Câmara de Sertãozinho decreta dia em “Homenagem à Consciência Branca”

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Publicado na Folha de S.Paulo

O presidente da Câmara de Sertãozinho (a 333 km de São Paulo), Rogério Magrini dos Santos (PTB), decretou ponto facultativo nesta sexta-feira (21) em “Homenagem à Consciência Branca”.

A medida foi tomada no mesmo decreto que validou ponto facultativo para o Legislativo local pelo Dia da Consciência Negra, comemorado na quinta-feira (20).

A “homenagem” gerou polêmica e críticas de instituições que combatem o preconceito. Vereadores ouvidos pela Folha criticaram a medida e ameaçam até abrir uma comissão processante para apurar o caso.

O presidente da Câmara, que foi eleito vereador com o apelido de “Zezinho Atrapalhado”, não foi encontrado pela Folha nesta sexta-feira e sábado (22) para comentar o assunto.

Segundo os colegas de Santos, ele criou o decreto sem o aval do restante do Legislativo. Os vereadores querem derrubar a medida criada por ele.

“Ele fez uma reunião na segunda-feira (17) porque queria decretar ponto facultativo pelo Dia da Consciência Negra, mas fomos contra porque não há lei municipal aqui”, disse o vereador Agnaldo Bonfim de Souza (PSDB).

“Fomos surpreendidos ao chegar na Câmara na quinta e ver que ele havia decretado dois pontos facultativos”, disse o vereador Silvio Blancacco (PSDB).

O presidente da ONG Cabeça Di Nego de Sertãozinho, Luís Honório, disse que o movimento negro da cidade irá realizar um protesto na Câmara nesta segunda-feira (24) contra o decreto.

“Por uma questão histórica, este decreto é um absurdo e um ato de preconceito”, afirmou Honório.

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No Ceará, agentes de trânsito recebem carta com teor racista

Mulher resgatou carro e, no dia seguinte, entregou mensagem, diz Detran.
Carta faz menção a servidor como ‘da cor da noite'; fiscais registraram BO.

Publicado no G1

O Departamento Estadual de Trânsito do Ceará (Detran-CE) recebeu uma carta com ofensas, xingamentos e trechos de teor racista dirigida a servidores que participaram de uma operação de reboque. De acordo com o Detran, uma mulher que foi resgatar um carro rebocado, voltou ao órgão, no dia seguinte ao resgate, e entregou a carta à secretária do departamento de fiscalização.

O carro foi rebocado em 11 de novembro por estar em uma vaga de táxi, na Rua Marcos Macedo. Os servidores registraram Boletim de Ocorrência. A mulher cujo nome aparece como sendo da autora da mensagem negou por telefone ter escrito o material.

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De acordo com o Detran-CE, a mulher entregou três cartas, uma para o diretor do órgão e outras duas para os dois agentes. A mensagem menciona os dois servidores e ainda um terceiro homem, o motorista do reboque. O texto e a indicação de autoria que aparece no fim da carta estão digitados.

Na carta, ela diz que os dois rebocaram o carro injustamente e que o veículo foi danificado pelos agentes. Afirma ainda que o carro foi ”roubado” pelos agentes. “Sou a senhora proprietária do carro que vocês ‘roubaram’ ontem, pela manhã, na Rua Marcos Macêdo. Estavam lá parados 4 carros, mas vocês acharam de só levar rebocado o meu. Um carro 0 KM, com apenas 10 dias de uso, sem nenhum arranhão, sequer que fosse, do tamanho de uma unha. E vocês colocaram na avaliação (está apensa a esta) que tinha arranhões, amassados e pneu cortado”, escreveu. A carta não traz assinatura, mas tem mensagem e nome da motorista digitados.

