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Governo paga diárias de ministros, oficiais e servidores para assistirem aos jogos

Leandro Mazzini, no blog Coluna Esplanada

Sob o som do apito inicial da festa no Sábado, o Palácio do Planalto lançou discretamente um Bolsa-Copa para ministros da Esplanada, oficiais militares e servidores, tudo por conta do dinheiro público.

Na sexta-feira, dia 14, véspera da abertura da Copa das Confederações em Brasília, o governo publicou em edição extra no Diário Oficial da União o Decreto 8.028/13, autorizando pagamento de diárias para quem quiser assistir aos jogos das Confederações nas seis capitais-sedes. Há tabelas dos valores das diárias, por categorias. (Veja abaixo).

O governo vai pagar diárias de hotel de até R$ 581 para ministros do primeiro escalão que quiserem assistir nos estádios. Para os comandantes das três Forças Armadas, o teto da diária é de R$ 406,70. As comitivas ainda poderão viajar nos jatos da FAB, por prerrogativa dos cargos. Mas pelo artigo primeiro do decreto, o governo pode cobrir o dobro destes valores, alcançando então diárias de até R$ 1.162. Confira aqui  - o texto do decreto, e nos links dos Anexos, as tabelas para cada cargo.

Apesar de bases militares com alojamentos do Exército e Aeronáutica em todas as seis capitais-sedes –  Fortaleza, Recife, Salvador, Brasília, Rio e BH -, os benefícios se estendem aos comandantes, oficiais e servidores militares que forem escalados para se deslocar. O governo ainda incluiu Manaus no roteiro.

O decreto prevê que os custos serão cobertos pelos Orçamentos de cada pasta. A farra das viagens com a verba pública será autorizada por cada ministro, que escolherá os servidores de qualquer categoria para a ‘missão’.

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dica do Rogério Moreira

Bolsa Família enfraquece o coronelismo e rompe cultura da resignação, diz socióloga

Walquiria Leão Rego, uma das autoras do livro sobre o Bolsa Família (foto: Karime Xavier/Folhapress)

Walquiria Leão Rego, uma das autoras do livro sobre o Bolsa Família (foto: Karime Xavier/Folhapress)

Eleonora de Lucena, na Folha de S.Paulo

Dez anos após sua implantação, o Bolsa Família mudou a vida nos rincões mais pobres do país: o tradicional coronelismo perde força e a arraigada cultura da resignação está sendo abalada.

A conclusão é da socióloga Walquiria Leão Rego, 67, que escreveu, com o filósofo italiano Alessandro Pinzani, “Vozes do Bolsa Família” (Editora Unesp, 248 págs., R$ 36). O livro será lançado hoje, às 19h, na Livraria da Vila do shopping Pátio Higienópolis. No local, haverá um debate mediado por Jézio Gutierre com a participação do cientista político André Singer e da socióloga Amélia Cohn.

Durante cinco anos, entre 2006 e 2011, a dupla realizou entrevistas com os beneficiários do Bolsa Família e percorreu lugares como o Vale do Jequitinhonha (MG), o sertão alagoano, o interior do Maranhão, Piauí e Recife. Queriam investigar o “poder liberatório do dinheiro” provocado pelo programa.

Aproveitando férias e folgas, eles pagaram do próprio bolso os custos das viagens. Sem se preocupar com estatística, a pesquisa foi qualitativa e baseada em entrevistas abertas.

Professora de teoria da cidadania na Unicamp, Rego defende que o Bolsa Família “é o início de uma democratização real” do país. Nesta entrevista, ela fala dos boatos que sacudiram o programa recentemente e dos preconceitos que cercam a iniciativa: “Nossa elite é muito cruel”, afirma.

