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Como lidar com o filho que segue religião diferente da dos pais

Antes de criticar a escolha do jovem, procure entender o que o levou a uma religião diferente da sua ilustração: Lumi Mae/UOL

Antes de criticar a escolha do jovem, procure entender o que o levou a uma religião diferente da sua ilustração: Lumi Mae/UOL

Catarina Arimatéia, no UOL

O jovem foi criado de acordo com os preceitos religiosos que os pais acreditam e praticam, mas um belo dia comunica que se interessa e está seguindo outra religião. Como lidar? Como em todas as questões relacionadas à convivência entre adultos e adolescentes, o primeiro passo é respeitar e entender a motivação por trás da mudança.

Segundo o padre Valeriano dos Santos Costa, diretor da Faculdade de Teologia da PUC de São Paulo, o melhor caminho é sempre o do diálogo e o da compreensão. “Em primeiro lugar, os pais devem tomar conhecimento de que religião se trata e quais as implicações para a vida do filho e a da família. Ao mesmo tempo, têm de se colocar no lugar do jovem para entender seus anseios. Precisam também considerar que os tempos mudaram e que os adolescentes de hoje fazem exigências que a geração dos pais não fazia. Eles querem ser ouvidos e participar de tudo. São mais críticos, embora nem sempre consistentes.”

É essencial ter bom senso ao conversar sobre o assunto. “Os pais precisam perceber que nem sempre o que foi ou é bom para eles também é adequado para o filho. Portanto, devem permitir que ele procure seu caminho espiritual. A religião pode ser um apoio, uma sustentação emocional e não deve ser simplesmente cortada por mero capricho, cisma ou intolerância dos adultos. Se está fazendo bem para o filho, não há por que reprimir”, afirma a terapeuta familiar e especialista em psicodrama Miriam Barros.

Como a adolescência é uma fase de paixões e interesses intensos, mas não raro passageiros, vale observar o comportamento do filho antes de entrar em discussões. “É importante entender a razão pela qual ele está seguindo outra religião. Às vezes, é só porque uma menina por quem está interessado faz parte dela”, diz Marina Vasconcellos, psicóloga e terapeuta familiar pela Unifesp (Universidade Federal de São Paulo). Também pode ser pela necessidade, bastante comum na faixa etária, de pertencer a um grupo.

Seja qual for o motivo que levou o jovem a se distanciar da religião praticada pela família e a adotar outra, o pior a se fazer nesse momento é tentar proibir a prática. “A repressão é puro jogo de forças e não leva ao diálogo”, declara o padre Valeriano, da PUC de São Paulo.

Opor-se, sem fundamento, à nova religião do filho é a pior forma de lidar com a situação. “Tem de se tomar cuidado para não virar coisa pessoal, o que provocaria mais resistência do outro lado. Se isso acontecer, não importa tanto a religião, o que importa é que ela se torna argumento para contestar os pais. Só existe um meio para ajudar os outros: amor e diálogo. Nesse clima é possível dizer a verdade sem ferir”, fala o religioso.

Conciliar crenças religiosas na mesma família é possível desde que a tolerância seja praticada, de acordo com os especialistas ouvidos nesta reportagem. “É preciso se colocar no lugar do outro e, acima de tudo, evitar disputas, competições, zombarias, tirar sarro, provocações. A verdade de um pode não ser a do outro”, diz a terapeuta Miriam Barros.

Sinal de preocupação

Respeitar, no entanto, não quer dizer não observar se a nova religião afeta ou não o comportamento do adolescente e de que maneira isso acontece. “O que pode parecer fanatismo, muitas vezes, é apenas um entusiasmo natural. Desde que o jovem continue a ter uma vida familiar, escolar e social normal, não há problema”, declara a terapeuta Miriam Barros.

Há atitudes que podem ser indício de uma dedicação exagerada à crença, segundo a terapeuta Marina Vasconcellos. “Soube de um caso em que o filho, que adorava música, jogou fora todas as partituras de canções que sempre havia tocado”, fala a especialista.

Mais uma vez, é importante recorrer ao diálogo e acompanhar o jovem à igreja que ele escolheu para melhor conhecê-la. Se a comunicação estiver difícil, os pais também podem pedir que algum adulto da confiança do jovem converse com ele ou, em casos extremos, optar pela terapia em família. A repressão deve ser o último recurso. “A proibição gera revolta. É provável que, de uma forma ou outra, o filho encontre uma maneira de fazer o que deseja”, diz Miriam.

Fé e saber

GRADUADO

Vladimir Safatle, na Folha de S.Paulo

Na semana passada, escrevi artigo criticando colocações de dom Odilo Pedro Scherer a respeito da submissão de uma universidade confessional ao quadro dos ditos valores católicos, com seus dogmas e preconceitos.

