Valesca Popozuda fala em preconceito após ser chamada de pensadora em prova

Publicado no UOL Música

Valesca Popozuda usou seu perfil no Facebook, na manhã desta terça-feira (8), para comentar a polêmica causada depois que um professor de filosofia do Distrito Federal elaborou uma questão em uma prova em que os alunos deveriam completar um trecho da música “Beijinho no Ombro”. O enunciado ainda dizia que a letra é de “uma grande pensadora contemporânea”.

“Eu acho uma bobagem isso tudo, talvez se ele tivesse colocado um trecho de qualquer música de MPB ou até mesmo de qualquer outro gênero musical que não fosse o Funk, talvez não tivesse gerado tal problema”, escreveu Valesca em seu perfil.

A questão foi elaborada pelo professor Antonio Kubitscheck, que trabalha uma escola pública de Ensino Médio do Distrito Federal. Surpreendidos com a questão, alguns alunos fotografaram a prova e publicaram nas redes sociais.

No depoimento, ela ainda escreve que gostaria de agradecer ao professor por se sentir honrada pela homenagem, mas se recusou a aceitar o título de pensadora. “Diva, Diva sambista, Lacradora, essas coisas eu já estou pronta, ok, mas PENSADORA CONTEMPORANEA ainda não ( mas prometo que vou trabalhar isso)”, escreveu.

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Ela ainda critica os que se julgam capazes de criticar o professor. “É todo mundo perfeito, o funk não presta e a Popozuda não pode ser pensadora contemporânea. Então vamos tacar pedra na professora (sic) porque o resto vai continuar da mesma forma”.

Para a cantora, o que mais espanta é o fato das pessoas se preocuparem com isso sem analisar o que há por trás. “E se o professor colocou a questão dentro do contexto da matéria? E se o professor quis ser irônico com o sucesso das músicas de hoje em dia? E se o professor quis apenas distrair a turma e fez a questão apenas pra brincar?”.

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Professora que ironizou passageiro é afastada de cargo na PUC-Rio

Duas semanas após post polêmico, Rosa Marina Meyer deixa Coordenação de Cooperação Internacional da universidade
Docente continua dando aulas no Departamento de Letras

Post de professora com foto de passageiro no Santos Dummont (Reprodução da página Dilma Bolada no Facebook)
Post de professora com foto de passageiro no Santos Dummont (Reprodução da página Dilma Bolada no Facebook)

Publicado em O Globo

RIO – A professora que ironizou a aparência de um passageiro no Aeroporto Santos Dumont, no Rio, perdeu um cargo interno que exercia na PUC-Rio. Rosa Marina de Brito Meyer continua ministrando aulas de duas disciplinas do Departamento de Letras, mas foi afastada do comando da Coordenação Central de Cooperação Internacional (CCCI).

Em portaria enviada aos funcionários nesta segunda-feira, o reitor José Carlos de Siqueira comunica que o professor Carlos Frederico Borges Palmeira, do Departamento de Matemática, assume a função, em caráter interino. Entre outras attibuições, o CCCI administra parcerias de intercâmbio da PUC com universidades no exterior.

Rosa Marina caiu em desgraça na semana retrasada, quando publicou no Faceboook um post com a foto de um passageiro na sala de embarque do Santos Dummont acompanhada da legenda: “Rodoviária ou aeroporto?”. Na imagem, o advogado Marcelo Santos, até então não identificado, estava de bermuda e camisa regata. Colegas de profissão de Rosa, como o reitor da Unirio, Luiz Pedro Jutuca, e a professora Daniela Vargas, também da PUC-Rio, comentaram o post com mais ironias. O episódio recebeu uma chuva de críticas nas redes sociais.

Segundo rumores, a docente chegou a entregar uma carta de demissão à direção do Departamento de Letras, mas seus chefes não aceitaram a decisão. Ela continua dando aulas de Linguística e Aspectos Culturais do Português como Segunda Língua. De acordo com fontes ouvidas pelo GLOBO, Rosa Marina estaria deprimida desde que o post começou a gerar repercussão negativa. Ela própria apagou a publicação e, no dia seguinte, divulgou um pedido de desculpas em sua página, que, depois, foi deletada do Facebook. Daniela Vargas e Luiz Pedro Jutuca também lamentaram seus comentários no post infame.

Nos corredores da PUC-Rio, o assunto dominou rodas de conversas entre professores desde a volta às aulas, na semana passada. Os colegas de Rosa Marina comentam que ela “deu mole” e procuram entender qual foi o sentido de expor daquela maneira uma pessoa desconhecida.

