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Deputado vai entrar na justiça contra a Globo por exibir beijo gay

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Publicado no O Povo

O deputado estadual da Bahia, Pastor Isidório (PSC), vai entrar na Justiça contra a TV Globo por ter exibido a cena do beijo gay no último capítulo da novela Amor à Vida, na noite da última sexta-feira, 31. Isidório, segundo publicação em sua página pessoal no Facebook, reuniu sua assessoria jurídica para entrar com ação na Justiça visando “reparação e o respeito à família tradicional”.

“O que a TV Globo tem veiculado é atentado violento ao pudor”, declarou o pastor. Durante a manhã desta terça-feira, 4, o parlamentar deu entrada na Assembleia Legislativa em uma moção de repúdio contra o que classifica como “ataques” da emissora à família.

“Venho demonstrar, em nome das Famílias Cristãs do nosso Estado e de nossa Nação, meu repúdio às cenas que estimulam, de maneira acintosa, a violência, e buscam destruir conceitos éticos, morais e religiosos das famílias brasileiras e da sociedade”, assegurou o deputado.

Amor à Vida, de Walcyr Carrasco, foi a primeira novela da Rede Globo a exibir uma cena com beijo entre pessoas do mesmo sexo. No Brasil, a primeira cena de beijo entre homossexuais foi veiculada pelo SBT na novela Amor e Revolução assinada pelo novelista Tiago Santiago.

Preocupada, Globo orienta repórter a denunciar irregularidades da Copa

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Publicado no Notícias da TV

A Globo distribuiu na semana passada uma recomendação a todos os jornalistas da rede para que adotem uma cobertura “equilibrada” da Copa do Mundo, que ocorre no Brasil de 11 de junho a 13 de julho. A orientação vale principalmente para os profissionais que trabalham para o Jornal Nacional.

Os coordenadores de cobertura da Copa de todas as afiliadas foram orientados a transmitir a repórteres e editores a mensagem de que a Copa e a seleção brasileira são uma paixão nacional, mas que irregularidades deverão ser denunciadas e “pautas positivas” deverão ser evitadas, a não ser que “surjam naturalmente”.

Reportagens que mostram como a Copa está beneficiando grupos de pessoas, como os comerciantes vizinhos a estádios, já não estão sendo produzidas para o Jornal Nacional.

Jornalistas da Globo entenderam a mensagem da seguinte forma: não se deve enaltecer a Copa para não passar a mensagem de que a emissora é aliada da Fifa, organizadora do evento. A rede, enfim, irá cobrir tudo, sem tirar nem por. Só haverá oba-oba em cima da seleção e seus craques, caso o Brasil, é claro, faça uma boa campanha.

Apesar do esforço do jornalismo, a Globo é, sim, aliada da Fifa. Não apenas como detentora dos direitos de transmissão da Copa do Mundo, mas também como licenciadora de mais de 1.700 produtos do evento, que deverão movimentar R$ 2 bilhões no varejo, segundo estimativa da emissora. A Globo já faturou R$ 1,438 bilhão com a venda das oito cotas de patrocínio das transmissões da Copa.

E, se no jornalismo a ordem é procurar distanciamento, na publicidade o posicionamento da Globo é de emissora oficial da Copa. A Globo lançou sábado um novo comercial, chamado Cadeiras, sob o conceito “Agora Somos um Só”, cuja proposta é mostrar “como a televisão, com a transmissão de uma Copa do Mundo, tem a magia de colocar o país todo na mesma vibração”.

MC Guimê, o funkeiro emergente

Estrela do funk ostentação trabalhou em quitanda e lava-rápido. Hoje, fatura 300 000 reais por mês, faz sucesso com as mulheres e sonha mudar-se para uma mansão

MC Guimê: colar de ouro avaliado em 30 000 reais (foto: Lucas Lima)

MC Guimê: colar de ouro avaliado em 30 000 reais (foto: Lucas Lima)

João Batista Jr., na Veja SP

Guilherme Aparecido Dantas era um garoto pouco interessado em estudar, gostava de escutar funk esonhava em adquirir seu primeiro tênis Nike quando decidiu começar a trabalhar. Aos 12 anos, ele conseguiu um emprego em uma quitanda perto da “quebrada” em que vivia, em Osasco. O bairro era Vila Izabel, de classe baixa, onde morava em uma casa de fundos. Nunca faltou comida em sua mesa, mas não sobrava dinheiro para comprar brinquedos ou qualquer supérfluo. “Como só estudou até a 4ª série e atuava como eletricista, meu pai não tinha condições de me dar um colar de casca de coco de 7 reais”, lembra. Um bico levou ao outro e, além de vender bananas e kiwis, o rapaz passou a fazer serviços como carregador de flores nas madrugadas de terças e sextas na Ceagesp. Também deu expediente como limpador de carros em um lava-rápido. Em um dia, faturava 80 reais, se dobrasse o turno. Torrava tudo com roupas e acessórios. “Eu ia sempre à Galeria Pagé para encontrar tênis da hora, não gastava mais de 200 reais e fazia o maior sucesso.”

