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‘Muitos perderam a vida por nada’, diz ex-guerrilheira que esteve presa com Dilma

Horas depois de ser presa e torturada na sede carioca do DOI-CODI, um dos órgãos de repressão mais temidos da ditadura, a jornalista Iza Salles conheceu um anjo em forma de monstro.

Fernanda Nidecker, na BBC Brasil

Iza Salles: 'Durante muito tempo evitei pensar nesse período porque dói muito'

Iza Salles: ‘Durante muito tempo evitei pensar nesse período porque dói muito’

Após uma noite inteira de choques elétricos, ela foi deixada sobre um colchão cheio de buracos e percevejos na sala de tortura porque já não havia lugar nas outras celas.

Quando tentava pegar no sono, ouviu passos no escuro vindo do corredor. Certa de que não escaparia de um estupro ou da morte, fechou os olhos e começou a rezar.

Foi quando um soldado alto, de feições “amedrontadoras” – com manchas escuras por todo o rosto – se aproximou e lhe pediu seu cinto.

Apavorada, ela obedeceu, sem entender de imediato que, ao se apoderar do acessório, aquele soldado com “cara de monstro” queria evitar que ela tentasse se enforcar em um momento de desespero.

Ainda com a respiração ofegante, Iza ouviu o homem dizer “calma, calma”. E essa palavra foi repetida pelo mesmo soldado todas as vezes em que ele se aproximou dela naquela noite fria de junho de 1970.

São lembranças como essa que Iza tenta se apegar para não sofrer demais quando se recorda dos sete meses em que ficou presa no Rio de Janeiro e em São Paulo.

Ela diz que conceder a entrevista à BBC Brasil lhe obrigou a fazer uma viagem difícil.

“Durante muito tempo evitei pensar nesse período porque dói muito. E hoje, com a idade, fico emocionada”, diz ela pelo telefone com a voz embargada.

Ana, Maria, Darci

Atualmente com 75 anos, Iza Salles foi integrante, no final dos anos 60, da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), um grupo de guerrilha de extrema-esquerda que tinha como um de seus comandantes o capitão do Exército Carlos Lamarca, que desertara.

Número de o 'Pasquim' editado por Iza Salles faz comentário irônico sobre prisões e censura

Número de o ‘Pasquim’ editado por Iza Salles faz comentário irônico sobre prisões e censura

O grupo realizou assaltos a bancos para financiar suas ações e montou um foco guerrilheiro na região do Vale do Ribeira, no Estado de São Paulo. Também esteve por trás do sequestro do embaixador suíço Giovanni Bucher no Rio de Janeiro, em 1970, que foi “trocado” pela libertação de 70 presos políticos.

A jornalista era do setor de inteligência da VPR. Editora do Segundo Caderno do jornal Diário de Notícias, ela ficava encarregada de passar à guerrilha informações de bastidores sobre o governo militar.

E se envolvia em ações mais arriscadas, como transportar dirigentes importantes da guerrilha do Rio para São Paulo. Entre 1967 e 1970, atendia pelos codinomes de Ana, Maria e Darci.

‘Tarefas’ de Paris

Seu interesse por política começou ainda no governo João Goulart, quando participava de manifestações e reuniões estudantis. Mas foi a partir de 1966, quando ganhou uma bolsa para estudar na Universidade de Sorbonne, na França, que passou a ter um envolvimento direto com a resistência à ditadura.

Em Paris, ela frequentava reuniões organizadas por exilados para debater planos para derrubar os militares. Um desses exilados era José Maria Crispim, militante comunista e deputado da Assembleia Constituinte em 1946. Crispim promovia encontros entre exilados e estudantes brasileiros que, posteriormente, retornavam ao Brasil com “tarefas”.

“A gente voltava carregando na mala mensagens cifradas para companheiros e, principalmente, manifestos”, relembra.

Iza voltou ao Brasil no final de 67 como membro do Movimento Nacionalista Revolucionário, fundado por sargentos rebelados, e que depois se transformou na VPR.

No início de 1970, o cerco começou a se fechar. Alguns de seus companheiros começavam a faltar a encontros marcados nos “pontos” clandestinos, sinal de que haviam “caído”.

Em uma dessas ocasiões, ela recebeu um recado para “desaparecer” e entrar na clandestinidade. A partir daí, viveu escondida na casa de amigos até que decidiu fugir do país. Marcou uma passagem para a França, em 23 de junho, mesmo dia em que a seleção tricampeã voltaria do México.