Depois do post polêmico, uma página foi criada com o nome de Rosa Marina Meyer para criticar a publicação. O espaço, que já tem mais de 26 mil curtidas, vem servindo para dar destaque a diferentes casos de preconceito noticiados na imprensa ou relatados pelos próprios seguidores. O advogado Marcelo Santos, que aparece na foto, falou sobre o caso. Ele mora em Nova Serrana, Minas Gerais, e estava voltando de Cruzeiro que terminou no Rio. Em entrevista a diversos sites, o profissional se disse surpreso ao saber do post, e contou que ficou bastante triste quando viu a maneira como foi retratado.

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Pastor e vereador mineiro ofende professora e diz que “daria um coro nela”

 

Publicado no UOL

O vereador Pastor Altemar (PSDB), de Montes Claros (418 km de Belo Horizonte), fez ofensas e ameaças à professora Iara Pimentel durante entrevista à TV Câmara do município, realizada no último dia 26. O parlamentar estava irritado com as manifestações de protesto da docente em sessões da Câmara.

“Pense numa mulher desclassificada, sem caráter (…) ela vem inferniza, faz as manifestações. Se pudesse eu mesmo dava um coro nela. Pensa numa mulherzinha de baixo nível. É aquela Iara”, afirmou.

Em seguida, Pastor Altemar ataca a professora ao dizer que ela vai à Câmara porque quer “arranjar um marido”. “Tá aí, encalhada, e vem pra cá querendo arranjar um marido. Ou então tá interessada em algum vereador (..) É um lugar público, não é uma zona, um cabaré não. Eu vomito ela (sic).”

O caso provocou revolta nas redes sociais. A professora, que integra movimentos sociais que acompanham as sessões plenárias na Câmara, apresentou denúncia na Casa e pediu a cassação do parlamentar.

Na segunda-feira (9), a abertura de processo de cassação de Pastor Altemar foi rejeitada por 13 votos a nove. Agora, a Comissão de Ética analisa a conduta do vereador.

A reportagem telefonou na noite desta sexta-feira (13) para o gabinete do Pastor Altemar, mas ninguém atendeu.

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‘Lulu reproduz mentalidade sexista’, diz professora da PUC-Rio

‘Adesão mostra nosso atraso no que diz respeito a relações entre homens e mulheres’, diz a pesquisadora Adriana Braga

Marina Cohen em O Globo

Site do app LuluFoto: Reprodução
Site do app LuluFoto: Reprodução

RIO – Não tem escapatória: o assunto da semana é o Lulu, aplicativo criado nos EUA e lançado recentemente no Brasil que permite às mulheres avaliar homens de quem são amigas no Facebook em quesitos como “aparência”, “sexo” e “educação”. No app, os rapazes ganham perfis não autorizados aos quais as garotas atribuem hashtags elogiosas e/ou negativas. A ferramenta, então, confere nota ao cidadão.

O tema está sendo discutido na redes sociais, em blogs e até nos grandes jornais. A ferramenta estimula o sexismo? Coloca as mulheres em posição de poder? Ou é apenas brincadeira? A atriz americana Sam Ressler escreveu um artigo para o jornal “Huffington Post” em que chama o Lulu de “o pior aplicativo para mulheres, feito por mulheres”. Ao usar o serviço, Sam diz que a ferramenta permitiu que ela se lembrasse de toda a raiva dos ex-namorados. “O Lulu derramou sal em suas feridas mais recentes e te afastou do cara legal com quem você saiu na noite passada”, escreveu.

Já Kelly Clay, especialista em mídias sociais, disse, na “Forbes”, que o app “não somente encoraja jovens mulheres a destruírem os homens pela vingança, como, sem dúvida, terá um impacto de longo prazo sobre a vida desses homens”. Michael Anthony, escritor e veterano da Guerra do Iraque, escreveu no “Business Insider”: “Se os homens virem o impacto que têm causado nas mulheres e em suas vidas, talvez isso os force a mudar”.

Entre as hashtags atribuidas aos marmanjos, há expressões do tipo #AiSeEuTePego, #NãoLigaNoDiaSeguinte, #NãoFazNemCócegas e até #CurteRomeroBritto. A professora Adriana Braga, do departamento de Comunicação Social da PUC-Rio, acredita que mais importante do que listar as qualidades e defeitos do aplicativo é perceber o que ele demonstra sobre a nossa sociedade.

