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Cindindo a Cruz

Hélio Schwartsman, na Folha.com

O povo de Deus ficou bravo comigo por causa da coluna “Cristo despejado”, publicada na edição impressa da Folha no último domingo, na qual defendi a decisão do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul de mandar tirar os crucifixos das dependências da Justiça gaúcha.

Tecnicamente, era um texto pró-religião. Eu tentava mostrar que o Estado laico, isto é, que se mantém numa posição de total neutralidade em relação a todos os credos, interessa muito mais a religiosos do que a ateus e agnósticos.

Para os que não cremos em Deus ou que julgam sua existência uma questão indecidível, o crucifixo não passa de dois pedaços de pau entrelaçados, uma manifestação supersticiosa, no máximo. Já para alguém que de fato abraça uma fé, pode ser bastante incômodo ver o Estado chancelando o símbolo de um credo que não o seu.

Judeus e muçulmanos, por exemplo, têm boas razões históricas para interpretar a cruz como um emblema de opressão e morte. Há mesmo algumas denominações protestantes que, levando a sério o segundo mandamento, consideram o crucifixo um caso de imperdoável idolatria.

A própria Igreja Católica, nos países em que é minoritária e perseguida pelo governo, como a China e um bom número de nações islâmicas, vive frisando a importância da liberdade religiosa, ou seja, de um Estado laico.

Não foi, porém, essa tese, no fundo óbvia, que irritou os leitores. Como quase sempre ocorre quando trato de temas emocionalmente carregados, como religião, aborto, drogas etc., muitos deixam de ver o quadro geral para prender-se a minudências que lhes tiram da zona de conforto.

No caso específico, reclamaram do fato de eu ter comparado a cruz às bandeiras do Flamengo e do incomparavelmente superior Corinthians. Não viram que a analogia se inscrevia numa argumentação por absurdo, na qual eu procurava mostrar que não faz sentido defender a permanência de crucifixos em tribunais afirmando que a maior parte da população é cristã. Afinal, temos sólidas maiorias flamenguista e corintiana e nem por isso estamos autorizados a espalhar bandeiras e flâmulas dessas agremiações pelas paredes de nossas cortes. Antes de buscar razões estatísticas, é preciso um bom argumento que justifique a presença de um símbolo religioso num tribunal do Estado. E isso os crentes, a meu ver, não apresentaram.

Até que tentam. Muitos afirmam que a imagem do Cristo crucificado tem um valor que transcende a esta ou àquela religião e se reveste de caráter ético universal, daí ser apropriada para a decoração judiciária.

Mais uma vez, discordo. Em termos estritamente objetivos a cruz foi um dos métodos de execução mais populares entre os séculos 6 a.C. e 4 d.C. Era utilizada por romanos, persas e egípcios, entre outros povos ansiosos para livrar-se de seus criminosos. Se alguém ousasse propor que as paredes de nossos tribunais fossem adornadas por forcas, guilhotinas ou cadeiras elétricas provocaria a justa indignação de boa parte da opinião pública.

Ora, nós deixamos de ver a cruz como um instrumento de execução apenas e justamente porque ela se tornou o símbolo maior do cristianismo, caráter que lhe é indissociável. Ainda que se queira apregoar que ela representa também padrões morais observados por todas as religiões –tese que precisaria ser provada–, essa seria uma característica absolutamente secundária diante do peso religioso que a imagem adquiriu.

Uma terceira linha de argumentação pró-crucifixo sustenta que eles devem ser mantidos por tradição. Quem é contra a presença das cruzes em nome do laicismo do Estado deveria também advogar pelo fim dos feriados religiosos e até pela cassação de nomes como São Paulo, Espírito Santo e Santa Rita do Passa Quatro.

Não teria nada a opor à primeira provocação. Como eu e minha mulher trabalhamos de qualquer jeito nos feriados (o jornal sai todos os dias e salas de emergência de hospitais não fecham) e nossos filhos ficam sem aulas, as datas comemorativas civis e religiosas são para nós mais um estorvo do que uma bênção.

