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Na Moral e o estado laico

Foto: TVG

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Magali do Nascimento Cunha, no Mídia, Religião e Política

Quem espera densidade em qualquer das tantas “mesas redondas” de qualquer programa de entretenimento na TV aberta, seja de momentos liderados por Ratinho ou Fernanda Lima; por Luciana Gimenez ou Ana Maria Braga; por Ronnie Von ou Fátima Bernardes; por Cátia Fonseca ou Pedro Bial, certamente ficará frustrado. Não poderia ser diferente com a edição do Programa da Rede Globo “Na Moral”, amplamente divulgada nas redes sociais, que se dedicou ao tema do Estado Laico, e, por tabela, da liberdade de crença, gravada há duas semanas e que foi ao ar por 40 minutos na noite da quinta, 1 de agosto de 2013.

Um aspecto não pode ser negado: o fato de o tema “religiões” estar presente naquela edição do programa, como já esteve por, pelo menos, três edições do “Esquenta”, de Regina Casé na Globo; ter ganho espaço semanal no quadro “Fórum Religioso” no Programa Mulheres, das tardes da TV; ter sido objeto de diversas “mesas” no Programa Superpop da Rede TV, com Luciana Gimenez; ter momentos garantidos no Programa do Ratinho, no SBT, entre outros exemplos, mostra como a questão religiosa é cada vez mais pulsante no Brasil e as mídias não estão desatentas a isso, em especial quando tema se relaciona à arena da política.

A edição permitiu apenas ponderações pontuais de um padre, um pastor evangélico pentecostal, um babalaô (Candomblé) e um ateu, tudo embalado por canções do sambista Arlindo Cruz, que se declarou “espírita, do Candomblé” mas também católico, frequentador de cultos com a mãe evangélica e simpatizante do budismo. Entradas gravadas do Ministro do Supremo Tribunal Federal Aires Brito simularam o aprofundamento do tema “estado laico” do ponto de vista jurídico. O vereador evangélico que, quando presidiu a Câmara em João Monlevade (MG), retirou o crucifixo da sala de sessões e, por isso, foi alvo de manifestações e processos, participou presencialmente e prestou depoimento. Trechos de entrevista gravada com estudante do ensino médio ateu que passou a sofrer bullying por se recusar a orar o “Pai Nosso” com a turma nas aulas de uma professora de Geografia também foi base para o debate da mesa.

Vale ressaltar que a simulação de profundidade com depoentes gerou momentos curiosos em relação à temática. Por exemplo, perguntado pelo apresentador Pedro Bial se retirou o crucifixo porque era evangélico, o vereador de João Monlevade negou, visivelmente sem muita veemência, tendo declarado ter agido para defender a neutralidade religiosa no espaço. Faltou da parte do apresentador a pergunta-chave para aprofundar a questão: se houvesse uma Bíblia aberta na sala de sessões ao invés de um crucifixo, o vereador agiria da mesma forma?

De igual modo, a fala de especialista do Ministro Aires Brito terminou por defender que símbolos do catolicismo sejam mantidos nas repartições públicas, mas com argumento frágil, baseado em valores subjetivos. O ministro afirmou que crucifixos são aceitáveis nas repartições públicas pois é Jesus como humanista e autêntico que está ali ressaltado; ele foi, segundo o ministro “o mais autêntico dos seres humanos”. Fica no ar o sentido de autenticidade que coloca o Jesus humano como superior a outros, e as bases para tal afirmação. Ninguém questionou isto no programa editado.

As performances

A maior celebridade presente na “mesa redonda” era o pastor da Assembleia de Deus Vitória em Cristo Silas Malafaia, consultor da Rede Globo para assuntos religiosos. Ele fez ampla campanha no Twitter para que seus fãs o assistissem. Eles próprios estão atribuindo os bons índices de audiência alcançados pela edição do programa à presença do pastor. De acordo com a coluna de Patrícia Kogut, no jornal O Globo, os 12 pontos alcançados foram record no horário (meia-noite às 00h37). É possível que estejam certos mas também é possível que o clima político do País, que desde março vem sendo embalado com tons religiosos (vide o caso Marco Feliciano – leia aqui – e as polêmicas provocadas pelo próprio Silas Malafaia com a Marcha pela Família em Brasília – leia aqui) somado à cobertura da mídia à visita do Papa e ao tema, como afirmado cima, tenha atraído a atenção de boa parte do público.

