Desdentados da Cracolândia também merecem atenção, diz assistente social

Ex-modelo encontrada na Cracolândia agora é disputada por televisões e jornais, que prometem "rehab"
Ex-modelo encontrada na Cracolândia agora é disputada por televisões e jornais, que prometem “rehab”

Ricardo Senra, no BBC Brasil

Com mais de quatro décadas de apoio à população de rua do centro de São Paulo e pelo menos duas circulando pela Cracolândia, a assistente social Tina Galvão, de 71 anos, está preocupada: “A exposição dessa modelo só traz mais revolta e frustração para os demais, que vão continuar invisíveis”.

Para Tina, “a figura da Loemy não traz reflexão sobre o resto da Cracolândia. Lá circula gente feia, pobre, desdentada. A estes, que também precisam de ajuda, fica a sensação de que não merecem atenção.”

Tina, que conhece boa parte dos usuários pelo nome e costuma ser recebida com abraços em visitas semanais ao local, se refere à ex-modelo viciada em crack que ganhou fama após ser capa da revista Veja São Paulo no último fim de semana.

Uma fotomontagem que espelha o rosto de Loemy Marques nos tempos de passarela com suas feições atuais, marcadas pelo uso da droga, foi reproduzida em sites, jornais e na televisão. Programas vespertinos dedicaram horas ao tema – um deles, no próximo domingo, promete custear sua internação em uma edição especial sobre a trajetória da moça.

A repercussão causou frisson nas redes sociais. De um lado, elogios e torcida pela “jovem-símbolo” da degradação causada pela droga, “que também pode vitimizar a classe média”. Alguns apontam que o destaque conseguido na mídia pela história da ex-modelo tem o aspecto positivo de aumentar a conscientização da população para as condições enfrentadas pelos dependentes de crack em São Paulo.

Por outro lado, circulam críticas à escolha da “loira magra, de 1,79 metro de altura e olhos verdes”, nas palavras da revista, em detrimento da maioria – que em geral não atende aos padrões tradicionais de beleza.

A assistente social concorda com a última opção.

“Acho tudo isso cruel. Com ela (Loemy) e com os outros”, diz. “Você passa anos invisível e, de um dia para o outro, é disputada por camarins e holofotes. Programas de televisão trazem deslumbramento, mas não oferecem estrutura para quem está doente.”

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Holofotes

Tina ficou conhecida pela população de rua nos anos 1970, quando se mudou de Jaú, interior de São Paulo, para a capital. Desde então, trabalhou com diferentes grupos que vivem em situação de vulnerabilidade na região central.

Primeiro, se aproximou de pessoas que dormiam em praças e sob viadutos. Depois, na antiga Febem (Fundação Estadual para o Bem Estar do Menor), ofereceu apoio a menores acusados de delitos e suas famílias. Mais tarde, dedicou-se às travestis e prostitutas expostas à violência e aos riscos do recém-chegado HIV. Nos anos 1990, conheceu o cotidiano dos usuários de crack da alameda Cleveland – onde até hoje eles se reúnem.

A assistente social ganhou fama no ano passado graças à “terapia do abraço” que implantou na região frequentada pelos craqueiros.

Em passeios noturnos, sozinha, ela passa horas conversando com os usuários e agindo como ponte entre suas demandas e o poder público. Tudo sempre depois de um longo abraço – ela considera o gesto importante para mostrar que “a conversa é de igual para igual”.

Tina, que diz conhecer a ex-modelo “de vista”, afirma temer pelo dia em que “os holofotes se apagarem”.

“Já vi casos parecidos: a família descobre o parente, leva o cara para uma clínica particular com tudo do bom e do melhor, mas não quer saber que tipo de terapia o usuário prefere encarar. Em todos, a pessoa voltou para a rua depois. Quando não parte do usuário, a droga costuma vencer. Por isso o meu lema: quem pita é quem apita.”

Uma pesquisa feita pela fundação Oswaldo Cruz com usuários de crack de todos os estados do país e no Distrito Federal endossa a opinião de Tina. O estudo, divulgado neste ano, indica que menos de 5% dos entrevistados completam seus tratamentos contra a dependência.

