O dia em que o ódio bateu recorde

No dia seguinte à reeleição de Dilma Rousseff, o Brasil registrou o maior número de denúncias de páginas na web com manifestações de ódio e discriminação dos últimos nove anos.

Publicado em O Povo

Em um único dia de 2014, o número de páginas na internet denunciadas por manifestação de ódio e discriminação nas redes sociais, especialmente contra nordestinos, foi superior ao total de denúncias realizadas ao longo de todo o ano passado. Em 27 de outubro, dia seguinte à divulgação do resultado da eleição presidencial, o canal de denúncias da SaferNet Brasil registrou 10.376 ocorrências envolvendo 6.909 páginas. Durante todo o ano de 2013, a SaferNet Brasil recebeu 8.328 denúncias do tipo.

Os números do dia seguinte à reeleição de Dilma Rousseff (PT) constituem um recorde isolado de denúncias recebidas em um único dia no País, de acordo com Thiago Tavares Nunes de Oliveira, presidente da SaferNet Brasil, uma associação civil de direito privado, referência nacional no enfrentamento aos crimes e violações aos Direitos Humanos na Internet.

“Levando-se em consideração uma série histórica de indicadores com início em janeiro de 2006, quando o canal de denúncias da SaferNet Brasil passou a funcionar, este é o recorde absoluto dos últimos nove anos”, ressaltou Thiago, em entrevista ao O POVO, por email.

O pico de denúncias atingido no dia 27 já se sinalizava na véspera, duranta a apuração dos votos. No dia 26 de outubro foram denunciadas 305 novas páginas criadas supostamente para promover o ódio e a discriminação, especialmente contra nordestinos. Este número representa um aumento de 662,5% em relação ao mesmo dia de 2013, e um crescimento de 342,03% em relação ao primeiro turno das eleições.

Analisar de perto esses números e compará-los com índices anteriores não deixa dúvidas sobre suas motivações. Até as 20 horas do dia 26, período em que os resultados das urnas começaram a ser divulgados, a SaferNet havia registrado apenas 35 denúncias envolvendo 28 páginas distintas. Somente no intervalo entre as 20 horas e 23h59min o número de registros chegou a 386 denúncias referentes a 277 novas páginas.

O tsunami de ódio e discriminação nas redes sociais não foi interrompido de pronto. Pelo contrário, ganhou sobrevida nos dias seguintes e foi aos poucos perdendo vigor. Ao todo, no período de 26 a 31 de outubro foram registradas 16.556 denúncias sobre 10.430 páginas.

Depois do topo atingido no dia 27 com 10.376 denúncias, os registros chegaram a 3.594 no dia seguinte; baixaram para 1006 no dia 29 e ficaram em 596 no dia 30.

Em 2010

Esta foi a segunda eleição presidencial no Brasil realizada após a massificação das redes sociais. Em 2010, o Orkut e Twitter eram as mais populares.

“Nesse ano, a SaferNet Brasil recebeu e processou um total de 4.319 denúncias anônimas contra 911 links diferentes apenas no dia 1º de novembro de 2010 (dia seguinte à divulgação do resultado final das eleições, em 31 de outubro de 2010), quando os nordestinos também foram alvo de discriminação nas redes sociais (vide caso Mayara Petruso, estudante de direito condenada pela Justiça Federal por postar mensagens de incitação ao ódio contra os nordestinos no Twitter)”, lembra Thiago.

“Quando comparamos o dia 27 de outubro de 2014 com 01 de novembro de 2010 temos um aumento de 140,24% no número de denúncias registradas e um aumento ainda maior, de 658,4%, no número de páginas denunciadas”, completa.

“Até as 20 horas do dia 26 de outubro, a SaferNet havia registrado apenas 35 denúncias”

“Somente no intervalo entre as 20 horas e 23h59min, do mesmo dia, o número de registros chegou a 386″

10.376 denúncias distintas com manifestações de ódio e discriminação nas redes sociais foram registradas no dia 27 de outubro, sendo 8.321 envolvendo 5.960 links do Facebook e 1436 denúncias contra 587

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Vaticano oficializa excomunhão de padre em Bauru

Diocese local emitiu comunicado oficial neste sábado (15).
Padre foi excomungado após defender temas polêmicos como a união gay.

