm de forma honesta?

Acham que todas as leis foram criadas para garantir Justiça e que só temos um problema de aplicação?

Não se perguntam quem fez as leis, o porquê de terem sido feitas ou questiona quem as aplica?

Sabem de naaaaada, inocentes!

Como já disse aqui, uma das principais funções da escola deveria ser produzir pessoas pensantes e contestadoras que possam colocar em risco a própria estrutura política e econômica montada para que tudo funcione do jeito em que está. Educar pode significar libertar ou enquadrar – inclusive libertar para subverter.

Que tipo de educação estamos oferecendo?

Que tipo de educação precisamos ter?

Uma educação de baixa qualidade, insuficiente às características de cada lugar, que passa longe das demandas profissionalizantes e com professores mal tratados pode mudar a vida de um povo?

O Joãozinho e a Ritinha acham que sim. Mas eu duvido.