Iza Salles foi detida junto com a então guerrilheira Dilma Rousseff

Iza Salles foi detida junto com a então guerrilheira Dilma Rousseff

Sua esperança era de que passaria despercebida pelos militares diante da euforia pela chegada dos jogadores. Ledo engano. Assim que saiu do campo de visão de sua família, que compareceu em peso ao Galeão para protegê-la, sentiu seus pés suspensos no ar.

“Dois brutamontes” pegaram-na pelos braços e, jogada no banco de trás de um carro, foi conduzida à sede do DOI-CODI, na rua Barão de Mesquita, zona norte do Rio.

Transferida um dia depois para a Vila Militar, em Deodoro, zona Oeste da cidade, ela saiu da cela pela primeira vez em 18 de julho, dia de seu aniversário, quando ganhou “de presente” um banho de sol.

Poucas semanas depois, a jornalista foi levada para São Paulo, onde respondia a um processo por ter levado um dirigente da VPR ao Estado.

Torre das donzelas

Na “Torre das Donzelas” do Presídio Tiradentes, hoje demolido, Iza ficou detida com dezenas de outras presas políticas, entre elas a presidente Dilma Rousseff.

“Lembro que ela ficava sempre muito recolhida, triste. Das (militantes) que estavam ali, ela era a presidente improvável, não se destacava ou mostrava liderança”.

Iza e as companheiras passavam o tempo fazendo tricô ou jogando vôlei “para descarregar a raiva”. Ao contrário do que se poderia imaginar dos carcereiros, muitos eram “generosos” e jogavam balas pelas grades das celas ou colocavam música alto do lado de fora para que as presas ouvissem.

A liberdade – que em seus sonhos na prisão caía do céu em forma de bombom de chocolate – só viria no final de 70.

A partir daí ela abandonou a luta armada e passou a optar por uma militância mais “consequente”, passando a colaborar com os jornais de resistência Opinião e O Pasquim – tendo sido a única jornalista mulher a editar este último.

“Foi a única forma de continuar na luta”, diz Iza, que no Pasquim assinava como Iza Freaza.

Junto com Jaguar, Ziraldo, entre outros, ela comandou algumas das entrevistas mais célebres do semanário, entre as quais a do ex-presidente Jânio Quadros.

Revendo a luta armada

Em 1977, ela partiu para uma segunda temporada de estudos na França. A anistia parcial, dois anos depois, não foi suficiente para trazê-la de volta, o que aconteceria somente em 1984.

“A luta armada foi a estratégia certa? Você faria tudo de novo?”, pergunto-lhe.

“Com a cabeça que tenho hoje, não. Terminamos derrotados, muitos de nós perderam a vida por nada”, diz ela.

“Até hoje não fizeram a reflexão de que pregávamos uma ditadura de esquerda – que são terríveis. Muitos não queriam ver as denúncias que vinham da União Soviética sobre perseguições e mortes.”

Foi esta reflexão sobre o comunismo que lhe inspirou a escrever o livro Um Cadáver ao Sol, que relata, segundo ela, como a ditadura comunista pode conduzir à “autodestruição”.

“A democracia ainda é o caminho para construir vielas de idealização. Pode não ser perfeito, mas é a melhor forma de governo”.

O Golpe e sua desgraça

À esquerda, o general Humberto Castelo Branco (foto: Domício Pinheiro/Agência Estado)

À esquerda, o general Humberto Castelo Branco (foto: Domício Pinheiro/Agência Estado)

Ricardo Gondim

As grandes manobras políticas dão grandes guinadas na história. Em contrapartida geram consequências horrorosas nas pessoas. Sim, pessoas anônimas que nunca conspiraram nas esferas mais altas do poder sofrem desdobramentos, muitas vezes, tenebrosos.

Meu pai foi preso no primeiro dia do golpe, em 1 de abril de 1964. Ele saiu de casa para a Base Aérea e não voltou, por mais de um ano. Mamãe estava grávida. Nossa vida virou de pernas pro ar. Papai foi transferido para o Galeão, no Rio de Janeiro. Dentro do avião, os soldados o vendaram. A viagem aconteceu entre Fortaleza e o Rio de Janeiro sem que os presos soubessem quem estava a bordo. A certa altura do voo, a porta do avião se abriu e volumes foram atirados. Como todos estavam vendados, meu pai nunca soube ao certo se eles lançaram ao mar alguns de seus colegas de farda ou se era apenas uma tortura psicológica.

