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Um homem fiel

Ilustração de Bebel Franco

Ilustração de Bebel Franco

Danuza Leão, na Folha de S.Paulo

As mulheres são curiosas. Outro dia ouvi de uma amiga a seguinte pérola: “não é nem que eu esteja assim tão apaixonada, mas estou com XXX porque ele é incapaz de me trair”.

A certeza com que ela disse isso –e a felicidade–, me levaram a pensar: será que essa é mesmo a maior qualidade que se pode querer de um homem? Que ele seja incapaz de nos trair? É um caso a pensar.

Naturalmente nenhuma mulher está querendo que o homem com quem pretende compartilhar a vida saia atrás da primeira mulher que passar pela frente; mas é preciso que o homem que se ama seja capaz de quase tudo, e nesse quase tudo está incluída a capacidade de achar graça em muitas mulheres; aliás, em quase todas. E é essa capacidade que põe a mulher louca –por ele.

Está-se falando de amor, claro, e qual a mulher que consegue amar sabendo que o homem que ama é incapaz de traí-la, que ela pode passar a vida fazendo qualquer coisa –ou nada– que vai ser amada da mesma maneira?

O que conserva o amor em altíssima temperatura é a incerteza, é a dúvida. Será que ele foi mesmo a um jantar de trabalho? Será que foi mesmo ao futebol? E quando o celular tocou e ele disse que não podia falar, que ligava depois, não seria uma mulher? Claro que era, ela vai pensar. E vai viver no fio da navalha, sem certeza alguma do que está se passando, razão mais do que suficiente para não conseguir dormir, para viver atenta, prestando atenção a tudo, sobretudo aos silêncios.

Viver à beira do precipício é o maior combustível para uma paixão, e muitos confundem insegurança com sentimentos mais profundos.

Uma mulher que não tem muita certeza da fidelidade do seu parceiro nunca será vista precisando pintar a raiz dos cabelos ou sem pelo menos um pouquinho de maquiagem. Ela sabe que vive sempre por um fio, e nada melhor para alguém se sentir viva do que saber que a qualquer momento pode ganhar –ou perder– a vida, o dinheiro, o homem amado.

Estabilidade? E alguém tem estabilidade em alguma coisa? Se alguém achar que tem, além de ser um ingênuo, vai perceber que é a morte em vida.

Que você seja a pessoa mais rica do mundo, mais bonita, mais poderosa, pode acontecer de um dia, em um minuto, perder tudo.

Se houver uma revolução, o mais rico de todos pode ficar pobre –e até ser preso; se a mais linda tiver a pouca sorte de passar num desses bueiros que no Rio às vezes explodem, corre o risco de ir para o hospital para cuidar de suas queimaduras, e dizem que dor maior não há; e o poder– bem, basta ler os jornais, qualquer um, de qualquer país, para ver que se trata de uma gangorra.

Faça um exercício de memória e lembre dos nossos governantes do passado, que saíram debaixo de escândalos, e onde eles estão agora, poderosíssimos de novo; nesse ramo, mais do que em qualquer outro, tudo acontece, inclusive o impossível.

É essa certeza de não poder saber nada sobre o futuro que pode, às vezes, trazer uma notícia maravilhosa –embora seja raro–, ou acabar com suas ilusões e até com seu mundo.

Complicado, mas esse talvez seja o sal da vida.

Páscoa 2013 – Cuidado! Tem um coelho querendo te assaltar!

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Publicado originalmente no Coma com os olhos

Mais uma vez a Páscoa está chegando, e a corrida da indústria chocolateira atrás dos consumidores já começou. A data é quase um Natal antecipado para a indústria, com altas vendas, contratação de mão de obra extra, seja nas fábricas ou nos pontos de venda. Este ano, mais uma vez, todos os produtos estão entre 5% e 12% mais caros do que em relação à 2012.

