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Genealogia do fanatismo

Papel de Parede - Distorções Abstratas

Ricardo Gondim

[Eu não conhecia Emil Cioran. Meu amigo Ed René Kivitz recomendou que, dele, eu lesse “Breviário de decomposição" – Editora Rocco. Cioran nasceu na Romênia em 1911, formou-se em filosofia pela Universidade de Bucareste. Seu texto é cru, porém realista; intenso, mas lotado de poesia; por vezes amargo, sem perder-se em rancor.]

Não resisti copiar os primeiros parágrafos do capítulo inicial.

(Grato, parceiro!)

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Genealogia do fanatismo
Emil Cioran

Em si mesma, toda ideia é neutra ou deveria sê-lo; mas o homem a anima, projeta nela suas chamas e sua demências; impura, transformada em crença, insere-se no tempo, toma a forma de acontecimento: a passagem da lógica à epilepsia está consumada… Assim nascem as ideologias, as doutrinas e as farsas sangrentas.

Idólatras por instinto, convertemos em incondicionados os objetos de nossos sonhos e de nossos interesses. A história não passa de um desfile de falsos Absolutos, uma sucessão de templos elevados a pretextos, um aviltamento do espírito ante o Improvável. Mesmo quando se afasta da religião, o homem permanece submetido a ela; esgotando-se em forjar simulacros de deuses, adota-os depois febrilmente: sua necessidade de ficção, de mitologia, triunfa sobre a evidência e o ridículo. Sua capacidade de adorar é responsável por todos os seus crimes: o que ama indevidamente um deus obriga os outros a amá-lo, na espera de exterminá-los se se recusam. Não há intolerância, instransigência ideológica ou proselitismo que não revelem o fundo bestial do entusiasmo.

Que perca o homem sua faculdade de indiferença: torna-se um assassino virtual; que transforme sua ideia em deus: as consequências são incalculáveis. Só se mata em nome de um deus ou de seus sucedâneos: os excessos suscitados pela deusa Razão, pela ideia de nação, de classe ou de raça são parentes da Inquisição ou da Reforma. As épocas de fervor se distinguem pelas façanhas sanguinárias. Santa Teresa só podia ser contemporânea dos autos de fé e Lutero do massacre dos camponeses. Nas crises  místicas, os gemidos das vítimas são paralelos aos gemidos do êxtase… patíbulos, calabouços e masmorras só prosperam à sombra de uma fé – dessa necessidade de crer que infestou o espírito para sempre.

O diabo empalidece comparado a quem dispõe de uma verdade, de sua verdade. Somos injustos com os Neros ou com os Tibérios: eles não inventaram o conceito de herético: foram apenas sonhadores degenerados que se divertiam com os massacres. Os verdadeiros criminosos são os que estabelecem uma ortodoxia no plano religioso ou político, os que distinguem entre o fiel e o cismático.

No momento em que nos recusamos admitir o caráter intercambiável das ideias, o sangue corre… Sob as resoluções firmes ergue-se um punhal; os olhos inflamados pressagiam o crime. Jamais o espírito hesitante, afligido pelo hamletismo, foi pernicioso: o espírito do mal reside na tensão da vontade, na inaptidãoo do quietismo, na megalomania prometeica de uma raça que se arrebenta de tanto ideal, que explode sob suas convicções e que, por haver-se comprazido em depreciar a dúvida e a preguiça – vícios mais nobres do que todas as suas virtudes – , embrenhou-se em uma via de perdição, na história, nesta mescla indecente de banalidade e apocalipse… Nela as certezas abundam: suprima-as e suprimirá sobretudo suas consequências: restituirá o paraíso. O que é a Queda senão a busca de uma verdade e a certeza de havê-la encontrado, a paixão por um dogma, o estabelecimento de um dogma?

Disso resulta o fanatismo – tara capital que dá ao homem o gosto pela eficácia, pela profecia, pelo terror – , lepra lírica que contamina as almas, as submete, as tritura ou as exalta…

fonte: site do Ricardo Gondim

imagem: Internet

11 coisas (ou pessoas) que você adoraria mandar para o inferno


Eberth Vêncio, na Revista Bula

Existe uma clássica piada na qual um padre (ou pastor), durante uma pregação, pergunta aos presentes: “— Quem quer ir para o Céu?”. Sem pestanejar, todos da manada levantam as mãos trêmulas para o alto, aprovando a ideia. “— E quem quer ir hoje?”, insiste o líder. É claro: a massa dobra os cotovelos. Todo o mundo deseja ir para o Céu, mas ninguém quer morrer. Risível? Eu achei.

Mas nem sempre a lógica e a clareza parecem tão explícitas. Há vários anos um guru tresloucado chamado Jim Jones induziu centenas de seguidores a um suicídio coletivo (918 pessoas, de mamando a caducando), num dos episódios de fanatismo religioso mais estúpido que se tem notícia desde que Caim matou Abel a porretadas. Portanto, cuidado com líderes religiosos exaltados.