– O fato desse aplicativo ter conseguido uma adesão em massa aponta o quanto a nossa mentalidade está atrasada no que diz respeito às relações entre homens e mulheres – analisa Adriana, que é pesquisadora do CNPq sobre questões de gênero nas redes sociais. – Olhando apressadamente, até pode parecer que o Lulu representa uma tomada de poder das mulheres, um ambiente para elas se expressarem, mas, observando com mais cuidado, dá para notar que o app apenas reproduz a mentalidade sexista, em que o outro é tratado como um objeto. O aplicativo reforça a lógica que as feministas e os movimentos sociais vêm combatendo há décadas.

A maior parte dos grupos feministas não está mesmo contente com o aplicativo. O papo do “empoderamento das mulheres” não convence muitas integrantes do movimento, que veem na rotulação dos homens como #BemCriado ou #MaisBaratoQueUmPãoNaChapa a perpetuação de estereótipos sexistas. Militante da Marcha Mundial das Mulheres, a carioca Carolina Peterli ainda chama atenção para os possíveis efeitos do app na vida social dos “avaliados”.

– É como se não fôssemos pessoas, mas coisas ou mercadorias que podem ser vendidas e classificadas como boas ou ruins. O impacto que um aplicativo como este pode ter na vida das pessoas é imensurável – observa Carolina, formada em Relações Internacionais. – Quando a mulher ou o homem é avaliado como alguém que não corresponde aos critérios previamente definidos, sua autoestima fica abalada e isso pode influenciar inclusive nas relações no mundo real, pois as pessoas se sentem diminuídas e não se acham capazes de se relacionar.

Apesar da enorme quantidade de críticas que o Lulu tem recebido, ele tem também uma enorme adesão do público feminino – mais de 1 milhão de usuárias já baixaram o programa somente nos Estados Unidos. E muitas delas veem a ferramenta simplesmente como um passatempo. Sem querer defender ou crucificar o app, a escritora gaúcha Clara Averbuck vem provocando a ira de muitos internautas ao afirmar, no Twitter, que a reação dos homens está sendo exagerada.

“Não tem nem como devassar alguma vida com hashtags bobas fechadas. Simplesmente não tem”, disse a autora de “Máquina de Pinball” na rede.

Ao jornal O GLOBO, ela explica melhor seu ponto de vista:

– O Lulu não é um medidor de performance sexual, como alguns homens desinformados estão achando por aí. E por mais “objetificante” que seja a ideia de passar por uma avaliação, os homens não têm seu caráter julgado por causa de sua vida sexual – analisa Clara. – A maior preocupação da galera é com a nota baixa, o que, vamos combinar, é ainda mais infantil do que as hashtags disponíveis.

A jornalista Raisa Carlos de Andrade, que também chegou a baixar o app para matar a curiosidade, logo dispensou a ferramenta. (mais…)

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A incrível história da professora brasileira do MIT que largou tudo para dançar tango

Publicado no Gluck Project

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Toda a arte deste post foi feita pela designer e ilustradora gaúcha Laura Salaberry

A paulistana Daniela Pucci chegou cedo ao topo da carreira. Sempre foi uma excelente aluna – das que ficam em primeiro lugar da turma – e se formou em engenharia de computação na Unicamp com uma das melhores notas da história da universidade. Seu doutorado na prestigiada Standford University foi o melhor do ano, no seu departamento, e ganhou um prêmio internacional como o melhor de sua área, em 2002. Em 2003, aos 28 anos, Daniela foi aceita como professora do departamento de engenharia mecânica do MIT – considerado a melhor universidade do mundo pelo QS World University Rankings. Nessa época, Daniela ficou conhecida no Brasil e deu entrevistas contando sua trajetória de sucesso para grandes veículos de comunicação como a Folha de S. Paulo e a Veja. Mesmo com tudo isso, estava mergulhada em sofrimento e crise. Seu prazer era o tango que praticava cinco vezes por semana. Uma viagem à Buenos Aires lhe apresentou Luis Bianchi, dançarino profissional, e grande amor de sua vida. Depois de muita reflexão e planejamento, Daniela largou tudo para viver de dança ao lado do companheiro.

Conheça a incrível história da professora do MIT que virou dançarina de tango, na entrevista exclusiva abaixo.
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Vamos começar pela sua formação acadêmica. Você se formou na Unicamp como a melhor aluna da sala, né?
Sim, me formei em engenharia de computação em 1997 como a melhor aluna da turma. Na verdade, em 2007, fui homenageada como um dos dois melhores alunos na história da engenharia elétrica. Meu doutorado foi na Stanford University, na Califórnia. Recebi dois prêmios no final do curso. Um foi dado pelo meu departamento (Management Science and Engineering) por ter tido o melhor rendimento acadêmico entre os alunos que se formavam naquele ano. O outro foi dado pelo INFORMS (Institute for Operations Research and Management Sciences) para a “melhor dissertação de doutorado do ano de 2002 em qualquer área de pesquisa operacional e ciências de gerenciamento que é inovadora e relevante para a prática”.