Publicado em O Globo

A Diocese de Bauru (SP) emitiu um comunicado oficial neste sábado (15) informando que o Vaticano oficializou a excomunhão do Padre Roberto Francisco Daniel, conhecido como padre Beto. A nota informa que após processo de mais de um ano, o padre foi considerado excomungado pela Santa Sé e, portanto, não pode mais celebrar nenhum ritual da Igreja Católica e nem participar da comunhão.

A Diocese informou também que recebeu o comunicado oficial do Vaticano no dia 14 de outubro, mas somente neste sábado se manifestou sobre o assunto. A Diocese entrou com o pedido de excomunhão do padre em abril do ano passado, depois da divulgação de vários vídeos onde o sacerdote fala de assuntos polêmicos, como a defesa da união entre pessoas do mesmo sexo, infidelidade no casamento, entre outros.

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No comunicado emitido neste sábado, assinado pelo padre doutor Tiago Wenceslau, juiz instrutor enviado pelo Vaticano para realizar os procedimentos canônicos desse caso, a Diocese informa que a decisão é definitiva e somente pode ser revista no caso de pedido de perdão das ações cometidas pelo padre, que foram consideradas heresias pelo direito canônico, como explica o trecho:

“A causa da excomunhão não foi uma punição irrogada pelo Bispo ou pelo Papa, mas em virtude dos seus atos cismáticos e heréticos que, pela prática dos mesmos, o Sacerdote foi atingido – automaticamente – pela censura de excomunhão.”

O comunicado informa ainda que o padre não pode realizar mais nenhum sacramento da Igreja Católica e pede aos fiéis que não “participem de possíveis ‘atos de culto’ que forem celebrados pelo referido padre”.
A nota diz ainda que o processo não está na instância diocesana por isso todas as informações estão contidas apenas no comunicado e nenhum integrante da Diocese irá se manifestar sobre a decisão.

‘Para mim não muda nada’

Ao ser informado do comunicado da Diocese de Bauru, padre Beto disse que a oficialização da excomunhão não altera em nada a realidade que ele vive desde que deixou a Igreja em abril do ano passado, antes mesmo da divulgação da sua excomunhão pelo Bispo Diocesano, Dom Caetano Ferrari. “Recebi com muita naturalidade essa decisão. Era de se esperar depois da reunião do Papa Francisco com os bispos para discutir a questão da família, que a Santa Sé confirmasse a minha excomunhão dada pela Diocese de Bauru. Mas, para mim não muda nada, porque continuo seguindo a minha vida, seguindo os preceitos de Jesus, me sinto próximo de Deus”, afirma.

O padre também destacou que a decisão de deixar a Igreja Católica foi tomada por ele mesmo no ano passado. “A minha decisão de deixar a Igreja já tinha sido tomada e a ratificação ou não da minha excomunhão não muda nada”, completa.

E apesar de ter procurado anteriormente a Justiça para tentar reverter o processo de excomunhão, em entrevista ao TEM Notícias neste sábado, o padre foi taxativo em dizer que não se arrepende dos posicionamentos que tomou e que não pretende voltar a Igreja. “Eu não penso em retornar, eu acho que a Igreja tem a sua postura e espero que ela mude, se torne uma igreja mais flexível, menos hierarquizada, mas isso é problema dela agora não é mais meu.”

Sobre a celebração de rituais, o padre disse que continuará abençoando casais e crianças se for chamado pelos interessados.

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Vai difamar alguém nas redes sociais? Leia isto antes

Por Leonardo Sakamoto, no UOL

Passado o pleito, as timelines continuam coalhadas de maluquices, baboseiras, teorias conspiratórias, cascatas, invencionices e demais mimimis de causar vergonha alheia ao mais incapaz dos comediantes. Temendo pela sanidade mental coletiva diante da miríade de mentecaptos, sejam os mercenários pagos por partidos ou empresas, seja os otários que fazem isso por conta própria e gratuita, resolvi atualizar e trazer novamente os “Dez Mandamentos para Divulgar Notícias no Facebook e Twitter”.

Qualquer ameba com problemas cognitivos sabe que redes sociais são fundamentais para mobilização social neste nosso admirável mundo novo. Mas, ao mesmo tempo, são terreno fértil para cultivar boatos. Muita coisa fake tem corrido a rede loucamente, criando medo. Reputações nascem e morrem e tem sempre um pilantra distorcendo na esquina digital mais próxima – seja visando a um objetivo pessoal ou de seu grupo ou inconscientemente misturando realidade e desejo.

