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Contra o aumento das tarifas de ônibus: o protesto que eu não vi pela TV

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Por Bruno Passos, no Papo de Homem

Já fui em algumas passeatas ao longo da minha vida. Em São Paulo vi, in loco, quatro delas: “Gente Diferenciada”, “Sopão”, “Pinheirinho” e, terça agora, contra o aumento das tarifas de ônibus em São Paulo. Não sou filiado a nenhum partido e me considero um cara bem comum, talvez por isso só tenha tido acesso as manifestações mais divulgadas na mídia.

Ao chegar em casa, liguei a TV e vou dizer o que assisti:

“Fogo! Manifestantes queimam ônibus e entram em conflito com a policia!”

“Mais de 20 pessoas são presas protestando pelo aumento de 20 centavos. Agora elas serão soltas sob fiança de, no mínimo, 20 mil reais”

“População assustada em terminal foge de confronto entre policiais e manifestantes no centro de SP”

Acabou.

Agora contarei o que vivi:

Pela primeira vez me senti no lugar correto, para usar o novo jargão do protestante 2.0: “A passeata que fui me representa”.

Terça feira,

17:00 hrs

Uma pequena multidão se concentra entre as Av. Paulista e Consolação, em São Paulo.

A manifestação era contra o aumento da passagem para o transporte público na cidade. Uma japa me recebe simpática, explicando que este é um movimento pacífico e que seria legal eu ter em mente a não agressão evitando confrontos com a polícia, pois estes só diminuiriam o real impacto do que a passeata representava, um ato de cidadania.

17:30 hr

Conheci dois caras que estavam tranquilos, dando risadas do tiozinho que vendia apitos. Ao mesmo tempo, ao meu lado, três mascarados, um V de Vingança, um de máscara cirúrgica e um de lenço tradicional. Todos olhando para o horizonte (que dava numa parede de esquina) e sendo fotografados por dois veículos de imprensa.

Ninguém fotografou o tiozinho engraçado do apito, ou a japa simpática que me recebeu. Eu não os culpo. Qual seria matéria? “Oriental bacana fala sobre cidadania”  ou “Protesto tem senhor do apito mais engraçado dos últimos tempos”

Não, eu não culpo a mídia.

18:00 hrs

Encontro, ao vivo, um amigo de Facebook e também o camarada que mora comigo. Seguimos juntos o começo da passeata, escoltados por policiais e sem nenhuma tensão entre nós.

19:00 hrs

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Começa a cair uma chuva de surpresa. Achei que, nessa hora, a coisa ia acabar. Muita chuva. Penso comigo que, se fosse do governo, eu sempre aumentaria as tarifas em janeiro e fevereiro. A chuva sempre deve acabar com as passeatas.

Não foi o caso dessa vez.

A tempestade, ao invés de vir pra acabar, veio pra participar e caminhou conosco por cerca de 40 minutos (pelo menos foi o tempo que durou na minha mente) .

19:15 hrs (ou algo assim)

Estávamos quase no acesso da 23 de Maio. Do nosso lado, uma massa se ergueu e tomava um lado todo da pista. Do outro lado, uma marcha oposta, de máquinas que andavam na mesma velocidade que nós. Quem sabe para que protesto eles estavam indo?

Policiais continuavam lado a lado com manifestantes, nada acontecia.

19:16 hrs

Temos a aparição do primeiro imbecil:

“Caras! Para tudo! Pegaram um dos nossos ali atrás e ele não estava fazendo nada. Estão batendo muito nele, vamo lá!”.

Temi neste momento. Aquele cretino estava logo atrás de mim a passeata toda, com certeza ele não viu muito mais que eu.

Notei, sim, que tinham alguns caras pichando muros na cara de uns policiais numa rua paralela à nossa. Imagino que não tenha sido uma atitude inteligente, então, não esperava por uma solução muito inteligente.

Graças à deus, o nanico manipulador não recebeu muita atenção e as pessoas sacaram que ele só queria arranjar briga, visto que nem era amigo dos pichadores e que, até onde eu vi, não tinha ninguém apanhando da maneira que ele disse.

19:30 hrs

Continuamos gritando cantos e, nos intervalos, pra respirar, bolamos uns possíveis gritos que alcançariam mais audiência na multidão como “Gaúcho é se-le-çãaao” ou  “Kassab reprimidoooo”. Não tem muita graça agora, mas na hora foi divertido.