Racismo

Em outro momento ela diz: “Seus desgraçados, excomungados, amaldiçoados: que o diabo, o satanás, o senhor das trevas acompanhe vocês a partir de agora”. “Agora vou me referir ao cor da noite sem estrelas, o que estava dirigindo o carro do reboque: hoje tu vive como gente, convivendo com gente, por causa da maldita princesa Isabel”, diz a carta.

Um dos servidores ao qual a carta foi dirigida, Eduardo Soares, disse em entrevista ao G1 que lamenta o caso. Segundo ele, os agentes fizeram apenas o seu dever. “Entendemos a raiva por ter o carro rebocado. Realmente é chato você chegar ao local e não ver mais o seu veículo. No entanto, eu lamentei o teor das palavas escritas por ela na carta. Fiquei muito triste e não esperava esse tipo de agressão”, afirmou Soares.

O Detran-CE informou que orientou os dois funcionários a fazer um Boletim de Ocorrência e acrescentou que setor jurídico vai analisar o caso. “O setor jurídico orientou os dois funcionários a fazer um Boletim de Ocorrência. E ao mesmo tempo dar entrada ao protocolo solicitando providências neste sentido. Vamos trabalhar para que os dois agentes sejam protegidos”, informou o órgão de trânsito.
Ainda conforme o servidor, ele e o amigo de trabalho já acionaram o departamento jurídico do Detran-CE que prometeu tomar providências. “No outro dia, nós fizemos um Boletim de Ocorrência. Agora é esperar o que vai acontecer. Espero que a Justiça seja feita”, afirmou Soares.

Em entrevista por telefone, a mulher, que se diz servidora pública, negou a autoria da carta. “Tem a minha assinatura? Não. Então não fui eu. Não tem assinatura. Isso significa que não há provas materiais. Então, eu nego. Qualquer pessoa pode escrever qualquer coisa e entregar com o nome de qualquer pessoa”, disse.

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O dia em que o ódio bateu recorde

No dia seguinte à reeleição de Dilma Rousseff, o Brasil registrou o maior número de denúncias de páginas na web com manifestações de ódio e discriminação dos últimos nove anos.

Publicado em O Povo

Em um único dia de 2014, o número de páginas na internet denunciadas por manifestação de ódio e discriminação nas redes sociais, especialmente contra nordestinos, foi superior ao total de denúncias realizadas ao longo de todo o ano passado. Em 27 de outubro, dia seguinte à divulgação do resultado da eleição presidencial, o canal de denúncias da SaferNet Brasil registrou 10.376 ocorrências envolvendo 6.909 páginas. Durante todo o ano de 2013, a SaferNet Brasil recebeu 8.328 denúncias do tipo.

Os números do dia seguinte à reeleição de Dilma Rousseff (PT) constituem um recorde isolado de denúncias recebidas em um único dia no País, de acordo com Thiago Tavares Nunes de Oliveira, presidente da SaferNet Brasil, uma associação civil de direito privado, referência nacional no enfrentamento aos crimes e violações aos Direitos Humanos na Internet.

“Levando-se em consideração uma série histórica de indicadores com início em janeiro de 2006, quando o canal de denúncias da SaferNet Brasil passou a funcionar, este é o recorde absoluto dos últimos nove anos”, ressaltou Thiago, em entrevista ao O POVO, por email.

O pico de denúncias atingido no dia 27 já se sinalizava na véspera, duranta a apuração dos votos. No dia 26 de outubro foram denunciadas 305 novas páginas criadas supostamente para promover o ódio e a discriminação, especialmente contra nordestinos. Este número representa um aumento de 662,5% em relação ao mesmo dia de 2013, e um crescimento de 342,03% em relação ao primeiro turno das eleições.

Analisar de perto esses números e compará-los com índices anteriores não deixa dúvidas sobre suas motivações. Até as 20 horas do dia 26, período em que os resultados das urnas começaram a ser divulgados, a SaferNet havia registrado apenas 35 denúncias envolvendo 28 páginas distintas. Somente no intervalo entre as 20 horas e 23h59min o número de registros chegou a 386 denúncias referentes a 277 novas páginas.