O pastor Malafaia tentou assumir uma postura mais equilibrada e serena em suas abordagens, e quando o fez, apresentou argumentos interessantes e curiosamente surpreendentes, como a crítica à postura da professora de Geografia que criou constrangimento a quem não queria orar com ela, ou a favor de que crucifixos estejam em repartições públicas como símbolo cultural, ou ainda como defensor da liberdade religiosa e crítico da perseguição às religiões afro-brasileiras. No entanto, quando palavras, em especial do participante ateu Daniel Sotto-Mayor pareciam lhe caber, como a crítica à Teologia da Prosperidade, da qual é pregador, o pastor Silas Malafaia retomou sua já conhecida retórica de palavras exaltadas, agressivas e debochadas. Sotto-Mayor caiu na “armadilha” do pastor, que lhe perguntou “quer dizer que todo pastor é rico?” desviando a crítica originalmente proferida. O participante ateu acabou por fazer a acusação do enriquecimento de pastores a partir da exploração da fé de pessoas, da qual se defendeu Silas Malafaia, com algum apoio de Pedro Bial.

O padre católico-romano Jorjão teve participação pouco enfática e indicou fazer uma parceria com o pastor Malafaia, que manifestava concordância com ele em diversas afirmações e vice-versa. Não houve discussão entre os dois. Quem pareceu estar mais à vontade, com postura beirando a de um pastor, foi o babalaô Ivanir dos Santos. Ele não só chamou participantes de “irmãos”, como, sempre com serenidade e respeito, denunciou a opressão e a perseguição histórica sofrida pelas religiões afro-brasileiras e o projeto de poder de membros da Frente Parlamentar Evangélica que já manifestaram desrespeito e discriminação ao demonizar a população de matriz africana e suas religiões não-cristãs. Ivanir dos Santos afirmou que isto não é democrático mas uma “semente do facismo”.

A parte mais interessante do programa aconteceu ao final quando um curioso convite foi feito ao pastor Silas Malafaia pelo representante do Candomblé: já que o primeiro havia declarado indignação com a perseguição religiosa e uma defesa da liberdade de crença, afirmando até que quem “invade terreiro tem que ir para a cadeia” (nítida crítica à Igreja Universal do Reino de Deus). O convite foi para que Silas Malafaia e outros líderes evangélicos participem da Marcha pelo Estado Laico e a Liberdade Religiosa, realizada em diversas cidades do País anualmente e está por acontecer. Ivanir dos Santos afirmou: “a maior demonstração que podemos dar de respeito e tolerância é ir juntos para a rua”. Ele declarou já ter participado de missas e de cultos em igrejas evangélicas mas que evangélicos se recusam a estarem no mesmo espaço que pessoas de religiões afro. Ele cobrou mais atitudes simbólicas e não só palavras, sob aplausos da plateia que ainda não havia se manifestado,

Silas Malafaia foi surpreendido com o convite destacado pelo apresentador: “O senhor está formalizando um convite para o pastor Silas Malafaia?” Depois de ouvir o “sim” de Ivanir dos Santos, com mais aplausos ao fundo, o pastor Malafaia afirmou que “não é necessário fazer uma caminhada com o outro para dizer que tolera o outro, porque a caminhada também tem viés de interesses políticos, de ONGs e de organizações”, engando a forma e do conteúdo das Marchas que ele tem organizado, em especial a de Brasília em junho passado. Mais uma vez exaltado, ressaltou que os evangélicos tem pontos que não negociam: a defesa do Estado laico, o não-privilégio a qualquer grupo e que não se massacre a religião de ninguém. O pastor declarou que aos evangélicos que defendem o Estado laico não interessa o que qualificou como “jogo visual”, pois andar juntos não significa concordar com o pensamento.