Nunca entendi porque as manifestações sempre são retratadas de maneira tão tétrica. Todas que fui via pessoas rindo e conversando.

19:40hrs (o horário não está preciso, não checava o relógio de minuto em minuto)

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Quase no fim da caminhada, vejo uma correria. Vamos para o segundo no hall da fama de cretinos: um ônibus parado começa a pegar fogo.

Nesse instante, alguns caras de lenço no rosto (não mais que 15) saem correndo e comemorando. Dez metros de distância, ouço o grito redentor:

“Desnecessário!”

Foi ali que me senti no lugar certo. A grande maioria estava criticando instantaneamente aquele ato imbecil feito por caras que estavam mais preocupados em pichar o “A” da anarquia do que fazer qualquer outra coisa.

19:45 hrs

Uma menina começa a falar que tem mais é que queimar tudo. Começamos a discutir e ela manda algo bem elaborado: “Você só protesta no Facebook”. Tento explicar que ela acertou e que eu e minha roupa alagada éramos todos parte da nova realidade aumentada que comprei na Apple. Ela fala algo que eu não entendo por causa do lenço na boca, eu mando ela pro inferno.

Seguimos nossos caminhos.

19:50 hrs

Paramos de andar, a passeata chega ao fim. Finalmente sinto que participei de algo ao lado de pessoas que tinham o mesmo pensamento que eu, que não estavam lá pra defender um partido ou uma causa específica, mas sim por indignação pelo tratamento concedido por parte dos nossos representantes públicos.

20:00 hrs

Começo a ir embora. Quando saio do local, não estão mais do que 400 pessoas por lá (éramos 5 mil, segundo a polícia). Antes de partir, o cara que mora comigo puxa ligeiro um pacote de bolachas.

Parecia o dia perfeito. Eu, azul de fome, algo que valeu a pena participar e … bolachas.

Dividimos o pacote com três punks pré-adolescentes que nos deram água.

Subindo a rua e passando por policiais, ouvi duas conversas sobre futebol e uma sobre um pilar (que eu não entendi nada). Um policial me viu com panfleto na mão e perguntou:

“Ei, quando é o próximo?”

Falei que era na quinta. 

“Ufa, ainda bem que vai ser na minha folga. Puta chuva!”

Rimos juntos, ele me deu boa noite e eu desejei a ele um bom trabalho, seguimos cada um nosso caminho.

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Diferente dos protestos ao redor do mundo, nós não gritamos “palavras de ordem”. Aqui no Brasil (mais especificamente o que vi e vivi em São Paulo), até os gritos de guerra mais pesados viram festividades em forma de marchinhas: “vem pra rua vem!”. Quem estava lá entende. Não era agressivo. Era festivo.

Sinceramente, seria muito bom se víssemos isso como uma qualidade e não como defeito. A agressividade sendo trocada por chamados de convívio mútuo a de ser comemorada e louvada.

Lá, antes das 20hrs, tínhamos tudo, consciência política, participação, voz e alegria. Esta foi a passeata que eu fui e assim ela terminou. Não foi a passeata que assisti pela TV ao chegar em casa, quando aquela minoria que restou resolveu quebrar tudo e roubou as manchetes da melhor e mais bonita manifestação que já participei.

Eu poderia culpar a mídia, o anão manipulador, a policia, os V de vingança que ficaram depois do fim da passeata pra fazer sabe-se lá o que. Mas nada disso iria ajudar em coisa alguma.

Não fui lá para encontrar culpados, mesmo porque, os verdadeiros culpados não estavam por lá. Fui porque não aguentava mais gritar e não ter voz. Fui por mim, pelo meu vizinho, pelo tiozinho da padoca. Fui principalmente, para tirar minhas próprias conclusões.

Sou workaholic (como bem sabem os que me conhecem). Tenho 28 anos e uma pequena empresa.

Quinta tem mais protesto. Eu não vou.

Por quê?

Vou ter que trabalhar pra caramba para compensar ter encerrado tão cedo o expediente na terça.

Mas torço para daqui um ou dois meses nos encontrarmos na chuva, no meio da rua, gritando cada um da maneira como pode,  que ainda é possível.