Depois do doutorado você virou professora do MIT, certo?
No último ano do doutorado, entrei no mercado para professores universitários. Os formandos se inscrevem para posições em todas as universidades onde haja vagas relevantes. Depois, alguns são chamados para entrevistas. Fiz entrevistas em varias universidades, entre elas o MIT – no departamento de engenharia elétrica e ciência de computação.Quando dei minha palestra, estava na audiência o chefe do comitê de busca para uma posição no departamento de engenharia mecânica. Quando terminei, ele veio falar comigo e incentivar-me para me inscrever para essa posição. Não pensei muito nisso porque nunca tive relação com a engenharia mecânica. Mas passado um mês, ele me mandou um email pedindo para eu me inscrever se tivesse algum interesse, pois já estava acabando o ano acadêmico e eles tinham que finalizar sua busca. Num ímpeto, mandei meus materiais, depois de poucos dias fui fazer a entrevista e, logo depois, veio a oferta! Recebi ofertas de Columbia, Cornell, Georgia Tech e MIT – além do laboratório de pesquisa IBM Almaden, em San Jose.

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Nessa época você deu entrevistas para vários sites, revistas e jornais no Brasil, né? Você estava se sentindo realizada?
Na verdade, os três anos que passei como professora acadêmica foram um período de muito sofrimento e crise. Entre 2001 e 2003, minha vida pessoal e profissional entraram em um choque profundo, pareciam completamente divergentes. Comecei a dançar tango em 1999, mas foi a partir de 2001 que passei a dançar mais, foi uma atividade salva-vidas com a qual me identificava completamente. Passei o verão de 2001 em Nova Iorque, fazendo um estágio no laboratório de pesquisas da IBM T.J. Watson, e aí comecei a dançar tango cada vez mais. Encontrei um outro mundo e me apaixonei, tanto pela cidade, quanto pelo tango. Então chegou 2002 e, ao final, havia duas ofertas de trabalho que estava considerando mais seriamente: MIT, a universidade de maior prestigio, com os alunos (potencialmente) mais talentosos; e Columbia, uma universidade excelente na minha área, em Nova Iorque. Uma escolha representava aposta total na minha vida profissional, a outra um certo equilíbrio entre vida profissional e pessoal. Passei semanas sem poder decidir até que me deram uma data final para responder. Acordei esse dia sem saber o que fazer e decidi jogar uma moeda. Saiu Columbia. Passei o dia inteiro jogando essa moeda. Ao final escolhi MIT, ou seja, minha carreira, e nunca pude realmente me perdoar por isso.

Todos os prêmios, famas e êxitos acadêmicos significavam pouco. No dia em que saiu a entrevista na Folha de Sao Paulo, acordei e abri meus e-mails: havia mais de 200 emails de fãs do Brasil que me escreviam de tudo; alguns dando parabéns, outros contando suas histórias, outros pedindo conselhos, alguns mandando fotos de seus gatos – já que saiu na matéria que eu os amava… E eu lia tudo isso e, mesmo sentindo um certo orgulho, isso não alterava minha profunda solidão e alienação, já que nenhuma dessas pessoas me conhecia de verdade, nem eu a eles, e no dia-a-dia eu me sentia num deserto emocional e uma estranha na minha própria vida.

Enfim, além de toda essa crise existencial que levou uns 6, 7 anos para eu superar, não podemos esquecer que meu doutorado foi em “tomada de decisões em regimes de incerteza”. Era muita ironia para mim que eu fosse considerada uma autoridade no assunto, quando na minha própria vida eu me sentia completamente despreparada para tomar decisões. Usando palavras de Ernesto Sabato (escritor e artista plástico argentino), sentia na pele que “a razão não serve para a existência”. E passava a encarar com muito ceticismo a vida científica e a questionar os sacrifícios da minha vida pessoal.

