Pai, eu não te amo como antigamente

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Ruth Manus, no Estadão

Pai,

Há muitos anos que não caibo mais no seu colo. Hoje meu peso já é demais para você me carregar nos seus ombros. E meus anos já não permitem certos mimos de antigamente.

Mas me flagro, às vezes, desejando que você ainda pudesse administrar minha vida, escolhendo os caminhos mais seguros para eu caminhar. Caminhada essa, livre de todo medo, por saber que você me observava a cada passo, tentando impedir meus tombos e tropeços.

Os anos passaram. E a vida não perdoa atrasos.

A cada dia, por mais que nenhum de nós tivesse pedido, menos controle você passou a ter sobre a minha vida. Não pôde escolher meus empregos como escolhia minhas escolas. Não pôde vetar aquela última dose de vodka como vetava o chocolate antes do almoço. Não pôde me ajudar com aquela baliza na vaga pequena como me ajudava com os pedais da bicicleta. Não pôde evitar a queda do meu celular na privada como evitou vasos quebrados por causa da bola dentro de casa.

E tudo aquilo que você fazia, e que um dia me pareceu infernal: horários estipulados para voltar para casa na noite de sábado, olhares tortos para amigos que não te pareciam boa coisa, reclamações por tempo demais no telefone, controle do dinheiro que eu tentava gastar, hoje faria todo sentido. Seria tão bom se hoje em dia você pudesse me garantir mais horas de sono, amigos mais confiáveis, uma conta de celular mais barata ou uma fatura de cartão de crédito um pouco menos imbecil…

Mas agora é comigo, pai.

E seria bom voltar ao tempo em que você me parecia imortal. Tempo em que era você quem se preocupava com a minha saúde e não eu com a sua. Tempo em que você tentava evitar meu resfriado ou ficava preocupado com meus 39 graus de febre. Mas hoje sou eu que cobro seus exames de sangue, seus exercícios físicos e tento te fazer ver que amendoim, álcool e carne vermelha não garantem uma velhice boa a ninguém.

Pois é, pai. No fundo, todo mundo já sabia que ia ser assim. Mas às vezes essa síndrome de Peter Pan nos invade e a vontade de ficar debaixo de suas asas é quase irresistível.

Mas a vida chama.

Então me levanto, lavo o rosto, vou trabalhar. Porque você me levou no colo, me carregou nos ombros, mas também me ensinou a caminhar com minhas próprias pernas. E se hoje estou na estrada, trilhando caminhos bonitos, você bem sabe que isso é obra sua.

E sabe, pai? Nesse domingo posso te dar um presente. Provavelmente não será grande coisa. Não é aquele super carro com o qual você ainda sonha, mas é fruto do meu trabalho. Fruto do que só existe por sua causa. Pela educação que você me deu, pelas notas das quais você reclamou na escola, pelas festas que você vetou em vésperas de prova.

E eu vou te olhar durante o almoço. Não com o encantamento que tinha aos 6 anos… Porque aos 6 anos era aquele amor cego das crianças. Já hoje, tenho esse olhar cirúrgico, avalio suas atitudes, aponto seus erros, reclamo dos seus defeitos. A verdade, pai, é que eu não te amo como antigamente. A verdade é que te amo ainda mais.

Te amo mais porque te vejo de verdade, com tudo de bom e de ruim, consciente de que você é um ser falho, como todos os outros, mas que, mesmo assim, consegue se manter como meu porto seguro, meu norte, aquele que me construiu, me guiou e ainda me guia, me acode nas quedas que não pode evitar, me ama com todos meus defeitos e é quem dá vida à ideia de “amor incondicional”.

É, pai, hoje você já não é tudo aquilo que foi para mim um dia.

Porque agora você é tudo aquilo que é para mim hoje. E hoje é amor dobrado, é amor firme e deliberado, desse filho, adulto e crítico, com um sentimento cada vez mais consolidado.

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Menina consegue arrecadar fundos para levar à Disney o pai, que tem câncer terminal

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publicado no Extra

A reação de Ruby Myles, de 5 anos, à notícia de que seu pai, vítima de um câncer terminal, tinha poucos meses de vida surpreendeu sua família. A jovem rapidamente decidiu que queria ir com Damian Myles, de 42 anos, ao complexo de parques de diversão da Disney. Eles ficaram tristes de constatar que não poderiam bancar o passeio, já que tinham usado suas economias no tratamento do pai. Foi então que a menina conseguiu o apoio de um pub de sua cidade, Southport, na Inglaterra, para arrecadar fundos, de acordo com o jornal local Southport Visiter.