Sem salário, sem lugar para morar, sem notícias – ele esteve incomunicável por sete meses – mamãe passou por uma gravidez de alto risco. Ela carregava gêmeos. As complicações foram maiores do que podíamos imaginar. A menina morreu dois dias depois do parto. Apenas meu irmão, Sergio, sobreviveu.

Papai foi sumariamente expulso das Forças Armadas. Incluído em um dos Atos Institucionais, o 1 ou o 2, não sei – perdeu a patente. Depois de expulso, foi julgado. Como assim?  Como o expulsaram sem julgamento? Uma excrescência legal. Eu compareci ao tribunal – assisti à tudo. Na madrugada foi achado inocente. Mas nunca lhe reabilitaram. No olho da rua, teve que tentar voltar ao mercado de trabalho. O único emprego que deram a um subversivo: vender lâmpadas infra-vermelhas, que na época se acreditavam capazes de curar muitos males. Quantas vezes meu pai chegou em casa suado. Após bater na porta de casas de massagem, clubes, escolas, não conseguia vender uma única lâmpada. Vivemos meses e meses sustentados pela família da mamãe.

Papai sofreu, minha mãe passou por um purgatório e nós, os filhos, vivemos lampejos do inferno. Por quê? Por uma razão muito simples: acreditou-se na propaganda ianque de que o Brasil seria a próxima Cuba. As transnacionais, que enviavam lucros exorbitantes para suas  matrizes, viam os interesses ameaçados por João Goulart, um presidente que apostava na inclusão social, no estreitamento da brecha que separava os miseráveis dos biliardários.

Espalhou-se uma paranoia generalizada. Gente que mal sabia o que significava rasgar a Constituição e fechar o Congresso, pediu uma intervenção militar. Para salvar (grandes aspas aqui) o Brasil, um regime totalitário se instalou. Políticos lambiam as botas dos generais e os generais acreditaram ser os salvadores da pátria, enquanto se avassalavam aos ditames do grande capital. Havia coronel em tudo quanto era lugar. Delatores se matricularam em faculdades. Poetas e dramaturgos foram censurados; jornais, boicotados. Criou-se uma anomalia política – estapafúrdia – para garantir o poder dos generais: os senadores biônicos. Era um horror.

A corrupção, entretanto, nunca diminuiu. Falava-se em democracia, mas, nos porões das delegacias, jovens eram pendurados em paus-de-arara. Meninas, ainda nos primeiros anos de universidade, eram empaladas com cabo de vassoura. Choque elétrico e palmatória corriam soltos.

Stuart Angel, filho de Zuzu Angel, teve a boca amarrada ao cano de escape de um jipe e arrastado pelo pátio de um quartel do Rio de Janeiro até a morte.

Papai foi espancado e teve os testículos amassados por um porrete só porque um major encontrou uma tesourinha na cela onde ele estava preso. Conheci alguns de seus amigos de cadeia que jamais recuperam a saúde mental. Meu pai lutou com o alcoolismo e morreu com Alzheimer.

Em alguns dias o Brasil lembrará os 50 anos do capítulo mais sinistro de sua história.

Eu estarei entre os que vão chorar.

Soli Deo Gloria

fonte: site do Ricardo Gondim

Decretada prisão de prefeito por exploração sexual infantil no Amazonas

Para formalizar a denúncia contra o Prefeito de Coari – acusado de exploração sexual de menores, entre outros crimes -, a Procuradoria-Geral de Justiça tomou como base os depoimentos de supostas vítimas de Adail

A ligação de Adail Pinheiro com o tema pedofilia está no noticiário local, nas páginas de polícia e política, desde 2008 (foto: Evandro Seixas)

A ligação de Adail Pinheiro com o tema pedofilia está no noticiário local, nas páginas de polícia e política, desde 2008 (foto: Evandro Seixas)

título original: Tribunal de Justiça decreta prisão imediata de Adail Pinheiro e mais cinco pessoas

Publicado no A Crítica

O desembargador Djalma Martins decretou, por volta das 16h desta sexta-feira (7), a prisão preventiva de Adail Pinheiro (PRP), prefeito do município amazonense de Coari. O ato se deu após o Ministério Público do Estado (MPE/AM) mover nova denúncia junto ao Tribunal de Justiça do Amazonas (TJ-AM) contra o político, suspeito de chefiar uma quadrilha de exploração sexual de crianças e adolescentes, entre outros crimes.

Na manhã desta sexta-feira, o MPE ingressou uma nova denúncia junto ao TJ-AM onde pedia a prisão preventiva de Adail Pinheiro e outras cinco pessoas, que não tiveram o nome revelado por se tratar de um processo que corre em segredo de Justiça.