Insisti que uma universidade não é simplesmente uma propriedade privada, mas uma autorização do Estado. É o Estado brasileiro que legitima o diploma dado por toda e qualquer universidade. Nada mais normal, então, que elas sigam injunções que o Estado democrático compreende como fundamentais para uma formação universitária adequada, como o respeito ao livre pensamento e ao desenvolvimento do senso crítico.

Note-se que, em momento algum, disse que valores religiosos não devem ser objetos de debate e conhecimento no interior de uma universidade.

Na verdade, disse que uma universidade não pode submeter sua liberdade de pesquisa e de crítica a conjunto algum de valores religiosos, muito menos de interesses ligados ao mercado ou a interesses do próprio Estado.

Nossos alunos devem conhecer valores religiosos, já que eles são elementos maiores para a formação da cultura e da experiência do pensamento. Não entenderemos como pensamos o tempo, a identidade, a relação com o corpo, o poder, o outro, assim como não entenderemos os limites e potencialidades de nossas formas de pensar, sem passarmos pelo impacto que discussões teológicas tiveram no pensamento.

No entanto nossos alunos têm a necessidade de conhecer bem valores de todas as religiões, e não apenas de uma específica, com suas leituras peculiares.

Por exemplo, se nossos alunos, desde o ensino médio, conhecessem as discussões teológicas muçulmanas talvez tivéssemos menos absurdos circulando, quando é questão de tentar compreender as sociedades árabes. O mesmo vale para a tradição judaica. Talvez entenderíamos melhor aqueles que queremos, custe o que custar, colocar sob a rubrica de atrasados e irracionais.

Mas, para tanto, não precisamos de cursos de teologia ou de formação religiosa. Precisamos de cursos de história das religiões e de seus sistemas de pensamento.

Não é verdade que fé e saber andam juntos. Mais de 400 anos para que a igreja perdoasse Galileu deveria servir, ao menos, para alguns terem mais humildade quando falam sobre tal relação.

No entanto é verdade que o saber reconhece como há algo na fé que demonstra como ele começou, de onde ele veio e quais são seus pontos de quebra. Por isso, um conhecimento sobre a história das religiões é uma aquisição fundamental para toda formação crítica.

imagem: Internet

Saiu na Folha de S.Paulo: “Ary Velloso: Pastor que mudou o jeito de pregar”

Estêvão Bertoni, na Folha.com

Na sala de casa, Ary Velloso da Silva fundou no fim dos anos 70 uma igreja. Com o tempo, o número de frequentadores pulou dos cinco iniciais para 15. Com 500, as reuniões ocorriam num hotel.

A igreja batista passou ainda por uma escola de São Paulo antes de ocupar a atual sede no Morumbi, na zona sul da cidade, onde recebe até cerca de 5.000 pessoas.

Ary, filho de um militar, nasceu na mineira Congonhas do Campo e cresceu em Belo Horizonte. Mudou-se para São Paulo para estudar. Na PUC, formou-se em letras.

O mestrado em teologia ele fez nos EUA. Voltou ao Brasil em 1968, já como pastor.

No ano seguinte, em Bauru, conheceu Carolina, uma pianista norte-americana que tinha vindo a São Paulo para se apresentar. Ela retornou ao seu país, mas os dois ficaram noivos por telefone.

Em 1970, Ary foi a Califórnia casar-se na igreja dela. Após oficializarem a união, o casal veio viver no Brasil

O pastor criou igrejas em Campinas, Vinhedo, São Bernardo do Campo, Florianópolis e Granja Viana. Em 2004, saiu da do Morumbi para criar mais uma em Londrina.

Segundo o pastor Lisânias Moura, o amigo modificou a forma dos cultos, tornando-os informais (sem a necessidade de paletó e gravata). Usava músicas e contava piadas –palmeirense, sempre tirava sarro do Corinthians.

Como conta a mulher, o marido vivia com base no versículo “para mim, o viver é Cristo, e o morrer é lucro”.

Nos últimos 13 anos, viveu com um coração transplantado. Morreu na quarta (25), aos 77, de problemas cardíacos. Teve dois filhos e três netos.

dica da Judith Almeida

PUC-RJ oferecerá “Curso de Beatles”

Publicado originalmente no Pop

Uma noite por semana, de abril a junho, os professores da Pontifícia Universidade Católica terão uma sala de aula equipada para apresentar slides, música e vídeos para uma turma de beatlemaníacos.

No curso, intitulado “Beatles: História, Arte e Legado”, os alunos debaterão a trajetória e obra de Lennon, McCartney, George Harrison e Ringo Starr. São 30 vagas, que serão preenchidas pelas primeiras 30 pessoas que pagarem R$ 1860, parcelado em até quatro vezes.

