Quando minhas palavras voaram

Publicado por Fabrício Carpinejar

Nossa vida não é triste.

Mesmo quando não temos uma alegria, temos uma esperança.

A esperança é a alegria nascendo.

Nunca fui vítima do passado, órfão da memória, coitadinho da infância.

Não me diferenciei pela dor, nem me destaquei pela tristeza.

Detesto reclamar. Reclamar só chama rancor.

O que eu passei, passei, superei de algum jeito, os traumas não me mataram.

As brigas não me levaram ao ódio e ao ressentimento. Não fiquei sequelado.

Aquilo que parecia um sofrimento eterno também esqueci.

Não irei me vangloriar das feridas. Gosto mais das minhas sardas do que das minhas cicatrizes.

Sofri o que aguentei. Aguentar é deixar de sofrer.

Fui educado numa escola pública em que não tinha ninguém para me defender.

Durante dois anos, cedi meu prato de comida para a turma da rua Lavras. O bom é que odiava sagu e polenta, as duas refeições básicas da época.

Era terrível a gangue formada por garotos quatro anos mais velhos do que eu. Andava com canivete e chaco. Arrastava vítimas pelos corredores do Imperatriz Leopoldina. Cobrava a feitura de temas e revistava bolsos dos colegas no recreio.

Desfalcou várias vezes minha mochila. Levou estojos, cadernos, réguas e a coleção de bolitas.

Sobrevivi ao roubo. Sobrevivi ao medo. Sobrevivi aos reveses.

Lembro que eles me seguraram pelos pés na janela do terceiro andar do refeitório.

Fiquei balançando do lado de fora. Um ioiô das risadas dos meninos.

Eu gritava de horror.

Quinze minutos balançando pelo avesso. Um enforcado dos pés.

Como se estivesse num kamikaze do parque de diversão.

Alucinado de ponta-cabeça. Batendo com o peito na parede do lado de fora.

Minhas palavras de socorro voaram pelo pátio. Pelo bairro. Foi quando aprendi a voar pela boca.

Eu me esvaí em lágrimas como qualquer criança naquela situação-limite.

Devo ter mijado, devo ter babado, devo ter feito o testamento na hora.

Olhava para baixo e me enxergava despedaçado no concreto.

A poça de sangue marcaria minha despedida do mundo.

Os guris me mantinham preso apenas pelos tênis.

Agradeço que usava Kichute amarrado nas canelas, o calçado nunca escorregava. O cadarço firme como um cordão umbilical.

Se não fosse o Kichute, estaria morto.

Sempre teremos uma esperança maior do que a tristeza. A esperança já é uma alegria.

Mesmo que seja um Kichute.

arte: Alexandre Calder

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A nova safra de chatos

A safra de 2013 tem se revelado muito rica de sabores. 2013 tem sido um bom ano para novos tipos.

chatos

Arnaldo Jabor, em O Globo

Uma vez, escrevi um artigo sobre “os chatos” que foi um sucesso entre chatos e não chatos. Descobri em minhas pesquisas que o chato se sabe como tal, mas é movido pela esperança obstinada de um dia se libertar dessa categoria e ser aceito por todos. Nesta utopia ele se gasta e chateia todo mundo. Existem muitos tipos de chatos catalogados, sendo o mais famoso deles, o rei, o fundador, o “chato de galochas” cujo nome provém do cara que saía de casa com chuva torrencial, calçava as galochas e ia encher o saco de alguém. O contato com os chatos me revela uma variada gama de comportamentos de nosso tempo. Os chatos sempre se renovam em safras, como os vinhos. A safra de 2013 tem se revelado muito rica de sabores: uns mais encorpados, outros mais suaves e divertidos etc… 2013 tem sido um bom ano para novos tipos.

Depois que eu comecei a falar na TV, virei um papel de mosca para chatos. Não quero bancar o “famosinho” mas, veja bem (como dizem os chatos), o sujeito te vê na TV, no quarto onde ele está transando com a mulher e você na tela, falando sobre o mensalão. O cara fica íntimo, te agarra na rua e gruda como um colega conjugal.

Há chatos masoquistas e sádicos. O primeiro é aquele que gosta de chatear para ser maltratado: “Porra, não enche, cara!” Ele adora ouvir essa frase para remoer um rancor delicioso que valoriza sua solidão: “Não me entendem, logo sou especial!”

