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Por uma espiritualidade cheia de Tesão

Por uma espiritualidade cheia de Tesão

Contra o que se sente /toda a filosofia é mesmo vã/ O Livro
é sagrado/ quando o que apregoa/ é revelado na Carne.
– Adélia Prado

Isaac Palma, no Ide por toda Web

A espiritualidade que se prega na maioria das igrejas é brochante. É morta, apática, sem vida. Os discursos teológicos são extremamente  racionais, nós conseguimos o impensável, racionalizamos Deus e colocamos ele em uma caixinha minúscula chamada cristianismo. Algo tem me incomodado, em conversas com amigos e diante de tudo o que tenho visto, no cristianismo evangélico brasileiro, falta “sangue no zoio”, falta Tesão.

Onde está o brilho nos olhos? Onde está aquele sentimento que nos invade de tal forma que parece nos possuir?

Chega da espiritualidade da letra, que nos paralisa em certezas, eu quero uma que sinta dor, que sangre a dor do mundo. Precisamos de uma espiritualidade que nos arrebate os sentidos. Falta tesão e sobra razão. Bem mais do que a mente pode conceber precisamos de algo que ressuscite nossos corpos, nossos sentidos. Temos que sensualizar nossa espiritualidade. Na nossa fala tem que transparecer a volúpia, o desejo. É preciso encarnar mais do que proclamar.

Que possamos dar espaço para o Espírito Santo nos encher de indignação, dessa inspiração, que no Espírito Santo possamos constantemente sermos incompletos, porque é só na incompletude que podemos avançar. Ai daqueles que graças às suas certezas paralisam o seu caminhar.

Que o Espírito Santo nos encha do Tesão de Deus. Precisamos de uma espiritualidade que penetre nas injustiças desse mundo, goze esperança e fecunde vida.

A mensagem de Deus deve ser escrita com Sangue.

Muito além da nossa apatia, é preciso gritar por justiça. Que as noites de sono perdidas sejam pra lembrar dos que não tem onde dormir,  que as vezes que perdemos a fome seja para lembrar dos que não tem o que comer.

Que não fiquemos na caridade, mas que possamos gritar: JUSTIÇA.

Que busquemos bem mais do que apaziguar nossas consciências, que possamos de fato dar a luz a um mundo novo.

Estamos grávidos de uma nova humanidade. Deus ressuscite nossos corpos para sentirmos as dores de parto!

Não me conforte Deus, eu não preciso de segurança. Preciso dessa inquietude do seu Espirito, que me impele a agir com Amor, a abraçar aqueles que ninguém quer abraçar.

Deus me dê esse Tesão, não deixe formular teorias filosóficas que não me levarão a lugar algum, que eu possa agonizar as dores do mundo e delas ver nascer o novo.

Que assim sejamos, que não nos confortemos nem nos conformemos nesse mundo.  Que possamos parir esse novo mundo por ai. Cheios desse tesão que possamos fazer nascer em todos o Reino de Deus.

A Bíblia é livro para criança

Ariovaldo Ramos

“Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e o seu descendente. Este te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar… Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu; o governo está sobre os seus ombros; e o seu nome será: Maravilhoso Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz… E isto vos servirá de sinal: encontrareis uma criança envolta em faixas e deitada em manjedoura… E disse (Jesus): Em verdade vos digo que, se não vos converterdes e não vos tornardes como crianças, de modo algum entrareis no reino dos céus.” Gn 3.15; Is 9.6; Lc 2.12; Mt 18.3

Criança! Está no centro da Bíblia!

No jardim, a Trindade nos prometeu a Criança!

O antigo testamento conta com o Deus formou e conduziu um povo para que a Criança, nascendo de mulher, pelo poder do Altíssimo, fosse trazida para a história, a fim de abençoar a humanidade.

O novo testamento conta como a Trindade formou e conduz o povo que leva a Criança, a toda a humanidade, para abençoar a nossa história, para que a nossa história  termine em salvação.

E a Criança, que cresceu em graça e sabedoria, diante de Deus e dos homens, portanto, sem perder a “criancitude”, disse que quem quiser viver sob o reinado dos céus tem de se tornar criança.

Criança é a fase do ser humano onde o Pai é tudo, sabe de tudo, e pode tudo!

Criança confia no Pai, e não tem medo da vida, porque o Pai pode tudo!

Criança usa a sabedoria do Pai, e não tem medo do desconhecido, porque o Pai sabe tudo, de tudo!

Criança usa o discernimento do Pai, e sempre sabe o que é certo e o que é errado, porque o Pai discerne tudo!

Criança desfruta do sustento do Pai, e não tem medo do infortúnio, porque o Pai tem tudo.

Criança ama o Pai com tudo e acima de tudo!

Criança obedece o Pai em tudo!

