Onda do passinho ameniza preconceito contra funk carioca

ADRIANA KÜCHLER, na Folha.com

Três moleques de chinelo e bermuda improvisam uma dancinha num churrasco. O som é um funk, mas a dança é diferente. Remexem os quadris, fazem passos de frevo, ficam na ponta do pé, rodopiam e balançam a bundinha com trejeitos femininos. Um amigo espertinho filma a cena e coloca no YouTube com o título: “Passinho Foda”. Postado em 2008, o vídeo vira o marco inicial de um movimento e hoje tem quase 4 milhões de acessos.

Centenas de meninos do Rio entraram na onda e uma nova moda apareceu, a dança do passinho do menor, passinho da favela, ou simplesmente passinho, para os mais chegados.

Novo fenômeno pop, os “passistas” vão ser estrelas da Virada Cultural do Rio, em maio, e de um documentário, vivem aparecendo em programas da Globo, disputam acirradas Batalhas do Passinho com centenas de concorrentes, começam a exportar suas danças para outros Estados e têm uma grande pretensão: reinventar o funk e acabar com a ligação quase automática que se faz entre o ritmo e a apologia ao tráfico de drogas e à banalização do sexo. Eles só pensam em dançar.

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AVON, homofobia e falsos combates

Fabiano Camilo, no Amálgama

A indignação coletiva evidencia que os movimentos glbt’s parecem não estar conseguindo articular uma agenda, assumindo uma postura demasiado reativa e pouco propositiva.

Para observar o imperativo da honestidade, informo que sou um cliente da AVON. Minha tia é revendedora e, com regularidade, compro produtos da AVON. Nos últimos dias, em blogs e redes sociais, venho sendo instado a parar de adquirir os produtos da empresa. Solicitaram-me, inclusive, que fosse signatário de um abaixo-assinado. É um desafio compreender por que, em determinado momento, provoca uma intensa reação coletiva um acontecimento que, pelo conteúdo e pela forma, não difere do padrão de acontecimentos semelhantes que ocorrem com regularidade cotidiana e que não provocam reações de intensidade equivalente.

Uma parcela da população gay, lésbica, bissexual, travesti e transexual brasileira está indignada com a AVON. Não uma parcela muito grande em relação ao contingente populacional – a julgar pelo número de signatários do abaixo-assinado, entre os quais estão incluídos também heterossexuais –, mas uma parcela que tem conseguido atrair um pouco de atenção. Contudo, talvez eu me equivoque e esteja em curso o prenúncio lento de uma futura revolta queer. Um artigo sintomático publicado no Eleições Hoje, “AVON: a nova tendência é o conservadorismo?”, de Marcelo Gerald, relata que a indignação coletiva foi motivada pelo fato de a AVON ter passado a vender livros da editora Central Gospel, mantida pela Associação Vitória em Cristo, fundada pelo pastor Silas Malafaia, da Assembleia de Deus Vitória em Cristo.

Confesso, sem nenhuma ironia, que desconhecia a “polêmica”, a qual apenas teria se acirrado com a recente publicação, pela Central Gospel, do livro A estratégia (The agenda), do reverendo Louis P. Sheldon, cujo paranoico subtítulo é completamente elucidativo do conteúdo e dos objetivos da obra: O plano dos homossexuais para transformar a sociedade. De acordo com Gerald, o catálogo da AVON disponibiliza 400 livros da Central Gospel. Entretanto, consultei três folhetos AVON: Moda & Casa e encontrei somente 4 títulos. No atual folheto, correspondente à campanha 08/2012, há dois livros de Malafaia à venda: Pastor Silas responde e A vontade de Deus e as contradições da vida. Dois outros livros de Malafaia estarão à venda na campanha 09/2012: Vínculos do amor: Casamento, sexualidade e criação de filhos e um novo título, Bíblia: Leitura diária.