E principalmente, acreditando nisso.

Alugue um ‘amigo local’ para conhecer uma nova cidade

Vai viajar e não quer conhecer os pontos turísticos clichês apresentados por guias? Conheça o projeto Rent a local friend

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publicado na Galileu

Ao planejar o roteiro de suas férias você já deve ter se deparado com o seguinte problema: todos os sites, agências e amigos que visitaram o destino só têm dicas de pontos turísticos clichê. E você sabe que aquela praça ou aquele museu terá mais turistas do que moradores da cidade. Ao mesmo tempo em que você quer viver a verdadeira cultura do local que vai visitar, não se sente confiante em explorar a cidade sozinho. Como garantir que você não vai parar em uma furada? O serviço Rent a local friend pode ser uma solução.

A ideia é que você ‘alugue’ um habitante da região que vai visitar e que ele te leve para os melhores pontos alternativos de seu destino. Para participar, você se cadastra no site, indicando o seu destino e o período da viagem (por enquanto há ‘amigos’ disponíveis em 45 cidades). O sistema irá mostrar uma lista de ‘guias’ em potencial. Então você pode selecionar um através do idioma e de seus interesses em comum.

O preço varia de acordo com a cidade escolhida. Em São Paulo, por exemplo, o dia com um ‘amigo alugado’ custa 260 reais. Há a opção de marcar um dia inteiro de passeio, com 8 horas, ou meio dia, com 4 horas.

Confira o vídeo que explica o serviço:

Senado aprova pagamento de bolsa mensal de R$ 2.000 para garotas de programa

putasJoselito Müller, impagavelmente no Jornalismo Destemido

Uma proposta polêmica, de autoria da senadora Maria Rita, do Partido dos Trabalhadores, foi aprovada na tarde de hoje por maioria de votos. Trata-se do pagamento de uma bolsa mensal no valor de R$ 2.000,00 (dois mil reais) para garotas de programa em todo país.

“O objetivo da bolsa é dar a essas mulheres a possibilidade de terem uma vida mais digna, pois o dinheiro deve ser prioritariamente utilizado com prevenção de doenças”, explicou a senadora.

Segundo ela, o projeto tem interesse público, pois também tem o objetivo de “disponibilizar pra clientela um serviço de melhor qualidade, já que as meninas poderão se cuidar melhor, pagar tratamentos estéticos, frequentar academias etc.”

O projeto de lei vai ser submetido à sanção da presidente Dilma e deve entrar em vigor até o início da copa de 2014.

A repercussão da trollagem do site de humor foi tão grande que gerou outro post. Leia abaixo:

Quando mentiras cretinas passam a se tornar verossímeis, é sinal que o país vai mal

Se nos deixam falar

foto: Um teto para o meu país

foto: Um teto para o meu país

Marina Silva

Dois dias em Santiago, no Chile, para debater possibilidades de avanço da democracia, e me deparo com memórias remotas e recentes de nossa sofrida América Latina. Talvez a experiência dos chilenos seja mais traumática, é difícil avaliar, mas, no vigor de sua juventude, vejo a mesma superação de velhos paradigmas que ocorrem em outros países.

Essa é, afinal, a novidade que está sendo pouco considerada no debate político, atualizado pela morte de Hugo Chávez. Mais que vencer discussões, interessa solidarizar-se com o povo venezuelano na busca de novos caminhos.

Hoje, ainda vigoram antigas polaridades e uma nomenclatura do século passado: populismo, neoliberalismo, estatização, privatização, caudilhismo… Esses termos expressam realidades e significados ainda presentes em nossos sistemas políticos, como feridas abertas ou cicatrizes recentes. Mas a superação das fragilidades de nossa democracia, sua inserção definitiva na cultura, sua universalização, não acontecerá só com a derrota de um dos polos em disputa, a eleição de um novo líder ou a ascensão de um partido. Ela será, sobretudo, obra da sociedade, fruto cultivado de sua determinação.

Conversei com líderes estudantis que agitaram o Chile e trouxeram à política latino-americana algum alento contra a estagnação. Também me reuni com um coletivo de jovens do Techo (“Um teto para meu país”), organização que tem incríveis resultados práticos na superação da miséria em vários países. Um grupo que desenvolve o mesmo projeto em São Paulo participou da reunião e me fez perguntas por vídeo. As fronteiras, definitivamente, não são mais as mesmas e esses jovens mostram que seus sonhos de democracia são bem maiores que as nossas urnas.

