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Valesca Popozuda fala em preconceito após ser chamada de pensadora em prova

Publicado no UOL Música

Valesca Popozuda usou seu perfil no Facebook, na manhã desta terça-feira (8), para comentar a polêmica causada depois que um professor de filosofia do Distrito Federal elaborou uma questão em uma prova em que os alunos deveriam completar um trecho da música “Beijinho no Ombro”. O enunciado ainda dizia que a letra é de “uma grande pensadora contemporânea”.

“Eu acho uma bobagem isso tudo, talvez se ele tivesse colocado um trecho de qualquer música de MPB ou até mesmo de qualquer outro gênero musical que não fosse o Funk, talvez não tivesse gerado tal problema”, escreveu Valesca em seu perfil.

A questão foi elaborada pelo professor Antonio Kubitscheck, que trabalha uma escola pública de Ensino Médio do Distrito Federal. Surpreendidos com a questão, alguns alunos fotografaram a prova e publicaram nas redes sociais.

No depoimento, ela ainda escreve que gostaria de agradecer ao professor por se sentir honrada pela homenagem, mas se recusou a aceitar o título de pensadora. “Diva, Diva sambista, Lacradora, essas coisas eu já estou pronta, ok, mas PENSADORA CONTEMPORANEA ainda não ( mas prometo que vou trabalhar isso)”, escreveu.

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Ela ainda critica os que se julgam capazes de criticar o professor. “É todo mundo perfeito, o funk não presta e a Popozuda não pode ser pensadora contemporânea. Então vamos tacar pedra na professora (sic) porque o resto vai continuar da mesma forma”.

Para a cantora, o que mais espanta é o fato das pessoas se preocuparem com isso sem analisar o que há por trás. “E se o professor colocou a questão dentro do contexto da matéria? E se o professor quis ser irônico com o sucesso das músicas de hoje em dia? E se o professor quis apenas distrair a turma e fez a questão apenas pra brincar?”.

Aluna da Unesp é chamada de macaca, preta e safada

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Publicado no UOL

A estudante Tais Evandra de Carvalho Telles dos Santos, de 26 anos, registrou um boletim de ocorrência por injúria após ter sido vítima de racismo. Nesta semana, ao entrar no banheiro feminino da Unesp (Universidade Estadual Paulista), em Presidente Prudente (SP), onde estuda, encontrou a mensagem: “Thais Telles, preta, safada, macaca”.

Colegas da universitária repudiaram o insulto e protestaram com batucada, exibindo faixas com frases contra o racismo. “Por uma Unesp livre do racismo” e “com quanto racismo e machismo se faz uma Geografia cinco estrelas”, diziam as mensagens dos estudantes que, como Thais, cursam geografia. Com a manifestação, aulas do curso foram paralisadas.

A Delegacia da Mulher vai investigar o caso, que repercutiu nas redes sociais. A aluna recebeu apoio e também se manifestou afirmando que o que aconteceu com ela “é apenas uma amostra grátis da sociedade brasileira”.

Tais tem atuação destacada na Unesp. Ela é integrante do Coletivo Mãos Negras, criado em novembro do ano passado, que discute a valorização do negro e da cultura. A estudante morava em São Paulo e veio para Presidente Prudente em 2011.

A diretoria da Unesp também se manifestou e afirmou que vai investigar o caso de racismo, que considera “inadmissível”. A universidade condenou qualquer tipo de preconceito e discriminação no meio estudantil.

STF investigará Feliciano por crime de preconceito

Severino Motta, na Folha de S.Paulo

O ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Gilmar Mendes autorizou na última sexta-feira (21) a abertura de um inquérito para investigar o deputado Marco Feliciano (PSC-SP), acusado pelo Ministério Público de cometer crime de preconceito contra religião.

De acordo com o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, um vídeo postado na internet em que Feliciano profetizava “o sepultamento dos pais de santo” e o “fechamento dos terreiros de macumba” pode induzir ou incitar o preconceito.

Se a conduta for confirmada, o deputado poderá ser condenado a uma pena que chega a 3 anos de prisão e multa.

O Ministério Público solicitou a abertura de inquérito para investigar Feliciano após duas representações serem protocoladas na instituição. Uma delas foi apresentada pelo Templo Iniciático de Umbanda da Ordem Cruzada de Nossa Senhora da Guia e a outra redigida por um cidadão que denunciou o vídeo à corregedoria do MP em São Paulo.

Ao analisar o caso, o ministro Gilmar Mendes autorizou a abertura da investigação e pediu que a Polícia Federal tome um depoimento de Feliciano sobre os fatos em até 30 dias.

A Folha tentou contato com Feliciano, mas não localizou o parlamentar até a publicação desta reportagem.