Foi a história de uma canadense mestre no curso de Beatles na Universidade de Liverpool que deu a Eduardo Brocchi há três anos a ideia de fazer uma versão brasileira e, desde então, ele recruta outros mestres beatlemaníacos para repassar seu conhecimento. Brocchi é coordenador do curso, além de professor de engenharia de materiais na universidade.

O corpo docente é representado por, além de Brocchi, outro engenheiro metalúrgico, um dentista e professores de letras e publicidade da universidade. A grade do curso foi montada pelo próprio Eduardo, que dispensou testes e provas finais.

Todo o material do curso vem do acervo pessoal dos próprios professores e as aulas são uma tentativa de compartilhar conhecimentos e histórias dos Beatles com quem quiser (e puder, financeiramente falando). O coordenador do curso, por exemplo, junta artigos do quarteto desde 1962, tendo, além de todos os LPs, o que chamou de uma “Beatleteca”. E o ano ajuda: 2012 é o aniversário de 50 anos do lançamento do primeiro disco oficial.

Eduardo Brocchi compara o curso a uma espécie de sarau, dizendo que cada um dos professores convidados entende sobre uma etapa diferente da vida dos Beatles. Sua única frustração foi o valor da mensalidade, que não esperava que ficasse tão alto – o que já fez alguns alunos desistirem do curso.

Até onde a gratidão pode nos levar

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Cristiane Segatto, no site da Época

Quase nunca é fácil. Quem já teve na família um idoso acamado sabe disso. Cuidar exige uma paciência sem limites. Ser cuidado também. Quando a vida se aproxima do fim, caem todas as máscaras. A convivência íntima revela que somos fragilidade, dependência e, ao mesmo tempo, nobreza. Algumas pessoas, é verdade, são mais nobres que outras.

Até a semana passada tudo o que eu sabia sobre a professora de Serviço Social Nadir Kfouri é que ela havia sido reitora da PUC de São Paulo num dos períodos mais sombrios da história brasileira.

Na noite de 22 de setembro de 1977, a universidade foi invadida por policiais comandados pelo coronel do Exército e então secretário de Segurança Pública de São Paulo, Erasmo Dias.

O objetivo era reprimir a reunião de alunos que os militares consideraram ser um congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE), à época ainda na clandestinidade.

Centenas de alunos foram detidos. Vários ficaram feridos. Outros sofreram queimaduras provocadas por bombas. No episódio, Nadir deu uma prova da coragem que a caracterizaria até o final da vida.

É famosa a foto (acima) que revela o momento em que ela procura o coronel Erasmo Dias para expressar sua indignação. Logo depois, o coronel estenderia a mão para cumprimentá-la.

A reitora deixou o coronel com a māo suspensa no ar. Virou-lhe as costas ao mesmo tempo em que disse :“Nāo dou a māo a assassinos”.

Essa mulher de fibra – descrita pelas pessoas próximas como turrona, brava e, ao mesmo tempo, amorosa – foi a primeira mulher no mundo a dirigir uma universidade católica depois de ser eleita por alunos, funcionários e professores. Para que assumisse o posto, foi preciso que Dom Paulo Evaristo Arns intercedesse em seu favor junto ao Papa Paulo VI.

Nadir morreu no dia 13, de pneumonia, aos 97 anos. Era tia do jornalista Juca Kfouri. A reputação da corajosa Nadir de 1977 eu conhecia. O que eu não conhecia era a Nadir que viria depois.

No apartamento do Itaim Bibi, em São Paulo, onde a professora viveu seus últimos dias, tive o prazer de conversar com a empregada doméstica Cleusa das Graças Ribeiro Gomes (foto), de 55 anos. Mineira de Três Corações, Cleusa cuidou de Nadir nos últimos 22 anos.

A convivência entre essas duas mulheres nobres é uma inspiradora história de vida. Merece ser conhecida.

Cleusa chegou a São Paulo em 1989. Veio para cuidar da mãe de Nadir, uma senhora de 95 anos que já não saía da cama. As três passaram a morar juntas no apartamento do Itaim. Quando Dona Noemi morreu, Nadir propôs que Cleusa continuasse trabalhando para ela.

“Fique aqui para cuidar de mim como cuidou da minha mãe”, disse. Aos 75 anos, safenada, solteira e sem filhos, Nadir tinha consciência de que, em breve, precisaria de uma cuidadora.

Não poderia calcular, no entanto, as boas surpresas que estavam por vir. Alguns anos depois, Cleusa engravidou. Com medo da reação da patroa geniosa, pediu demissão. Continue lendo