Folha – Como explicar o pânico recente no Bolsa Família? Qual o impacto do programa nas regiões onde a sra. pesquisou?
Walquiria Leão Rego - Enorme. Basta ver que um boato fez correr um milhão de pessoas. Isso se espalha pelos radialistas de interior. Elas [as pessoas] são muito frágeis. Certamente entraram em absoluto desespero. Poderia ter gerado coisas até mais violentas. Foi de uma crueldade desmesurada. Foi espalhado o pânico entre pessoas que não têm defesa. Uma coisa foi a medida administrativa da CEF (Caixa Econômica Federal). Outra coisa é o que a policia tem que descobrir: onde começou o boato. Fiquei estupefata. Quem fez isso não tem nem compaixão. Nossa elite é muito cruel. Não estou dizendo que foi a elite, porque seria uma leviandade.

Como assim?
Tem uma crueldade no modo como as pessoas falam dos pobres. Daí aparecem os adolescentes que esfaqueiam mendigos e queimam índios. Há uma crueldade social, uma sociedade com desigualdades tão profundas e tão antigas. Não se olha o outro como um concidadão, mas como se fosse uma espécie de sub-humanidade. Certamente essa crueldade vem da escravidão. Nenhum país tem mais de três séculos de escravidão impunemente.

Qual o impacto do Bolsa Família nas relações familiares?
Ocorreram transformações nelas mesmas. De repente se ganha uma certa dignidade na vida, algo que nunca se teve, que é a regularidade de uma renda. Se ganha uma segurança maior e respeitabilidade. Houve também um impacto econômico e comercial muito grande. Elas são boas pagadoras e aprenderam a gerir o dinheiro após dez anos de experiência. Não acho que resolveu o problema. Mas é o início de uma democratização real, da democratização da democracia brasileira. É inaceitável uma pessoa se considerar um democrata e achar que não tenha nada a ver com um concidadão que esteja ali caído na rua. Essa é uma questão pública da maior importância.

O Bolsa Família deveria entrar na Constituição?
A constitucionalização do Bolsa Família precisava ser feita urgentemente. E a renda tem que ser maior. Esse é um programa barato, 0,5% do PIB. Acho, também, que as pessoas têm direito à renda básica. Tem que ser uma política de Estado, que nenhum governo possa dizer que não tem mais recurso. Mas qualquer política distributiva mexe com interesses poderosos.

A sra. poderia explicar melhor?
Isso é histórico. A elite brasileira acha que o Estado é para ela, que não pode ter esse negócio de dar dinheiro para pobre. Além de o Bolsa Família entrar na Constituição, é preciso ter outras políticas complementares, políticas culturais específicas. É preciso ter uma escola pensada para aquela população. É preciso ter outra televisão, pois essa é a pior possível, não ajuda a desfazer preconceitos. É preciso organizar um conjunto de políticas articuladas para formar cidadãos.

A sra. quer dizer que a ascensão é só de consumidores?
As pessoas quando saem desse nível de pobreza não se transformam só em consumidores. A gente se engana. Uma pesquisadora sobre o programa Luz para Todos, no Vale do Jequitinhonha, perguntou para um senhor o que mais o tinha impactado com a chegada da luz. A pesquisadora, com seu preconceito de classe média, já estava pronta para escrever: fui comprar uma televisão. Mas o senhor disse: ‘A coisa que mais me impactou foi ver pela primeira vez o rosto dos meus filhos dormindo; eu nunca tinha visto’. Essa delicadeza… a gente se surpreende muito.

O que a surpreendeu na sua pesquisa?
Quando vi a alegria que sentiam de poder partilhar uma comida que era deles, que não tinha sido pedida. Não tinham passado pela humilhação de pedi-la; foram lá e compraram. Crianças que comeram macarrão com salsicha pela primeira vez. É muito preconceituoso dizer que só querem consumir. A distância entre nós é tão grande que a gente não pode imaginar. A carência lá é tão absurda. Aprendi que pode ser uma grande experiência tomar água gelada.

Li que a sra. teria apurado que o Bolsa Família, ao tornar as mulheres mais independentes, estava provocando separações, uma revolução feminina. Mas não encontrei isso no livro. O que é fato?
É só conhecer um pouco o país para saber que não poderia haver entre essas mulheres uma revolução feminista. É difícil para elas mudar as relações conjugais. Elas são mais autônomas com a Bolsa? São. Elas nunca tiveram dinheiro e passaram a ter, são titulares do cartão, têm a senha. Elas têm uma moralidade muito forte: compram primeiro a comida para as crianças. Depois, se sobrar, compram colchão, televisão. É ainda muito difícil falar da vida pessoal. Uma ou outra me disse que tinha vontade de se separar. Há o problema de alcoolismo. Esses processos no Brasil são muito longos. Em São Paulo é comum a separação; no sertão é incomum. A família em muitos lugares é ampliada, com sogra, mãe, cunhado vivendo muito próximos. Essa realidade não se desfaz.