Para contrapor o pastor Malafaia, Ivanir dos Santos mencionou o valor das atitudes simbólicas como o exemplo do evangélico metodista Nelson Mandela que tomou um café com o seu carcereiro, antes de assumir o governo e comparou: “se um pastor importante como o senhor vai na caminhada dos religiosos a lição que se está mandando para a juventude, para a criança na escola, para não discriminar… é muito simbólico. (…) A intolerância não acaba só com retórica política vai acabar com ações concretas de sinceridade e amor”. Diante do desafio, o pastor Silas Malafaia procurou assumir o rumo da conversa, afirmando que os evangélicos também são perseguidos e discriminados e que ninguém ensina a ser tolerante mais do que eles com as escolas dominicais. Ele denunciou não serem os evangélicos chamados para debates, para uma conversa, Pedro Bial afirmou: “mas agora está acontecendo”, sob concordância do pastor. O líder evangélico afirmou: “E se o convite vier, eu estarei aqui para tantos quantos forem”. “E para a caminhada?” foi feita a pergunta, com a resposta do pastor: “quando não houver nenhum interesse político aí eu participo sem nenhum problema”.

Programa acontece em data simbólica

O edição do Na Moral foi exibida coincidentemente justamente na data em que a Presidenta Dilma Rousseff não cedeu a pressões de grupos religiosos (evangélicos, católicos e espíritas) e sancionou a lei aprovada em julho, por unanimidade, pelo Congresso Nacional que regulamenta atendimento na rede pública de Saúde à mulher vítima de violência sexual. Veja aqui o histórico.

O ponto mais polêmico do texto, de autoria da deputada Iara Bernardi (PT-SP), é o artigo que trata do atendimento às vítimas de estupro, determinando que a rede pública precisa garantir, além do tratamento de lesões físicas e o apoio psicológico à mulher, também os meios de evitar que ela tenha uma gravidez indesejada. Os religiosos entendem estar na expressão “profilaxia da gravidez” uma liberação para realização do aborto em qualquer período da gestação. As pressões sobre a Presidenta Dilma passaram por ameaças de campanha religiosa contra a reeleição dela em 2014.

A lei, criticada por grupos religiosos, determina a todos os hospitais vinculados ao Sistema Único de Saúde (SUS) que ofereçam atendimento imediato às vítimas de violência sexual, e autoriza o uso da pílula do dia seguinte – que já era liberada mediante norma do Ministério da Saúde, mas não tinha força de lei. Além disso, os hospitais passam a ser obrigados a fornecer informações sobre os direitos legais e todos os serviços sanitários disponíveis para as vítimas. Para Nalu Faria, da Marcha Mundial das Mulheres, a aprovação da lei é importante não só para a garantia de direitos, como também para o avanço do debate sobre o Estado laico. “Existe amplo reconhecimento de que o estupro é crime hediondo, as mulheres precisam ter assegurados seus direitos e não correr risco de gravidez”, disse à Rede Brasil Atual.

Para Faria, que também é integrante da ONG Católicas pelo Direito de Decidir, a pílula do dia seguinte, considera abortiva por setores religiosos conservadores, garante que as vítimas não corram o risco de recorrer a um aborto por causa de uma futura gravidez indesejada. “A pílula não é abortiva, porque impede o processo de fecundação. Ela é essencial no primeiro atendimento. E a reação ao fornecimento de informações não é justificável, não fornecer informações que as pessoas têm direito é contra todos os direitos humanos do cidadão”, afirma.

O deputado federal presidente da Comissão de Direitos Humanos pastor Marco Feliciano já vinha fazendo ameaças à Dilma Rousseff para pressionar por vetos, atualizou o discurso no Twitter em 2 de agosto:

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A coluna Radar, de Lauro Jardim (Veja), registrou que a Presidenta teria avaliado que a aprovação por unanimidade da lei contra a violência sexual, tanto na Câmara quanto no Senado, foi uma armadilha da bancada evangélica, mais precisamente do deputado federal líder do PMDB na Câmara Eduardo Cunha. Nessa avaliação, a bancada religiosa teve o mote que precisava para acusá-la de avançar na legislação de atendimentos de casos de abortos no SUS. A uma ministra, Dilma Rousseff teria dito estar cumprindo o que prometeu em campanha em 2010. Ou seja, não ampliar a legislação que trata do atendimento de casos de abortos no SUS – mas sem retroceder.

Como podemos avaliar, há muito o que monitorar e refletir como estamos indicando neste espaço.