O presidente do Tribunal de Justiça do Amazonas, Ari Moutinho, pediu para que a denúncia fosse distribuída eletronicamente e foi parar nas mãos do desembargador Cláudio Roessing, que pediu a redistribuição, alegando ser de área incompatível com a denúncia que apura crimes no âmbito penal.

Em redistribuição, o pedido do MP foi analisado pelo desembargador Djalma Martins, que concedeu as prisões preventivas: dos sete denunciados, o MPE solicitou a prisão de seis, já decretadas.

Segundo a assessoria de comunicação do TJ-AM, a decisão foi encaminhada eletronicamente à Delegacia Geral de Polícia, que deverá cumprir imediatamente os mandados nos endereços informados pelo MP na denúncia.

De acordo com o Procurador-Geral de Justiça, Francisco Cruz, a medida foi tomada para garantir a segurança de outras vítimas. “Me convenci da necessidade da decretação preventiva não só para garantir a correta instrução do processo como para evitar que novas crianças pobres e desprotegidas sejam vítimas dos desvios sexuais do prefeito”, afirmou Cruz.

Para formalizar a denúncia, a Procuradoria-Geral de Justiça do MPE/AM tomou como base investigação feita pelo Centro de Apoio e Combate ao Crime Organizado (Caocrimo), que ouviu, em Manaus e em Coari, garotas que relatam terem sido vítimas de exploração sexual praticadas pelo prefeito. Adail Pinheiro nega as acusações e diz que é vítima de perseguição política patrocinada por adversários.

Suspeito sorri para câmera no momento da prisão em Cabo Frio (RJ)

Homem não se importou com detenção e debochou ao sair de carro da PM.
Ele sorriu bastante e ficou feliz ao pensar que estava famoso: ‘Galã’, disse.

Homem sorri ao ser preso em Cabo Frio, na Região dos Lagos do Rio (Foto: Rildo Herrera/Inter TV)

Homem sorri ao ser preso em Cabo Frio, na Região dos Lagos do Rio (Foto: Rildo Herrera/Inter TV)

Publicado no G1

O comportamento de um homem acusado de assaltar uma loja, preso na noite de quinta-feira (23), surpreendeu os policiais em Cabo Frio, na Região dos Lagos do Rio. Ao sair da viatura, Jander Machado dos Santos sorriu bastante e debochou ao ser filmado: “Galã”, disse, acreditando ter ficado famoso com o caso.

“O comportamento dele é um comportamento que a gente pode chamar até de bizarro, que não é comum um indivíduo ser preso e ficar rindo da própria prisão”, afirmou o comandante do 25° Batalhão da Polícia Militar, tenente-coronel Rui França.

Segundo a polícia, a boa qualidade das imagens do circuito interno das câmeras de segurança da loja foi fundamental para a identificação e a prisão do rapaz. Com ele, a polícia encontrou uma imitação de arma de fogo feita de madeira e uma camisa roubada.

Sorridente também no assalto
Durante o assalto, na noite de quarta (22), o suspeito se mostrou bastante simpático. De acordo com a proprietária da loja, que prefere não ser identificada, o homem chegou querendo olhar camisas polo.

Depois de alguns segundos, ele tirou uma arma de dentro de uma sacola e anunciou o assalto, mandando a proprietária passar o dinheiro do caixa e as camisas que estava escolhendo.

”Eu tomei um susto na hora. Ele chegou todo simpático e disse que queria ver camisas. Depois tirou a arma e anunciou o assalto. Antes de ir embora, ele disse que não tinha medo das câmeras e que, se alguém tinha algo a perder, esse alguém era eu”, revelou a proprietária.

As imagens mostram toda a movimentação do ladrão. Primeiro, ele passa direto na frente da loja, depois volta, mas ainda não entra. O homem só resolve entrar no estabelecimento na terceira vez que aparece na imagem. Depois do assalto, ele aparentemente agradece à proprietária e vai embora. A loja fica na Avenida Teixeira e Sousa, um dos principais acessos ao Centro de Cabo Frio.