Uma rápida análise do padrão das obras vendidas pela AVON permite concluir com segurança que muito dificilmente a empresa venderá o estudo de Sheldon, resultado de 33 anos de pesquisa (!) – entre as quais, se não entendi erroneamente, incluiu-se um trabalho de campo etnográfico em uma “casa de banhos” de São Francisco, onde ele presenciou uma realidade “tão sórdida, tão chocante, tão pecaminosa e moralmente repulsiva”, “uma profunda degradação e perversão” que “nem mesmo o marquês de Sade, que viveu no século 18, poderia imaginar”. Gerald argumenta que, conquanto não venda o livro de Sheldon, é estranho que a AVON apoie uma empresa que promove a ideologia homofóbica. Vou supor que se trate de ingenuidade de quem desconhece a história do capitalismo e a estrutura e o funcionamento do capital.

O que, por enquanto, não consegui compreender foi por que a indignação justamente contra a AVON. Ressalto que não tenho nenhuma pretensão de defender a empresa. Não elogio empresas que promovem ações contra a discriminação e em promoção da igualdade. Nenhuma está realizando uma gentileza. O problema é que a indignação coletiva padece de coerência e evidencia que os movimentos glbt’s parecem não estar conseguindo articular uma agenda, assumindo uma postura demasiado reativa e pouco propositiva. Dias atrás, um amigo meu reclamou comigo acerca do que considerava um excesso de atenção conferido pelos movimentos glbt’s aos discursos e às práticas homofóbicos do fundamentalismo cristão. Ele tinha a impressão de que, em certa medida, a agenda vem sendo pautada por líderes religiosos como Malafaia. Em conversas que tive com Mary W., ela demonstrou preocupação com a possibilidade de que os movimentos se tornassem reféns do ressentimento, em detrimento de projetos libertários e igualitários. O caso da AVON termina por confirmar, para mim, as preocupações de ambos, as quais compartilho.

A incoerência da indignação coletiva se revela em sua seletividade. Livros e dvd’s de Malafaia estão à venda também nas livrarias Cultura e Saraiva, bem como nas Americanas e no Submarino, por exemplo. Por que nenhuma dessas empresas é alvo de um boicote de glbt’s? A Cultura e a Saraiva vendem também a edição em inglês do livro de Sheldon. Por que um boicote à AVON começou somente após a empresa passar a vender livros de Malafaia? Há muito tempo, a AVON vende obras de padres católicos. A Igreja Católica à qual os padres pertencem e representam não é menos homofóbica do que a Assembleia de Deus Vitória em Cristo – no máximo, adota uma postura menos agressiva. O papa Bento 16 não demonstra nenhuma simpatia pelas reivindicações dos movimentos glbt’s e reiteradamente condena o “estilo de vida” de gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais.

Como entender a decisão da AVON de vender livros de Silas Malafaia? É uma grande empresa que tem o lucro como objetivo e que, de fato, obtém um alto lucro vendendo obras de religião, autoajuda, ficção trivial, culinária etc. Não há nenhuma guinada conservadora, como Gerald sugere, ao perguntar se a nova tendência da AVON é o conservadorismo. A relação de livros vendidos pela empresa não permite dúvidas: a opção da AVON pela ideologia conservadora é antiga e rentável. Malafaia é tão-somente um “escritor” que se agrega a uma lista à qual pertence também a não menos homofóbica bispa Sonia Hernandes, sobre a qual recaem graves acusações criminais.

O boicote contra a AVON não apenas é provavelmente inútil, porque possui pequenas chances de produzir os resultados pretendidos – possuindo como efetiva função proporcionar um pacificador sentimento de esclarecimento e de engajamento políticos –, como também indica as contradições e os impasses em que os movimentos glbt’s estão encerrados neste momento, envolvidos em falsos combates. Há questões muito mais importantes do que indignações seletivas.

Em uma entrevista recente concedida à Revista Ñ, “La lucha debe ser por una vida vivible”, a filósofa Judith Butler, ao refletir sobre o casamento igualitário, indicou algumas questões que deveriam estar sendo discutidas pelos movimentos glbt’s:

[…] no me opongo al matrimonio gay. Pienso que el matrimonio debe ser abierto a cualquier pareja de adultos que quieran entrar en ese contrato, sin fijarse en su orientación sexual. Es un asunto de igualdad de derechos civiles. Pero no sé si este derecho particular debe ser la vanguardia del movimiento gay. Deberíamos preguntarnos por qué el matrimonio está restringido a dos personas, aunque parezca una broma. ¿Cuáles son los modos en que es organizada la sexualidad, y por qué tipos de organización estamos luchando? Aquellos que están luchando por lograr otras formas sociales para la sexualidad se están convirtiendo en “minorías” dentro del movimiento para establecer los derechos de los gays al matrimonio. ¿Por qué no estamos pensando en otros modos de dependencia, parentesco y alianza sexual? ¿Por qué el movimiento no se focaliza en contrarrestrar la violencia de género en todos sus niveles o nos ayuda a sostener a los jóvenes queers o a luchar por vivienda digna y beneficios sociales para la gente de edad que no está dentro del modelo marital o familiar clásico?

