Fachada da Globo é pichada em protesto contra ‘Sexo e as Negas’

Publicado na Folha de S. Paulo

“Pro racismo acabar, a Globo vamos escrachar. E se as pretas se unir, ‘Sexo e as Negas’ vai cair.”

Esse foi um dos gritos de guerra ouvidos em frente à sede da Globo em São Paulo, na terça-feira (16), durante um protesto contra a exibição do seriado criado por Miguel Falabella, que estreava naquela noite.

Um vídeo publicado pelo Levante Popular da Juventude, um dos grupos que encabeçaram a ação, começou a circular na quarta-feira (17) com imagens do protesto, que culminou com a pichação da palavra “racista” na fachada da emissora.

“A série começou a ser propagandeada há cerca de um mês e desde o início muitas meninas se manifestaram”, disse à Folha Beatriz Lourenço, 22, militante do LPJ. “Mesmo sem ter estreado, o incômodo já estava dado.”

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A estudante de direito diz não ter assistido ao episódio de estreia inteiro, mas afirmou ter visto alguns trechos na internet.

“A gente já previa que ia ter essa visão estereotipada do povo negro e pobre, mas me assustei muito mais”, afirma. “A Globo se aproveita de um estereótipo estabelecido e o reforça.”

“O programa trata a mulher como ferramenta para o sexo”, avaliou. “São mulheres que se submetem ao sexo ao custo de qualquer coisa.”

Apesar do protesto, Lourenço diz acreditar que o programa vá continuar sendo exibido. “A gente não consegue impedir a Globo de colocar no ar. A gente sabia que não ia conseguir, mas queríamos fazer pressão.”

Procurada pela Folha, a Globo diz que o protesto foi “um ato isolado de um grupo de 60 manifestantes que naquele momento não tinha conhecimento do conteúdo da obra”.

“A estreia do programa ‘Sexo e as Negas’ foi um sucesso de crítica e de audiência, e mostrou que boa parte da discussão prévia sobre o seu conteúdo foi um equívoco de interpretação daqueles que se manifestaram contra a sua realização”, diz nota enviada pela Comunicação da Globo. “É um programa de ficção, que tem como principal objetivo entreter e divertir o espectador.”

“Cabe ressaltar ainda que o nosso documento de Princípios e Valores prevê o respeito à diversidade e a repulsa ao preconceito, o que é praticado em toda a nossa programação”, afirma a emissora.

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Dona Nenê e Lineu Silva

publicado no Casa Aberta

Visitei a casa da família Silva, na zona norte do Rio de Janeiro, durante um almoço com cozido. Foi uma viagem rápida que nem consegui ver o mar, mas com uma família dessas, a viagem foi incrível. Os Silva são simples da maneira deles, uma família formada pelo fiscal sanitário, Lineu Silva, e sua mulher, Dona Nenê. Eles tiveram dois filhos que ainda moram na casa, o caçula Tuco e a filha mais velha Bebel. E como família grande pede, o marido dela, Agostinho, com o filho, Florianinho, também moram na casa. Essa é feita de azulejos antigos, retratos espalhados e a velha e boa jarra de abacaxi. A casa parece estar em constante mutação com os pais dormindo em um sofá cama no escritório e o filho caçula dormindo na sala. Mas eles vão se ajeitando e levando a vida sem muito reclamar.

Deixo aqui então a casa aberta de uma das famílias mais queridas.

 

 

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Ser rico e dono da mídia, que mal tem?

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Publicado na Carta Capital

No último dia 13, a Revista Forbes divulgou seu ranking de “ricaços” do Brasil. Os Marinho lideram a competição com uma fortuna estimada em US$ 28,9 bilhões. Qual o problema de a família mais rica do Brasil ser dona dos principais meios de comunicação do país? Resposta: poder demais. Poder econômico e cultural (ideológico, simbólico ou como se quiser chamar). Isso se falarmos genericamente.

Se pensamos de forma mais concreta, observando a história do setor da comunicação social no Brasil, responderemos de outra forma. O total domínio do interesse privado-comercial, o jogo de influências (e privilégios) políticas, a inexistência de mecanismos democráticos de participação social na comunicação (o que gera um sério problema para a garantia da liberdade de expressão), a extrema oligopolização e uma série de outros problemas nos fazem pensar que a resposta mais correta, na verdade é: dominação demais.