Mas há indícios de mudança?
Indícios, sim. Certamente elas estão falando mais nesse assunto. Em 2006, não queriam falar de sentimentos privados. Em 2011, num povoado no sertão de Alagoas, me disseram que tinha havido cinco casos de separação. Perguntei as razões. Uma me disse: ‘Aquela se apaixonou pelo marido da vizinha’. Perguntei para outra. Ela disse: ‘Pensando bem, acho que a bolsa nos dá mais coragem’. Disso daí deduzir que há um movimento feminista, meu deus do céu, é quase cruel. Não sei se dá para fazer essa relação tão automática do Bolsa com a transformação delas em mulheres mais independentes. Certamente são mais independentes, como qualquer pessoa que não tinha nada e passa a ter uma renda. Um homem também. Mas há censuras internas, tem a religião. As coisas são muito mais espessas do que a gente imagina.

O machismo é muito forte?
Sim. E também dentro delas. Se o machismo é muito percebido em São Paulo, imagina quando no chamado Brasil profundo. Lá, os padrões familiares são muito rígidos. É comum se ouvir que a mulher saiu da escola porque o pai disse que ela não precisava aprender. Elas se casam muito cedo. Agora, como prevê a sociologia do dinheiro, elas estão muito contentes pela regularidade, pela estabilidade, pelo fato de poderem planejar minimamente a vida. Mas eu não avançaria numa hipótese de revolução sexual.

O Bolsa Família mexeu com o coronelismo?
Sim, enfraqueceu o coronelismo. O dinheiro vem no nome dela, com uma senha dela e é ela que vai ao banco; não tem que pedir para ninguém. É muito diferente se o governo entregasse o dinheiro ao prefeito. Num programa que envolve 54 milhões de pessoas, alguma coisa de vez em quando [acontece]. Mas a fraude é quase zero. O cadastro único é muito bem feito. Foi uma ação de Estado que enfraqueceu o coronelismo. Elas aprenderam a usar o 0800 e vão para o telefone público ligar para reclamar. Essa ideia de que é uma massa passiva de imbecis que não reagem é preconceito puro.

E a questão eleitoral?
O coronel perdeu peso porque ela adquiriu uma liberdade que não tinha. Não precisa ir ao prefeito. Pode pedir uma rua melhor, mas não comida, que era por ai que o coronelismo funcionava. Há resíduos culturais. Ela pode votar no prefeito da família tal, mas para presidente da República, não.

Esses votos são do Lula?
São. Até 2011, quando terminei a pesquisa, eram. Quando me perguntam por que Lula tem essa força, respondo: nunca paramos para estudar o peso da fala testemunhal. Todos sabem que ele passou fome, que é um homem do povo e que sabe o que é pobreza. A figura dele é muito forte. O lado ruim é que seja muito personalizado. Mas, também, existe uma identidade partidária, uma capilaridade do PT.

Há um argumento que diz que o Bolsa Família é como uma droga que torna o lulismo imbatível nas urnas. O que a sra. acha?
Isso é preconceito. A elite brasileira ignora o seu país e vai ficando dura, insensível. Sente aquele povo como sendo uma sub-humanidade. Imaginam que essas pessoas são idiotas. Por R$ 5 por mês eles compram uma parabólica usada. Cheguei uma vez numa casa e eles estavam vendo TV Senado. Perguntei o motivo. A resposta: ‘A gente gosta porque tem alguma coisa para aprender’.

No livro a sra. cita muitos casos de mulheres que fizeram laqueadura. Como é isso?
O SUS (Sistema Único de Saúde) está fazendo a pedido delas. É o sonho maior. Aliás, outro preconceito é dizer que elas vão se encher de filhos para aumentar o Bolsa Família. É supor que sejam imbecis. O grande sonho é tomar a pílula ou fazer laqueadura.