As explicações para este aumento, dessa vez, são várias. A maior parte do avanço dos preços se dá aos insumos, como cacau, açúcar, embalagens e mão de obra. Além dos aumentos, as indústrias sabem que o volume de vendas de 2013 deve ser menor pelo fato que a data acontecerá antes (31 de março), num momento em que a maioria dos consumidores ainda estará com pagamentos relativos ao final e início de ano ainda em andamento. Sem contar com as elevadas temperaturas, o que afasta o consumidor dos chocolates.

Tudo isso é muito lindo, mas o que mais importa é o seu dinheiro. Você trabalha muito pra ganhá-lo e sabe o valor que ele tem. Este espaço também entende que o custo operacional de criação, produção, manipulação, estocagem e transporte dessa linha de produtos é absurdamente maior. Além do fato de Ovo de Páscoa ter ar de presente especial. Então, nada mais lógico que o produto tenha um valor agregado muito maior. Aliás, absurdamente mais alto.

E quem paga o pato (no caso coelho), é você, consumidor final.

O que quero deixar claro aqui, não é um boicote às empresas e seus ovos, e sim uma maior consciência pelo que você está pagando. Há muito tempo que a Páscoa perdeu sua simbologia e tradição, hoje é apenas uma data de fartura de chocolate, simples assim.

Se você faz questão da troca de ovos de chocolate, ou se tem filhos, sobrinhos, netos e afins, e não consegue fugir dos presentes, ok, vá em frente. Agora se você não se importa com ovos de chocolate, faça diferente.

Márcio Gazetta, leitor e morador de Americana/SP, diz que “Quando estou com paciência, chamo minhas filhas e fazemos ovos. Quando não, o sistema é bruto e compramos barras de 1 quilo. E elas vão comendo o quanto querem. Já ensinei que o formato de ovo é só comércio. – Ahhh, mas vai estragar a infância delas – Penso que elas já crescem sabendo que a vida é dura mesmo, mas adoçam as mágoas nos pedaços que nem cabem direito na boca.”

Sendo assim, logo abaixo deixo uma breve comparação dos preços dos Ovos de Páscoa versus suas barras de origem dos principais fabricantes do país. A diferença é gritante. Será que toda essa diferença é apenas baseada no altos custos citados no início da matéria? Ou será que além de tudo isso, essa é a época de, simplesmente, lucrar muito mais? Fica a pergunta.

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Tsubasa Imamura, a cantora japonesa que faz covers de músicas brasileiras

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Publicado originalmente no Atlântida Blumenau

Tsubasa Imamura é uma cantora j-pop que está fazendo o maior sucesso na internet com covers de músicas brasileiras. Ela já cantou Legião Urbana, Caetano Veloso, Marisa Monte, Kid Abelha e uma canção do álbum solo da cantora Sandy. Com tanto contato com fãs brasileiros, a cantora decidiu aprender a língua portuguesa. “Gostaria de me comunicar melhor com meus fãs aí, por isso, comecei a estudar”, disse a cantora.

Ela tem aulas semanais com uma professora nipo-brasileira, e pesquisa bastante sobre o idioma e assiste programas em português na internet. E não é a missão mais fácil: “Tirando a pronúncia das consoantes “r” e “v”, que não existem no vocabulário japonês, o que eu acho mais difícil na língua portuguesa são os adjetivos, que variam no masculino e feminino.”

E ela espera que o público brasileiro goste das suas músicas próprias, que em breve também ganharão versões em português.


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dica do Israel Herison

Doença rara em menino inglês causa coceira parecida com picadas de 500 mil mosquitos

Aaron e a mãe Jaqueline

Aaron e a mãe Jaqueline (Foto: Caters News/The Grosby Group / Caters News/The Grosby Group)

publicado no Extra

O pequeno Aaaron Higgins, de 4 anos, sofre de uma coceira incontrolável que, de acordo com os médicos, é como se estivesse sendo picado por 500 mil mosquitos, segundo o site Metro. A estranha sensação é causada por uma doença genética rara chamada Síndrome de Alagille, que acumula bile em seu corpo, atingindo órgãos vitais como o fígado e o coração. O menino faz parte de uma estatística em que apenas uma a cada 100 mil crianças é afetada.