Nos últimos 40 anos, Tina Galvão trabalhou com mendigos, menores infratores, travestis, prostitutas e usuários de crack
Nos últimos 40 anos, Tina Galvão trabalhou com mendigos, menores infratores, travestis, prostitutas e usuários de crack

Mulheres

A assistente social lamenta que a discussão não se estenda aos demais frequentadores na Cracolândia – especialmente as mulheres.

“Elas são sempre as mais vulneráveis. Para algumas, vai surgir a esperança de ser a próxima Loemy. Mas a maioria vai sofrer e continuar se prostituindo e se sujeitando a violências. Vão se perguntar: ‘Por que não estão preocupados comigo? Porque eu sou feia, porque tenho o rosto machucado, porque tenho varizes’.”

O estudo da Fiocruz mostra que 20% dos frequentadores de cracolândias são mulheres. Depois de entrevistar e realizar testes com 32.359 usuários, a pesquisa indicou que, entre as mulheres, 8,17% eram portadoras de HIV e 2,23% tinham hepatite C. Entre os homens, respectivamente, os índices foram 4,01% e 2,75%.

A assistente diz concordar “em parte” com o projeto Braços Abertos da prefeitura de São Paulo, que oferece trabalho e hospedagem em hotéis da região para usuários dispostos a abandonar a droga.

“Para as pessoas mais estáveis, com mais autocontrole, vale algo como o Braços Abertos, que retoma a dignidade e traz oportunidades de trabalho e moradia que são raros para quem está na rua. Mas tem uma grande parcela que não tem a menor estrutura psicológica e uma dependência muito grande da droga”, afirma.

Para estes, segundo Tina, é preciso “um trabalho intenso de saúde mental”.

“Mas sempre respeitando as vontades e limites do usuário, do contrário não dá certo”, diz. “É um processo lento, cuidadoso, mas que traz resultado.”

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A ex-modelo viciada em crack e o nosso racismo implícito

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Tony Goes, na Folha de S. Paulo

Dois anos atrás, o “mendigo gato” causou comoção nas redes sociais. Assim que foi postada uma foto do então morador de rua em Curitiba, surgiram pessoas dispostas a ajudá-lo. “Vamos dar emprego, vamos dar abrigo, vamos tirá-lo dali!”, bradavam os internautas. Pela mais prosaica das razões: o rapaz, um ex-modelo viciado em crack, era de fato muito bonito.

Agora a história se repete – só mudou o sexo da protagonista. Loemy Marques teve seu drama revelado pela revista “Veja São Paulo”, e jornalistas de diversos órgãos partiram imediatamente em seu encalço. Equipes de TV disputaram quase que a tapa o privilégio de levá-la a seus programas.

Tudo muito bonito, claro. E também não resta dúvida de que a moça mereça toda essa atenção. Mas aí, surge a pergunta que não quer calar: por que só ela?

A cracolândia paulistana é povoada por gente oriunda de todas as classes sociais, mas a imensa maioria não tem o apelo midiático de Loemy. Nenhum deles gerou um mutirão de solidariedade, nem atraiu para si as câmeras da televisão. Por que muitos deles são pobres, são feios, muitas vezes desdentados – e, muitas vezes, negros.

Loemy Marques e Rafael Nunes, o “mendigo gato”, foram reconhecidos como “um dos nossos” por boa parte do público com acesso à internet. Não deveriam estar dormindo ao relento, muito menos se prostituindo para poder comprar a droga. Precisamos resgatá-los, e rápido!

Ambos são louros de olhos azuis. Ambos eram modelos antes de decaírem. Desvios imprevistos de rota levaram-nos à marginalidade. Pelo curso natural das coisas, deveriam estar morando em casas confortáveis e fazendo carreiras de sucesso.

Ainda mais poderosa que a beleza dos dois é a raça. Duvido, mas duvido muito, que uma ex-modelo negra tivesse a mesma sorte que Loemy. No máximo, ela ganharia uma reportagem num desses programas vespertinos sensacionalistas. Afinal, adoramos conhecer a desgraça de quem um dia esteve bem, mas já não está mais.

Essa curiosidade mórbida justifica parte do circo armado ao redor de Loemy (na segunda, 24, a matéria da Folha sobre ela foi a mais lida de todo o UOL). Mas não explica a avalanche de solidariedade que a ex-modelo vem recebendo.

No próximo domingo, ela será exibida feito um troféu num programa de auditório. Estará de banho tomado, penteada, maquiada e usando roupas novas. Mas não, não estará curada: nenhuma clínica de reabilitação oferece resultados em menos de uma semana.