As novas experiências políticas não são só virtuais, espalham-se no tecido social e geram mutações reais. Também não cabem num recorte setorial: são econômicas e culturais, sociais e políticas, ambientais e éticas. Os jovens do Techo começaram construindo casas e logo viram que era necessário trabalhar com educação, saúde, informática, tudo. Muitos projetos que vemos no Brasil começam com arte, esporte ou uma ação social e logo diversificam suas ações. Atuam tanto na comunidade quanto na esfera institucional, sempre dando visibilidade e fazendo contatos nas redes virtuais.

É nessa nova superfície que se inscrevem os projetos identitários contemporâneos, a democracia emergente, em que a sustentabilidade política do futuro se assenta. Seu debate, amplo e profundo, supera os limites do modelo representativo atual para se dar em novos termos e novas linguagens, que só podem ser percebidos por uma escuta mais atenta. E o mais, quem viver, ouvirá.

fonte: Folha de S.Paulo

Com ajuda da web, ateus ganham força no Brasil

Encontro teve palestras de antropologia evolutiva e apresentações de comédia

Encontro teve palestras de antropologia evolutiva e apresentações de comédia

Camilla Costa, no BBC Brasil

Para fazer frente ao que chamam de influência de grupos religiosos na política, organizações de ateus brasileiros aumentam cada vez mais seu alcance usando a mobilização pelas redes sociais e eventos temáticos em todo o país.

Os ateus ainda são uma minoria de cerca de 615 mil pessoas no Brasil, segundo dados do Censo de 2010. Na categoria “sem religião”, que também inclui agnósticos, o número ultrapassa os 15 milhões, segundo o IBGE.

Nos últimos anos, novas associações têm sido criadas para reunir os não crentes em torno de questões como o combate ao preconceito e a defesa da laicidade do Estado brasileiro.

No mês de fevereiro, o 2º Encontro Nacional de Ateus, organizado por parceria entre as principais associações do país, reuniu ateus e agnósticos simultaneamente em 28 cidades de 25 Estados brasileiros, incluindo o Distrito Federal, com transmissões ao vivo de palestras e discussões. Em São Paulo, a edição de 2013 teve 750 pessoas, mais que o dobro do ano anterior.

Na capital paulista, o encontro teve palestras sobre assuntos como o ateísmo na filosofia francesa e sobre o Estado laico, este com o procurador regional dos direitos do cidadão de São Paulo, Jefferson Dias. Entre os palestrantes também estava um comediante que ganhou popularidade na internet satirizando pastores evangélicos.

Na página do evento no Facebook, cerca de 1.700 pessoas confirmavam a presença, mas o número menor de participantes reais não decepcionou os organizadores. “Quando a gente organiza eventos no Facebook, sabe que vem entre 40 e 60% (das pessoas). A gente ainda está anestesiado porque não pensava que poderia realizar isso e ter sucesso”, disse Washington Alan, diretor jurídico da Sociedade Racionalista, organizadora do encontro, à BBC Brasil.

Ateísmo digital

    Muitos ateus são visceralmente contra o proselitismo. Eu não entendo." Daniel Sottomaior, presidente da Atea

Muitos ateus são visceralmente contra o proselitismo. Eu não entendo.”
Daniel Sottomaior, presidente da Atea

O presidente da Sociedade Racionalista, Diego Lakatos, diz que o encontro começou como uma tentativa de confraternização entre ateus de todo o país. “Num primeiro momento, não estávamos tão interessados em promover discussões mais profundas. Foi uma coisa bem mais informal, no Parque Ibirapuera.”

“Mas ao longo desse ano, alguns temas surgiram com mais força e se tornaram mais relevantes, como a defesa do Estado laico. Vemos a bancada evangélica tentando barrar discussões importantes na nossa sociedade de um ponto de vista religioso e achamos que isso é perigoso”, afirma.

O primeiro encontro deu um impulso no número de adesões à Sociedade Racionalista pelo site, de acordo com Lakatos. Agora, cerca de 60 pessoas se filiam a cada mês. Este mesmo número também era o máximo arrebanhado pela Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos (Atea), a maior do país, até sua entrada no Facebook, em 2010.