O chato sádico quer ver teu desespero e escolhe os piores momentos para te azucrinar: “Poxa, sei que sua mãe morreu ontem, mas ouve meu problema com minha mulher…”

Temos o chato do elevador. Estou num elevador vazio, indo para o 20. Entra um cara, e me olha. Eu, precavido, já estou de cabeça baixa. Há uns momentos tensos de dúvida: “Ele ousará falar?”, penso. Passam uns andares. Não dá outra: “Você não é aquele cara da TV?” “Sou”, digo, pálido. “Como é teu nome mesmo?” “É Arnaldo”, digo eu, querendo enforcá-lo na gravata de bolinhas. “Não… é outro nome..” “Jabor”, digo, desesperado. “Isso, porra, claro… É você mesmo que escreve aquelas coisas?” E eu penso, sorrindo: “Não; é a tua mãe que me manda”.

E os autógrafos? “Seu nome qual é, meu bem?” “Ildilene… não… faz de novo — Yldilene, com Y…” “Pronto!”, digo. “Escreve também para meu noivo, aqui no guardanapo, ele te adora… Hermogênio… com H…” Um dos mais angustiantes é o chato íntimo altissonante, que berra de longe seu nome na churrascaria: “E aí, Ronaldo Jabur, isso tem jeito?”

E o chato em dupla? Isso aconteceu. Oito da manhã, aeroporto (sempre esse lugar fatal) e vem o cara. “O mensalão vai dar em alguma coisa?” Começo a balbuciar qualquer coisa. Aí veio um outro cara, que queria falar também. E então deu-se a epifania da chatura. Os dois começaram a discutir porque o recém chegado queria me chatear também… e um era de esquerda e o outro de direita. Assisti maravilhado a uma polêmica febril sobre nosso futuro.

Com a velocidade da tecnociência, multiplicaram-se os chatos do Facebook e os “chatos do celular” Ou seja, de repente você se vê posando ao lado de um bigodudo desconhecido no banheiro, enquanto o faxineiro clica, entre privadas, a foto para a eternidade. Ha também o famoso chato-corno que te pede para falar ao telefone com sua mulher (“Fala com a Flavia — ela te adora”…). E por aí, vão…

Mas, tirante, é óbvio (uma chatíssima expressão) os chatos conhecidos, me interessa mais nesse artigo examinar a forma, o estilo do chato, o que os move, a que aspiram.

Eles surgem de longe. Fingem que não te veem, mas eu (velho de guerra) sei que eles virão. Eles chegam sorrindo, mansos, se autocriticando na base do “não quero te chatear, mas… quem manda aparecer na TV? Ha ha?”

Em geral, ele exibe uma expressão facial entre a admiração por você mesclada a uma pontinha de malignidade, porque ele se sabe importuno e porque há sim crueldade na admiração. Quando ele nota que você adota posições de fuga, suas falas se encadeiam em metralhadora de palavras, de modo que não haja brechas que te permitam uma desculpa tipo “meu pai está no hospital e tenho de ir correndo…” Ele não ouve e te segura o braço, quando você começa a se debater. Alguns demonstram insatisfação com a atitude fugitiva e a irritação lhes assoma no rosto, pois afinal ele está te elogiando e você denota ingratidão.

Ele sente meu sorriso glacial e se mostra ofendido, o que provoca em mim um vago sentimento de culpa que tenho de superar até me desprender e sair apressado. Mas, ele me segue com cara de desprezado, sob o olhar reprobatório de circunstantes que te chamarão de “metido a estrela só porque diz aquelas bobagens na TV”.

A importância dos chatos é antropológica. Neles estão contidos muitos anseios individuais de nossa cultura: o queixume político, a esperança de serem aceitos, o rancor contra os políticos. É extrema a violência de muitos choferes de táxi, por exemplo: “Tem mais é que matar esses putos todos, Maluf é que sabia…” ou a homofobia explícita: “esses viados têm de entrar é na porrada…”

É necessário um estudo: a sociologia do chato. Guilherme Figueiredo tentou e fez um livro chatíssimo. O chato não pode ser maltratado; primeiro, porque não adianta, ele gruda; segundo, porque são um tesouro cultural. Nossa plêiade de chatos é um resumo de nosso desejo de felicidade, de um encontro solidário entre contemporâneos. Continuo a achar que o chato crônico, legítimo, “escocês” é, antes de tudo, um carente. Ele precisa de você para viver; sozinho, ele definha como um vampiro sem canudinho. Provavelmente, tiveram pai que batia, mulher que traía, e são vítimas de uma compulsão inelutável.