Igreja Universal perde quase 230 mil fiéis em dez anos

Fenômeno nos anos 1990, igreja perdeu mais de 10% do seu público

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Publicado no Estadão

O mundo evangélico pentecostal sofreu mudanças significativas na última década. Fenômeno dos anos 90, a Igreja Universal do Reino de Deus perdeu quase 230 mil fiéis em dez anos, passando de 2,101 milhões para 1,873 milhão. Uma queda de mais de 10%.

No universo chamado neopentecostal (que exclui a Assembleia de Deus, mais tradicional), duas novas igrejas são a maior ameaça à Universal. Segundo técnicos do IBGE, os microdados mostram que a Igreja Mundial do Poder de Deus, do apóstolo Valdemiro Santiago, já arrebanhou 315 mil fiéis. A outra grande dissidência é a Igreja Internacional da Graça de Deus, do missionário R.R.Soares. Ainda não há dados disponíveis sobre o número de fiéis da Igreja Internacional.

Somadas ao fenômeno do crescimento dos evangélicos sem vínculo com igrejas, as novas denominações fizeram diminuir também o número de fiéis de outras igrejas, como a Nova Vida e a Congregação Cristã no Brasil.

Dica da Rina Noronha

Criação de igreja é negociada até em anúncio de classificados

‘Não tem limite. É muita grana. Dois milhões. Dez milhões’, diz o autor da proposta

foto: Internet

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Jailton de Carvalho, em O Globo

BRASÍLIA – Se abrir uma empresa é sonho de consumo de todo empreendedor, montar sua própria igreja virou sinônimo de um bom negócio. No último fim de semana, a seção de classificados de um jornal de Brasília tornou público o desejo de um certo Francisco. “Procuro 2 pessoas p/ juntos abrirmos uma igreja”, diz a curta mensagem na área destinada a recados, logo abaixo de outros outros anúncios em que homens e mulheres procuram parceiros para relacionamentos sinceros.

A mensagem de Francisco vem acompanhada do número do celular para contato. Quem se atreve a ligar para o telefone indicado, rapidamente esclarece qualquer dúvida sobre o motivo do negócio. Na segunda-feira, o autor do anúncio, que se apresenta como Francisco, foi direto ao ponto:

- Eu não sei qual é o seu objetivo. O meu eu sei. É espiritual e financeiro. Sou bastante objetivo nos meus negócios – avisa.

Ele diz que prefere ser franco porque não quer perder tempo com discussões sobre ortodoxia religiosa. Sem contestação do outro lado da linha, Francisco se sente à vontade para expor seus planos. Ele quer fundar uma igreja pentecostal como muitas outras que existem por aí e ganhar muito, muito dinheiro. Basta usar técnicas de hipnose coletiva, simular milagres e recolher dízimo.

- Não tem limite. É muita grana. Dois milhões. Dez milhões. Ou até mais. O negócio é um rio correndo para o mar – profetiza.
Francisco tem como espelho pastores de outras igrejas que surgiram no nada e, de repente, se tornaram um império. Ele diz que não quer exatamente ser uma estrela de TV. Não é um grande orador e nem faz questão de demonstrar conhecimento profundo de textos sagrados. Para o mais novo candidato a pastor, basta uma sala num barraco qualquer, de preferência numa área bem pobre e algumas cadeiras de plástico.

- As igrejas não estão procurando pastores. Eles querem um sujeito que tenha noção de hipnose. Que é uma coisa muito mais rápida. Você vai chegar numa sessão, vai hipnotizar o povo. A pessoa vai ficar hipnotizada. Vai te dar 10% hoje. Amanhã da mais 10% e conta o milagre para os outros – explica.

Segundo ele, as pessoas mais simples querem milagres e estão dispostas acreditar em qualquer situação que pareça extraordinária. O futuro pastor diz ainda que os riscos do negócio são mínimos. O aluguel de uma sala num bairro pobre fica em torno de R$ 500. As cadeiras de plástico podem ser compradas a medida em que o número de fiéis for aumentando. Ele até sugere um lugar para começar:a Vila Estrutural, uma das favelas mais pobres do Distrito Federal. Não importa se outras igrejas chegaram primeiro.

- Quanto mais, melhor – diz.

Em seguida convida o interlocutor para uma conversa particular para acertar os detalhes do negócio. No primeiro contato não pediu investimento inicial dos sócios, nem disse como o negócio será rateado.