O tsunami de ódio e discriminação nas redes sociais não foi interrompido de pronto. Pelo contrário, ganhou sobrevida nos dias seguintes e foi aos poucos perdendo vigor. Ao todo, no período de 26 a 31 de outubro foram registradas 16.556 denúncias sobre 10.430 páginas.

Depois do topo atingido no dia 27 com 10.376 denúncias, os registros chegaram a 3.594 no dia seguinte; baixaram para 1006 no dia 29 e ficaram em 596 no dia 30.

Em 2010

Esta foi a segunda eleição presidencial no Brasil realizada após a massificação das redes sociais. Em 2010, o Orkut e Twitter eram as mais populares.

“Nesse ano, a SaferNet Brasil recebeu e processou um total de 4.319 denúncias anônimas contra 911 links diferentes apenas no dia 1º de novembro de 2010 (dia seguinte à divulgação do resultado final das eleições, em 31 de outubro de 2010), quando os nordestinos também foram alvo de discriminação nas redes sociais (vide caso Mayara Petruso, estudante de direito condenada pela Justiça Federal por postar mensagens de incitação ao ódio contra os nordestinos no Twitter)”, lembra Thiago.

“Quando comparamos o dia 27 de outubro de 2014 com 01 de novembro de 2010 temos um aumento de 140,24% no número de denúncias registradas e um aumento ainda maior, de 658,4%, no número de páginas denunciadas”, completa.

“Até as 20 horas do dia 26 de outubro, a SaferNet havia registrado apenas 35 denúncias”

“Somente no intervalo entre as 20 horas e 23h59min, do mesmo dia, o número de registros chegou a 386″

10.376 denúncias distintas com manifestações de ódio e discriminação nas redes sociais foram registradas no dia 27 de outubro, sendo 8.321 envolvendo 5.960 links do Facebook e 1436 denúncias contra 587

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“Os racistas não entram no Reino dos Céus”, diz pastor

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Publicado no Portal Geledés

Por Douglas Belchior

Há alguns anos eu participava de uma das inúmeras e intermináveis reuniões de preparação da Marcha da Consciência Negra de 20 de Novembro, quando um homem negro, alto, barbudo e com um vozeirão potente pede a palavra para falar sobre a importância de, em um espaço amplamente dominado por representações das religiões de matriz africana, haver também espaço para os evangélicos. Foi incrível! Evangélicos pentecostais em meio ao movimento negro brasileiro? Mas os pentecostais não são reacionários e alguns até mesmo racistas em suas práticas religiosas? Não! Aliás, aprendi isso com ele, neopentecostais reprodutores de valores reacionários, machistas, homofóbicos e racistas são minorias barulhentas.

Esse homem era o Pastor Marco David, autor do livro “A religião mais negra do Brasil“, onde expõe os motivos que levaram 8 milhões de negros a preferirem as religiões pentecostais no Brasil. Essa semana ele organiza a Conferência Nacional Negritude e Evangélicos: Reflexão, Resistência e Engajamento, no Rio de Janeiro, com participação especial do Reverendo John Perkins. Abaixo um registro do portal Ultimato, que entrevistou o religioso.

De Ultimat0

As palavras são duras, nascidas de um pastor batista negro que enfrenta as barreiras do preconceito no Brasil. Marco Davi é pastor da Igreja Batista em Parque Dorotéia, São Paulo, mestre em Ciências da Religião e coordenador-fundador da ANNEB (Aliança de Negras e Negros Evangélicos do Brasil). Na entrevista a seguir, Davi fala sobre a luta por uma “reconciliação racial” e sobre a Conferência Nacional Negritude & Evangélicos que começa nesta quinta-feira, dia 13, e termina no sábado, dia 15, no Rio de Janeiro (RJ).

Portal Ultimato – Qual o objetivo da Conferência Nacional Negritude e & Evangélicos?