Por isso, não sou contra os chatos. Eles são nós. A gente sempre é chato para outro alguém. Meu Deus, quantas vezes já aporrinhei tantos. Como lutar contra eles? O Tom Jobim, uma das maiores vítimas de chatos, me ensinou um truque: “Use óculos escuros. O chato fica desorientado quando não vê teus olhos. O chato quer ver o próprio rosto refletido em teus olhos desesperados. Com você de óculos escuros, ele desiste e vai embora”.

tirinha do Will Leite

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22 coisas que pessoas felizes fazem diferente

Lili e Marininha, no Agora Sim!

Existem dois tipos de pessoas no mundo: aquelas que escolhem ser felizes e aquelas que optam por ser infelizes. Ao contrário da crença popular, a felicidade não vem da fama, da fortuna ou de bens materiais. Ela vem de dentro. A pessoa mais rica do mundo pode estar miseravelmente infeliz, enquanto um sem-teto pode estar sorrindo e contente com a sua vida. As pessoas felizes o são porque se fazem felizes. Elas têm uma visão positiva da vida e permanecem em paz com elas mesmas.

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A questão é: como elas fazem isso?

É muito simples. As pessoas felizes têm  hábitos que melhoram suas vidas e se comportam de maneira diferente. Pergunte a uma pessoa feliz e ela vai dizer:

1. Não guarde rancor.

As pessoas felizes entendem que é melhor perdoar e esquecer que deixar que sentimentos negativos as dominem. Guardar rancor é prejudicial e pode causar depressão, ansiedade e estresse. Por que deixar que uma ofensa de alguém exerça algum poder sobre você? Se você esquecer seus rancores, vai ganhar uma consciência clara e energia suficiente para apreciar as coisas boas da vida.

2. Trate a todos com bondade.

Você sabia que foi cientificamente provado que ser gentil faz você feliz? Ser altruísta faz seu cérebro produzir serotonina, um hormônio que diminui a tensão e eleva o seu espírito. Tratar as pessoas com amor, dignidade e respeito permite que você construa relacionamentos mais fortes.

3. Veja os problemas como desafios. 

A palavra “problema” não faz parte do vocabulário de uma pessoa feliz. Um problema, na maioria das vezes, é visto como uma desvantagem, uma luta ou uma situação difícil. Mas quando encarado como um desafio, pode se transformar em algo positivo, como uma oportunidade. Sempre que você enfrentar um obstáculo, pense-o um desafio.

4. Expresse gratidão pelo que já tem.

Há um ditado popular que diz: “As pessoas mais felizes não têm o melhor de tudo, elas fazem o melhor de tudo com o que elas têm.” Você terá um sentido mais profundo de contentamento se contar suas bênçãos em vez de ansiar pelo que você não tem .

5. Sonhe grande.

As pessoas que têm o hábito de sonhar grande são mais propensas a realizar seus objetivos que aquelas que não o fazem. Se você se atreve a sonhar grande, sua mente vai assumir uma atitude focada e positiva.

6. Não se preocupe com as pequenas coisas.

As pessoas felizes se perguntam: “Será que este problema terá a mesma importância daqui a um ano?” Elas entendem que a vida é muito curta para se preocupar com situações triviais. Deixar os problemas rolarem à sua volta vai, definitivamente, deixar você à vontade para desfrutar de coisas mais importantes.

7. Fale bem dos outros.

Ser bom é melhor que ser mau. Fofocar pode até ser divertido, mas, geralmente, deixa você se sentindo culpado e ressentido. Dizer coisas agradáveis sobre as pessoas leva você a pensar positivo e a não se preocupar em julgá-las.

8. Não procure culpados.

Pessoas felizes não culpam os outros por seus próprios fracassos. Em vez disso, elas assumem seus erros e, ao fazê-lo, mudar para melhor.

9. Viva o presente.

Pessoas felizes não vivem do passado ou se preocupam com o futuro. Elas saboreiam o presente. Se envolvem em tudo o que está fazendo no momento. Param e cheiram as rosas.

10. Acorde no mesmo horário todos os dias.

Você já reparou que muitas pessoas bem-sucedidas tendem a ser madrugadores? Acordar no mesmo horário estabiliza o seu metabolismo, aumenta a produtividade e nos coloca em um estado calmo e centrado.