Igreja evangélica frequentada por roqueiros luta contra preconceito

Antes, durante e depois dos cultos, bandas de heavy metal evangélico tocam no palco/altar do templo

Antes, durante e depois dos cultos, bandas de heavy metal evangélico tocam no palco/altar do templo

Ricardo Senra, na Folha de S.Paulo

Para os evangélicos, eles cultuam Satanás. Pelos metaleiros, são criticados por seu jeitão bem comportado. Assim, entre a cruz e a espada, resiste desde 2006, no Alto do Ipiranga, região sul, a primeira igreja gospel frequentada por roqueiros de São Paulo.

“Sofremos com o preconceito dos dois lados”, diz o pastor Antonio Carlos Batista, 46, fundador da Crash Church (ou “igreja de impacto”, na tradução dos fundadores).

“Acolhemos quem não quer nem vestir terno nem cortar os cabelos para louvar o Senhor, nem ser violento ou negar Jesus Cristo só por causa do som que gosta de ouvir.”

Antes, durante e depois dos cultos, bandas de heavy metal evangélico tocam no palco/altar do templo

Antes, durante e depois dos cultos, bandas de heavy metal evangélico tocam no palco/altar do templo

No domingo em que a sãopaulo visitou o templo, 50 jovens cabeludos, tatuados, vestindo anéis, piercings, roupas rasgadas e longos coturnos se reuniam às gargalhadas na calçada.

Quem passa pela igreja —uma sala comercial toda pintada de preto— não entende de cara o que ocorre por ali.

Os metaleiros não bebem ou fumam, só conversam. “Nossa droga é Jesus”, diz uma fiel de cabelos verdes.

Pastor Batista reza acompanhado pelos fiéis da igreja

Pastor Batista reza acompanhado pelos fiéis da igreja

Às 17h, um solo estridente de guitarra dá o sinal: começou o culto. Do lado de dentro, paredes escuras grafitadas com desenhos gigantes de coroas de espinhos levam ao salão principal, onde está o palco/altar.

“Deus não te deixa só”, “Ele está dentro de nós”, “a vida é um ato de amor”, canta, aos berros, um coro de duas mulheres e um homem, de cabelões e roupas pretas. Quando a música termina, a plateia aplaude e grita “aleluia” e “glória a Deus”.

No intervalo entre as canções, a vocalista se lembra, emocionada, de um salmo sobre o sangue de Jesus –o guitarrista acompanha dedilhando o instrumento com força proporcional à intensidade dos versículos.

Pastor e presbíteros lideram 'roda de cura' durante culto

Pastor e presbíteros lideram ‘roda de cura’ durante culto

Se a etapa inicial do culto lembra um show de rock qualquer, é quando as luzes do palco se apagam que a louvação começa de verdade.

De mãos estendidas para o céu, o pastor aparece num púlpito de pedra e convida os presentes a se abraçarem (o solo de guitarra no fundo cresce quando ele diz “aleluia”).

Começa uma roda de cura espiritual “contra a ansiedade”. Depois, o líder religioso anuncia a programação da igreja para as próximas semanas e cumprimenta, um a um, quem visita o culto pela primeira vez.

“Uma salva de palmas para o repórter e o fotógrafo que nos acompanham”, diz, enquanto a reportagem se encolhia no fundo do salão.

Um jovem magro, de cabelo dourado, cheio de gel fixador, é convidado a dar um testemunho.

“Consegui um trampo num restaurante”, diz, ao lado do pastor Batista. “Sou responsável pela parte de bebidas e estou muito feliz.” Aplaudido, ele prossegue: “Mesmo antes, eu sempre fiz questão de pagar o dízimo.”

É essa a senha para a coleta do dinheiro. Em fila, os fiéis caminham em direção a uma urna com pequenos envelopes recheados. Não fossem pretos, eles também seriam como os usados em outros templos religiosos.

Todas as paredes da igreja são pretas, com desenhos gigantes que lembram coroas de espinhos

Todas as paredes da igreja são pretas, com desenhos gigantes que lembram coroas de espinhos

VOZ DE TROVÃO

No ritmo dos gritos de “amém” do pastor (com voz gutural, tipo show do Sepultura), o culto segue por mais duas horas.

“O povo de Israel sempre foi guerreiro. Nós estamos em constante luta contra Satanás”, diz o pastor, que também é vocalista da banda AntiDemon, com a qual já viajou por outras igrejas alternativas em 31 países.

Com uma bíblia cheia de adesivos de bandas, ele fala à reportagem sobre a conexão que percebe entre o heavy metal e a mensagem divina.