De celular, a bordo de um Lamborghini: sucesso no YouTube e participação em programas da Rede Globo (foto: Thiago Fernandes)

De celular, a bordo de um Lamborghini: sucesso no YouTube e participação em programas da Rede Globo (foto: Thiago Fernandes)

Hoje, com 20 anos e nacionalmente conhecido como MC Guimê, ele está tirando a barriga da miséria. E não precisa colocar no seu corpo fechado por dezenas de tatuagens nenhuma roupa falsa ou contrabandeada. Ele virou o principal nome do chamado funk ostentação do país, estilo de música marcado por exaltar grifes, carrões e mulheres. A letra de seu maior hit, Plaque de 100 (o clipe mostra o cantor segurando maços de notas cenográficas de 100 reais), diz assim: “A noite chegou, nóis partiu pro baile funk / E, como de costume, toca a nave (carro) no rasante / De Sonata, de Azera, as mais gata sempre pira”. Como é comum nessa linha musical, a lista de objetos de desejo é proporcionalmente inversa à riqueza poética. Tanta projeção o aproximou de celebridades como o jogador Neymar, do Barcelona e da seleção brasileira, a quem chama de “mano” e ao qual prestou homenagem em uma música.

Ao lado do “mano” Neymar: shows em casas como Club A e Royal (foto: Reprodução/Instagram)

Ao lado do “mano” Neymar: shows em casas como Club A e Royal (foto: Reprodução/Instagram)

Nenhum outro novo nome do gênero aparece em tantos programas da Rede Globo, entre eles Altas Horas e Esquenta. “Quando assisti a meu filho ao lado da Xuxa, vi que ele não estava de brincadeira”, reconhece o pai, Paulo Eduardo. “Se dependesse de mim, ele nunca teria se tornado funkeiro.” Com a mãe, a relação é distante. Ela abandonou a família quando ele era bebê, reapareceu algumas vezes, mas não o encontrava havia mais de dez anos. Há seis meses, porém, marcou presença em um show do filho em Caraguatatuba, a cidade do Litoral Norte onde mora, e o surpreendeu na fila de fãs no camarim. Desde então, Guimê deposita uma ajuda de custo mensal para ela, mas deixa claro que prefere a madrasta, Silvana, nome que tatuou no antebraço direito.

Bonde da riqueza: os principais integrantes do funk ostentação (foto: Arte Veja São Paulo)

Bonde da riqueza: os principais integrantes do funk ostentação
(foto: Arte Veja São Paulo)

Na época em que o cantor começou a se interessar por música, os estilos de funk que estavam na moda eram o proibidão, que exalta facções criminosas, e o pornográfico. Preocupado com a educação do filho, seu pai o proibiu de ouvir esse repertório em casa. “Ele fazia jogo duro”, recorda o artista. As primeiras composições vieram no começo da adolescência e os apelos paternos não o impediram de escrever a controversa Especialista em Fugas: “Acelera forte, os malote no tanque e o fuzil na garupa / Pilota com uma mão e atira com a outra / Especialista em fugas”. Guimê afirma que tudo mudou de três anos para cá. “A galera não quer mais saber de coisa errada, está mais interessada em letra sobre marca de roupa e de coisas que precisa ter para ficar bem na ‘fita’.”

Ele sempre impressionou os amigos pelo dom de fazer rima e improvisar. Frequentava os bailes funk e pedia para se apresentar, mesmo que de graça, para mostrar que estava interessado em entrar no negócio. A fim de conseguir fechar convites para shows, criou um perfil no Orkut passando-se por agente de si próprio. Então, ligava para as casas de shows oferecendo seu “astro” — no caso, ele mesmo. Muitos “contratos” eram fechados sem nenhum cachê. Um deles lhe rendeu 50 reais. “Dava para pagar a condução para Guarulhos, onde foi a apresentação.” Sua primeira aquisição com a música foi um par de óculos de sol modelo Juliet, da Oakley, que na promoção custou cerca de 700 reais. “Queria usar nas apresentações para fazer uma presença da hora”, explica.