11. Não se compare aos outros.

Todos têm seu próprio ritmo. Então, por que se comparar aos outros? Pensar ser melhor que outra pessoa leva a um sentimento de superioridade não muito saudável e, se pensar o contrário, acabará se sentindo inferior. Então, concentre-se em seu próprio progresso.

12. Escolha seus amigos sabiamente. 

A miséria adora companhia. Por isso, é importante cercar-se de pessoas otimistas que vão incentivá-lo a atingir seus objetivos. Quanto mais energia positiva em torno de você, melhor vai se sentir.

13. Não busque a aprovação dos outros.

As pessoas felizes não importam com o que os outros pensam delas. Seguem seus próprios corações, sem deixar os pessimistas desencorajá-los, e entendem que é impossível agradar a todos. Escute o que as pessoas têm a dizer, mas nunca busque a aprovação de ninguém.

14. Aproveite seu tempo para ouvir.

Fale menos, ouça mais. Escutar mantém a mente aberta. Quanto mais você ouve, mais conteúdo você absorve.

15. Cultive relacionamentos sociais.

Uma pessoa só é uma pessoa infeliz. Pessoas felizes entendem o quão importante é ter relações fortes e saudáveis. Sempre tenha tempo para encontrar e falar com sua família e amigos.

16. Medite.

Ficar no silêncio ajuda você a encontrar sua paz interior. Você não tem que ser um mestre zen para alcançar a meditação. As pessoas felizes sabem como silenciar suas mentes, em qualquer hora e lugar, para se acalmar.

17. Coma bem.

Tudo o que você come afeta diretamente a capacidade de seu corpo produzir hormônios, o que vai definir seu humor, energia e enfoque mental. Certifique-se de comer alimentos que vão manter seu corpo saudável e em boa forma e sua mente mais tranquila.

18. Faça exercícios.

Estudos têm mostrado que o exercício aumenta os níveis de felicidade e autoestima e produz a sensação de autorrealização.

19. Viva com o que é realmente importante. 

As pessoas felizes mantêm poucas coisas ao seu redor porque elas sabem que excessos as deixam sobrecarregadas e estressadas. Estudos concluíram que os europeus são muito mais felizes que os americanos, porque eles vivem em casas menores, dirigem carros mais simples e possuem menos itens.

20. Diga a verdade. 

Mentir corrói a sua autoestima e o torna antipático. A verdade sempre liberta. Ser honesto melhora sua saúde mental e faz com que os outros tenham mais confiança em você. Seja sempre verdadeiro e nunca se desculpe por isso.

 21. Estabeleça o controle pessoal.

As pessoas felizes têm a capacidade de escolher seus próprios destinos. Elas não deixam os outros dizerem como devem viver suas vidas. Estar no controle completo de sua própria vida traz sentimentos positivos e aumenta a autoestima.

22. Aceite o que não pode ser alterado. 

Depois de aceitar o fato de que a vida não é justa, você vai estar mais em paz com você mesmo. Portanto, concentre-se apenas no que você pode controlar e mudar para melhor.

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Genealogia do fanatismo

Papel de Parede - Distorções Abstratas

Ricardo Gondim

[Eu não conhecia Emil Cioran. Meu amigo Ed René Kivitz recomendou que, dele, eu lesse “Breviário de decomposição” – Editora Rocco. Cioran nasceu na Romênia em 1911, formou-se em filosofia pela Universidade de Bucareste. Seu texto é cru, porém realista; intenso, mas lotado de poesia; por vezes amargo, sem perder-se em rancor.]

Não resisti copiar os primeiros parágrafos do capítulo inicial.

(Grato, parceiro!)

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Genealogia do fanatismo
Emil Cioran

Em si mesma, toda ideia é neutra ou deveria sê-lo; mas o homem a anima, projeta nela suas chamas e sua demências; impura, transformada em crença, insere-se no tempo, toma a forma de acontecimento: a passagem da lógica à epilepsia está consumada… Assim nascem as ideologias, as doutrinas e as farsas sangrentas.

Idólatras por instinto, convertemos em incondicionados os objetos de nossos sonhos e de nossos interesses. A história não passa de um desfile de falsos Absolutos, uma sucessão de templos elevados a pretextos, um aviltamento do espírito ante o Improvável. Mesmo quando se afasta da religião, o homem permanece submetido a ela; esgotando-se em forjar simulacros de deuses, adota-os depois febrilmente: sua necessidade de ficção, de mitologia, triunfa sobre a evidência e o ridículo. Sua capacidade de adorar é responsável por todos os seus crimes: o que ama indevidamente um deus obriga os outros a amá-lo, na espera de exterminá-los se se recusam. Não há intolerância, instransigência ideológica ou proselitismo que não revelem o fundo bestial do entusiasmo.