Aaaron Higgins brinca em casa
Aaaron Higgins brinca em casa Foto: Caters News/The Grosby Group

- Acontece em ondas. Ele pode ficar algumas semanas sem sentir isso, depende do acúmulo de bile. Quando ele não está se coçando fica bem. É de cortar o coração. Quando ele está realmente mal fica nas escadas gritando ‘mamãe me ajude’ com sangue escorrendo de suas pernas ou ouvidos – contou a mãe, Jacqueline, ao site Metro.

Aaron já passou por quinze cirurgias, mas a única esperança de alívio para a coceira é um transplante de fígado, que não deve curá-lo completamente. No próximo mês ele será submetido a uma avaliação por especialistas em fígado do Kings College Hospital, em Londres, na Inglaterra.

 

Aaaron Higgins brinca em casa

 

Sertanejo universitário por quê?

Casablanca-Final

Marcelo Rubens Paiva, no Estadão

Difícil detectar como surgiram alguns achados brasileiros, o chorinho [não a música, mas a dose extra que nos é servida na maioria dos bares] e o sertanejo universitário [a música, não o interiorano que entrou na faculdade].

Quando começou?

1. Chorinho.

Peça um uísque. O garçom trará a garrafa, para você conferir a procedência, exigência de uma economia que convive há séculos com contrabando e pirataria, servirá a dose numa pequena cuia de alumínio de 15 a 60 ml chamada dosador, ou medidor, passará o maltado para o copo com ou sem gelo, e em seguida banhará da própria garrafa as pedras que flutuam. É lançado o sorriso cúmplice, vem a piscada:

“Só pra você, que é exclusivo.”

Se você é da casa, sabe para que time o garçom torce e até o apelido dele, a dose extra é “no capricho”, outra expressão brasileira dúbia, pois indica que há doses e porções que não vêm caprichadas, já que existem aquelas especiais para clientes preferenciais.

Com um chorinho, o cliente se sente mimado, qualificado.

O estabelecimento aparenta ofertar mais do que o usual, fugir à regra, tratar você com devoção, sem mesquinharia, sem se importar com os lucros, pois foi com a sua cara, gostou do seu jeito, você é um cara bacana, que merece a quebra de protocolos. Ambas as partes ficam satisfeitas.

Pode-se dizer que, como em Casablanca, é o começo e a prova de uma longa amizade.

No entanto, é evidente que a dose extra já está embutida no preço, que os R$ 20 em média que você paga por uma dose de um bom escocês envelhecido é exorbitante, já que a garrafa de um litro custa perto de R$ 100, dependendo do fornecedor- se não atravessou o Rio Paraná numa balsa improvisada, proveniente das destilarias do Chaco-, garrafa em que vem muito mais do que quatro ou cinco doses, talvez 30, talvez 40, ou 66,6 doses, se utilizado o medidor de 15 ml, cuja matemática tira do coma alcoólico o mais dedicado dos boêmios: está-se pagando R$ 1.320 por garrafa, 13,2 vezes mais.

Portanto, o chorinho não é um favor, é um truque que entorpece e ilude o brasileiro.

Outro exemplo: o milk-shake que vem acompanhado pela sobra. O garçom deposita o copo de vidro e o de alumínio em que o sorvete foi batido. Em lanchonetes, a sobra dá outra dose. E tem aquela que a sobra é maior do que a dose original, como o prato “que dá pra dividir”, outra invenção brasileira.

É verdade que é difícil dosar a quantidade de cada cliente.

O que um surfista adolescente bebe ou come é diferente daquilo que uma modelo que fará teste para o próximo desfile deixa no prato, ou moças com colesterol alto e rapazes com glicemia alta evitam.

Mas se você se encanta pela generosidade de quem serve, relaxa.

Está tudo embutido no preço.

copo 2. Sertanejo Universitário.

Universitário por quê?