Os moradores da pequena cidade britânica se uniram para ajudar a menina em sua única chance de realizar a viagem de seus sonhos ao lado do pai. Em apenas uma semana, o pub The Wellington conseguiu arrecadar 4.130 libras esterlinas, cerca de R$ 16 mil. Pai, mãe e filha já estão com as passagens compradas para os Estados Unidos, na próxima terça-feira.

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Uma das funcionárias do The Wellington Annie McTaggart organizou as doações. “Foi tão emocionante. Eles são uma família muito linda e o Damian é uma das melhores pessoas do mundo”, afirmou. “A Ruby chegou para ele e disse: ‘Papai, vou te levar à Disney antes que os anjos venham te buscar’”, lembrou a funcionária.
A família de Damian recebeu o valor em uma festa temática de princesas da Disney, promovida por uma casa de festas local, a Part of Your World. “Acho que todos ficaram com lágrimas nos olhos quando Ruby viu as princesas. Ela começou a chorar, foi muito emocionante. Fazer parte disso é incrível”, celebrou o dono da casa de festas, Mike Parks.

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O mito do “cérebro direito” e “cérebro esquerdo”

publicado no Universo Racionalista

O mito do hemisfério esquerdo lógico e o hemisfério direito criativo tornou-se uma poderosa e útil metáfora para o entendimento do cérebro humano. Mas enquanto essa noção não é totalmente infundada, o psicólogo Christian Jarrett diz que devemos confrontá-la. Achar o que o modelo cérebro-esquerdo e cérebro-direito tem de correto – e como ela nos engana sobre o nosso próprio cérebro.

O mito dos hemisférios do cérebro provavelmente nunca vai morrer porque ele se tornou uma poderosa metáfora para diferentes formas de pensamento – um lado lógico, focado e analítico, contra um liberal e criativo. Pegue o exemplo do chefe britânico Rabbi Jonathan Sacks falando na Radio BBC 4: “O que faz a Europa acontecer e faz ela tão criativa,” ele explica, “é que o cristianismo era uma religião ligada ao lado direito do cérebro… traduzida para uma linguagem do lado esquerdo [Grego]. Então, por séculos você teve essa visão de que ciência e religião são essencialmente partes da mesma coisa.”

Bem como um apelo metafórico, a ideia sedutora do lado direito do cérebro e seu inexplorado potencial criativo também tem uma longa história de ser alvo de gurus de auto-ajuda vendendo pseudo-psicologia. Hoje, a mesma ideia é também explorada pelos criadores de jogos e aplicativos de auto-aperfeiçoamento. A última versão do aplicativo The Faces iMake-Right Brain Creativity para iPad, por exemplo, se vangloria de que “é uma extraordinária ferramenta para desenvolver as capacidades criativas do lado direito do cérebro”.

Há mais do que um grão de verdade para o mito dos hemisférios do cérebro. Embora eles sejam diferentes, os dois hemisférios do cérebro funcionam de formas diferentes. Por exemplo, já se tornou um conhecimento de senso comum que na maioria das pessoas o lado esquerdo é dominante para a linguagem. O lado direito, por outro lado, é mais ativo no processamento emocional e nas representações do estado mental dos outros. Entretanto, a distinção não é totalmente clara como o mito faz parecer. Por exemplo, o hemisfério direito está envolvido em processar alguns aspectos da linguagem, como a entonação e a ênfase.

Hemisfério-Esquerdo-e-Direito

Muito do que nós sabemos hoje sobre as diferenças entre os hemisférios veem dos notáveis estudos de divisão de cérebros que começaram nos anos sessenta. Essas pesquisas foram conduzidas com pacientes que tiveram o grosso feixe de fibras que ligam os hemisférios cortados como um último recurso para tratamento de epilepsia. Pesquisadores, incluindo os psicólogos Roger Sperry e Michael Gazzaniga, puderam estimular apenas um hemisfério por vez, e descobriram que as duas metades do cérebro agiram como entidades independentes, com diferentes estilos de processamento.

É também importante notar que o tipo de tarefa que envolve um hemisfério mais do que o outro nem sempre mapeia cuidadosamente os tipos de categorias que achamos útil falar nas nossas vidas cotidianas. Vamos pegar o exemplo da criatividade. Podemos achar ela um atalho útil para dividir tarefas entre aquelas que são criativas e aquelas que são repetitivas. Obviamente a realidade é bem mais complexa. Existem muitas maneiras de ser criativo.

Na verdade, alguns estudos mostraram que o hemisfério direito parece estar mais envolvido quando temos um lampejo de inspiração. Por exemplo, um estudo descobriu que a atividade cerebral era maior no hemisfério direito quando os participantes resolveram uma tarefa por inspiração ao invés de gradualmente. Outro mostrou que uma pequena exposição a quebra-cabeças é mais útil para o hemisfério direito do que o esquerdo, como se o direito estivesse mais próximo da resposta.