Marco Davi – Temos como objetivo consolidar o Movimento Negro Evangélico enquanto organismo agregador de todos os movimentos e iniciativas evangélicas de negritude. Para isto, precisamos tornar realidade o objetivo do Movimento Negro Evangélico: engajar, agregar, motivar e potencializar todos os organismos e grupos evangélicos que trabalham, discutem e mobilizam em torno da questão racial no Brasil, a partir da Igreja Evangélica e nos movimentos sociais.

A Conferência Nacional Negritude & Evangélicos não é um evento único, mas o início de um processo que culminará na formação de uma rede de organizações, pessoas e igrejas que trabalham a temática da população negra no Brasil e fora dele. Queremos realizar em 2015 o Congresso Nacional Negritude & Evangélicos e, se Deus permitir, em 2016, o Congresso Latino Americano Negritude & Evangélicos.

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Portal Ultimato – Um dos preletores será John Perkins, uma das grandes vozes na defesa da reconciliação racial. O que Perkins poderá acrescentar à Igreja Evangélica Brasileira?

Marco Davi – A presença do Rev. John Perkins por si só já é um presente para nós como negros e como igreja. A sua história de luta pelos Direitos Humanos, na organização da população negra do Mississipi e nos Estados Unidos já o qualifica para estar entre nós. Suas propostas de reconciliação que não deixam de lado a necessidade de igualdade farão com que tenhamos novas perspectivas. Até, quem sabe, novos discursos sobre a questão negra entre nós.

Portal Ultimato – Quando falamos de “reconciliação racial” do que estamos falando?

Marco Davi – Creio que, no Brasil, precisamos elaborar mais o assunto. Precisamos lutar pela reconciliação. Mas para que isto aconteça duas coisas são necessárias e importantes. Primeiro, os negros devem gostar de serem negros. Há uma autoestima baixa entre os negros do Brasil em geral. Muitos têm dificuldades até de discutir o assunto sobre raça. Outros procuram se juntar mais e mais com brancos, não porque acham natural, mas porque têm dificuldades com a sua cor da pele, sua raça. Não é porque eles sejam racistas, , como afirmam alguns preconceituosos (até porque os racistas sempre são aqueles que fazem parte do grupo de maior poder econômico, politico e sistêmico). Portanto, é impossível, de forma radical, que os negros sejam racistas. Mas quando alguns têm sentimentos racistas, como sabemos de alguns que nutrem esse sentimentos pecaminosos, o fazem talvez porque não se aceitam como são: imagem e semelhança de Deus.
Outra realidade importante para que haja reconciliação entre negros e brancos no Brasil são os brancos compreenderem que eles têm vantagens no Brasil. Os brancos pobres ou ricos já nascem com vantagens nesta nação. A raça dos brancos não foi escravizada por mais de 350 anos. Os brancos têm vantagens emocionais, psicológicas, econômicas, sociais, geográficas, etc. Os brancos não são o objeto principal da violência policial, mas sim os negros. São os negros que precisam conversar com os filhos que sofrem angústias por serem discriminados no país. E muitas outras coisas.
Não estou legitimando a postura de “coitados” para os negros, mas sim mostrando que se os brancos não reconhecerem isso, que o Estado brasileiro deve à população negra, não conseguiremos muitas avanços. A reconciliação sem direitos é imposição da Injustiça.

Portal Ultimato – Quando defendemos os negros, desvalorizamos os brancos?