Tenente-coronel Rui França (dir.) segura a arma apreendida com o acusado (Foto: Rildo Herrera/Inter TV)

Tenente-coronel Rui França (dir.) segura a arma apreendida com o acusado (Foto: Rildo Herrera/Inter TV)

Mais temido criminoso do país, Marcola deve deixar a prisão em três anos

Lei brasileira permite confinamento máximo de 30 anos, o que deverá devolver as ruas o mentor do PCC, facção que dita as regras no sistema prisional do país

Vasconcelo Quadros no Último Segundo

Há uma incômoda contagem regressiva no sistema penitenciário paulista: dentro de aproximadamente três anos, o mais temido criminoso do país, Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola, líder máximo do Primeiro Comando da Capital (PCC), completa 30 anos de prisão e, em tese, pode ganhar a liberdade.

“O Brasil não tem pena de morte ou prisão perpétua. É cláusula pétrea da Constituição. E está na Lei de Execuções Penais que o tempo máximo de prisão é de 30 anos”, afirma o juiz aposentado e ex-secretário nacional Anti-Drogas, Walter Fanganiello Maierovitch.

marcola

Ele lembra que mesmo em circunstância em que cabia a manutenção do preso em regime fechado por medida de segurança, foi o caso de João Acácio Pereira, o famoso Bandido da Luz Vermelha, em 1992, o judiciário acabou concedendo a liberdade. Pereira foi morto no ano seguinte pelo pai de uma adolescente que ele assediou sexualmente, confirmando o diagnóstico de problemas mentais que havia sido liberado antes de deixar a prisão.

“Esse não é o caso do Marcola. Ele é lúcido (não cabe medida de segurança) e há quase 30 anos vem comandando o crime da cadeia. Dentro ou fora, dá na mesma”, afirma Maierovitch. Ex-juiz de execuções penais, ele acha que o governo e o judiciário paulista estarão num dilema kafkiano, já que os advogados de Marcola terão todo o amparo para pleitear a extinção da pena.

“Não conheço o caso, mas a lei deve ser observada para todos. Não há mecanismo legal para impedir a liberdade de quem quer que seja. Pode ser o Marcola ou um ladrão de galinhas”, diz, na mesma linha, o jurista Luiz Flávio D’Urso, presidente da Associação Brasileira dos Advogados Criminalistas.

Polêmica à vista
“O caso vai, sim, gerar uma grande polêmica”, admite o promotor Everton Zanella, coordenador do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), o órgão que apresentou, no final do ano passado, o mais completo raio-X do PCC e de seu líder máximo.

A controvérsia se estabelecerá em torno de uma questão central: o tempo de condenação num novo processo ampliaria a pena para mais 30 anos ou não?

Marcola está condenado atualmente a 232 anos, 11 meses e 4 dias, pena que só se extinguiria no dia 23 de março de 2221, mas que pela Constituição e pela Lei de Execuções Penais cessa daqui a três anos.

O problema é que ele responde a outros processos e pode ser condenado a novas penas antes e depois de completados os 30 anos. O Ministério Público acha que o tempo de cada nova condenação vai estendendo o limite, sempre para 30 anos, independentemente do tempo que já tenha cumprido.

“A cúpula do PCC (Marcola e mais sete) está condenada a mais de 200 anos de prisão. Cada nova condenação é somada e volta a elevar o tempo mínimo para 30 anos”, sustenta Zanella. O Ministério Público não admite a hipótese de ver Marcola nas ruas porque sabe que, se preso ele fez o que faz, solto representaria um risco ainda maior.

De menor infrator a líder de facção
Aos 46 anos de idade, Marcola passou mais tempo atrás das grades do que em liberdade. Tornou-se infrator adolescente, mas foi no caos penitenciário que se “formou” como criminoso respeitado no sistema e temido pelos órgãos estatais. Organizou o PCC e, desde 2006, ao afastar outros líderes, assumiu o posto de comandante da organização que hoje se esparramou pelo país e países fronteiriços, como Paraguai e Bolívia.

Seu discurso tem várias facetas: rebeldia contra a opressão estatal, a união interna para controlar as cadeias e uma forte estrutura externa para a execução de crimes contra o patrimônio nas ruas. Solidificou seu prestígio e liderança à frente da facção designando seus “homens de confiança” para compor com ele, o primeiro escalão da organização criminosa. São sete homens, todos recolhidos na Penitenciária II, de Presidente Venceslau.

A galinha dos ovos de ouro do PCC é o tráfico de cocaína que, do atacado ao varejo, é comandado em estilo semelhante aos tradicionais cartéis. Maierovitch acha que a organização, com controle social e territorial, tem uma estrutura pré-mafiosa e seu líder, ainda que esteja preso (o que torna o cenário surreal e insólito quando se constata a fragilidade do Estado) tem um comportamento parecido com o de célebres dirigentes de cartéis da droga, como o lendário colombiano Pablo Escobar.