Eu também apoiaria a troca de nomes dos topônimos hieráticos. Não por achar que isso seja importante para preservar a laicidade, mas simplesmente porque seria divertido organizar concursos para a escolha das novas denominações. Poderíamos também adotar o calendário republicano da Revolução Francesa.

Brincadeiras à parte, é preciso tomar cuidado com o argumento da tradição. Se for levado muito a sério, o Código de Hammurabi ainda estaria em vigor e deveríamos defender a escravidão e a submissão feminina (que foram a regra durante a maior parte da história e da pré-história humanas).

Ninguém está propondo que se extirpem símbolos religiosos de todas as esferas da vida pública. Se alguém quisesse arrancar as cruzes das igrejas, eu próprio me colocaria ao lado dos padres para defender o símbolo. Já critiquei, neste espaço, à lei francesa que proibiu o uso de véus islâmicos e outros adereços religiosos por alunos em escolas públicas e a norma que veda as burcas.

Se há uma liberdade fundamental a defender na democracia é a de que os indivíduos devem ser livres para possuir uma identidade –seja ela religiosa, política, sexual ou filosófica– e expressá-la de forma pacífica.

Daí não se segue, porém, que o Estado deva escolher enfeites de uma religião específica para usar, como o faz quando reveste as paredes das cortes com crucifixos. Cuidado, não estou aqui afirmando que o poder público deva se desfazer de todo e qualquer ícone. O Masp não precisa se livrar de suas Madonas e a Osesp pode continuar executando música sacra. O problema é o contexto.

É não apenas legítimo como necessário que o Estado apoie museus, orquestras e até mesmo a preservação do patrimônio arquitetônico. O que não é razoável é colocar símbolos religiosos em espaços essencialmente republicanos como tribunais e colégios públicos. É perfeitamente concebível uma situação em que um cidadão vá parar numa corte com um caso contra uma igreja. Pode ser o barulho gerado pelo templo, um caso trabalhista ou qualquer outra reclamação. Chegando lá, ele dá de cara com um crucifixo encimando a silhueta do juiz. Será que isso não arranha a noção de imparcialidade, tão importante para a Justiça?

Não creio que a presença ou não das cruzes seja uma questão capital, muito pelo contrário. Os níveis de glicose no sangue do magistrado provavelmente exercem mais influência sobre sua decisão do que toda a simbologia religiosa. Mas o Ocidente começou a dar certo quando as esferas da religião, do Estado e das atividades privadas foram ficando mais claramente delineadas, a partir do Renascimento e, com especial ímpeto, do Iluminismo. Não vejo motivos para não aprofundar essa tão oportuna cisão.

“Religiosa cantando no plenário e divulgando sua crença maluca”


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Em junho do ano passado aconteceu na Câmara uma homenagem ao centenário das Assembleias de Deus. O plenário transformou-se em congregação e a deputada (e cantora) Lauriete mandou um Grandioso és tu na sua versão que dispensa comentários.

Nesta semana, o “Universo ateu” postou novamente o vídeo no YouTube e já teve quase 45 mil cliques e + de 1.200 comentários indignados. Abaixo, o texto-protesto deles:

“Religiosa cantando no plenário e divulgando sua crença maluca,
um total desrespeito ao povo brasileiro que paga o salário desses palhaços ridiculos.  Brasil, vergonha mundial, estão querendo transformar o governo em mais uma igreja corrupta que vive do dinheiro dos ignorantes”.

dica da Isabel Dias Heringer

Quem tem razão? Homenagens a, por exemplo, Allan Kardec e Iemanjá podem ocupar o mesmo espaço? Essa é a melhor contribuição da bancada evangélica ou apenas uma ilustração de seu corporativismo e irrelevância?