A fé pode render muito. Exemplos não faltam. E, então, ele começa a citar nomes de outros aventureiros que se tornaram ricos, muito ricos, vendendo ilusões. Francisco é de uma sinceridade quase religiosa.

Veja o vídeo aqui.

dica do Tércio Ribas Torres

Ateus encontram refúgio espiritual em “missa ateia” realizada no sul dos EUA

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Dave Thier, no The New York Times [via UOL]

Teria sido fácil confundir o que estava acontecendo no salão de baile do hotel local com um ritual religioso. Todas as coisas que costumam estar associadas a um estavam presentes num domingo recente: 80 pessoas atraídas por uma convicção comum. Exortações ao serviço. Cantos e luzes. Um sermão apaixonado.

Só não foi feita nenhuma menção a Deus.

Anunciada como a primeira “missa” ateia da Louisiana e intitulada “Joie de Vivre: sentir prazer em estar vivo”, foi realizada por Jerry DeWitt, um homem pequeno e carismático vestido todo de preto, com um cabelo liso e brilhante.

“Oh, vai ser tão difícil não falar: ‘agora um amém!’”, disse ele com um sorriso, alertando as pessoas de que o serviço seria muito mais parecido com o de uma igreja do que elas poderiam esperar. “Quero que vocês se sintam à vontade para cantar. E quero que vocês se sintam à vontade para bater palmas. Vou pedir para vocês silenciarem os celulares, mas não vou pedir para desligá-los. Porque quero que você publique mensagens.”

Enquanto DeWitt andou para frente e para trás, falando com um sotaque pesado do sul dos EUA, sua voz poderosa às vezes tremia de emoção. O termo pode ser uma contradição, mas é impossível descrevê-lo como outra coisa que não um pregador ateu.

DeWitt age tanto como um clérigo por que já foi um.

Ele foi criado pentecostal em DeRidder, Louisiana, uma pequena cidade perto da fronteira com o Texas. Em 2011, depois de 25 anos como pregador, ele percebeu que tinha perdido toda a conexão com a visão religiosa que havia definido a maior parte de sua vida. Ele deixou a igreja e se viu num verdadeiro ostracismo em sua cidade natal e em sua família. Desde então, DeWitt, 43, tornou-se um proeminente defensor do ateísmo, dando palestras por toda a região e proporcionando um contraponto mais emocional para os expoentes ateus mais acadêmicos como Richard Dawkins e Christopher Hitchens.

Com o serviço de domingo – que marca o início da Capela Missão Comunitária em Lake Charles, que o DeWitt chamou de verdadeira “igreja” ateísta –, ele queria trazer algumas das coisas que ele havia aprendido durante seus anos de líder religioso para os ateus no sul da Louisiana.

Mais ateus

A porcentagem de norte-americanos não afiliados a religião parece estar aumentando. Um estudo do Pew Research Center de 2012 revelou que embora apenas cerca de 6% se identifique como ateus ou agnósticos, eles estavam entre os quase 20% classificados como sem religião. Esse número subiu em relação aos 15% de 2007, um aumento bem maior do que para qualquer crença tradicional.

DeWitt se considera um ateu linha-dura, mas acredita que algo pode se perder quando alguém sai da igreja – e não só as partes que dizem respeito a Deus, mas também um senso de comunidade e uma conexão com a emoção.

“Há muitas pessoas que, apesar de chegarem a essa conclusão, sentem falta da forma como a igreja funciona, de uma maneira que poucas outras comunidades são capazes de imitar”, disse ele em uma entrevista por telefone. “O secular pode aprender que só porque nós valorizamos o pensamento crítico e o método científico, isso não quer dizer que de repente nos desconectamos do corpo e já não podemos mais beneficiar de nossas vidas emocionais.”

Alguns na platéia enfrentaram dificuldades até chegar ao ateísmo. Hammers Joshua, membro de uma organização ateísta em Lake Charles, disse que foi completamente separado de sua comunidade e da vida social quando deixou a igreja pentecostal em que foi criado. Para ele, há algo confortável, uma lembrança da infância, ao ouvir DeWitt pregar.

“Estávamos no Reason na conferência de Bayou, e todo o resto parecia mais uma palestra,” disse Hammers, referindo-se a uma manifestação secular realizada em abril na Universidade Estadual da Louisiana. “Então, Jerry se levantou, e começou a pregar a mensagem. A maioria dos outros líderes ateus são acadêmicos e intelectuais, e Jerry não é assim. Ele fala direto ao seu coração.”