Mas este texto não foi escrito para enaltecer o Céu, e sim, lucubrar a respeito dos infernos nossos de cada dia. Falemos, então, desde ambiente enigmático e eternamente repelido pelo ser humano, até pelos crápulas mais desprezíveis.

O que mais se encontram na internet são listas. Infindáveis listas de preferência. Os 10 mais. Os 30 menos. Os 50 piores. Os 69 mais picantes. Os 100 indispensáveis. Os 1000 essenciais. E por aí vai.

Entrando nesta seara das listas com ranqueamentos descartáveis, fazendo alusão ao roqueiro Raul Seixas, “eu também vou ranquear”. Conclamo os valorosos leitores a um exercício, uma dinâmica em grupo engendrada individualmente (?), nalgum lugar do ciberespaço, cada qual no seu quadrado.

Imaginem-se sentados numa confortável poltrona de veludo, como se fossem um deus, um juiz, uma espécie de carrasco experimentado. A sua frente, uma enorme redoma de vidro por meio da qual vocês enxergam perfeitamente quem (ou o que) está dentro dela, embora a recíproca não seja verdadeira. Ou seja, há uma completa privacidade que os fazem se sentir deveras poderosos e confiantes, como se vocês fossem um senador da república votando secretamente contra os interesses do eleitorado, entendem? Ninguém irá pegá-los. Não há câmeras escondidas, nem escutas arapongas nas redomas imaginárias.

Prossigamos neste devaneio supervisionado. À sua direita, um botão vermelho cuja tarja identifica: “Go to the hell” (brasileiro que se preza tem complexo de inferioridade e adora gastar o velho inglês, ainda que chulo). Suponham que o universo, inclusive o seu misterioso criador e o exterminador de pragas urbanas aprovassem o seu tribunal particular de extermínios essenciais.

Munidos com tanto poder, quem (ou o que) vocês, desprovidos da pressão de escrúpulos ou remorsos, enviariam para o quinto dos infernos (Adendo muito relevante: a expressão “quinto dos infernos” advém dos tempos de Brasil Colônia, período em que 20% do que se produzia por aqui ia parar no tesouro de Portugal. Nos dias de hoje, estamos livres das ventosas portuguesas, contudo, judiados pelos 27,5% do Imposto de Renda, isto sem considerar o que se paga a contragosto de propina nas negociações de bastidores entabuladas entre gestores desonestos, políticos corruptos e empresários sanguessugas muito bem sucedidos).

Mas, continuemos, pois esta crônica tem limite de caracteres, de paciência, e carece ter um fim. Portanto, que coisa (ou gente), por meio de um suave toque do fura-bolo num rubro botão, vocês mandariam para o inferno, caso ele realmente existisse, se, de fato, houvesse nalgum espaço universal um antro caótico, um expurgo ainda mais sofrível que o planeta no qual caminhamos, deixando pegadas na areia e rastros de maldade?

Segue abaixo a minha lista. Nem que seja para aliviar o azedume cotidiano da bile, convido-os a fazerem também as suas listas de condenados virtuais. Não vale o auto-extermínio, pois não sou nenhuma espécie de Jim Jones tupiniquim. Como a um time de futebol, façam as suas próprias escalações para o corredor de todo esquecimento. Tenham juízo: só valem 11 itens.

1 — O dinheiro. Porque ele nos desumaniza.

2 — O medo (a insegurança). Porque ele (a) me humaniza sobremaneira e eu preferiria ter nascido nuvem passageira.

3 — Pedroso, o Professor de Ciências do colégio. Porque ele um dia disse que a masturbação era pecado, uma espécie de depravação que certamente provocava câncer, loucura, e impotência sexual. Hoje eu sei que sexo gera prazer, filhos, verrugas genitais, compêndios maravilhosos sobre o comportamento humano, e — eventualmente — uma nesga de rancor. Anos mais tarde eu soube que Pedro, além de terrorista da palavra, era pedófilo. Portanto, às cucuias tudo o que gera danos à sexualidade de uma pessoa!

4 — O rancor. Porque é cancerígeno e entope as coronárias.

5 — A mentira. Porque mentir não é pecado, Pedro, mas um atributo normal extremamente humano, como amar ou matar alguém.

6 — O verbo Amar. Porque é difícil para eu conjugá-lo. Por mais que eu me esforce, só consigo verbos mais brandos e comedidos como Gostar, Admirar e Posso Te Pagar Um Sorvete.

7 — Matadores de aluguel. Porque são umas das criaturas mais abjetas que se tem notícia. Em termos de excelência em desprezo, só perdem para os que matam de graça, pois o fazem apenas para apreciarem o tombo.

8 — A corrupção (propinas, chantagens, mimos e cafezinhos). Porque faz faltar bandeide nos hospitais públicos, azeda a merenda escolar e deixa as estradas brasileiras esburacadas.

9 — Torturadores de todas as épocas. Porque me fazem supor que Deus teria errado a mão ao criar o Homem a sua imagem e semelhança.

10 — Seitas e religiões. Porque a simples leitura atenta da História da Humanidade já as desmoraliza.

11 — Academias literárias. Porque ninguém merece tantos imortais escrevendo por aí.