O desmentido (por ser mais sem graça) não chega tão longe quando a denúncia. Então, comportem-se. Se não for pelo entendimento de que viver em sociedade requer alguns cuidados com o outro, que seja, pelo menos, pela culpa incutida por anos dentro de vocês – o famoso “Olha que Deus tá vendo”.

E antes que reclamem, o que alguns chamariam de “censura”, neste caso, eu batizo de “bom senso”. Coisa que está em falta no mercado, onde a dignidade alheia vale muito pouco…

Dez Mandamentos para Divulgar Notícias no Facebook e Twitter

1) Não divulgarás notícia sem antes checar a fonte da informação.

2) Não divulgarás notícias relevantes sem atribuir a elas fontes primárias de informação. Um “cara gente boa” ou um “Best Friend Forever” não é, necessariamente, fonte de informação confiável

3) Tuítes e posts “apócrifos”, sem fonte clara, jamais serão aceitos como instrumento de checagem ou comprovação. Sites que caluniam e não se dignam a informar quem é o responsável, muito menos.

4) Não esquecerás que informação precede opinião.

5) Não repassarás informações que não fazem sentido algum só porque você não gosta da pessoa ou instituição em questão. A disputa entre posições políticas deve ser baseada em um jogo limpo e não em invenciones.

6) Lembrarás que mais vale um tuíte ou post atrasado e bem checado que um rápido e mal apurado. E que um número grande de retuítes, compartilhamentos e “likes” não garante credibilidade de coisa alguma.

7) Não matarás – sem antes checar o óbito.

8 ) Não esquecerás que a apuração in loco, por telefone e/ou por e-mail precede, em ordem decrescente de importância, o chute.

9) Não terás pudores de reconhecer, rapidamente e sem poréns, o erro em caso de divulgação ou encaminhamento de informação incorreta. Pedir desculpas é divino.

10) Na dúvida, não retuitarás, compartilharás ou darás “like” em coisa alguma. Pois, tu és responsável por aquilo que repassas e atestas. Ou seja, se der merda, você também é culpado. E, sim, retuitar, compartilhar e dar “like” em coisa ruim já rendeu condenação para muita gente.

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Após piada em WhatsApp, PM faz blitz da Lei Seca e prende 26 em Natal

Foto de tenente no aeroporto se espalhou com a mensagem: ‘Bora beber’.
‘Dei a resposta’, disse Styvenson após operação realizada nesta madrugada.

Publicado no G1

Responsável por coordenar as operações da Lei Seca na capital potiguar, o tenente da Polícia Militar Styvenson Valentim disse que ficou chateado com uma foto que circulou nas redes sociais na qual ele aparece embarcando, na última quarta-feira (12), para um seminário em Brasília, e decidiu dar uma resposta à provocação. A imagem, de autoria desconhecida, se espalhou pelos grupos de WhatsApp com a seguinte mensagem: ‘Bora beber que o homem viajou… vai com Deus Ten. Steyveson’. Na madrugada deste sábado (15), já com o tenente de volta a Natal, 57 carteiras de habilitação foram recolhidas e 26 motoristas presos por embriaguez ao volante durante fiscalização realizada na Avenida Engenheiro Roberto Freire, na Zona Sul da cidade. “Esta foi a minha resposta”, afirmou ao G1.

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Enquanto permaneceu no Distrito Federal, não houve nenhuma fiscalização para coibir crimes de trânsito na capital potiguar. O tenente disse que desembarcou em Natal pouco depois da meia-noite, já na madrugada deste sábado. Meia hora depois, já estava na Avenida Engenheiro Roberto Freire, onde montou a barreira de fiscalização juntamente com o Departamento Estadual de Trânsito. “Estava muito cansado. Mas decidi dar uma resposta ao gaiato que fez a foto e espalhou a imagem. Para mim, isso foi um afronte. Não à minha pessoa, mas à legislação. Se arrisca quem acha que tá liberado beber e dirigir”, rebateu.