Uma sociedade que pressupõe que “todo o poder emana do povo”, que se pretende “livre, justa e solidária” e que afirma que “homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações” deve fazer os ajustes necessários para que possa garantir liberdade, justiça, solidariedade, igualdade e poder popular. E isso significa não permitir que o poder se concentre nas mãos de alguns poucos indivíduos. E dinheiro é poder. E comunicação é poder.

Opa! Ouvi alguém ali comentando: “mérito!”. Será? Dos 65 bilionários constantes na lista de ricaços do Brasil, 25 são “herdeiros”. Assim também acontece coincidentemente com o trio de irmãos Marinho. Ainda que não fosse isso, porém, quem disse que é legítimo o assassinato da democracia pela meritocracia? E que mérito se tem em ser mais poderoso porque se tem mais recursos do que os outros?

Imediatamente atrás dos Marinho, no ranking, estão as famílias de banqueiros. Safra (da família homônima), Ermírio de Moraes (Votorantim), Moreira Salles (Unibanco-Itaú). Os governos do Brasil pós-ditadura não ousaram mexer com os primeiros, magnatas da comunicação, e nutriram os últimos, senhores do vil metal. Quem se atreveria a enfrentar tamanho poder, diante de compromissos mais urgentes como a garantia da governabilidade? Já pensou o que seria de um governo deslegitimado por todos os meios de comunicação? Melhor não mexer aí, ganhar confiança, oferecer uma vaga de ministro ao Hélio Costa, não insistir com esse papo de mané projeto de Agência Nacional do Audiovisual… Vai que os Marinho se zangam… Já pensou? Nem pensar!

Aliás, os Marinho já constam no ranking da Forbes desde 1987, primeira vez em que foi publicado, acompanhados pelas famílias Ermírio de Moraes e Camargo (Camargo Correa). E, assim, se dá prosseguimento à triste tradição brasileira de mandar quem pode (e tem poder) e obedecer quem tem juízo. Ou não.

* Bruno Marinoni é repórter do Observatório do Direito à Comunicação, doutor em Sociologia pela UFPE e integrante do Conselho Diretor do Intervozes

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Evangélicos se revoltam com sátira de “Friends” no “Tá no Ar”

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Publicado no UOL

O momento mais aguardado do “Tá no Ar: A TV na TV”, da Globo, desta quinta-feira (22) foi a sátira da série americana “Friends” que, nas mãos de Marcelo Adnet e Marcius Melhem, passou a ser chamar “Crentes”. O quadro foi anunciado momentos antes do programa entrar no ar e causou alvoroço nas redes sociais. Evangélicos se revoltaram através da internet criticando a brincadeira feita pelos humoristas.

“Zoar os crentes é bom, só tente lembrar disso quando forem pedir oração a eles!”, dizia um dos comentários.

“Esse povo que fica zoando os crentes, inclusive os do ‘Tá no Ar’, fiquem sabendo que vocês vão tudo pro inferno.”

Na abertura do quadro, até mesmo a música original ganhou uma paródia na qual a frase do refrão “I’ll be there for you/when the rain starts to pour” se tornou “Pago o dízimo/10% para o pastor”.

Por outro lado, outros internautas criticaram a postura dos evangélicos perante à sátira. Os comentários através do Twitter recriminaram a hipocrisia deles.

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Maldade de Carminha hipnotiza argentinos em crise

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Publicado no R7

Quem caminha pelas ruas de Buenos Aires logo percebe rostos conhecidos dos brasileiros estampando capas de revistas locais, e eles não tem a ver com a crise econômica pela qual passa o país. Carminha, Nina e Jorgito, o novo nome de Jorginho —  trio de protagonistas da novela brasileira Avenida Brasil — estão por toda a parte e fazem a cabeça dos argentinos.

A trama de João Emanuel Carneiro chega a sua reta final no País hermano. E é líder de audiência por lá, no canal Telefe, desde sua estreia, em 16 de dezembro de 2013, todos os fins de tarde, quando é exibida.

Sucesso mundial

A Argentina é um dos 124 países para os quais a trama foi vendida – o folhetim já foi dublado para 18 línguas.

A trama de 179 capítulos, que terminou sua exibição no Brasil em 19 de outubro de 2012, já foi tema de reportagem até da revista Forbes, que informou que a novela teve custo de US$ 91 milhões para ser produzida, mas já gerou lucro de US$ 2 bilhões, o que faz de Avenida Brasil o produto televisivo brasileiro mais rentável da história.

Vício na novela

O farto público da novela na Argentina é composto de gente como a pedagoga portenha Romina Mauriz. Fã de tramas brasileiras como O Clone, ela logo se viu “viciada” em Avenida Brasil. A argentina “ficou viciada” na trama que “mistura vingança e amor”.