Criança depende do Pai em tudo e para tudo!

Criança descansa no Pai!

Criança, nos braços do Pai, está salva!

Criança, nos braços do Pai, é segura!

Criança, nos braços do Pai, se gosta, porque se sente amada!

Criança, nos braços do Pai, é feliz!

O Deus Filho se fez criança para que todo o ser humano criança se deixe fazer.

O Filho se fez criança para nos mostrar o Pai! O Pai que é tudo e, tudo, a nós, em nós, e, para nós, quer, e graças ao Filho, o pode ser.

A Igreja é a parte da humanidade que, por meio do Filho, foi adotada pelo Pai, e habitada pelo Espírito; recuperando, assim, a “criancitude”.

A Igreja é a parte da humanidade que sabe, que ser adulto é ser criança que cresceu em graça e sabedoria, diante de Deus e dos homens.

A Igreja proclama: O Pai nos mandou o Filho, o Filho nos leva de novo ao Pai e o Espírito nos faz nascer de novo, e faz, de nós, filhos, nos faz crianças de novo, crianças como todo ser humano deveria ser.

A Igreja convida: vem ser criança com a gente!

A Bíblia é o livro, cujo centro é a Criança! A Bíblia é o livro da Criança, para que crianças voltemos a ser… E para sempre. A Bíblia é livro para criança!

Natal, uma vez por ano

Depois de montada, árvoe recebeu iluminação especial na Praça Portugal (Foto: Pablyto Leivio / Arquivo Pessoal)

Ricardo Gondim

Eu era menino e achava que o natal devia acontecer todas as semanas. Depois, na adolescência, pensei que um por domingo era demais. Na vida adulta, acabei me contentando com dois natais: o meu e o de Cristo.

Chego à madureza sem detestar ou supervalorizar o natal.

Acho bom que uma vez por ano pelo menos, alguns saiam da rotina e visitem hospitais, lares de idosos, creches. Sei, sei, isso devia ser feito semanalmente. Concordo, natal serve para aliviar a consciência de quem gastou os outros trezentos e sessenta e poucos dias do ano basicamente com ele mesmo. Mas não sejamos tão cruéis com a humanidade – pequenos gestos valem.

Acho bom que uma vez por ano pelo menos, procuramos nos comportar como o Samaritano da parábola. Mesmo com todo o apelo consumista, intuitivamente, recordamos que Jesus de Nazaré contou aquela estória não só para nos ensinar a ser bons, mas para deixar claro quem viverá com Deus. Certo rapaz perguntou-lhe o que devia fazer para herdar a vida eterna. “Ame a Deus e ao seu próximo”, respondeu o Rabino de Cafarnaum. Como não estava mesmo interessado com a resposta, o mancebo retrucou: “E quem é o meu próximo?” Daí nasceu a parábola: “Um homem viajava por uma estrada deserta e perigosa. Assaltantes o abordaram e tiraram tudo o que possuía; depois de espancar, deixaram o pobre meio morto na beira da calçada. A caminho dos ofícios religiosos, passavam por ali sacerdote e teólogo. A dor do que agonizava não os sensibilizou. Eles não pararam; provavelmente, sem tempo para socorrer o moribundo. Mas um estrangeiro o viu naquele estado miserável e se condoeu. Parou e cuidou dele”. O arremate de Jesus foi contundente: “Aprenda a reconhecer no desconhecido o seu próximo. Se quiser herdar a vida eterna, cuidado, nunca seja indiferente; aja como o samaritano”.

Acho bom que uma vez por ano pelo menos, nos lembramos de reunir família e gente querida ao redor da mesa. Juntos fazemos uma refeição litúrgica e comer se torna um rito sagrado. Avisamos à alma: precisamos parar e esperar uns pelos outros. Dizemos que “com-panhia” (com-pão) tem a ver com a alegria de repartir. De tarde, enquanto se prepara a comida, do forno quente brotam memórias. Empilhados, cada prato tem dono (alguns se foram, meu Deus, quanta saudade!). E o brinde promete continuarmos juntos, venha o que vier. Jantamos. As grades do berço primordial, que um dia nos protegeu, ganham ares de parapeito. As pessoas que amamos são o parapeito, a segurança mínima, que precisamos na vida inclemente, e no precipício do tempo.

Acho bom que uma vez por ano pelo menos, acendemos luzes e, de alguma forma, nos conectamos a Deus, pai das luzes, que não abriga sombra em seu caráter. Se somos ambíguos e sutis em nosso convívio, no natal procuramos ser íntegros. Esforçamo-nos para não deixar o lado cavernoso, dissimulado, escuro, reinar sobre o resto de nossa humanidade. Escrevemos votos de alegria, reanimamos a esperança e apostamos na grandeza do outro.