Que perca o homem sua faculdade de indiferença: torna-se um assassino virtual; que transforme sua ideia em deus: as consequências são incalculáveis. Só se mata em nome de um deus ou de seus sucedâneos: os excessos suscitados pela deusa Razão, pela ideia de nação, de classe ou de raça são parentes da Inquisição ou da Reforma. As épocas de fervor se distinguem pelas façanhas sanguinárias. Santa Teresa só podia ser contemporânea dos autos de fé e Lutero do massacre dos camponeses. Nas crises  místicas, os gemidos das vítimas são paralelos aos gemidos do êxtase… patíbulos, calabouços e masmorras só prosperam à sombra de uma fé – dessa necessidade de crer que infestou o espírito para sempre.

O diabo empalidece comparado a quem dispõe de uma verdade, de sua verdade. Somos injustos com os Neros ou com os Tibérios: eles não inventaram o conceito de herético: foram apenas sonhadores degenerados que se divertiam com os massacres. Os verdadeiros criminosos são os que estabelecem uma ortodoxia no plano religioso ou político, os que distinguem entre o fiel e o cismático.

No momento em que nos recusamos admitir o caráter intercambiável das ideias, o sangue corre… Sob as resoluções firmes ergue-se um punhal; os olhos inflamados pressagiam o crime. Jamais o espírito hesitante, afligido pelo hamletismo, foi pernicioso: o espírito do mal reside na tensão da vontade, na inaptidãoo do quietismo, na megalomania prometeica de uma raça que se arrebenta de tanto ideal, que explode sob suas convicções e que, por haver-se comprazido em depreciar a dúvida e a preguiça – vícios mais nobres do que todas as suas virtudes – , embrenhou-se em uma via de perdição, na história, nesta mescla indecente de banalidade e apocalipse… Nela as certezas abundam: suprima-as e suprimirá sobretudo suas consequências: restituirá o paraíso. O que é a Queda senão a busca de uma verdade e a certeza de havê-la encontrado, a paixão por um dogma, o estabelecimento de um dogma?

Disso resulta o fanatismo – tara capital que dá ao homem o gosto pela eficácia, pela profecia, pelo terror – , lepra lírica que contamina as almas, as submete, as tritura ou as exalta…

fonte: site do Ricardo Gondim

imagem: Internet

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11 coisas (ou pessoas) que você adoraria mandar para o inferno


Eberth Vêncio, na Revista Bula

Existe uma clássica piada na qual um padre (ou pastor), durante uma pregação, pergunta aos presentes: “— Quem quer ir para o Céu?”. Sem pestanejar, todos da manada levantam as mãos trêmulas para o alto, aprovando a ideia. “— E quem quer ir hoje?”, insiste o líder. É claro: a massa dobra os cotovelos. Todo o mundo deseja ir para o Céu, mas ninguém quer morrer. Risível? Eu achei.

Mas nem sempre a lógica e a clareza parecem tão explícitas. Há vários anos um guru tresloucado chamado Jim Jones induziu centenas de seguidores a um suicídio coletivo (918 pessoas, de mamando a caducando), num dos episódios de fanatismo religioso mais estúpido que se tem notícia desde que Caim matou Abel a porretadas. Portanto, cuidado com líderes religiosos exaltados.

Mas este texto não foi escrito para enaltecer o Céu, e sim, lucubrar a respeito dos infernos nossos de cada dia. Falemos, então, desde ambiente enigmático e eternamente repelido pelo ser humano, até pelos crápulas mais desprezíveis.

O que mais se encontram na internet são listas. Infindáveis listas de preferência. Os 10 mais. Os 30 menos. Os 50 piores. Os 69 mais picantes. Os 100 indispensáveis. Os 1000 essenciais. E por aí vai.

Entrando nesta seara das listas com ranqueamentos descartáveis, fazendo alusão ao roqueiro Raul Seixas, “eu também vou ranquear”. Conclamo os valorosos leitores a um exercício, uma dinâmica em grupo engendrada individualmente (?), nalgum lugar do ciberespaço, cada qual no seu quadrado.