 

Dança profética é a do Afroreggae

Sostenes Lima, no blog dele

Há alguns anos começou no Brasil um “movimento profético”. Não sei bem de onde veio. Pra falar a verdade, não estou interessado em saber. Só estou escrevendo sobre esse tal movimento porque não aguento mais ver a palavra profético ser conspurcada pela religião. Já notaram que tudo hoje em dia é profético: da adoração à riqueza? Fiz uma pequena busca no Google e, para minha certeza, encontrei uma lista enorme de práticas religiosas e litúrgicas grosseiramente associadas à palavra que dá nome a um agente social, cuja memória exige respeito: o profeta. Vejam as pérolas que achei:

  • Adoração profética
  • Louvor profético
  • Louvorzão profético
  • Música profética
  • Dança profética
  • Culto profético
  • Bandeira profética
  • Sacerdócio profético
  • Ministração profética
  • Unção profética
  • Campanha profética
  • Transe profético
  • Mover profético
  • Êxtase profético
  • Teatro profético
  • Coral profético
  • Entrega profética
  • Oração profética
  • Jejum profético
  • Línguas proféticas
  • Batismo profético
  • Ceia profética
  • Oferta profética
  • Prosperidade profética
  • Riqueza profética

Obviamente a lista está incompleta. Não dá pra esgotá-la. Esse pessoal da religião é muito criativo e muito esperto.

Esse movimento todo em torno da palavra profético, infelizmente, não tem nada a ver com o resgate de um movimento social que surgiu na sociedade judaica monarquista há aproximadamente 2800 anos atrás. O uso abundante da palavra profético nos nossos dias não passa de uma grande jogada de marketing.

“Novos negócios precisam de novas palavras. E quando o negócio é velho, mais ainda!”, diz pragmaticamente a publicidade.  Não há como continuar explorando indefinidamente um negócio sem renovar sua cara. É por isso que surgiram a “Nova Skin”, o “Novo Civic”, o “New Fiesta” etc. A publicidade tem como objetivo nos convencer de que tudo é novo. Porque, se é novo, precisamos comprar. As coisas que temos são velhas; já não servem mais. Somos enredados pela a ilusão de que é possível refrear o envelhecimento comprando coisas novas.

O que ninguém diz é que o novo é apenas uma maquiagem verbal. A retórica publicitária faz com que coisas velhas sejam instantaneamente transformadas em novas, bastando renovar palavras ou inventar palavras novas. Sem os dotes retóricos, o que vemos é uma realidade bem diferente: tudo envelhece, até mesmo a palavra novo. Fico pensando sobre qual será o recurso publicitário que vai ser usado para vender o “Novo Civic” depois que o novo que há em seu nome envelhecer? Será que haverá um “Novo Novo Civic”? Bom, deixemos isso de lado e concentremos no que é da conta deste artigo.

Resumindo toda essa divagação sobre o discurso publicitário em uma única frase, teremos: não há como fazer um produto explodir no mercado sem colar nele uma buzzword. É preciso associar ao nome do produto uma palavra que vai dar cara ao negócio, que vai vendê-lo, que vai fixá-lo na mente do consumidor, que vai mobilizar revendedores e vendedores, que vai fortalecer as franquias, que vai ser inserida na missão e visão de empresas associadas etc.

Pois é, o mercado gospel, sabendo disso, fez um investimento de peso na palavra profético. E logo percebeu que essa seria uma jogada de muito sucesso. O pessoal do mercado religioso evangélico notou que colar em seus produtos o adjetivo profético agrada o consumidor. Daí a invenção de coisas como “adoração profética”, “ministração profética”, “dança profética”, “louvor profético” e até “riqueza profética”. A palavra tem alcançado uma circulação quase viral no meio gospel brasileiro.

Estudos em análise do discurso nos mostram que a publicidade consegue êxito na tarefa de projetar comercialmente uma palavra através de três estratégias semântico-discursivas. A primeira consiste em inventar tanto a palavra (matéria sonora e gráfica) como o significado desejado. Lança-se então uma nova palavra no mercado linguístico. Podemos dizer, adotando os termos de Saussure, que são criados tanto o significante quanto o significado. A segunda consiste em inventar significados novos para uma palavra velha, mas sem desconstruir ou apagar os significados antigos. Constroem-se, assim, metáforas com a palavra.