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E como você largou tudo isso para se tornar dançarina de tango?
Nunca pensei em ser bailarina profissional, mas sempre amei a dança, já com 7, 8 anos ficava vendo Margot Fonteyn (bailarina inglesa) na televisão. Um ano antes de sair do Brasil tive contato com as danças de salão e comecei a dançar forró – primeiro uma noite por semana, e em pouco tempo, já eram cinco vezes por semana, uma obsessão! Na dança me sentia livre, completamente feliz e identificada, cheia de prazer. Sinto que viver, e especialmente ser consciente de nossa condição, é incrivelmente difícil, é a carga do ser humano: viver sabendo da arbitrariedade do sofrimento, de nossa impotência diante da tragédia, doença, de todos os males que afetam os seres que amamos, viver lembrando de nossa própria mortalidade. A religião de alguma forma tenta resolver isso, oferece uma teoria, mas na minha mente (que até hoje funciona mais pela lógica), eu consigo ao máximo ser agnóstica, admitindo que não posso saber se tudo tem um motivo ou é completamente aleatório. Não é uma posição muito confortante ou satisfatória. Como alternativa, alguns de nos buscamos aliviar ou resolver essas questões pela ciência, que também está limitada em suas respostas. E o tango, ao final, não pode me dar nenhuma resposta, mas me dá outra coisa: faz com que todas essas questões se tornem “irrelevantes”. O tango tem esse poder de me ancorar no presente, no prazer físico do movimento, no prazer emocional do encontro com a música e com outra pessoa. Minha crise existencial se dissolve diante disso.

Então, nos 3 anos no MIT, vivi com um pé de cada lado: meus dias de semana de professora, em Boston, fazendo pesquisa, e os fins de semana em Nova Iorque, dançando tango. Nem me passava pela cabeça mudar de carreira, para mim o tango era atividade social e puro prazer. Em junho de 2005 fiz minha primeira viagem a Buenos Aires e no segundo dia conheci Luis Bianchi, meu parceiro na dança e na vida. Ele já era dançarino profissional. Tivemos uma linda historia “de verão” – se bem que era inverno – (risos ), mas eu não tinha nenhuma expectativa. Só que nos demos muito bem e decidimos manter o contato, pela internet. Com o passar dos meses, começamos a falar de trabalhar juntos.

Em um certo final-de-semana, vários meses depois, eu decidi ficar completamente quieta e não trabalhar. Eu vinha em um estado de bastante confusão há mais de dois anos nesse momento, indo à terapia uma ou duas vezes por semana e sem poder ter nenhuma clareza. Nesse fim-de-semana fiz uma coisa um pouco estranha: perguntei ao meu coração o que ele queria. E no silêncio encontrei a resposta: queria dançar.

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Muitas pessoas dizem que querem mudar de vida, mas tem medo. O que você acha que leva as pessoas a ficarem tantos anos vivendo uma vida que não lhes traz felicidade?
A incerteza dá muito medo. Deixar de lado um caminho que não é muito feliz, mas não chega a ser terrível para apostar em algo sem garantia de resultado não é fácil. A mudança é incômoda. Recomeçar do zero é árduo e acho que se no momento da decisão eu tivesse uma família, não sei se teria bancado a incerteza econômica. Se bem que eu acho que mesmo com as responsabilidades, valeria a pena.

Também tive um momento de epifania durante todo o meu processo de transformação. Foi em fevereiro de 2006, quando eu já tinha tomado a decisão de mudar de carreira. Fui passar uma semana no laboratório de pesquisa de IBM Almaden, onde tinha feito um post-doc de 9 meses. Sempre visitava esse laboratório para trabalhar com meu colaborador Nimrod Megiddo, uma pessoa muito destacada na área de pesquisa operacional. Durante meu post-doc, Nimrod havia se tornado não só um mentor mas também um amigo. Durante essa semana, comentei com ele pela primeira vez sobre meus planos de mudar de vida. Então, no último dia, quando nos despedimos, ele me deu um abraço, pedindo que eu me cuidasse. Nesse momento percebi meu espanto: sem saber, eu esperava perder seu afeto e amizade ao admitir que queria deixar a ciência para dançar. No entanto, sua amizade continuava, e isso era uma surpresa!

Nesse momento percebi que além do medo natural e as incertezas, há uma barreira muito importante para a mudança: as crenças que criamos sobre nossa identidade. Eu fui uma criança que ia muito bem na escola, que me destacava nas ciências exatas – que por algum motivo eram muito intuitivas para mim – e acreditava que aí estava meu valor.Foi só no momento em que meu amigo demonstrou sua preocupação comigo que comecei a ver que eu era muito mais que isso. Então, acredito que para a mudança, deve-se estar atento às “hipótese implícitas” que se formam sobre nossa identidade e valor. Até hoje sigo nesse labirinto de identidade já que ao romper essas crenças, passei por um período de desprezo pelo meu lado matemático. Ainda não entendo completamente minha dualidade e não sei como integrar os dois lados em um todo harmonioso, mas continuo tentando!

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