A sra. afirma que é preconceito dizer que as pessoas vão para o Bolsa Família para não trabalhar. Por quê?
Nessas regiões não há emprego. Eles são chamados ocasionalmente para, por exemplo, colher feijão. É um trabalho sem nenhum direito e ganham menos que no Bolsa Família. Não há fábricas; só se vê terra cercada, com muitos eucaliptos. Os homens do Vale do Jequitinhonha vêm trabalhar aqui por salários aviltantes. Um fazendeiro disse para o meu marido que não conseguia mais homens para trabalhar por causa do Bolsa Família. Mas ele pagava R$ 20 por semana! O cara quer escravo. Paga uma miséria por um trabalho duro de 12, 16 horas, não assina carteira, é autoritário, e acha que as pessoas têm que se submeter a isso. E dizem que receber dinheiro do Estado é uma vergonha.

Há vontade de deixar o Bolsa Família?
Elas gostariam de ter emprego, salário, carteira assinada, férias, direitos. Há também uma pressão social. Ouvem dizer que estão acomodadas. Uma pesquisa feita em Itaboraí, no Rio de Janeiro, diz que lá elas têm vergonha de ter o cartão. São vistas como pobres coitadas que dependem do governo para viver, que são incapazes, vagabundas. Como em “Ralé”, de Máximo Gorki, os pobres repetem a ideologia da elite. A miséria é muito dura.

A sra. escreve que o Bolsa Família é o inicio da superação da cultura de resignação? Será?
A cultura da resignação foi muito estudada e é tema da literatura: Graciliano Ramos, João Cabral de Melo Neto, José Lins do Rego. Ela tem componente religioso: ‘Deus quis assim’. E mescla elementos culturais: a espera da chuva, as promessas. Essa cultura da resignação foi rompida pelo Bolsa Família: a vida pode ser diferente, não é uma repetição. É a hipótese que eu levanto. Aparece uma coisa nova: é possível e é bom ter uma renda regular. É possível ter outra vida, não preciso ver meus filhos morrerem de fome, como minha mãe e minha vó viam. Esse sentimento de que o Brasil está vivendo uma coisa nova é muito real. Hoje se encontram negras médicas, dentistas, por causa do ProUni (Universidade para Todos). Depois de dez anos, o Bolsa Família tem mostrado que é possível melhorar de vida, aprender coisas novas. Não tem mais o ‘Fabiano’ [personagem de "Vidas Secas"], a vida não é tão seca mais.

Empresário da banda Calypso nega fim do grupo, após show no Recife

Declaração de Joelma durante o São João da Capitá repercutiu na internet.
Cantora desabafou sobre vontade que tem de seguir a carreira gospel.

Publicado originalmente no G1

Empresário da Calypso negou que Joelma tivesse anunciado fim da banda (Foto: Flávio Alves / G1)

Empresário da Calypso negou que Joelma tivesse
anunciado fim da banda (Foto: Flávio Alves / G1)

Um desabafo da cantora Joelma, da banda Calypso, sobre a vontade de seguir carreira gospel, feito na noite deste sábado (8), no São João da Capitá, no Recife, gerou um mal-entendido nas redes sociais. Algumas pessoas divulgaram em seus perfis que a artista havia anunciado o fim do grupo. No entanto, o empresário da banda, Fábio Macêdo, explicou ao G1 que a artista apenas comentou no palco que está com vontade de se dedicar às músicas evangélicas, mas compromissos profissionais têm adiado a realização desse desejo, que deve ser concretizado a partir de 2015.

O empresário falou que Joelma é evangélica e que todos os discos da banda já trazem, pelo menos, uma música gospel. Inclusive, salmos da Bíblia também são impressos nas capas dos CDs do grupo. “A Joelma, em seus momentos de reflexão e oração, pede muito conselho a Deus sobre a carreira. Então hoje, diante do governador do estado, Eduardo Campos, e do prefeito [do Recife] Geraldo Julio, ela disse que teria muita vontade de entregar a sua carreira à obra de Deus e só cantar música gospel”, falou. Joelma e Chimbinha foram os homenageados do São João da Capitá 2013 e receberam os políticos no palco durante o show.