Sua sorte mudou quando conheceu em 2010 Hugo Maximo, que, na época, produzia shows da banda adolescente Restart. “Contratei-o para distribuir panfletos das apresentações que iriam acontecer na região de Osasco”, recorda Maximo. “Mas ele ficava no meu pé dizendo que queria cantar e me ligava fazendo rimas para provar que era bom.” Depois de tanta insistência, o empresário deu a ele a chance de se apresentar em uma casa de shows na Zona Leste. Gostou do resultado e firmou uma sociedade. “Percebi que o menino era bom e decidi colocá-lo para fazer a abertura de alguns shows.” Antes disso, no entanto, o aspirante teve de mudar de postura: “Falei que ele tinha de ser como os cantores sertanejos: não se atrasar, honrar os compromissos e entregar um produto legal”. Maximo é dono de 50% do produto Guimê — ou seja, divide com ele o faturamento mensal de 600 000 reais (o cachê por show fica entre 25 000 e 30 000 reais). O empresário agencia ainda expoentes do gênero como os MCs Lon e Rodolfinho (veja o texto ao lado).

Os shows do funkeiro de Osasco são breves (no máximo quarenta minutos), o que lhe permite fazer até cinco apresentações por noite. Ele já tocou em casas chiques como Royal e Club A, além de boates em outros estados. Por chegar com uma equipe de dez pessoas — só seguranças são três —, fica sem ter a oportunidade de usufruir a fama. Há muitas garotas bonitas que, segundo Guimê, jamais olhariam para sua cara franzina antes de ele se tornar rico e famoso. Elas fazem fila para tirar foto (e uma casquinha) do ídolo. “Dou uns beijos, mas daí já chega o meu produtor dizendo que temos de ir embora e voar para o lugar onde vai ser o próximo show”, reclama. Diante dos amigos, ele é bem franco: queixa-se de não ter tempo para levar as garotas até o hotel.

Atualmente, o astro da ostentação vive em um apartamento no 20º andar de um prédio na área mais valorizada do Tatuapé, na Zona Leste. Parece imóvel decorado por construtoras quando querem vender uma unidade na planta. Sofás, cozinha e armários novinhos e impessoais, sem a cara do dono. Um boneco ao estilo Bob Marley representa um dos únicos toques personalizados. A exemplo do ídolo jamaicano do reggae, Guimê diz ser adepto dos cigarros não convencionais. “Para mim, a erva é igual ao fumo normal, com a vantagem de não me fazer tossir”, afirma o MC. Ao mesmo tempo que fala naturalmente sobre o uso ilegal da droga, ele se considera uma pessoa pacata e ligada à família. Cita como sonho de consumo dar uma casa ao pai, que ainda resiste a sair da sua precária moradia, em Osasco. O outro desejo é comprar uma mansão em Alphaville, onde estacionará o Volvo XC60 avaliado em 160 000 reais, seu grande orgulho material. Recentemente, ele fez um show na casa de um morador do condomínio da Grande São Paulo e ficou encantado pelo lugar. “Tem espaço, natureza, silêncio. Pretendo ter uma residência lá, porque em apartamento não dá para fazer o que a gente quer.”

Gravação do clipe Plaque de 100: mais de 38 milhões de visualizações no YouTube (foto: Reprodução YouTube)

Gravação do clipe Plaque de 100: mais de 38 milhões de visualizações no YouTube (foto: Reprodução YouTube)

Vida dourada :

O perfi l do maior expoente do gênero ostentação

Nome: Guilherme Aparecido Dantas

Idade: 20 anos

Onde nasceu: “Na quebrada Vila Izabel, em Osasco”

Onde mora: em um apartamento de 1 milhão de reais, no Tatuapé

Tatuagens: perdeu a conta. Tem desde o nome da madrasta no antebraço direito até manchas de tiros de paint-ball na barriga

Meios de locomoção: Volvo XC60 e moto Honda CBR 600 RR

Sonho de consumo: mansão em Alphaville

Vaidade: não sai de casa sem o cordão de ouro com pingente em forma de diamante (30 000 reais)

Cachê: entre 25 000 e 30 000 reais

Faturamento mensal: cerca de 600 000 reais (fica com 50% desse total)

Estado civil: “Antes as minas não me olhavam, agora eu pego geral”