Refúgio

As “missas” estão ganhando força como saídas para o ateísmo organizado em lugares como Londres, Houston, Sacramento e Nova York, assim como em universidades com capelães humanistas. Numa região profundamente conservadora como o sul dos EUA, elas podem servir a um propósito essencial: proporcionar um sentimento de camaradagem num ambiente que muitos consideram hostil para pessoas não-religiosas.

“Aqui, temos um forte senso de comunidade”, disse Russell Rush, ex-pastor de jovens de DeRidder. “Quando você entra numa igreja de verdade, é quase como ter uma reunião de família. Quando você deixa esse estilo de vida, e deixa a vida da igreja para trás, muitas vezes você pode se sentir no ostracismo. Coisas como essa e dizer aos companheiros ateus e agnósticos que eles não estão sozinhos.”

Sr. DeWitt vê serviços como o seu como um esforço para dar uma forma humana a um amplo movimento intelectual que está em sua infância. Ele acredita que ele e os outros na sala estão construindo algo feito para durar.

“Embora este movimento tenha tido arranques e paradas ao longo da história mundial, agora é importante lembrar que somos jovens”, disse ele depois de um coro de uma música da banda Fun. “Algum dia, aquilo que você está fazendo vai se tornar normal. Isso não é um sentimento?”

tradução: Eloise de Vyder

Nos bastidores da cura gay

A reportagem de VEJA SÃO PAULO percorreu dez igrejas evangélicas da capital para saber o que os pastores pregam sobre a homossexualidade

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João Batista Jr. [Colaboraram Daniel Bergamasco e Nathalia Zaccaro], na Veja SP

O salão térreo de um casarão colonial onde se localiza a Igreja Cristã Pentecostal Independente Maravilhas de Jesus, no centro, tem bancos de estofado puídos e um palco pequeno. Ao lado das portas de entrada, três pastores estão a postos para receber os fiéis. Às 15 horas da última quarta (26), um dos líderes espirituais disponíveis era Aristides de Lima Santos. Usando calça de brim creme, camisa azul-claro com todos os botões fechados e um blazer escuro por cima, o senhor de estatura baixa aparentava pouco mais de 50 anos de idade. Ao ser abordado, simpático e solícito, contou um pouco de sua história. Lembrou que, antes de aceitar Jesus, vivia no pecado: era um mulherengo incorrigível. “Desses que não conseguem passar uma semana sem uma companheira diferente”, confessou. Na função de orientar o rebanho, está acostumado a lidar com todo tipo de gente e de angústias. Conta já ter recebido por lá algumas pessoas dispostas a abandonar a homossexualidade. Com base nessa experiência, criou uma teoria a respeito dos gays que querem se tornar héteros. “Irmão, é preciso arrumar uma mulher quanto antes para casar e ter filhos”, costuma aconselhar. “Ela não precisa saber que o senhor tinha essa tendência. Vai ajudar na sua libertação.”

Em seguida, Santos abre sua bolsa e tira uma Bíblia cheia de anotações e trechos grifados. Com voz calma, lê passagens para justificar essa linha de raciocínio. Cita Mateus 26:41, olhando nos olhos do interlocutor: “Vigiai e orai para que não entreis em tentação. O espírito está pronto, mas a carne é fraca”. Do Levítico 18:22 extrai a seguinte passagem: “Não te deitarás com um homem, como se fosse uma mulher: isso é uma abominação”. As palavras do livro sagrado servem para justificar o pensamento do pastor. Segundo ele, na escala de malfeitorias, um homossexual está na mesma categoria do ladrão, do assassino, do viciado em drogas e do adúltero. Todos são pecadores mortais. “Mas Deus é misericordioso e não discrimina ninguém, desde que a pessoa liberte sua alma do diabo”, ameniza. Termina a pregação fazendo uma ressalva: “Homossexuais são como as prostitutas: sofreram alguma macumba e têm influências de forças malignas”.