De acordo com o empresário, a banda ainda tem compromissos profissionais a cumprir. “A Calypso continua, tem contrato com várias gravadoras, prefeituras, shows em todo o Brasil, estamos com uma estrutura grande montada. Agora, Joelma está num momento de reflexão interno e nós temos que respeitar esse momento. Talvez em 2015 é que ela teria condições de cumprir todos os compromissos para depois poder fazer essa carreira [gospel]“, disse.

Em entrevista ao G1, Chimbinha e Joelma disseram que estão com projeto de lançar um CD apenas com músicas evangélicas ainda este ano. “O repertório está pronto, vou entrar no estúdio depois de julho, em agosto, para lançar até o final do ano”, comentou a cantora. “As músicas estão prontas, é só gravar, fazer essa coletânea e lançar”, complementou o guitarrista.

dica do Weuller Rogerio P. Faria

Marina Silva, a ~conservadora~

O "ato" da Rede no evento gospel.

O “ato” da Rede no evento gospel.

Sérgio Pavarini

Na última quarta-feira foi publicado no blog do Fernando Rodrigues um texto intitulado “Rede, de Marina, coleta assinaturas em passeata anti-gay“.

Assinada por Bruno Lupion, a pretensa reportagem informava que o “o partido de Marina Silva, Rede Sustentabilidade, aproveitou a multidão reunida em ato evangélico para coletar assinaturas”. O texto mencionava a participação de Malafaia, Feliciano e Bolsonaro no evento, além das aspas de um jovem evangélico “que mostrava discurso afinado contra o projeto que criminaliza a homofobia”. Somente no último parágrafo apareceu o desmentido da assessoria da Rede afirmando que não organizou a tal coleta.

Escaldado com a lambança recente de um jornal sobre a palestra de Marina Silva no Recife, me chamou a atenção que a foto e o texto mostravam apenas UM militante. Mesmo assim, o post recebeu + de 5 mil curtidas e ~inspirou~ outro texto no Estado de Minas, na mesma vibe do outro.

Hoje voltei ao post e, surpresa, o militante fotografado registrou alguns esclarecimentos na área de comentários: “Meu ato foi individual! Desconheço as lideranças dessa macha! (…) O blogueiro Bruno Lupion, responsável pela matéria agiu de má fé ao escrever comentários maliciosos e mentirosos. Em nenhum momento conversei c/ esse cidadão mal intencionado”. Em outro comentário, ele finaliza: “se fiz algo de errado, peço desculpas aos integrantes da #rede”.

Há algum tempo a ombudsman da Folha de S.Paulo, Suzana Singer, colocou o dedo na ferida: “Não há dúvida de que existe na grande imprensa brasileira uma visão estereotipada e preconceituosa dos evangélicos”. #bingo

Forçar a barra para tentar rotular Marina e a Rede como megaconservadores não é exatamente bom exercício de jornalismo. Há inúmeros cristãos que não compactuam com a liderança personalista, interesseira e, sim, anticristã, de alguns personagens citados na matéria. O mesmo senso crítico usado para analisar as bobagens mensagens proferidas por eles nos púlpitos (e fora deles) também é usado para perscrutar cada linha e, principalmente, as entrelinhas.

PS: De manhã recebi a foto abaixo, postada no Flickr da Rede. Será tema de post no nobilíssimo blog do Fernando Rodrigues?

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dica do Sidnei Carvalho de Souza

O dia em que Ariano se compadeceu

Foto: Google Imagens

Foto: Google Imagens

Publicado por Humberto Wernek

À porta da casa onde Ariano Suassuna nos aguardava, a moça, misto de assessora e anjo da guarda, me sussurrou a recomendação:

- Não toque no assunto da morte do pai.

- Por quê? – indaguei.

- Pode acabar muito mal – encerrou ela, tão enfática quanto enigmática.