A terceira, muito mais audaciosa, consiste em esvaziar todo o significado da palavra, deixando-a completamente líquida e plástica, sob o ponto de vista semântico, para que possa se adaptar a qualquer contexto, tanto textual e quanto discursivo. Essa terceira estratégia é mais ousada porque é muito difícil destituir os significados fundantes de uma palavra; é muito difícil fazer o interlocutor bloquear o histórico semântico de qualquer palavra que seja. Isso é quase uma proeza. Só mesmo a publicidade para conseguir tamanha façanha.

Pois foi essa última estratégia que o mercado gospel usou com a palavra profético. Arrancou dela sua história semântica, deixando-a esvaziada de todos os traços que a inserem no campo da militância social e política. O significado fundante desse vocábulo remete a uma prática sociopolítica desenvolvida em Israel, na época da monarquia.

O profeta era um agente social que denunciava os desmandos praticados pelos poderosos do meio político, jurídico e religioso. Frequentemente reis, juízes e sacerdotes, empunhados da força que o poder lhes garantia, se embrenhavam na corrupção, explorando e oprimindo o povo. Quando a coisa se tornava insuportável, irrompia o profeta com a boca no trombone. Ele denunciava tudo e todos; desmascarava a corrupção e reclamava o direito dos oprimidos.

O discurso profético era um manifesto recoberto de denúncia e exigência de libertação. Não é de surpreender que os profetas fossem alvo de terríveis perseguições.  Naquela época, tudo que era profético era frontalmente oposto à coroa, ao judiciário e à religião. Para ser profeta era necessário haver disposição e coragem para desconstruir o discurso dessas três esferas públicas.

No profetismo de hoje, tudo essa memória sociopolítica, construída um torno da palavra profeta, é esvaziada. Para o mercado gospel, ser profético não significa nada. Não há intensão de manter ou agregar significado algum à palavra profético em si mesmaO que se quer é atribuir ao termo um valor comercial, tornando-o adaptável a qual quer produto religioso, especialmente aqueles já envelhecidos e com pouco apelo de consumo.

Dizer que uma música é profética constitui uma estratégia muito eficiente para convencer o consumidor de que está diante de um produto religioso novíssimo, do qual tem extrema necessidade.Portanto, todo esse frisson em torno da palavra profético nada mais é do que uma jogada retórico-publicitária que visa impulsionar o consumo religioso. Colocar o termo profético ao lado de produtos religiosos como adoração, culto, música, dança, oração, campanha, unção etc. dá-lhes uma roupagem de novo, criando um apelo de consumo quase irresistível.

Não digo que não haja dança profética. Mas se existir não tem nada a ver com essas coreografias de mau gosto que a gente tanto vê nas igrejas evangélicas por aí. Dança profética, para ser profética de verdade, tem de ser uma prática sociopolítica. Nesse sentido, eu estou muito mais disposto a encarar a apresentação de um grupo de jovens ligado ao Afroreggae como um evento de dança profética (em virtude do projeto de transformação sociopolítica aí incorporado), do que a apresentação de um grupo de dança evangélico, que só pensa em liturgia e nada faz por mudança e transformação social.

foto: FlipZona

Turismóloga filósofa começa processo de apóstata

Publicado originalmente no Jornal de Lavras.

Lavras poderá ganhar a mídia nacional outra vez, porém, devido a iniciativa de uma turismóloga e estudante de filosofia.

Um fato inédito em Lavras e provavelmente na região: uma pessoa entrou com um processo de apostasia na igreja de Lavras. Pouca gente sabe o que significa isso, se você não sabe, não se preocupe, a palavra é estranha e o que ela representa é mais incomum ainda.

Apostasia é a renúncia de sua fé. O processo de apostasia não se refere apenas ao afastamento em relação a sua fé e à prática religiosa. Apostasia tem o sentido de um afastamento definitivo e deliberado de alguma coisa, uma renúncia de sua anterior fé ou doutrinação. Pode manifestar-se abertamente ou de modo oculto.