Marco Davi – De maneira nenhuma. Os brancos e os negros são imagem e semelhança do Pai. O que queremos falar com a defesa dos negros – e que causa sim muitas dificuldades para brancos e negros pelos motivos ressaltados acima – é a busca dos direitos diante desta sociedade que evidencia o racismo e a sua exclusão. O Estado do Brasil deve muito aos negros que trabalharam muito sem nada receberem, somente alimentação horrível, violência, estupros, segregação, imposições de leis que favoreciam aos brancos da época, principalmente, aos ricos e fazendeiros, etc. Quando os negros estavam prontos e preparados para o trabalho e próprio ganho pessoal e não para seus senhores, o Estado do Brasil criou outras formas de prejudicar os negros, como a lei do ventre livre, o branqueamento que posteriormente se tornou uma política a partir da qual muitos brancos de outros países vieram para cá subsidiados pelo governo. Foi muita covardia. Se o Brasil não reparar isto continuará sob o juízo de Deus.

Portal Ultimato – Um assunto urgente é a violência que tem os jovens negros como as maiores vítimas. Para este assunto, haverá uma mesa de debate. Qual a gravidade do tema?

Marco Davi – Agora mesmo saiu uma pesquisa que mostra que os negros jovens são as maiores vítimas da violência. O Mapa da Violência no Brasil 2014 revela isto. Em todo o país, sete jovens são mortos a cada duas horas. São 82 jovens mortos por dia, 30 mil por ano, todos com idades de 15 a 29 anos. E, entre os jovens assassinados, 77% são negros (somando aqui os pretos e pardos, pelos critérios do IBGE).
Isso é muito grave, porque basta ser negro. Ninguém está preocupado se ele é evangélico, do candomblé, ou católico. É negro e ponto. O que é muito triste é ler alguns comentários nas redes sociais de gente que é racista, mas nunca tem coragem de avisar ao outro. Nesta hora, esta gente se sente livre e detona o seu azedume racista. Gente de igreja também que diz não ser bem assim, que isso é notícia plantada. Ora, quem vai plantar uma desgraça dessa? Qual objetivo? Isso é uma realidade, e a violência pode atingir também aos cristãos, como já tem acontecido.
Confesso que tenho medo, pois tenho um filho de 18 anos e uma filha de 16. Negros lindos por sinal, estudiosos, dedicados. Quando eles saem, eu fico com muito medo do que pode acontecer. Como cristão e pastor, coloco, é claro, nas mãos do Senhor. Mas digo a Ele que o medo existe, porque moro no Brasil onde os negros – como em outros lugares – são preteridos em muitas coisas. O negro é objeto de violência em primeiro lugar.

A igreja brasileira denominou alguns problemas no Brasil como coisas do diabo, tais como: homossexualismo, casamento gay, aborto, etc. Mas tantos jovens negros são assassinados no Brasil e isso nunca foi motivo para levante midiático, campanhas no Youtube, Facebook, televisão , etc. Ou seja, o genocídio aos negros pode continuar, desde que não atinja os dogmas religiosos das igrejas. Mas o que será o que o Senhor Jesus dirá à nossa igreja do Brasil? Racismo é pecado. E quando você que é racista e acha que os negros devem morrer mesmo, não devem nem falar sobre direitos, e devem continuar no seu lugar, estiver lendo este texto, peça perdão ao Senhor e peça a ele que tenha misericórdia de sua vida. Porque talvez você, no juízo final diante do Senhor, o encontre negro. E isso acontecendo, ele dirá “apartai de mim maldito para o fogo eterno”, pois racistas não entram no reino dos céus.

Serviço:
Conferência Nacional Negritude & Evangélicos
Tema: Reflexão, Resistência e Engajamento
Data: 13, 14 e 15 de novembro
Local: Seminário Teológico Batista do Sul (RJ)

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Música de cantor potiguar que cita ‘senzala’ e ‘pretinha’ gera polêmica

Composição ‘Ma Nêga’, de Artur Soares, é alvo de críticas na internet.
Músico nega que música tenha intenção racista ou machista.

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Publicado no G1

Uma composição de um músico do Rio Grande do Norte vem causando polêmica nas redes sociais por, supostamente, conter trechos racistas e machistas. A música “Ma Nêga”, do cantor Artur Soares, traz versos que citam as palavras “senzala” e “pretinha”, principais alvos das críticas. O Coletivo Autônomo Feminista Leila Diniz chegou a publicar uma nota na qual afirma que Soares “se apropria de uma dor histórica” para vender a música. Clique AQUI e veja o clipe da música.