E essa agora? Não esperava assuntos interditos quando cheguei ao Recife, naquele outubro de 2011, com a missão de entrevistar o criador do Auto da Compadecida para a revista Mitsubishi.

O próprio Ariano, jovialíssimo em seus 81 anos de idade, nos recebeu na varanda do belo casarão de 1870, no bairro de Casa Forte, onde vive desde 1959 com a mulher, Zélia. Saiu mostrando a propriedade. No mesmo terreno estreito e longo, que vai de um quarteirão a outro, as filhas Maria, Mariana e Ana Rita construíram suas casas. Outra, Isabel, morava em frente. O primogênito Joaquim estava passando uma temporada com os pais, de forma que naquele momento só um dos filhos, Manuel, não tinha sua base ali ou nas proximidades. Quase todos os netos – 15, à época – cresciam à sombra dos avós. Para desgosto de Ariano, um dos meninos resultou não ser torcedor do Sport, infortúnio que ele pôs na conta do genro: “Não perdoo o ‘missionário’ que o converteu”, brincou, sem esconder o desgosto de ter casado três filhas com torcedores do Náutico.

Foi uma conversa ótima, embora a mim, como repórter, me incomodasse a presença de alentada plateia, na qual se incluía a moça que me recomendara evitar o assunto da morte do pai. Ariano não me parecia ser homem de suscetibilidades, e muito menos de luxos e de cerimônia. Hospitaleiro, certa vez foi capaz de um gesto amalucado para deixar à vontade um iluminador de TV que, em meio à gravação, quebrou um dos boizinhos de barro que enfeitavam a sala. O que fez o dono das reses? Apanhou outro boizinho e o espatifou no chão.

Apesar da advertência, era fatal que a entrevista, largamente biográfica, caminhasse para o que foi a grande tragédia na vida do escritor. Seu pai, João Suassuna, ex-governador da Paraíba, era deputado federal quando um primo de sua mulher, João Dantas, matou no Recife o governador paraibano, João Pessoa, crime que veio a ser o estopim da Revolução de 30. Em 9 de outubro, seis dias depois da eclosão do movimento, como retaliação, João Suassuna foi assassinado pelas costas por um pistoleiro.

Para Ariano, que tinha apenas 3 anos, aquele haveria de ser, claro, um trauma vitalício, agravado pela dor suplementar de ver a imagem do pai equivocadamente associada às carcomidas forças contra as quais se fez a Revolução. “Mas mataram meu Pai. Desde esse dia, / eu me vi, como um Cego, sem meu Guia, / que se foi para o Sol, transfigurado”, dirá nos versos de um soneto. Numa entrevista em 2000, perguntaram-lhe se, tanto tempo depois, perdoaria o assassino do pai. “Esse é um processo que ainda está em curso”, limitou-se a responder.

Foi o que me animou a ignorar a recomendação do anjo da guarda. Mal fiz a pergunta, senti instaurar-se na sala um espinhento desconforto e a emoção chacoalhar o entrevistado. A coisa vai mesmo acabar mal – cheguei a pensar.

Mas não. Entre pausas abissais, Ariano foi desencavando a lembrança do que lhe dissera certa amiga: é mais fácil rezar a Ave Maria do que o Pai Nosso, já que o Pai Nosso manda “perdoar a quem nos tem ofendido”. Pedregoso silêncio. “É um processo difícil”, retomou o escritor, agora invocando a mãe, dona Rita de Cássia, que próxima dos 90 anos lhe contou ter finalmente conseguido perdoar o matador de seu marido.

Nova pausa.

“Se eu me digo religioso, tenho a obrigação de perdoar”, admitiu Ariano Suassuna, que, nascido católico, só aos 25 anos se fez batizar. “Acredito no Demônio e acredito no Inferno. Mas não acredito que o Inferno seja eterno, nem que haja punição eterna, porque absoluto, só Deus.” Sem dizer-lhe o nome, o criador do Auto da Compadecida falava de um provável habitante do Inferno, Miguel Alves de Souza, o pistoleiro que matou seu pai – e, pela primeira vez, concedeu: “Se depender de uma concordância minha, ele sai hoje mesmo”.