 As igrejas Universal, Internacional da Graça de Deus, Mundial e Deus É Amor: os homossexuais são pecadores, atuam sob influência do “maligno” e precisam da “libertação” (Foto: Mario Rodrigues/Christian Tragni/FolhaPress/Roberto Setton)


As igrejas Universal, Internacional da Graça de Deus, Mundial e Deus É Amor: os homossexuais são pecadores, atuam sob influência do “maligno” e precisam da “libertação”
(Foto: Mario Rodrigues/Christian Tragni/FolhaPress/Roberto Setton)

Na semana passada, VEJA SÃO PAULO ouviu frases como essas em um périplo por dez igrejas evangélicas da metrópole, das mais variadas vertentes. Sem se identificar como jornalista, o repórter bateu às portas de cada uma dizendo que era um homossexual disposto a tentar uma nova vida. O objetivo era saber como essa questão é tratada no dia a dia dessas religiões. Em outras palavras: afinal, a tão falada “cura gay” existe na prática?

O assunto entrou no centro das discussões após um projeto de lei do deputado João Campos (PSDB-GO) que suspende o trecho da resolução do Conselho de Psicologia de 1999 que proibiu profissionais da área de oferecer tratamento e cura de homossexualidade. Um profissional que iniciar uma terapia com o objetivo de fazer de um gay um heterossexual pode ser hoje processado e ter seu diploma cassado. A proposta de Campos foi aprovada pela Comissão de Direitos Humanos, liderada pelo pastor e deputado Marco Feliciano (PSC-SP). Essa mudança provocou uma grande polêmica e virou um dos temas da atual onda de manifestações no país. No último dia 21, segundo cálculos da PM, cerca de 1 000 pessoas iniciaram uma passeata na Praça Roosevelt, no centro, portando cartazes como “Feliciano, cura o Ricky Martin para mim?”. Na quarta passada, aproximadamente 300 pessoas (também de acordo com estimativas da PM) realizaram um ato parecido na Avenida Paulista.

No universo dos templos visitados, ninguém usou o termo “cura gay” ou demonstrou ter um programa específico para tal finalidade. Nove dos dez pastores consultados, entretanto, sugeriram algum tratamento espiritual para a pessoa se livrar do que consideram um pecado grave. Para eles, a prática homossexual é condenável e precisa ser mudada imediatamente, sob o risco de o transgressor acabar no inferno. “Com muita oração, renegando os amigos homossexuais e tirando a influência de qualquer magia negra, é possível um gay se casar e ter filhos. Já vi muitos pastores convertidos”, garantiu na última terça (25) André Luís, da Universal do Reino de Deus localizada na Rua dos Timbiras, no centro.

 As igrejas Universal, Internacional da Graça de Deus, Mundial e Deus É Amor: os homossexuais são pecadores, atuam sob influência do “maligno” e precisam da “libertação” (Foto: Mario Rodrigues/Christian Tragni/FolhaPress/Roberto Setton)


As igrejas Universal, Internacional da Graça de Deus, Mundial e Deus É Amor: os homossexuais são pecadores, atuam sob influência do “maligno” e precisam da “libertação”
(Foto: Mario Rodrigues/Christian Tragni/FolhaPress/Roberto Setton)

Endereços da Assembleia de Deus Ministério do Belém, da Internacional da Graça de Deus e da Deus É Amor também foram visitados. “Não é natural ser assim: 100% dos homossexuais sofreram feitiço”, afirmou a pastora Maria do Carmo Moreira, da Comunidade Cristã Paz e Vida. “Entregue sua alma a Jesus e não procure um psicólogo, que vai achar tudo normal e querer que o senhor se aceite.” Na Igreja Mundial do Poder de Deus, o pastor Eder Brotto foi categórico: “Isso é coisa do capeta”. Depois de proferir uma oração de libertação (“Feche os olhos, leve a mão direita à altura do coração e comece a renegar os prazeres da carne”), Brotto sugeriu ao repórter que frequentasse a igreja às sextas e aos domingos, além de rezar três vezes por dia ajoelhado no chão.

A homossexualidade é condenada por praticamente todos os segmentos do cristianismo, com poucas exceções, como a Igreja Anglicana, que até já ordenou sacerdotes gays. A abordagem do tema, porém, é muito variável. “Em geral, casos de exorcismo e gritaria são mais comuns nas evangélicas neopentecostais, enquanto nas protestantes tradicionais e na católica a questão costuma ser tratada em conversas individuais, na privacidade do gabinete pastoral”, diz a teóloga Sandra Duarte de Souza, professora e pesquisadora da Universidade Metodista de São Paulo. “Essa forma mais discreta, entretanto, não significa que seja menos violenta. A pressão em conversas duras pode ser tão devastadora quanto os rituais ao estilo ‘sai, capeta’.”