Na Moral e o estado laico

Foto: TVG

Foto: TVG

Magali do Nascimento Cunha, no Mídia, Religião e Política

Quem espera densidade em qualquer das tantas “mesas redondas” de qualquer programa de entretenimento na TV aberta, seja de momentos liderados por Ratinho ou Fernanda Lima; por Luciana Gimenez ou Ana Maria Braga; por Ronnie Von ou Fátima Bernardes; por Cátia Fonseca ou Pedro Bial, certamente ficará frustrado. Não poderia ser diferente com a edição do Programa da Rede Globo “Na Moral”, amplamente divulgada nas redes sociais, que se dedicou ao tema do Estado Laico, e, por tabela, da liberdade de crença, gravada há duas semanas e que foi ao ar por 40 minutos na noite da quinta, 1 de agosto de 2013.

Um aspecto não pode ser negado: o fato de o tema “religiões” estar presente naquela edição do programa, como já esteve por, pelo menos, três edições do “Esquenta”, de Regina Casé na Globo; ter ganho espaço semanal no quadro “Fórum Religioso” no Programa Mulheres, das tardes da TV; ter sido objeto de diversas “mesas” no Programa Superpop da Rede TV, com Luciana Gimenez; ter momentos garantidos no Programa do Ratinho, no SBT, entre outros exemplos, mostra como a questão religiosa é cada vez mais pulsante no Brasil e as mídias não estão desatentas a isso, em especial quando tema se relaciona à arena da política.

A edição permitiu apenas ponderações pontuais de um padre, um pastor evangélico pentecostal, um babalaô (Candomblé) e um ateu, tudo embalado por canções do sambista Arlindo Cruz, que se declarou “espírita, do Candomblé” mas também católico, frequentador de cultos com a mãe evangélica e simpatizante do budismo. Entradas gravadas do Ministro do Supremo Tribunal Federal Aires Brito simularam o aprofundamento do tema “estado laico” do ponto de vista jurídico. O vereador evangélico que, quando presidiu a Câmara em João Monlevade (MG), retirou o crucifixo da sala de sessões e, por isso, foi alvo de manifestações e processos, participou presencialmente e prestou depoimento. Trechos de entrevista gravada com estudante do ensino médio ateu que passou a sofrer bullying por se recusar a orar o “Pai Nosso” com a turma nas aulas de uma professora de Geografia também foi base para o debate da mesa.

Vale ressaltar que a simulação de profundidade com depoentes gerou momentos curiosos em relação à temática. Por exemplo, perguntado pelo apresentador Pedro Bial se retirou o crucifixo porque era evangélico, o vereador de João Monlevade negou, visivelmente sem muita veemência, tendo declarado ter agido para defender a neutralidade religiosa no espaço. Faltou da parte do apresentador a pergunta-chave para aprofundar a questão: se houvesse uma Bíblia aberta na sala de sessões ao invés de um crucifixo, o vereador agiria da mesma forma?

De igual modo, a fala de especialista do Ministro Aires Brito terminou por defender que símbolos do catolicismo sejam mantidos nas repartições públicas, mas com argumento frágil, baseado em valores subjetivos. O ministro afirmou que crucifixos são aceitáveis nas repartições públicas pois é Jesus como humanista e autêntico que está ali ressaltado; ele foi, segundo o ministro “o mais autêntico dos seres humanos”. Fica no ar o sentido de autenticidade que coloca o Jesus humano como superior a outros, e as bases para tal afirmação. Ninguém questionou isto no programa editado.

As performances

A maior celebridade presente na “mesa redonda” era o pastor da Assembleia de Deus Vitória em Cristo Silas Malafaia, consultor da Rede Globo para assuntos religiosos. Ele fez ampla campanha no Twitter para que seus fãs o assistissem. Eles próprios estão atribuindo os bons índices de audiência alcançados pela edição do programa à presença do pastor. De acordo com a coluna de Patrícia Kogut, no jornal O Globo, os 12 pontos alcançados foram record no horário (meia-noite às 00h37). É possível que estejam certos mas também é possível que o clima político do País, que desde março vem sendo embalado com tons religiosos (vide o caso Marco Feliciano – leia aqui – e as polêmicas provocadas pelo próprio Silas Malafaia com a Marcha pela Família em Brasília – leia aqui) somado à cobertura da mídia à visita do Papa e ao tema, como afirmado cima, tenha atraído a atenção de boa parte do público.