De acordo com o engenheiro Daniel Sottomaior, fundador da Atea, a criação de uma página no site mais do que dobrou o número de adesões – que já chega a 200 novos membros por mês. A Atea já tem cerca de 7.800 membros filiados e 230 mil fãs no Facebook – cerca de um terço do que corresponderia ao número de ateus calculado pelo IBGE.

“Ganhamos um impulso nas associações com a chegada do Face. Eu sempre fui contra porque a nossa associação é de ativismo no mundo real. Na minha longa experiência de ativismo online percebi que especialmente entre ateus as discussões tendem a gerar mais calor do que luz”, diz Sottomaior.

Sottomaior diz que o objetivo da Atea é criar indignação em relação à discriminação de ateus e “fazer com que o Brasil, 120 anos depois da proclamação da República, se torne (de fato em) um Estado laico”.

Congregar os ateus em uma organização atuante, no entanto, não é fácil. De acordo com ele, o maior desafio é a “indiferença dos ateus”.

“Grande parte dos ateus tem uma independência intelectual tão forte que acaba sendo contraproducente a eles mesmos. Eu entendo que lutar contra o preconceito e a favor da laicidade deveriam ser causas caras não só aos ateus, mas a toda a sociedade”, diz.

Alianças

Páginas no Facebook também chamam a atenção para causas LGBT

Páginas no Facebook também chamam a atenção para causas LGBT

O proselitismo, segundo Sottomaior, também tem que ficar de fora para conseguir mais mobilização dos associados. “Se nós nos voltássemos para isso teríamos um público menor, porque muitos ateus são visceralmente contra o proselitismo.”

“Eu não entendo. Acho que todo grupo organizado tem não só o direito, mas é até esperado que ele pratique o proselitismo. O Greenpeace faz isso, os partidos políticos também”, defende.

A ênfase nas leis e na discriminação, no entanto, não é o suficiente para que religiosos apoiem a causa, segundo Sottomaior. “Algumas pessoas religiosas entram em contato com a associação, mas é um número pequeno, muito menor do que as pessoas que mandam e-mails de ódio.”

“Desde o começo venho tentando contactar minorias religiosas. Os maiores interessados nisso são os grupos religiosos afro-brasileiros, que também são afetados como nós pela discriminação e pela violação da laicidade. Que também é o caso dos homossexuais. Um dos grandes parceiros nossos sempre foi a ABGLT (Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais)”, diz.

Ao contrário da Atea, a Liga Humanista Secular do Brasil (LiHS), criada em 2010, tem cerca de 3% de religiosos entre seus membros, e pouco mais de 500 filiados que não se declaram ateus. “Temos até mesmo um pastor de uma igreja evangélica inclusiva (a homossexuais) no Rio de Janeiro, que é colaborador”, diz Åsa Dahlström Heuser, de 56 anos, atual presidente da associação.

A adesão de religiosos, segundo Heuser, tem a ver com o fato de que ateísmo é “secundário” na Liga. “Entendemos como benéfica a associação com pessoas religiosas de mente mais aberta. E existem muitas, na verdade. Combatemos as arbitrariedades cometidas por instituições religiosas”, diz ela.

Heuser cita “restrições a homossexuais ou mulheres” impostas por algumas religiões como justificativa para a parceria entre a Liga e o movimento LGBT. “As organizações LGBT são as que têm mais força atualmente para se opor a essa bancada teocrática no Congresso”, explica.

A LiHS tem cerca de 2.800 membros e mais de 17 mil fãs no Facebook, e é, segundo o seu site, voltada para “céticos, agnósticos, ateus, livres pensadores e secularistas”. O fundador da organização, Eli Vieira, é o geneticista que ganhou fama na internet ao responder, com um vídeo no YouTube, à argumentação do pastor evangélico Silas Malafaia contra o homossexualismo.

O aumento da adesão, segundo ela, aconteceu a partir de setembro de 2012, depois da realização do primeiro Congresso Humanista. “A internet ajudou muito, mas os encontros reforçam a ideia de ações sociais. Para que não tenhamos um dia um governo que nos obrigue a fingir que temos uma religião, se a bancada teocrática conseguir impor suas ideias. É isso o que queremos evitar.”