“Está escrito numa passagem que a voz de Deus é como um trovão. Outra indica que o barulho no céu é ensurdecedor. No rock é igual.”

Pastor Batista diz que fundou a Crash Church para abrigar roqueiros rejeitados em outras igrejas

Pastor Batista diz que fundou a Crash Church para abrigar roqueiros rejeitados em outras igrejas

Ele diz que sua principal luta é contra os estereótipos. “Já fui barrado em hospital quando fui visitar um fiel que estava doente. Não usava uma gravata, então não acharam que eu era pastor. Puro preconceito.”

Julgamentos à parte, o pregador diz que sua igreja é “bem careta”. “Ninguém aqui transa antes do casamento. E nós não acreditamos em um terceiro sexo. Gays são bem-vindos porque precisam de amor e ajuda.”

O pastor também é vocalista da banda de rock gospel AntiDemon, que já viajou por 31 países

O pastor também é vocalista da banda de rock gospel AntiDemon, que já viajou por 31 países

fotos: Gabriel Cabral/Folhapress

Irmãos unidos pela dor

florhRicardo Gondim

Carrego uma sucessão de “cs” e com eles, uma miríade de preconceitos: cearense, canhoto, corintiano e careca. A ordem dos “cs” obedece uma importante cronologia. Na infância, notei que outros canhotos iguais a mim também eram tratados como portadores de deficiência. Depois, anos mais tarde, me mudei para São Paulo e descobri que muitos sulistas têm reservas contra nordestino. Mesmo em tom de brincadeira, ouvi expressões baixas para descrevê-los. Baiano é preguiçoso. Paraibano é burro. Nem preciso falar dos corintianos: gambá, maloqueiro, bandido. A inferência não repousa na provocação entre torcedores, mas na necessidade de tornar o pobre malcheiroso ou igualar o maloqueiro a bandido. Por último, crescentemente careca, amargo comentários jocosos – e bobos – sobre calvos.

Desde cedo, ouvi pessoas da família dizerem que eu era menino desastrado. Coincidentemente, além de sinistro, não tinha boa coordenação motora. Para piorar, sem relação alguma com o fato de ter que escrever com a mão torta, nunca alcancei excelência escolar. Minhas notas sempre foram medianas. Jamais ganhei um campeonato de matemática. Nenhum professor tratou minha redação como modelo. Entrei para a universidade pública em penúltimo lugar. Não recordo quase nada do que me ensinaram de estatística, macro-economia ou direito.

Nas relações sociais, nem que tente, consigo ser a alegria da festa. Prefiro ambientes intimistas. Não sei dançar. Canto pior que as gralhas. Sou introvertido em pequenos grupos.

Tenho raríssimos prodígios para relatar como líder de uma comunidade evangélica. As igrejas que pastoreei são frequentadas por pessoas comuns que lutam, diariamente, contra as circunstâncias cruéis do Brasil da periferia. Vivemos apertados. Nunca sobra dinheiro na tesouraria. Preparo sermões na base do suor, estudo e, vez por outra, lágrimas. Não tenho boa memória, por isso estudo feito um condenado.

Não pretendo polemizar com os inteligentíssimos mestres da teologia fundamentalista. Eles me dariam um banho de lógica. Nem entendo porque faço inimigos. (Não anseio começar um novo movimento ou escola de pensamento). Só escrevo e tensiono as ideias por não querer me acomodar às limitações que trago desde o berço. Se acabei antipatizado por gente que não conheço, foi sem intenção.

Há poucos dias conversei com um jovem também cearense. Sua história me comoveu. Ele também tinha uma lista, sem os “cs“, mas bem mais sofrida que a minha: Ricardo, você não imagina a carga de preconceito que rapazes iguais a mim sofrem: nordestino, negro, pobre e homossexual, morando na periferia de São Paulo. Depois que ouvi a história do meu conterrâneo, desejei sair da posição de conselheiro e ser, simplesmente, seu amigo.

Imaginei o Everest de problemas que ele enfrentava, bem mais altos e íngremes que os meus. Passei a dividir com ele um pedaço da minha história. Enquanto repartíamos nossas inquietações, sonhamos com um mundo em que ninguém seria discriminado devido a gênero, cor da pele, status social ou orientação sexual. (Lembrei da criança que foi espancada até a morte pelo pai por ter trejeitos femininos).

Quem sabe, jogamos algumas sementes no chão árido em que pisamos juntos. Resta esperar que elas se tornem árvores frondosas, onde a próxima geração buscará sombra. Ali em meu escritório, sem estardalhaço, sem messianismo e sem oportunismo, éramos parceiros. Nossas dores nos uniam e a esperança nos fazia irmãos.

Soli Deo Gloria

fonte: site do Ricardo Gondim