O cantor nega que a composição teve a intenção de ser racista e explica que a música é uma homenagem à mulher negra. “Não tive nenhuma intenção machista ou racista, justamente porque a escrevi em homenagem à uma mulher negra que, por sinal, entendeu à sua maneira e adorou a canção, assim como as mais de vinte negras que gravaram conosco. Acredito nisso, que o que há de bom e o que há de mal no modo de ver as coisas está dentro de nós”, rebateu Soares.
O trecho mais citado nas redes sociais é o que diz “nêga, você vai gostar. Nêga, eu vou te prender na senzala iorubá e o que eu ensinar você vai ter que aprender, porque eu vou te maltratar, pretinha”. A nota do Coletivo Leila Diniz, publicada no Facebook, também fala do verso “trago uma coca-cola pra você pra combinar com sua cor, pretinha”. Para o coletivo, a música de Artur Soares remete a episódios tristes da história, “como a escravidão e a violência sexual a que eram submetidas as escravas mulheres”, diz a nota de repúdio ao artista.

Quanto às críticas, o músico disse que de início não entendeu muito bem, pois “a música havia sido lançada junto ao clipe três meses atrás. Saiu em alguns jornais, blogs, já tocando razoavelmente no rádio… sempre bem recebida e ninguém se manifestou a respeito de tais questões. Quando percebi, uma espécie de burburinho já estava instaurada”.

Sobre “senzala”, “pretinha” e “maltratar”, ele explica que foi influenciado pelo compositor Ataulfo Alves, quando escreveu “Mulata Assanhada”. E citou um trecho da canção: “Ai, meu Deus, que bom seria/Se voltasse a escravidão/Eu pegava a escurinha/E prendia no meu coração!…/E depois a pretoria/Resolvia a questão!”.
O G1 também perguntou se a música poderia ter sido escrito de outra forma e, com a repercussão, se ele pretende mudar a letra, como sugerem alguns críticos. Ele respondeu que a música que ele fez é um single, e que quando gravou a faixa já sabia que ela não entraria em trabalhos posteriores. “Agora, sobre ter escrito de outra forma, não consigo imaginar. Cada canção leva sua própria essência. Vou citar uma frase bem interessante, e que convém perfeitamente ao caso, onde um dos nossos grandes ídolos diz: – não sou eu. São as músicas. Sou o carteiro que as envia. Eu entrego as músicas”.

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Para o Coletivo Leila Diniz, “o cantor não parece compreender que os respingos dessa dor ainda predomina na realidade da população negra, sobretudo das mulheres, e ‘Ma Nêga’ vem rememorar e legitimar a violência colonial perpetrada pelos sinhôzinhos sobre nós”. Na nota de repúdio, o coletivo também estende a crítica a espaços culturais em que Artur Soares apareceu, como o Prêmio Hangar de Música e o projeto Eco Praça, e acrescenta que o movimento tentou sem sucesso o diálogo com o músico.

Já Soares afirma que procurou os críticos para explicar a música, mas não foi bem recebido e acabou desistindo. Para o cantor, cada pessoa interpreta de um modo a música que ele escreveu. “Creio na diversidade da natureza e, sendo assim, não seria sensato afirmar como verdade absoluta apenas quem eu acho que se equivocou no acontecido. Todos nós sabemos que existem variadas formas de se ver a mesma coisa. Suponhamos que há um quadro do imortal pintor Caravaggio à sua frente. Pois bem, quando você analisá-lo para chegar a determinada conclusão, a sua opinião sobre o mesmo quadro certamente será diferente das demais, porque cada um vê o mundo e a arte de uma forma. E essa é a graça da vida, a diversidade”.