— As atuações são ótimas. Adoro as caras e bocas que a Carminha faz. Ela é a melhor. A personagem provoca mais riso do que raiva.

Romina conta que a novela lhe fez mudar a percepção que tinha sobre o Brasil.

— Antes pensava que o Brasil era praia, dança e boa comida. A novela mostra que o País tem tantos problemas quanto aqui na Argentina, com ricos e pobres.

Ela revela que o êxito da trama no País fez a novela ganhar mais intervalos comerciais. Antes, “quase não tinha publicidade”, lembra a telespectadora. E conta que a ida recente do ator Cauã Reymond a Buenos Aires causou muito impacto midiático. “Ele é muito sexy”, define. Romina só reclama que a parte da trama que se passa na Argentina, onde a protagonista Nina foi criada, é muito pequena.

—Eles deveriam ter gravado cenas em Buenos Aires. Isso chamaria ainda mais público. E também a irmã da Nina não parece argentina de verdade.

Curiosidade sobre o fim do folhetim

A fotógrafa brasileira Michely Ascari, que estuda desenho de imagem e som na Universidade de Buenos Aires, já percebeu o sucesso da trama em seu cotidiano. Ela conta que “foi uma loucura” chegar à Argentina e “perceber a repercussão que a novela estava causando”.

— As pessoas me perguntam se eu vi a novela e se podia adiantar algo dos personagens e até querer saber o final.

Ela, que não acompanhou a trama no Brasil, conta que se diverte com a dublagem. Agora, não tem sucesso sempre que algum argentino descobre que ela é brasileira.

— Geralmente, são vendedoras de lojas ou garçonetes que me perguntam. Eles querem saber da Carminha, da Nina e do Jorginho.

A brasileira afirma que “acha ótimo” o sucesso brasileiro em terras estrangeiras.

— Acho que o recente investimento em novos tipos de pensamentos, formatos e qualidade de produção dentro desses tipos de mídia estão dando resultados.

Qualidade e público universal

Para Claudino Mayer, doutor em Ciências da Comunicação e em Teledramaturgia pela ECA (Escola de Comunicações e Artes) da USP (Universidade de São Paulo) e autor do livro Quem Matou… O Romance Policial na Telenovela [Editora Annablume], a novela brasileira despertam tanto interesse internacional “porque é um produto de excelente qualidade: texto, fotografia, bons atores, produção e trilha sonora”.

— As telenovelas brasileiras falam a língua do povo. Percebemos que em outros países também há povos com seus anseios, carências, dificuldades, reivindicações. Esse “povo”, independente da cultura, vai se identificar com algum tipo de ações de Avenida Brasil. A trama tem elementos que dialogam com outras culturas, porque parte de sua temática se assemelha com o cotidiano de muitos outros países.

Para o especialista, João Emanuel Carneiro conseguiu na novela dar destaque a personagens secundários, que conseguiram “se sobressair junto da ação narrativa principal”. Ele cita como exemplos o núcleo do Bairro do Divino, onde vivia a periguete Suelen (Ísis Valverde). Para Mayer, o fato de a trama começar na Argentina, de onde Nina abre mão de seu status para vingar-se de Carminha no Brasil, ajudou a catapultar a trama naquele país.

— Avenida Brasil tem vilões bem humorados e carismáticos, Carminha e “Nina”, se revezaram nos papeis. Carminha era a vilã oficial, mas Nina demonstrou também elementos de vilania, que é comum em pessoas do mundo real. E elas só tomaram tal dimensão por causa da interpretação das duas atrizes. Já o Jorginho, que na Argentina virou Jorgito, é o perfil do herói idealista latino. Por isso, ele faz tanto sucesso também na Argentina.

Para o pesquisador, Avenida Brasil ainda reflete parte da história recente que se passou na Argentina, como a descoberta recente de adoção de filhos de militantes políticos de esquerda por nomes poderosos do País durante a ditadura militar. O sucesso deve ser observado com cuidado pelos produtores e autores de novela no Brasil.

— Podemos dizer que Avenida Brasil empolga os argentinos por trazer fortes elementos com o “mundo” que eles conhecem muito bem, que é o mundo do melodrama: sequestro, adoção de filho, vilão com características de herói, amores entre familiares. O sucesso de audiência na Argentina ajuda em novas produções brasileiras para que os autores “não se esqueçam” que o texto deve ser escrito pensando sempre que público não está apenas no Brasil.

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