Choro na blitz
Ainda de acordo com o tenente Styvenson, um dos motoristas presos durante a blitz realizada nesta madrugada chorou após soprar o bafômetro e ficar constatado que ele estava sob efeito de álcool. “O rapaz chorou bastante. Tava tão bêbado que inventou um monte de histórias. Disse até que havia sido assaltado. Descobrimos, depois, que ele tinha brigado numa festa, onde encheu a cara”, revelou o oficial.
O rapaz, assim como os outros 25 detidos por embriaguez ao volante, foram autuados na Delegacia de Plantão da Zona Sul da cidade, pagaram fiança e foram liberados. Mesmo assim, responderão criminalmente pelo crime de trânsito, pagarão multa no valor de R$ 1.915,40, perderão 7 pontos na carteira e ainda terão a CNH apreendida durante um ano.


Música pro carnaval

Natalense, a cantora Débora Reis decidiu aproveitar a fama do tenente Styvenson para fazer sucesso. Após ser abordada e ter de parar o carro para soprar o bafômetro três vezes – e em outras duas ocasiões sair de casa durante a madrugada para ir buscar amigos detidos por embriaguez ao volante – ela está gravando um repertório para ser lançado durante o carnaval de 2015 e escolheu a ‘Lei Seca’ como inspiração para dar nome à música carro-chefe do CD. A pedido do G1, Débora gravou um vídeo para mostrar o trabalho.

Na letra da música, Débora brinca com o oficial da PM, quando diz: “Calma, tenente, tem dó da gente, eu bebi pouco só pra relaxar”. O tenente Styvenson Valentim ouviu a música e elogiou a cantora. Para ele, Débora foi inteligente ao sintetizar a sensação e as explicações de quem é abordado pela equipe da Lei Seca. “As pessoas alegam que foi só uma cerveja para relaxar porque trabalham demais e o valor da notificação para muitos é onerosa. A cantora tem essa percepção porque presenciou o que mais eu escuto todas as noites”, afirma.

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Estatísticas
Em Natal, a operação Lei Seca já prendeu 567 pessoas dirigindo sob efeito de álcool somente no período de janeiro a agosto deste ano. Do total de presos, 495 são homens e 72 mulheres. Os dados, divulgados pelo Detran, mostram ainda que outros 1.693 motoristas foram autuados administrativamente por embriaguez ao volante.
No total, a operação autuou criminalmente e administrativamente 2.260 condutores, dos quais 1.977 tiveram suas carteiras de habilitação apreendidas. De todas as autuações, administrativas e criminais, 81,95% envolveram homens e 18,05% mulheres. Os motoristas que não tiveram as carteiras apreendidas se encontravam sem habilitação ou eram inabilitados.

Dos 2.260 motoristas autuados, 1.079 foram punidos por terem se recusado a fazer o bafômetro. As recusas ao teste do etilômetro representam 47,7%, quase metade das autuações. Quando a situação acontece, o condutor é autuado administrativamente, tem a carteira de habilitação recolhida e é multado em R$ 1.915,40.

Lei Seca
As regras da Lei Seca consideram ato criminal quando o motorista é flagrado dirigindo com índice de álcool no sangue superior ao permitido pelo Código Brasileiro de Trânsito: 0,34 miligrama de álcool por litro de ar expelido ou 6 decigramas por litro de sangue.
Nesse caso, a pena é de detenção de 6 meses a 3 anos, multa e suspensão temporária da carteira de motorista ou proibição permanente de obter a habilitação.
Condutores autuados por esse tipo de infração pagam R$ 1.915,40 de multa, perdem 7 pontos na carteira e têm a CNH apreendida. O valor é dobrado caso o motorista tenha cometido a mesma infração nos 12 meses anteriores.
Se o bafômetro registrar um índice igual ou superior a 0,05 miligrama de álcool por litro de ar, mas abaixo do 0,34 permitido pelo Código de Trânsito, o condutor é punido apenas com multa.
No exame de sangue, o motorista será multado por qualquer concentração de álcool, e pode ser preso se tiver mais de 6 decigramas de álcool por litro de sangue.

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“Os racistas não entram no Reino dos Céus”, diz pastor

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Publicado no Portal Geledés

Por Douglas Belchior

Há alguns anos eu participava de uma das inúmeras e intermináveis reuniões de preparação da Marcha da Consciência Negra de 20 de Novembro, quando um homem negro, alto, barbudo e com um vozeirão potente pede a palavra para falar sobre a importância de, em um espaço amplamente dominado por representações das religiões de matriz africana, haver também espaço para os evangélicos. Foi incrível! Evangélicos pentecostais em meio ao movimento negro brasileiro? Mas os pentecostais não são reacionários e alguns até mesmo racistas em suas práticas religiosas? Não! Aliás, aprendi isso com ele, neopentecostais reprodutores de valores reacionários, machistas, homofóbicos e racistas são minorias barulhentas.