No caso de Lavras, Mariana Xavier Rocha preferiu que fosse do conhecimento de todos a sua posição de desvinculação com a igreja, ela justificou dizendo que não acredita em Deus com a visão do cristianismo. Também por não concordar que faz parte de um número da igreja católica e explicou: “as estatísticas da igreja católica são baseadas em números de batistérios, ou seja: se a cidade tem 50 mil católicos é porque este número foi tirado no número de batistérios, não quero contribuir para isso, não quero entrar na contagem de católicos”, disse. Ela falou também que quando foi batizada era uma recém-nascida e que agora tem vontade própria.

O processo de apostasia é longo, deverá demorar muito, isso porque o primeiro passo é dar entrada ao pedido, depois um padre tenta convencer a pessoa a não dar continuidade ao processo e, se ela continuar irredutível, o processo segue então para o Bispado, ela será avaliado e depois, no último passo, o bispo expede um documento aceitando a desvinculação com a fé cristã. Questionada se não teria medo de ser vítima de preconceito, Mariana Xavier Rocha disse que não.

Se desvincular de uma religião desta forma não é tão simples assim, dependendo de cada religião, um apóstata, afastado do grupo religioso no qual era membro, pode ser vitima de preconceito, intolerância, difamação e calúnia por parte dos demais membros ativos. Um caso extremo, é aplicação até da pena de morte para apóstatas na religião islâmica em países muçulmanos, como por exemplo, na Arábia Saudita, Irã, Iraque e outros mais.

Bancada evangélica impõe “lei do Pai nosso”. Petista sanciona

Flavio Morgenstern, no Implicante

Além do Ministério da Pesca ir parar nas mãos de Marcelo Crivella, outra notícia, de bem menor intensidade, também marca uma semana de “conquistas” para a bancada evangélica. Esta foi em Ilhéus (BA), em que um vereador evangélico, Alzimário Belmonte (PP-BA), consciente dos problemas enfrentados pela cidade e da bolada que recebe para resolvê-los, achou por bem privatizar a solução possível para o Divino: criou a lei de número 3.589/2011, que ficou conhecida como lei do “Pai Nosso”, que obriga (ma non troppo) rezar todos os dias antes das aulas. Saiu no G1:

No Instituto Municipal Eusínio Lavigne, que possui 1.700 alunos, uma das maiores unidades de ensino da cidade, os alunos e professores obedecem o ordenamento. A estudante Rafaela Lima é evangélica e comenta que modifica algumas palavras da oração para seguir a regra. “A gente ora do jeito que está na Bíblia, em casa, onde a gente estiver”, conta.

Apesar de a lei determinar obrigatoriedade, o diretor da unidade, José Eduardo Santos, afirma que a escola não impõe a prática diária da oração. “Nós não conduzimos, nem impomos. Fazemos, de um modo geral, por amor. Aqueles que são católicos, que creem, que confiam, participam. Aqueles que não acreditam, a gente respeita a religião de cada um“, comenta.

A secretária de Educação, Lidiany Campos, relata que a administração municipal se reuniu com gestores escolares e diz que considera a oração importante. “A nossa orientação é de que não exista jamais algum tipo de pressão no sentido de obrigar o professor no cumprimento da lei“, reafirma. A lei foi sancionada em dezembro do ano passado pelo prefeito Newton Lima (PT-BA).

(grifos nossos)

Houve uma grita recente sobre a obrigatoriedade do ensino religioso em escolas públicas do Rio de Janeiro, num caso claríssimo de atentado ao Estado laico. No caso em questão, jurava-se que iria-se dar aulas de acordo com a religião do aluno (algo como 70% da turma ter aulas de catolicismo, 20% de protestantismo, 6% de candomblé, 2% de ateísmo a la Richard Dawkins, 1% de tantra incluindo posições do Kama Sutra 1% de satanismo de Crowley, tudo por um único professor religioso hiper especializado na História das Idéias Religiosas de Mircea Eliade, tão capacitado quanto qualquer outro da rede pública). Talvez seja o caso de ensinar lago para a aluna evangélica: protestantes oram, não rezam: orar é conversar com Deus, rezar é uma reza pronta. Assim, é impossível “orar do jeito que está na Bíblia”.