Mesmo assim, teremos a gostosa sensação de missão cumprida. Mais uma beldade loura que foi salva de uma vida de desespero. Mais uma branca de “boa aparência” que foi reconduzida ao bom caminho.

Enquanto isto, milhares de “nóias” negros e mulatos permanecem nas ruas.

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30 sinais de que você já tem quase 30

Jessica Misener, no BuzzFeed

1. Quando alguém lhe pede um documento para conferir se você é maior de idade, a sua primeira reação é: “BELEZA”.

anigif_enhanced-buzz-24896-1372359982-142. Em vez de fotos de bebedeiras em festas, os seus amigos no Facebook só querem saber de fotinhos de bebês.

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Bebês Gêmeos, chorando e Rindo de novo. Você vai se apaixonar por eles… É o melhor do melhor… Espero pelo menos 100 compartilhamentos desse vídeo… Por favor, não nos decepcione… divirta-se

3. … e tempos finais de maratonas.
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4. Você fica super animado quando vai a um show e vê que há ASSENTOS.

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5. Você começa a contar uma história dizendo “quando eu estava na faculdade”, e percebe que isso foi 10 anos atrás.
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6. Quando você assiste a filmes/programas de TV para adolescentes, você fica mais do lado dos pais do que dos filhos.
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7. Você já foi a um bar e foi embora porque estava muito barulhento.
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8. Você tem 10.000 cartões de visita de antigos empregos, e não tem a menor ideia do que fazer com eles.
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9. Você se tornou um nazista do protetor solar.
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10. Quando você vê celebridades legais com uns trinta e poucos, você pensa: “Ainda há esperança”.
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11. Você tem cada vez mais medo de conferir a sua avaliação de crédito.

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12. Você está pensando seriamente em ter um cachorro.Não, em ter um bebê.Não, definitivamente em ter um cachorro.
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13. Você prefere pagar um pouco mais por um quarto de hotel “bom e limpo” do que se espremer num hostel com outros 12 amigos.
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14. Tudo que há de legal no mercado tem como alvo pessoas mais novas do que você.
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você provavelmente quer voltar a assistir o seu NCIS
15. Você definitivamente perdeu as enzimas que permitiam que você digerisse Taco Bell.

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Pirataria é elogio maior que o Emmy, diz CEO da Time Warner sobre Game of Thrones

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Publicado no Blue Bus

O diretor do seriado Game of Thrones, David Petrarca, já tinha dito acreditar que a pirataria do seriado era interessante pelo buzz cultural que gerava, e até o autor da saga, George R. R. Martin, dizia que ela era uma forma de ‘elogio’, apesar de ele preferir não recebe-lo, mas agora quem fez a constatação curiosa foi o CEO da Time Warner, Jeff Bewkes.

Para ele, o número de downloads do seriado, mesmo sendo ilegais, pode ser mais importante do que prêmios de TV – “Sim, eu acho que Game of Thrones é um dos programas de TV mais pirateados do mundo. Isso é melhor que um Emmy”, constatou o executivo. Com AdWeek, via The Verge.

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“Hashtag é a fogueira da era digital”, diz executivo do Twitter

Em sua primeira visita ao Brasil, presidente de receitas globais da companhia revela próximos passos do microblog e diz que o uso de marcações, reconhecidas pelo símbolo ‘#’, modifica a maneira como as pessoas compartilham suas histórias

Adam Bain, presidente de receitas globais do Twitter (Noah Berger/Reuters)
Adam Bain, presidente de receitas globais do Twitter (Noah Berger/Reuters)

Rafael Sbarai, na Veja on-line

Aos 39 anos, o americano Adam Bain tem uma missão fundamental para o crescimento do Twitter em todo o planeta: angariar novas receitas para o microblog fundado em 2006 por Evan Williams, Biz Stone e Jack Dorsey. Só em 2013, segundo levantamento produzido pela empresa de análise de marketing digital eMarketer, a receita publicitária da empresa deve somar 582,8 milhões de dólares, quase o dobro do que foi apresentado no ano passado. Em 2014, esse número pode chegar a 1 bilhão – e o Brasil terá participação especial nessa fatia, uma vez que tem a segunda maior base de usuários do Twitter no mundo, atrás apenas dos Estados Unidos.