Os pastores que pregam contra a prática gay se valem invariavelmente de trechos da Bíblia. Trata-se de um terreno minado. Ocorre que as discussões sobre interpretação e até mesmo as traduções dos textos fazem com que o significado de tais passagens seja questionado. “Os fundamentalistas tomam ao pé da letra alguns trechos, esquecendo de outros nos quais Jesus prega o acolhimento e o amor aos excluídos”, observa o teólogo Paulo Sérgio Lopes Gonçalves, da PUC de Campinas.

O trabalho de libertação, como dizem nas igrejas evangélicas, acabou criando um novo gênero: os ex-gays. Eles são quase como propagandas ambulantes do processo, apontados como provas vivas de que, com a ajuda de Deus — e dos pastores, claro —, é possível transformar sua orientação sexual. “Graças ao Senhor, entendi que a maneira como eu vivia era errada e busquei forças para sair daquilo”, conta o presbítero Eduardo Rocha, representante da Igreja Sal da Terra. Rocha era um transformista conhecido pelo nome de guerra Grevâniah Rhiuchélley. Ele começou a se vestir de mulher aos 16 anos, mas conta que sentia atração por meninos desde os 12. Cocaína e maconha entraram rápido na sua rotina. “Eu debochava de religião, não tinha respeito por Jesus”, penitencia-se.

Tudo mudou durante uma rave na cidade de Alto Paraíso, no interior de Goiás. Foi quando Rocha teria ouvido uma voz. “Ela me dizia que o Senhor ia mudar minha vida.” Desde então, o baladeiro passou a ler a Bíblia e a frequentar cultos. “O processo não foi traumático ou agressivo, mas muito difícil”, lembra. Cinco anos depois da conversão, em 2007, Rocha se casou com a musicista Genoveva Geni. Hoje, eles trabalham para que outros jovens encontrem a tal salvação. Às quartas-feiras, o ex-transformista se encontra com um grupo de cerca de vinte gays em reuniões nos moldes dos alcoólicos anônimos. “Oramos, lemos a Bíblia, cada um conta sua história e tento fazê-los entender que precisam sair da vida de pecado”, descreve. Rocha também dá seus testemunhos em diversas igrejas evangélicas da cidade e organiza o Seminário de Sexualidade Cristã, que aborda temas como “pureza sexual” e “restauração da identidade”. Diz ele: “Todos que estão vivendo como homossexuais enfrentam um desvio de personalidade que deve ser contornado”.

 As pastoras Rosania Rocha e Lanna Holder, lésbicas assumidas: vozes minoritárias ao defender que a religião deve aceitar a todos sem nenhuma distinção (Foto: Eduardo Anizelli/FolhaPress)


As pastoras Rosania Rocha e Lanna Holder, lésbicas assumidas: vozes minoritárias ao defender que a religião deve aceitar a todos sem nenhuma distinção
(Foto: Eduardo Anizelli/FolhaPress)

Na contracorrente, começaram a surgir no meio evangélico algumas dissidências. É o caso da pastora Lanna Holder, lésbica assumida e fundadora da igreja Comunidade Cidade de Refúgio. Até os 20 anos, segundo relata, Lanna levou a vida com fartura de drogas, álcool e namoradas. “Depois me converti e passei a pregar contra as lésbicas”, conta. Na época, chegou a se casar com um homem e teve um filho. Lanna defendeu a “cura gay” por dezesseis anos. O ponto de virada tem nome e sobrenome: Rosania Rocha, uma cantora gospel. As duas lutaram contra a paixão, tentaram se libertar da atração, mas jogaram os panos. Em 2011, fundaram juntas a Comunidade Cidade de Refúgio, localizada no centro. Elas já contam com 600 fiéis, em sua maior parte gays. “Quase todos eles tentaram se ‘salvar’ e não conseguiram. É normal recebermos aqui gente que já quis se matar várias vezes devido a esses processos, que causam um problema sério de autoaceitação”, diz Lanna. Continue lendo