Esse homem era o Pastor Marco David, autor do livro “A religião mais negra do Brasil“, onde expõe os motivos que levaram 8 milhões de negros a preferirem as religiões pentecostais no Brasil. Essa semana ele organiza a Conferência Nacional Negritude e Evangélicos: Reflexão, Resistência e Engajamento, no Rio de Janeiro, com participação especial do Reverendo John Perkins. Abaixo um registro do portal Ultimato, que entrevistou o religioso.

De Ultimat0

As palavras são duras, nascidas de um pastor batista negro que enfrenta as barreiras do preconceito no Brasil. Marco Davi é pastor da Igreja Batista em Parque Dorotéia, São Paulo, mestre em Ciências da Religião e coordenador-fundador da ANNEB (Aliança de Negras e Negros Evangélicos do Brasil). Na entrevista a seguir, Davi fala sobre a luta por uma “reconciliação racial” e sobre a Conferência Nacional Negritude & Evangélicos que começa nesta quinta-feira, dia 13, e termina no sábado, dia 15, no Rio de Janeiro (RJ).

Portal Ultimato – Qual o objetivo da Conferência Nacional Negritude e & Evangélicos?

Marco Davi – Temos como objetivo consolidar o Movimento Negro Evangélico enquanto organismo agregador de todos os movimentos e iniciativas evangélicas de negritude. Para isto, precisamos tornar realidade o objetivo do Movimento Negro Evangélico: engajar, agregar, motivar e potencializar todos os organismos e grupos evangélicos que trabalham, discutem e mobilizam em torno da questão racial no Brasil, a partir da Igreja Evangélica e nos movimentos sociais.

A Conferência Nacional Negritude & Evangélicos não é um evento único, mas o início de um processo que culminará na formação de uma rede de organizações, pessoas e igrejas que trabalham a temática da população negra no Brasil e fora dele. Queremos realizar em 2015 o Congresso Nacional Negritude & Evangélicos e, se Deus permitir, em 2016, o Congresso Latino Americano Negritude & Evangélicos.

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Portal Ultimato – Um dos preletores será John Perkins, uma das grandes vozes na defesa da reconciliação racial. O que Perkins poderá acrescentar à Igreja Evangélica Brasileira?

Marco Davi – A presença do Rev. John Perkins por si só já é um presente para nós como negros e como igreja. A sua história de luta pelos Direitos Humanos, na organização da população negra do Mississipi e nos Estados Unidos já o qualifica para estar entre nós. Suas propostas de reconciliação que não deixam de lado a necessidade de igualdade farão com que tenhamos novas perspectivas. Até, quem sabe, novos discursos sobre a questão negra entre nós.

Portal Ultimato – Quando falamos de “reconciliação racial” do que estamos falando?

Marco Davi – Creio que, no Brasil, precisamos elaborar mais o assunto. Precisamos lutar pela reconciliação. Mas para que isto aconteça duas coisas são necessárias e importantes. Primeiro, os negros devem gostar de serem negros. Há uma autoestima baixa entre os negros do Brasil em geral. Muitos têm dificuldades até de discutir o assunto sobre raça. Outros procuram se juntar mais e mais com brancos, não porque acham natural, mas porque têm dificuldades com a sua cor da pele, sua raça. Não é porque eles sejam racistas, , como afirmam alguns preconceituosos (até porque os racistas sempre são aqueles que fazem parte do grupo de maior poder econômico, politico e sistêmico). Portanto, é impossível, de forma radical, que os negros sejam racistas. Mas quando alguns têm sentimentos racistas, como sabemos de alguns que nutrem esse sentimentos pecaminosos, o fazem talvez porque não se aceitam como são: imagem e semelhança de Deus.
Outra realidade importante para que haja reconciliação entre negros e brancos no Brasil são os brancos compreenderem que eles têm vantagens no Brasil. Os brancos pobres ou ricos já nascem com vantagens nesta nação. A raça dos brancos não foi escravizada por mais de 350 anos. Os brancos têm vantagens emocionais, psicológicas, econômicas, sociais, geográficas, etc. Os brancos não são o objeto principal da violência policial, mas sim os negros. São os negros que precisam conversar com os filhos que sofrem angústias por serem discriminados no país. E muitas outras coisas.
Não estou legitimando a postura de “coitados” para os negros, mas sim mostrando que se os brancos não reconhecerem isso, que o Estado brasileiro deve à população negra, não conseguiremos muitas avanços. A reconciliação sem direitos é imposição da Injustiça.