É curiosa essa lei que “conduz, não impõe”. Fica-se pensando no que oDuce colocaria como punição para quem não a siga. E uma lei que não tem punição me soa tão útil quanto um pronunciamento do Edir Macedo a respeito da teoria das cordas.

Assim, confunde-se o próprio conceito de “lei”. Aparentemente, a partir de agora, é apenas algo para não obrigar ninguém a cumprir. Um aluno que caia na delinqüência nunca mais poderá ouvir a expressão “está na lei!” como um anátema perigoso e algo que determine inapelavelmente um comportamento X. Exatamente para termos liberdade de comportamento, ademais, é que se deve haver poucas leis: para que não se vigie o cidadão em cada uma de suas ações. Diz George Orwell em “Política vs. Literatura: Uma análise de As Viagens de Gulliver“:

“Numa sociedade sem lei e, em teoria, sem compulsão, o único arbítrio do comportamento é a opinião pública. Mas a opinião pública, devido à tremenda necessidade de conformidade dos animais gregários, é menos tolerante do que qualquer sistema de leis. Quando seres humanos são governados por ‘não poderás’, o indivíduo pode praticar certa quantidade de excentricidades: quando supostamente governado pelo ‘amor’ ou pela ‘razão’, acha-se sujeito a uma pressão contínua para pensar e se comportar exatamente como todo mundo.”

Não é preciso muita imaginação para entender o recado. Aqui, ao contrário, se faz tantas leis (a Constituição americana tem 20 páginas) que sequer cabem em um livro, e ninguém sabe bem o que pode e o que não pode. Uma lei, em suma, costuma não servir para nada – e assim, toda lei acaba correndo o risco de ser posta em xeque. Há mais:

Segundo disse ao G1 em janeiro, a secretária acredita que a iniciativa é positiva porque pode amenizar a violência juvenil. “Apesar de o estado ser laico, é importante a crença, acreditamos nisso, principalmente nas escolas, em queo índice de violência é grande, há inversão de valores, quem sabe a religião ameniza”, afirma Lidiany, que é professora da rede municipal há 26 anos.

Essa semana em Brasília uma menina de 13 anos esfaqueou um colega de turma porque ele a chamava de Teletubbie. Analisando as estatísticas de religião no país, quem não apostaria o lado sensível da carcaça que a menina é religiosa? Para piorar, ateus compreendem de 8 a 10% da população, enquanto nas cadeias o percentual cai para cerca de 1%. Seria o caso de acreditar que é “importante” ter aulas de Christopher Hitchens e Marquês de Sade para diminuir a violência? Um comete erros que até outro ateu (e marxista) como Terry Eagleton expõe em O debate sobre Deus, outro é um maluco com sérias tendências psicóticas. Mas creio que nenhum dos dois cometeria vergonhices como afirmar numa entrevista que “acredita que acreditar é importante”.

Mas para não termos mais dúvidas do bom-mocismo do projeto e do quanto uma lei pode ser levada a sério, o G1 passa a palavra ao seu autor:

O vereador evangélico Alzimário Belmonte (PP-BA), autor da lei aprovada na Câmara local, afirma que a intenção é despertar nos jovens a importância de valores. “É uma lei extremamente livre. Eu não coloquei na lei nenhum artigo que tem que ser todos os dias, não coloquei também nenhuma penalidade, nenhuma sanção para quem não queira orar”, argumenta.

Entenderam? É uma lei para obrigar, mas sem obrigação. Antes de perguntar se temos algum vereador com alguma proposta metafisicamente melhorznha para diminuir a violência, cabe saber: será que posso sorrir e dizer que me obrigaram, mas sem obrigação, a pagar meus impostos?

Flavio Morgenstern é redator, tradutor e analista de mídia