Tem pensamento pré-socrático, semiótica, behaviorismo, sociobiologia, antropologia e darwinismo social, niilismo e hipóteses do pensamento ocidental debatidas nas letras? Algum indício das contradições do pensamento marxista? Marx aparece como historiador ou economista? A dialética é retratada num rasta pé ou bate-coxa com diploma?

Mimesis, de Auerbach, dá para ser anunciado. Rola a letra “Auerbach é das mais significativas referências, nos estudos de cunho hermenêutico, eu, eu, eu, de exegese literária, ai, ai, ai, fez uma abordagem original da questão da representação, sai do chão!”?

k50 Nada disso. Sertanejo universitário retrata o pensamento que rola fora das salas de aula nas baladas estudantis.

Como o forró universitário, que nasceu no Remelexo, casa de Pinheiros frequentada pela juventude dourada da USP, que queria em São Paulo aquilo que dançava nas férias de Trancoso, Itaúnas e Canoa Quebrada, o sertanejo universitário se apresenta como uma releitura distanciada do modelo anterior. É influenciado pelo sertanejo de raiz, de Tonico & Tinoco, Alvarenga & Ranchinho, e pelo sertanejo mullets, de Chitãozinho & Xororó, Leandro & Leonardo, mas com um conteúdo que recupera a futilidade do novo pagode e detalha os efeitos macroeconômicos da expensão da fronteira agrícola e do lulismo- como exaltação do consumo, facilidade do crédito e mudanças na pirâmide social.

O Camaro, símbolo das pistas de corrida Nascar do Meio-Oeste americano, é retratado como uma arma para a vingança na batalha da luta de classes da sedução amorosa no sucesso de Munhoz & Mariano, Camaro Amarelo: “Agora eu fiquei doce igual caramelo, tô tirando onda de Camaro amarelo, e agora você diz ‘vem cá que eu te quero’, quando eu passo no Camaro amarelo. Quando eu passava por você na minha CG, você nem me olhava. Fazia de tudo pra me ver, pra me perceber, mas nem me olhava. Aí veio a herança do meu véio, e resolveu os meus problemas, minha situação.”

O antigo motoqueiro de uma humilde mas eficiente CG 125 cilindrada, modelo da Honda de motor 4-tempos monocilíndrico arrefecido a ar, cuja potência máxima é de 11,6 cavalos e custa em torno de R$ 5,5 mil, ficou doce e rancoroso ao adquirir um carro da Chevrolet, que custa a partir de R$ 200 mil, V8 de 406 cavalos, com câmera de estacionamento com visualização através de uma tela de LCD de sete polegadas.

“Do dia pra noite fiquei rico, tô na grife, tô bonito, tô andando igual patrão. E agora você vem, né? Agora você quer. Só que agora vou escolher, tá sobrando mulher”, finaliza o novo-rico.

Já dupla Ronny & Rangel, do sucesso Puxa, Agarra e Chupa, que virou obrigatório em formaturas universitárias, deu um troco mais ambicioso no projeto da dupla anterior.

Camaro?

marcelo“Todo mundo fala de carrinho, mas meu negócio é outro, comprei jatinho, a playboyzada sai de caminhonete, meu avião lotado só de piriguete. Estoura uma champanhe pra gente comemorar, o clima tá gostoso, o bicho vai pegar. Vai se acostumando que ninguém é de ninguém. Ai meu deus do céu, ram, hoje tem!”

Se Puxa, Agarra e Chupa era o reflexo de um evidente caso de transferência do desejo pela mãe, que impedia o autor de tomar atitudes, expor suas vontades ao viver encolhido num espectro de castração (“com as palavras eu me perco, eu não sei falar direito, e quando eu tô a fim, timidez é meu defeito”), Festa no Jatinho acredita no sonho sem limites, no projeto de redistribuição de renda, proveniente de um novo sertão rural irrigado, terra do agronegócio, de oportunidades que proporcionam inversão da pirâmide social aliada ao ProUni e sistema de cotas que oferece chances antes remotas de ascensão.

E pensar que Menino da Porteira e Chico Mineiro, compostos pela universidade da vida, deram em ganância e esnobismo “universitários”.