Há três anos no cargo de presidente de receitas globais da companhia, Bain desembarcou nesta semana em São Paulo para conhecer o mercado nacional junto com outros executivos da companhia. Um, contudo, chamou atenção: Jean-Philippe Maheu, ex-CEO da Bluefin Labs, empresa que analisa comentários em redes sociais para medir a eficácia de comerciais e programas de TV e que foi adquirida recentemente pelo Twitter. Sua presença revela outra estratégia velada da empresa no país: explorar o nascente mercado da segunda tela, como é chamado o uso de smartphones ou tablets para comentar ou complementar a programação da TV em tempo real. Para tanto, Bain acredita no poder das hashtags, espécie de marcação de um tema de discussão no Twitter, reconhecida pelo símbolo “#”. “Hashtags são como uma fogueira. As pessoas se reúnem digitalmente a sua volta”. Confira a entrevista a seguir, concedida em um hotel em São Paulo:

Na sua opinião, qual é a importância do Twitter? Fico impressionado com o papel desempenhado pelas hashtags e o microblog. No passado, o ser humano se reunia em torno do fogo para relatar momentos especiais. Hoje, as pessoas usam o Twitter para compartilhar o que sabem e se informar. Para acompanhar esse relato, nossos usuários geralmente antepõem ao assunto o símbolo sustenido “#”. A hashtag virou a fogueira da era digital. As pessoas se reúnem digitalmente em sua volta e, de uma maneira tão simples, conseguem se aproximar de pessoas de um mesmo interesse. O Twitter é só um intermediário.

Como isso tem funcionado na prática? Em 2011, durante a última paralisação na liga de basquete do mundo, a NBA, o americano Kevin Durant, um dos maiores astros do esporte, enviou um tuíte em seu perfil pessoal perguntando se alguém queria disputar na cidade de Oklahoma uma partida de flag football (variante do futebol americano que é praticada até em parques de São Paulo). Em segundos, um estudante de uma universidade enviou uma resposta ao jogador, dizendo que amigos se reuniriam para participar de um jogo. Durant se interessou e agradeceu o convite – e compareceu de fato à partida de flag football. Esse relato mostra como é possível aproximar anônimos de famosos.

O que faz o Twitter ser uma empresa rentável? Não podemos compartilhar números, mas nossas fontes de receitas publicitárias, que permitem que pessoas e marcas alcancem um público maior, são baseadas em três recursos: o envio de mensagens automáticas na página do usuário e a possibilidade de promover algum perfil no microblog de acordo com interesses dos cadastrados, além da inserção e destaque de termos ou palavras entre os assuntos mais discutidos na rede, popularmente conhecidos pelos brasileiros como Trending Topics.

Durante sua passagem no Brasil, o que mais lhe chamou atenção?
Fiquei impressionado com a quantidade de pequenos estabelecimentos, como restaurantes e bares, que adotam o passarinho (símbolo do Twitter) para ampliar o diálogo de seus consumidores nas redes sociais. Devemos aproveitar e vamos abraçar o setor de pequenas e médias empresas aqui no país. Essa é a importância de conhecer novos locais: você acaba se adaptando a eles. Acredito que devemos ter um time dedicado a isso.

Recentemente, o Twitter recrutou um experiente jornalista do The Guardian para coordenar uma área de dados. Afinal, após sete anos de existência, o Twitter é uma empresa de mídia, uma rede social, um microblog ou uma companhia de dados? O Twitter tem em seu DNA o seguinte valor: que as pessoas sejam informadas e conheçam o que está acontecendo ao seu redor e no mundo. Logo, todas essas características mencionadas por você se cruzam em algum momento.

Qual o futuro que é reservado ao Twitter? Algo voltado ao conceito de segunda tela? Sim. A empresa tem uma participação nada desprezível no mercado de segunda tela. No Brasil, temos eventos genuinamente populares em nossa plataforma, como jogos de futebol, reality-shows e, principalmente, novelas. Nesta semana, acompanhei de perto os comentários relativos à novela Salve Jorge, da Rede Globo. Em sua grande maioria, fiquei atento às mensagens da autora da trama, Gloria Perez. Antes mesmo do início do capítulo, ela mesmo fornece algumas pistas ou relata detalhes do que vai acontecer. É um ótimo uso da ferramenta para incentivar ainda mais telespectadores a acompanhar o desfecho da novela.

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