PS: um breve comentário a este parágrafo do artigo de Marcelo Gerald:

Alguns podem dizer que tudo isso é bobagem, que protestar contra a AVON seria radicalismo de ativistas, que ela apenas revende os livros do pastor, mas vamos imaginar que uma grande livraria colocasse como destaque em suas vitrines o livro de Adolf Hitler, Mein Kampf como grande sugestão de leitura. Alguém diria que isso é liberdade de expressão? Alguém ousaria dizer que essa livraria vende apenas o livro e que as opiniões escritas por Hitler não representam a filosofia da empresa? Pois é, quando a obra contra judeus foi escrita o autor estava apenas se expressando, o massacre que veio depois nós hoje conhecemos.

Lembro-me de que, no final da adolescência, várias vezes vi Minha luta à venda, com destaque, em uma livraria de shopping center. Nunca me ocorreu, como hoje tampouco me ocorre, que o proprietário ou o gerente fossem nazistas. Quem adquire Minha luta possui interesse pelo nazismo, claro, mas não é necessariamente nazista. Seguindo a lógica do raciocínio de Gerald, é forçoso concluir que as editoras Universidade de Brasília e Rosa dos Tempos são partidárias da ideologia católica ultraconservadora e nostálgicas dos tempos inquisitorais, porque publicaram, respectivamente, Manual dos inquisidores, de Nicolau Eymerich e Francisco de la Peña, e O martelo das feiticeiras, de Heinrich Kramer e James Sprenger. Na Alemanha, o Conselho Central dos Judeus apoiou, em 2009, a republicação de Minha luta. O órgão estava convencido de que, afinal, a autobiografia de Hitler é um importante documento histórico.

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Saiu na Folha de S.Paulo: “Ary Velloso: Pastor que mudou o jeito de pregar”

Estêvão Bertoni, na Folha.com

Na sala de casa, Ary Velloso da Silva fundou no fim dos anos 70 uma igreja. Com o tempo, o número de frequentadores pulou dos cinco iniciais para 15. Com 500, as reuniões ocorriam num hotel.

A igreja batista passou ainda por uma escola de São Paulo antes de ocupar a atual sede no Morumbi, na zona sul da cidade, onde recebe até cerca de 5.000 pessoas.

Ary, filho de um militar, nasceu na mineira Congonhas do Campo e cresceu em Belo Horizonte. Mudou-se para São Paulo para estudar. Na PUC, formou-se em letras.

O mestrado em teologia ele fez nos EUA. Voltou ao Brasil em 1968, já como pastor.

No ano seguinte, em Bauru, conheceu Carolina, uma pianista norte-americana que tinha vindo a São Paulo para se apresentar. Ela retornou ao seu país, mas os dois ficaram noivos por telefone.

Em 1970, Ary foi a Califórnia casar-se na igreja dela. Após oficializarem a união, o casal veio viver no Brasil

O pastor criou igrejas em Campinas, Vinhedo, São Bernardo do Campo, Florianópolis e Granja Viana. Em 2004, saiu da do Morumbi para criar mais uma em Londrina.

Segundo o pastor Lisânias Moura, o amigo modificou a forma dos cultos, tornando-os informais (sem a necessidade de paletó e gravata). Usava músicas e contava piadas –palmeirense, sempre tirava sarro do Corinthians.

Como conta a mulher, o marido vivia com base no versículo “para mim, o viver é Cristo, e o morrer é lucro”.

Nos últimos 13 anos, viveu com um coração transplantado. Morreu na quarta (25), aos 77, de problemas cardíacos. Teve dois filhos e três netos.

dica da Judith Almeida

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