Mas inspiração é apenas um dos tipos de criatividade. Contar histórias é outro tipo. Uma das mais fascinantes revelações dos estudos de divisão de cérebros foi que o hemisfério esquerdo cria histórias para explicar o que o hemisfério direito tem que fazer, – o que Gazzaniga apelidou de “fenômeno intérprete”. Por exemplo, em um estudo uma paciente completou uma tarefa de correspondência de figuras usando a sua mão esquerda (controlado pelo hemisfério direito) para corresponder uma pá com uma tempestade de neve (mostrado apenas para o hemisfério direito). Foi perguntado ao paciente por que ele fez isso. Mas o seu hemisfério esquerdo (a fonte da fala) admitiu não saber de nada. Ao invés disso, ele confabulou, dizendo que chegou na pá para limpar o seu galinheiro (a imagem mostrada ao hemisfério esquerdo foi a de um pé de um pássaro).

Fazendo um resumo do estudo de divisão de cérebros em um artigo na Scientific American (pdf em inglês), Gazzaniga concluiu, baseado no fenômeno interprete e outros resultados, que o hemisfério esquerdo é “inventivo e interpretativo”, enquanto o direito é “verdadeiro e literal”. Isso parece em desacordo com o mito invocado por Rabbi Sacks e muitos outros pseudocientistas.

Suponho que o mito do cérebro esquerdo lógico e do cérebro direito criativo tem uma simplicidade sedutora. As pessoas podem perguntar: “que tipo de cérebro eu tenho?” e assim comprar um aplicativo para treinar a metade fraca. Eles podem categorizar linguagens e pessoas como tendo o cérebro direito predominante ou o esquerdo. É complicado combater essa crença dizendo que a verdade é bem mais complicada. Mas vale a pena tentar, porque seria uma vergonha se um mito simplista abafasse a história fascinante de como o nosso cérebro realmente funciona.

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Presidente Dilma Rousseff estreia no… Buzzfeed?

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Bia Granja, no YouPix

Pois é, amiguinhos!

Ontem a noite, mais precisamente as 19h30, a presidente Dilma Rousseff fez sua estreia como colaboradora do Buzzfeed, o site mais viral e memético da atualidade, conhecido por suas listas recheadas de gifs animados e testes divertidinhos sobre todas as coisas. O post “Veja 13 motivos pra votar na presidenta Dilma” é uma lista com gifs animados, bem no estilo do Buzzfeed e do que o público do site curte consumir.
Durante um tempo rolou uma especulação da geral sobre a veracidade do autor do post, mas as suspeitas de que ele poderia ter sido feito por algum militante da presidenta ou até por Jef Monteiro, a Dilma Bolada, foram por água abaixo quando a página oficial de Dilma publicou uma mensagem no facebook oficial.

Se a fanpage falou em estreia… quer dizer que a equipe da campanha da presidenta está preparando mais posts no site. Seria isso resultado da assessoria de Jef Monteiro pra campanha? Vale dizer que qualquer um pode publicar no Buzzfeed e o post da presidenta vem com um big disclaimer falando que “Este post foi criado por um usuário e não foi aprovado pela equipe editorial do BuzzFeed”. Seja como for, ponto pra equipe vermelha!

Eu já cantei essa bola em 2012 e 2013: candidato que chegar na interwebz com aquele discurso linear, hermético e chato típico das campanhas offline vai se dar mal. Aparentemente o PT já sacou que pra falar com o jovem na rede é preciso usar as ferramentas e linguagem desse público, é preciso fazer parte da mesma cultura que eles.
Não sou petista e não vou votar na Dilma, mas não posso deixar de tirar o chapéu pra estratégia digital da presidenta: ela apoia ($) um fake de sucesso que agora trabalha em sua campanha, faz gif biográfico e lista maneirinha recheada de gifs no Buzzfeed.

Demais candidatos, se vocês quiserem falar com a web, precisam fazer melhor do que uma selfie. Estou ansiosa pra ver quem vai ganhar a corrida nas eleições mais meméticas que este país já viu. Por enquanto, a Dilma saiu na frente.
E você, o que achou da Dilma usando o Buzzfeed em sua campanha online?

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Com canal de TV e movimento civil, ateus tentam ‘sair do armário’ nos EUA

Homem faz protesto por liberdade religiosa. Credito: AFP
Homem pede separação entre Estado e igreja em protesto em frente à Casa Branca

Aleem Maqbool.  na BBC Brasil
“Às vezes, as coisas precisam ser ditas, e as lutas precisam ser lutadas, mesmo que sejam impopulares. Aos ateus enrustidos: você não está sozinho, você merece igualdade.”