Acho bom que uma vez por ano pelo menos, celebramos o Deus menino. O reino celestial, nos garantem os Evangelhos, tem características infantis. Cristãos festejam a fragilidade do bebê que dependeu dos braços maternos e das decisões paternas para sobreviver. Esvaziado, humilde e carente, Deus se revelou à humanidade numa estrebaria. Talvez nessa revelação repouse a mais alvissareira mensagem do cristianismo: Deus abraçou a humanidade em sua pequenez. Desde cedo, no desterro do Egito, conviveu com olhares odiosos. Criticado dentro de casa, soube amargar a incompreensão. Caçado e morto por sacerdotes e políticos promíscuos, experimentou o abandono derradeiro. No que sofreu, Jesus se tornou o patrono dos desgraçados, paraninfo dos sem-teto, amigo de proscritos. Ele é o ânimo dos que se desgastam pela justiça; o aceno de esperança para os que nadam contra a correnteza. Nele reside a promessa de que o bem semeado no mar da iniquidade jamais será esquecido.

Acho bom que uma vez por ano pelo menos, cuidamos para que cínicos não tomem conta da vida. Sempre vale a pena celebrar, se acendemos uma centelha, um brilho, nos olhos de algum pobre, doente, idoso, discriminado, exilado, viciado, abandonado. Se não conseguirmos, podemos até fingir que estamos alegres no natal; quem sabe a gente gosta de se sentir alegre e quer repetir o natal em outros dias?

Soli Deo Gloria

fonte: site do Ricardo Gondim

foto: árvore de Natal no Ceará [via G1]

O dia em que Jesus visitou um terreiro de Candomblé

Frei Carlos Mesters

Certa vez, Jesus reuniu os discípulos e as discípulas e disse: Quando vocês forem anunciar o Reino, não devem levar dinheiro nem comida, mas devem confiar no povo. Chegando a um lugar, se vocês forem acolhidos, e o povo partilhar comida e casa com vocês, e se vocês participarem da vida deles trabalhando e tratando dos doentes e do pessoal marginalizado, sem voz nem vez, então podem dizer ao povo que com toda certeza: “Gente! Olhe aqui! O Reino chegou! Está chegando!” E eles foram…

Jesus também foi. Andou, andou, andou. Já era quase noite. Estava começando a escurecer quando chegou a um terreiro. O pessoal que entrava, saudava-o e dizia: “boa noite, Jesus! Entre e sinta-se em casa. Participe com a gente.”

Jesus entrou. Viu o pessoal reunido. A maioria era pobre. Alguns, não muitos, eram de classe média. Todo mundo dançando, alegre. Havia muita criança no meio. Viu como todos eles se abraçavam entre si. Viu como os brancos eram acolhidos pelos negros como irmãos. Jesus, ele também foi sendo acolhido e abraçado. Estranhou, pois conheciam o nome dele. Eles o chamavam de Jesus, como se fosse amigo e irmão de longa data; gostou de ser acolhido assim…

Viu também como a mãe-de-santo recebia o abraço de todos e como ela retribuía acolhendo a todos. Viu como invocavam os orixás e como alguns vinham distribuindo passes para ajudar os aflitos, doentes e necessitados. Jesus também entrou na fila e foi até a mãe-de-santo.

Quando chegou a vez dele, abraçou-a e ela disse: “A paz esteja com você, Jesus”. Ele respondeu: “Com a senhora também! Posso fazer uma pergunta?” Ela respondeu: “Pois não, Jesus!” E ele disse: “Como é que eles sabem meu nome?” Ela riu: “Mas, Jesus, aqui todo mundo conhece você. Você é muito amigo da gente. Sinta-se em casa, aqui, no meio de nós”.

Jesus olhou para ela e disse: “Muito obrigado!”. E continuou: “Mãe, estou gostando, pois o Reino de Deus já está aqui no meio de vocês.” Ela olhou para Ele e disse: “Muito obrigada, Jesus! Mas isso a gente já sabia. Ou melhor, já adivinhava! Obrigada por confirmar a gente. Você deve ter um orixá muito bom. Vamos dançar para que ele venha nos ajudar!”

E Jesus entrou na dança. Dentro dele o coração pulava de alegria, sentia uma imensa felicidade e dizia baixinho: “Pai, eu te agradeço porque escondestes essas coisas dos sábios e dos entendidos e as revelastes ao povo humilde aqui do terreiro. Sim, Pai, assim foi do teu agrado!”

Dançou um tempão. No fim, comeu pipoca, cocada e batata assada com óleo de dendê que o pessoal partilhava com Ele. E dentro dele o coração repetia, sem cessar: “Sim, o Reino de Deus chegou! Pai, eu te agradeço”! Assim foi do teu agrado!”

Fonte: Blog do Ailton Ferreira