O pastor Malafaia tentou assumir uma postura mais equilibrada e serena em suas abordagens, e quando o fez, apresentou argumentos interessantes e curiosamente surpreendentes, como a crítica à postura da professora de Geografia que criou constrangimento a quem não queria orar com ela, ou a favor de que crucifixos estejam em repartições públicas como símbolo cultural, ou ainda como defensor da liberdade religiosa e crítico da perseguição às religiões afro-brasileiras. No entanto, quando palavras, em especial do participante ateu Daniel Sotto-Mayor pareciam lhe caber, como a crítica à Teologia da Prosperidade, da qual é pregador, o pastor Silas Malafaia retomou sua já conhecida retórica de palavras exaltadas, agressivas e debochadas. Sotto-Mayor caiu na “armadilha” do pastor, que lhe perguntou “quer dizer que todo pastor é rico?” desviando a crítica originalmente proferida. O participante ateu acabou por fazer a acusação do enriquecimento de pastores a partir da exploração da fé de pessoas, da qual se defendeu Silas Malafaia, com algum apoio de Pedro Bial.

O padre católico-romano Jorjão teve participação pouco enfática e indicou fazer uma parceria com o pastor Malafaia, que manifestava concordância com ele em diversas afirmações e vice-versa. Não houve discussão entre os dois. Quem pareceu estar mais à vontade, com postura beirando a de um pastor, foi o babalaô Ivanir dos Santos. Ele não só chamou participantes de “irmãos”, como, sempre com serenidade e respeito, denunciou a opressão e a perseguição histórica sofrida pelas religiões afro-brasileiras e o projeto de poder de membros da Frente Parlamentar Evangélica que já manifestaram desrespeito e discriminação ao demonizar a população de matriz africana e suas religiões não-cristãs. Ivanir dos Santos afirmou que isto não é democrático mas uma “semente do facismo”.

A parte mais interessante do programa aconteceu ao final quando um curioso convite foi feito ao pastor Silas Malafaia pelo representante do Candomblé: já que o primeiro havia declarado indignação com a perseguição religiosa e uma defesa da liberdade de crença, afirmando até que quem “invade terreiro tem que ir para a cadeia” (nítida crítica à Igreja Universal do Reino de Deus). O convite foi para que Silas Malafaia e outros líderes evangélicos participem da Marcha pelo Estado Laico e a Liberdade Religiosa, realizada em diversas cidades do País anualmente e está por acontecer. Ivanir dos Santos afirmou: “a maior demonstração que podemos dar de respeito e tolerância é ir juntos para a rua”. Ele declarou já ter participado de missas e de cultos em igrejas evangélicas mas que evangélicos se recusam a estarem no mesmo espaço que pessoas de religiões afro. Ele cobrou mais atitudes simbólicas e não só palavras, sob aplausos da plateia que ainda não havia se manifestado,

Silas Malafaia foi surpreendido com o convite destacado pelo apresentador: “O senhor está formalizando um convite para o pastor Silas Malafaia?” Depois de ouvir o “sim” de Ivanir dos Santos, com mais aplausos ao fundo, o pastor Malafaia afirmou que “não é necessário fazer uma caminhada com o outro para dizer que tolera o outro, porque a caminhada também tem viés de interesses políticos, de ONGs e de organizações”, engando a forma e do conteúdo das Marchas que ele tem organizado, em especial a de Brasília em junho passado. Mais uma vez exaltado, ressaltou que os evangélicos tem pontos que não negociam: a defesa do Estado laico, o não-privilégio a qualquer grupo e que não se massacre a religião de ninguém. O pastor declarou que aos evangélicos que defendem o Estado laico não interessa o que qualificou como “jogo visual”, pois andar juntos não significa concordar com o pensamento.

Para contrapor o pastor Malafaia, Ivanir dos Santos mencionou o valor das atitudes simbólicas como o exemplo do evangélico metodista Nelson Mandela que tomou um café com o seu carcereiro, antes de assumir o governo e comparou: “se um pastor importante como o senhor vai na caminhada dos religiosos a lição que se está mandando para a juventude, para a criança na escola, para não discriminar… é muito simbólico. (…) A intolerância não acaba só com retórica política vai acabar com ações concretas de sinceridade e amor”. Diante do desafio, o pastor Silas Malafaia procurou assumir o rumo da conversa, afirmando que os evangélicos também são perseguidos e discriminados e que ninguém ensina a ser tolerante mais do que eles com as escolas dominicais. Ele denunciou não serem os evangélicos chamados para debates, para uma conversa, Pedro Bial afirmou: “mas agora está acontecendo”, sob concordância do pastor. O líder evangélico afirmou: “E se o convite vier, eu estarei aqui para tantos quantos forem”. “E para a caminhada?” foi feita a pergunta, com a resposta do pastor: “quando não houver nenhum interesse político aí eu participo sem nenhum problema”.