Assim terminou o inflamado discurso do presidente do grupo Ateus Americanos, David Silverman, no lançamento da primeira emissora de televisão dos EUA dedicado àqueles que não acreditam em Deus, a TV Ateu.

Depois, foram exibidos testemunhos de ateus proeminentes.

“É uma das melhores decisões que já tomei na minha vida e eu defendo completamente que as pessoas ‘saiam do armário’”, diz Mark Hatcher, do grupo Ateus Negros da América.

“Sair do armário” é como muitos ateus americanos descrevem o que ainda é, para muitos, algo muito difícil de ser admitido publicamente.

Uma recente pesquisa realizada pelo Pew Research Center mostra que americanos preferem, a um ateu, ter um presidente com cerca de 70 anos ou abertamente gay ou que nunca tenham tido qualquer cargo público.

Surpreendentemente, uma pesquisa anterior da Pew sugeriu que os entrevistados nos Estados Unidos consideravam ateus menos confiáveis que estupradores. Um dos novos programas da TV Ateu já sentiu o “gostinho” de como muitos americanos percebem “os não crentes”.

“Então você estava estudando para ser um padre e agora não acredita em Deus? Você é o diabo”, um interlocutor disse ao apresentador. “Você é um marxista, você é um ateu e você é da Rússia”, diz outro.
‘Saindo do armário’

Em um dos maiores encontros de estudantes ateus no país, em Columbus, no estado de Ohio, Jamila Bey, da Aliança Secular de Estudantes, disse que muitos participantes estavam receosos sobre dar entrevistas, o que podia ser visto em seus pescoços.

A student atheism convention took place in Ohio.
Em Ohio, ocorre uma das maiores convenções de ateus do país

“Cordões vermelhos significam ‘Você não pode falar comigo’”, diz Bey. “Muitos alunos não são ‘assumidos’. Seus pais podem não saber que eles são ateus ou que questionam sua religião.”

Ela disse que muitos estavam preocupados com ostracismo ou temiam sofrer violência se revelassem que não acreditavam em Deus.

Lasan Dancay-Bangura, de 22 anos, é o chefe do grupo de estudante ateus de sua universidade. Ele já contou para a mãe sobre seu ateísmo – experiência que relembra com um suspiro profundo -, mas ainda não “saiu do armário” para o pai.

“Fala-se o tempo todo sobre pessoas que estão sendo expulsas e enviadas para campos de Bíblia onde são forçadas a ser religiosas. Eu não quero perder o meu pai para isso.”

Já Katelyn Campbell, de 19 anos, de West Virginia, tem tido problemas com a comunidade. “No colégio, era um silêncio total quando eu andava pelo corredor. Ou alguém cuspia em mim”, diz Katelyn.

Há dois anos, ela protestou contra a inclusão da religião e da abstinência em suas aulas de educação sexual escolar. “As pessoas agora costumam trazer essa discussão, que é de valores que são muito pessoais e muito particulares”, diz ela.
Campanha

No evento de estudantes ateus em Ohio, eles estão tentando mudar as coisas.

Camisetas a venda no evento trazem os dizeres “Godless Goddess (Deusa sem deus)” ou “Um ateu é assim”.

A student atheism convention took place in Ohio
Adesivos distribuídos em convenção defendem ateísmo e liberdade religiosa

Ao lado da tenda está Andrew Seidel, um advogado da Fundação Liberdade da Religião. “Muitos americanos pensam que nunca conheceram um ateu, mas isso é porque muitos têm medo de reconhecer isso publicamente”, diz Andrew.

“A forma como vamos vencer essa luta é pela demografia. Assim como sair do armário foi importante para o movimento LGBT, é importante para nós dizer em alto e bom som e com orgulho: ‘Eu sou um ateu!’”

E os dados demográficos estão realmente mudando, especialmente entre os jovens, onde a proporção daqueles que se identificam como “religiosamente não afiliados” está aumentando.

Mas os Estados Unidos têm uma proporção muito maior de pessoas que dizem que a religião é muito importante para eles em comparação com países europeus.

“A América é uma anomalia, em primeiro lugar, porque foi fundada por puritanos”, diz Bey, da Aliança Secular de Estudantes.

Mais recentemente, em especial para a comunidade afro-americano na luta pelos direitos civis, mas também para muitas outras comunidades minoritárias, a religião tornou-se uma forma de ganhar aceitação, segundo Bey.

“Foi uma maneira de dizer: Eu sou um bom cristão, você deve deixar o meu filho ir para a escola com as criancinhas brancas, Jesus ama a todos nós’”, diz ela.

O novo canal de TV faz parte do movimento dos direitos civis dos grupos ateus.

Mas a aceitação real, particularmente para aqueles que exercem cargos públicos, em um país onde nenhum deputado é abertamente ateu, pode estar ainda um pouco distante.

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