Portal Ultimato – Quando defendemos os negros, desvalorizamos os brancos?

Marco Davi – De maneira nenhuma. Os brancos e os negros são imagem e semelhança do Pai. O que queremos falar com a defesa dos negros – e que causa sim muitas dificuldades para brancos e negros pelos motivos ressaltados acima – é a busca dos direitos diante desta sociedade que evidencia o racismo e a sua exclusão. O Estado do Brasil deve muito aos negros que trabalharam muito sem nada receberem, somente alimentação horrível, violência, estupros, segregação, imposições de leis que favoreciam aos brancos da época, principalmente, aos ricos e fazendeiros, etc. Quando os negros estavam prontos e preparados para o trabalho e próprio ganho pessoal e não para seus senhores, o Estado do Brasil criou outras formas de prejudicar os negros, como a lei do ventre livre, o branqueamento que posteriormente se tornou uma política a partir da qual muitos brancos de outros países vieram para cá subsidiados pelo governo. Foi muita covardia. Se o Brasil não reparar isto continuará sob o juízo de Deus.

Portal Ultimato – Um assunto urgente é a violência que tem os jovens negros como as maiores vítimas. Para este assunto, haverá uma mesa de debate. Qual a gravidade do tema?

Marco Davi – Agora mesmo saiu uma pesquisa que mostra que os negros jovens são as maiores vítimas da violência. O Mapa da Violência no Brasil 2014 revela isto. Em todo o país, sete jovens são mortos a cada duas horas. São 82 jovens mortos por dia, 30 mil por ano, todos com idades de 15 a 29 anos. E, entre os jovens assassinados, 77% são negros (somando aqui os pretos e pardos, pelos critérios do IBGE).
Isso é muito grave, porque basta ser negro. Ninguém está preocupado se ele é evangélico, do candomblé, ou católico. É negro e ponto. O que é muito triste é ler alguns comentários nas redes sociais de gente que é racista, mas nunca tem coragem de avisar ao outro. Nesta hora, esta gente se sente livre e detona o seu azedume racista. Gente de igreja também que diz não ser bem assim, que isso é notícia plantada. Ora, quem vai plantar uma desgraça dessa? Qual objetivo? Isso é uma realidade, e a violência pode atingir também aos cristãos, como já tem acontecido.
Confesso que tenho medo, pois tenho um filho de 18 anos e uma filha de 16. Negros lindos por sinal, estudiosos, dedicados. Quando eles saem, eu fico com muito medo do que pode acontecer. Como cristão e pastor, coloco, é claro, nas mãos do Senhor. Mas digo a Ele que o medo existe, porque moro no Brasil onde os negros – como em outros lugares – são preteridos em muitas coisas. O negro é objeto de violência em primeiro lugar.

A igreja brasileira denominou alguns problemas no Brasil como coisas do diabo, tais como: homossexualismo, casamento gay, aborto, etc. Mas tantos jovens negros são assassinados no Brasil e isso nunca foi motivo para levante midiático, campanhas no Youtube, Facebook, televisão , etc. Ou seja, o genocídio aos negros pode continuar, desde que não atinja os dogmas religiosos das igrejas. Mas o que será o que o Senhor Jesus dirá à nossa igreja do Brasil? Racismo é pecado. E quando você que é racista e acha que os negros devem morrer mesmo, não devem nem falar sobre direitos, e devem continuar no seu lugar, estiver lendo este texto, peça perdão ao Senhor e peça a ele que tenha misericórdia de sua vida. Porque talvez você, no juízo final diante do Senhor, o encontre negro. E isso acontecendo, ele dirá “apartai de mim maldito para o fogo eterno”, pois racistas não entram no reino dos céus.

Serviço:
Conferência Nacional Negritude & Evangélicos
Tema: Reflexão, Resistência e Engajamento
Data: 13, 14 e 15 de novembro
Local: Seminário Teológico Batista do Sul (RJ)

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