Eco Praça
O Eco Praça também publicou uma nota no Facebook após ter o nome envolvido na polêmica. A organização do projeto lamentou o envolvimento em “questionamentos sobre reprodução de comportamentos e ideias racistas e misóginas das quais não compactuamos. Nos comprometemos a avaliar e ser mais atenciosos com o conteúdo das próximas atrações que participarem do Eco Praça”, acrescenta a nota.

Por fim, a organização do projeto faz um convite para que temas como racismo e machismo sejam discutidos na próxima edição do Eco Praça.

“Discordamos de qualquer forma de opressão e convidamos a todos os interessados a participar de uma vivência com o propósito de dialogar sobre temas como racismo, machismo, intolerância de gênero que ainda marcam profundamente a nossa sociedade. Propomos a realização dessa vivência no nosso próximo encontro que acontecerá nos dias 27 e 28 de dezembro”, conclui.

Veja nota do Coletivo Leila Diniz

O cantar ou escutar uma canção é capaz de desencadear fortes efeitos emocionais numa pessoa. Tristeza, alegria, nostalgia, raiva, etc. Por isso, dentre tantas manifestações artísticas, a música é uma das mais fortes influências culturais. Por vezes desperta bons sentimentos, desejos, parafraseando Belchior: desejo de amar e mudar as coisas. Mas nem sempre.
Uma vez que, as práticas musicais não podem ser dissociadas do contexto cultural, podemos pensá-la de duas formas:
1. Meio de transmissão de valores, sonhos, ideais e luta. Como exemplo, basta relembrar o vasto conteúdo musical, símbolo de resistência coletiva, criado na época da ditadura.
2. Reprodução de preconceitos como a objetificação do corpo da mulher, racismo, homofobia, dentre outros.
Em tempos de Felicianos, Aécios e Bolsonaros, o jovem artista potiguar, Artur Soares, escolheu a segunda opção. Este ano, ele lançou a faixa e videoclipe “Ma Nêga”. Segue trechos da música em questão:
“Trago uma coca-cola pra você pra combinar com sua cor, pretinha”
“Nêga, você vai gostar. Nêga, eu vou te prender na senzala iorubá e o que eu ensinar você vai ter que aprender, porque eu vou te maltratar, pretinha”
“Pretinha (calada)”
Para quem tiver dúvidas sobre o contexto, segue a letra completa: http://letras.mus.br/artur-soares/ma-nega/
Desde o lançamento, Artur foi chamado atenção diversas vezes sobre o forte racismo na sua música. A resposta? deboche. E é o que ele continua a fazer diante de quem não se cala.
Artur Soares se apropria de uma dor histórica, como a escravidão e a violência sexual a que eram submetidas as escravas mulheres, para vender sua música.

O cantor não parece compreender que os respingos dessa dor ainda predomina na realidade da população negra, sobretudo das mulheres, e “Ma Nêga” vem rememorar e legitimar a violência colonial perpetrada pelos sinhôzinhos sobre nós.

Quando um artista potiguar abre a boca pra cantar que vai prender a negra na senzala, diz que vai maltratá-la, a manda ficar calada, e por isso ainda vai concorrer a um prêmio, NÃO PODEMOS NOS CALAR, o que, inclusive, ele pede na música! Sobretudo num mês importante como Novembro, marcado especialmente pelos dias 20 (Dia da Consciência Negra) e 25 (Dia da não-violência contra a mulher). Nesse contexto tão importante de luta, nós, do Coletivo Autônomo Feminista Leila Diniz, não poderíamos deixar de vir à público manifestar nosso REPÚDIO ao artista Artur Soares.

Também REPUDIAMOS e convidamos todos a BOICOTAR os meios e espaços culturais (Prêmio Hangar de Música, Eco Praça, dentre outros) que tem recebido e reconhecido Artur Soares, até que haja retrat(ação) do artista e recusa pública em receber esse tipo de música.

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