Programa acontece em data simbólica

O edição do Na Moral foi exibida coincidentemente justamente na data em que a Presidenta Dilma Rousseff não cedeu a pressões de grupos religiosos (evangélicos, católicos e espíritas) e sancionou a lei aprovada em julho, por unanimidade, pelo Congresso Nacional que regulamenta atendimento na rede pública de Saúde à mulher vítima de violência sexual. Veja aqui o histórico.

O ponto mais polêmico do texto, de autoria da deputada Iara Bernardi (PT-SP), é o artigo que trata do atendimento às vítimas de estupro, determinando que a rede pública precisa garantir, além do tratamento de lesões físicas e o apoio psicológico à mulher, também os meios de evitar que ela tenha uma gravidez indesejada. Os religiosos entendem estar na expressão “profilaxia da gravidez” uma liberação para realização do aborto em qualquer período da gestação. As pressões sobre a Presidenta Dilma passaram por ameaças de campanha religiosa contra a reeleição dela em 2014.

A lei, criticada por grupos religiosos, determina a todos os hospitais vinculados ao Sistema Único de Saúde (SUS) que ofereçam atendimento imediato às vítimas de violência sexual, e autoriza o uso da pílula do dia seguinte – que já era liberada mediante norma do Ministério da Saúde, mas não tinha força de lei. Além disso, os hospitais passam a ser obrigados a fornecer informações sobre os direitos legais e todos os serviços sanitários disponíveis para as vítimas. Para Nalu Faria, da Marcha Mundial das Mulheres, a aprovação da lei é importante não só para a garantia de direitos, como também para o avanço do debate sobre o Estado laico. “Existe amplo reconhecimento de que o estupro é crime hediondo, as mulheres precisam ter assegurados seus direitos e não correr risco de gravidez”, disse à Rede Brasil Atual.

Para Faria, que também é integrante da ONG Católicas pelo Direito de Decidir, a pílula do dia seguinte, considera abortiva por setores religiosos conservadores, garante que as vítimas não corram o risco de recorrer a um aborto por causa de uma futura gravidez indesejada. “A pílula não é abortiva, porque impede o processo de fecundação. Ela é essencial no primeiro atendimento. E a reação ao fornecimento de informações não é justificável, não fornecer informações que as pessoas têm direito é contra todos os direitos humanos do cidadão”, afirma.

O deputado federal presidente da Comissão de Direitos Humanos pastor Marco Feliciano já vinha fazendo ameaças à Dilma Rousseff para pressionar por vetos, atualizou o discurso no Twitter em 2 de agosto:

tuitemf

A coluna Radar, de Lauro Jardim (Veja), registrou que a Presidenta teria avaliado que a aprovação por unanimidade da lei contra a violência sexual, tanto na Câmara quanto no Senado, foi uma armadilha da bancada evangélica, mais precisamente do deputado federal líder do PMDB na Câmara Eduardo Cunha. Nessa avaliação, a bancada religiosa teve o mote que precisava para acusá-la de avançar na legislação de atendimentos de casos de abortos no SUS. A uma ministra, Dilma Rousseff teria dito estar cumprindo o que prometeu em campanha em 2010. Ou seja, não ampliar a legislação que trata do atendimento de casos de abortos no SUS – mas sem retroceder.

Como podemos avaliar, há muito o que monitorar e refletir como estamos indicando neste espaço.

Feliciano compara-se ao Papa, se declara discriminado e ataca a Globo

feliciano e papa

Publicado no Blue Bus

Diz o Radar da revista Veja na web que “Marco Feliciano está enciumado com a receptividade que o papa Francisco vem recebendo no Brasil. Agora resolveu comparar-se ao pontífice”.

Segundo reporta o blog, Feliciano declarou que “o papa é político, eu também. Assim como eu, o papa condena casamento de pessoas do mesmo sexo, a descriminalização das drogas e o aborto. Mas, no caso dele, a mídia aplaude”. Pergunta – “Por que o papa é tratado como popstar, ovacionado, e eu, tão atacado?” E sai também contra a Rede Globo – “Onde estava a TV Globo, que não mostrou as manifestações contrárias ao papa, o beijaço e etc? Isso é discriminação religiosa contra mim, contra o pastor Silas Malafaia e outros”.