Imaginem-se sentados numa confortável poltrona de veludo, como se fossem um deus, um juiz, uma espécie de carrasco experimentado. A sua frente, uma enorme redoma de vidro por meio da qual vocês enxergam perfeitamente quem (ou o que) está dentro dela, embora a recíproca não seja verdadeira. Ou seja, há uma completa privacidade que os fazem se sentir deveras poderosos e confiantes, como se vocês fossem um senador da república votando secretamente contra os interesses do eleitorado, entendem? Ninguém irá pegá-los. Não há câmeras escondidas, nem escutas arapongas nas redomas imaginárias.

Prossigamos neste devaneio supervisionado. À sua direita, um botão vermelho cuja tarja identifica: “Go to the hell” (brasileiro que se preza tem complexo de inferioridade e adora gastar o velho inglês, ainda que chulo). Suponham que o universo, inclusive o seu misterioso criador e o exterminador de pragas urbanas aprovassem o seu tribunal particular de extermínios essenciais.

Munidos com tanto poder, quem (ou o que) vocês, desprovidos da pressão de escrúpulos ou remorsos, enviariam para o quinto dos infernos (Adendo muito relevante: a expressão “quinto dos infernos” advém dos tempos de Brasil Colônia, período em que 20% do que se produzia por aqui ia parar no tesouro de Portugal. Nos dias de hoje, estamos livres das ventosas portuguesas, contudo, judiados pelos 27,5% do Imposto de Renda, isto sem considerar o que se paga a contragosto de propina nas negociações de bastidores entabuladas entre gestores desonestos, políticos corruptos e empresários sanguessugas muito bem sucedidos).

Mas, continuemos, pois esta crônica tem limite de caracteres, de paciência, e carece ter um fim. Portanto, que coisa (ou gente), por meio de um suave toque do fura-bolo num rubro botão, vocês mandariam para o inferno, caso ele realmente existisse, se, de fato, houvesse nalgum espaço universal um antro caótico, um expurgo ainda mais sofrível que o planeta no qual caminhamos, deixando pegadas na areia e rastros de maldade?

Segue abaixo a minha lista. Nem que seja para aliviar o azedume cotidiano da bile, convido-os a fazerem também as suas listas de condenados virtuais. Não vale o auto-extermínio, pois não sou nenhuma espécie de Jim Jones tupiniquim. Como a um time de futebol, façam as suas próprias escalações para o corredor de todo esquecimento. Tenham juízo: só valem 11 itens.

1 — O dinheiro. Porque ele nos desumaniza.

2 — O medo (a insegurança). Porque ele (a) me humaniza sobremaneira e eu preferiria ter nascido nuvem passageira.

3 — Pedroso, o Professor de Ciências do colégio. Porque ele um dia disse que a masturbação era pecado, uma espécie de depravação que certamente provocava câncer, loucura, e impotência sexual. Hoje eu sei que sexo gera prazer, filhos, verrugas genitais, compêndios maravilhosos sobre o comportamento humano, e — eventualmente — uma nesga de rancor. Anos mais tarde eu soube que Pedro, além de terrorista da palavra, era pedófilo. Portanto, às cucuias tudo o que gera danos à sexualidade de uma pessoa!

4 — O rancor. Porque é cancerígeno e entope as coronárias.

5 — A mentira. Porque mentir não é pecado, Pedro, mas um atributo normal extremamente humano, como amar ou matar alguém.

6 — O verbo Amar. Porque é difícil para eu conjugá-lo. Por mais que eu me esforce, só consigo verbos mais brandos e comedidos como Gostar, Admirar e Posso Te Pagar Um Sorvete.

7 — Matadores de aluguel. Porque são umas das criaturas mais abjetas que se tem notícia. Em termos de excelência em desprezo, só perdem para os que matam de graça, pois o fazem apenas para apreciarem o tombo.

8 — A corrupção (propinas, chantagens, mimos e cafezinhos). Porque faz faltar bandeide nos hospitais públicos, azeda a merenda escolar e deixa as estradas brasileiras esburacadas.

9 — Torturadores de todas as épocas. Porque me fazem supor que Deus teria errado a mão ao criar o Homem a sua imagem e semelhança.

10 — Seitas e religiões. Porque a simples leitura atenta da História da Humanidade já as desmoraliza.

11 — Academias literárias. Porque ninguém merece tantos imortais escrevendo por aí.

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