Garantidor de paz
Nas poucas ocasiões em que foi flagrado ao telefone, Marcola aconselha um interlocutor a não procurá-lo, mas deixa claros sinais da liderança: “… Rapaz, eu tô com 50 homicídios e sumariando, se liga… Acabou, mataram eu em vida, mas deixa eu te falar, o problema é eu levar problema pra você e eu acho que eu levo… Não tem sentido a gente ficar se expondo”…

O comparsa então, massageia o ego de Marcola: “sabia que esses caras (estado) tem que te agradecer, porque você (Marcola) deixou a maior paz aí, já pensou se tivesse crack, esses negócios na cadeia”.

Marcola então afirma que ajudou a derrubar até os índices de homicídios em Sã Paulo: “ô irmão, sabe o pior que é? É que há dez anos todo mundo matava todo mundo por nada… Hoje pra matar alguém é a maior burocracia (estatuto do PCC determinou mudanças nas condutas dos preso), então quer dizer, os homicídios caíram não sei quantos por cento, aí eu vejo o governador chegar lá e falar que foi ele”.

“As investigações demonstram que o PCC se articulou de uma forma assustadora. Eles estão muito fortes. O Estado jamais conseguirá controlar quem está nas ruas, mas tem de tomar a frente para controlar as prisões”, diz Zanella. Estima-se que mais de 1.800 criminosos soltos trabalhem pelo PCC na periferia de São Paulo como se fossem militantes de uma causa. Nas cadeias, paulista, 90% delas controladas pela organização, seus filiados “de carteirinha” somam quase 6 mil.

Só em rifas, o lucro mensal gira em torno de R$ 1,2 milhão, dinheiro canalizado para a compra de drogas, o grande negócio do PCC, e auxílio a famíliares de presos.

O balanço sobre as apreensões da Polícia Federal no ano passado mostra que das 35 toneladas, mais de 11 ocorreram em São Paulo e, deste volume, algo em torno de 80% pertenciam ao PCC. É como se a organização tivesse perdido investimentos de cerca R$ 80 milhões, um valor relativamente pequeno se comparado com o máximo apreendido pelas polícias no mundo inteiro, algo entre 3% a 5% do volume traficado, segundo Mairetovitch.

No ano passado a Polícia Federal apreendeu cerca de R$ 81 milhões em bens (dinheiro vivo, imóveis, automóveis, etc.) que estavam em poder das quadrilhas. Estima-se que boa parte estava nas mãos de integrantes do PCC. Mas há uma incalculável fortuna não localizada e que provavelmente foi camuflada. Nenhum desses valores foi vinculado a Marcola.

O Ministério Público não tem dúvidas de que parte desse dinheiro faça parte da reserva estratégica de caixa para custear algum plano espetacular.

Ao longo de centenas de páginas com a transcrição dos grampos que captaram as conversas da cúpula do PCC, há dezenas de referências cifradas sobre planos de fuga, que os criminosos tratam como “caminhada do cachorro quente”. Em todas as conversas a palavra final é frequentemente atribuída a Marcola.

Num trecho, um integrante do grupo, preocupado com o grampo e percebendo que a polícia estava chegando muito rápido às quadrilhas que agiam nas ruas, diz que Marcola mandava organizar “um time de administração” para gerenciar os negócios, sem depender das ordens emanadas das prisões. “A ordem é bem direta, tem que fazer a mudança”, escreve o Ministério Público.

Caos penitenciário
Os especialistas acham que o crescimento do PCC reflete o caos penitenciário, cujo combate só surtiria efeito através de uma ação nacional articulada. “Esse modelo está falido, não apenas no Maranhão, mas no país inteiro”, diz o advogado Luiz Flávio D’Urso.

Para Maierovitch, trata-se de uma questão de competência profissional, até agora não demonstrada pelo governo paulista, que preferiu usar a escuta telefônica como meio de investigação em vez de bloquear a entrada de telefones celulares nos presídios. Somente daqui a uma semana os presídios paulistas terão os sinais para celular interrompidos, num programa de instalação de equipamentos que começará por Presidente Venceslau.

O promotor Everton Zanella diz que o inquérito concluído pelo Ministério Público paulista é um alerta para se entender a estrutura do crime organizado nos presídios, um fenômeno brasileiro, segundo ele, e adotar um plano de combate envolvendo as instituições nacionais. No inquérito há indicativos de que a quadrilha pretende agir durante a Copa do Mundo.