A vida em estado puro

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Ricardo Gondim

Dedicado ao mestre Rubem Alves 

Ando inebriado de beleza.
De repente me sinto esmagado pelo esplendor.

Sem mais nem menos, sou batizado por uma Presença nas águas encantadas da poesia.
Tudo me encanta, tudo me seduz.
Nesse mergulho, passo a gostar de pequenos gestos.
Relembro momentos fugidios que marcaram minha retina com enorme alegria.
Ressuscitam em mim olhares, toques e sílabas soltas, responsáveis pelo resgate de mim mesmo.

Sei, uma presença estranha me possui.
Ela é vento sagrado que abre o estojo de jóias chamado saudade.
Sua presença imperceptível ressuscita traços do que me fez sorrir um dia.

Estou convencido de que só percebo a sombra do divino.
Sua formosura tem a negritude da asa da graúna, é gentil como o sorriso da criança e forte como o olhar do ancião.

Acolho o sopro divino e miudezas me fascinam.
A genialidade poética do Chico Buarque e a doçura do Henri Nouwen se somam à erudição de outros poetas para me deixar com o impulso de correr, saltar, arriscar.

Sinto-me vivo. Os meus olhos se enchem de azul.
A minha pele se cobre com o rubro sensual do crepúsculo.
O meu coração acolhe o que a noite fecunda.

Percebo o abraço do infinito.
Uma beleza sutil me arrebata enquanto o instante fugidio me endoidece.
Na areia sorrateira que desce, me vejo encharcado de eternidade, assombrado pela vastidão sideral, atraído pelo insólito, desejoso do devir.
Mantenho o olhar absorto no horizonte improvável.

Um sopro primordial vem e tenho anseio de me sentar em uma catedral vazia.
A presença do intangível me conduz a esses espaços bucólicos.
Guardo a sensação de que algum companheiro, parecido com o andarilho que arde corações, ainda me acompanha.

Virtudes que jamais alcancei me animam a conquistar o que me resta de fôlego.
Desfaço no peito os nós da discórdia, despedaço na mente as lógicas do ódio e me inundo de sede por mais bondade.
Me uno aos que lutam para conquistar a praça onde justiça, paz e alegria dão as mãos.

Por algum motivo, no êxtase do sagrado, perfumo a casa com velas aromáticas, leio Pessoa e escuto Bach.
Lamento quem se foi e tento guardar sob sete chaves os que me são caros.
Esses mínimos acenos do divino me deixam com a alma à flor-da-pele.
Sinto a vida em estado puro.

Soli Deo Gloria

fonte: site do Ricardo Gondim

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A vida sem rédeas

ca. 1990s Wyoming, USA

Ricardo Gondim

A vida se parece com um cavalo chucro. Ela não obedece prognósticos, despreza vaticínios e nunca se prende aos trilhos da lógica. Quando puxada à direita, desobedece. Se afrouxamos as rédeas e cogitamos parar, eventos súbitos nos surpreendem. Quem não se dobra à verdade de que a vida é selvagem, desperdiça enormes pedaços da existência. O esforço de encabrestar o potro selvagem chamado vida, exaure. Querer antecipar o futuro é tarefa estafante, um delírio onipotente.

Ciência e tecnologia prometem trazer as variáveis da vida sob sua tutela. Mesmo com toda conquista médica, capacidade meteorológica e poder cibernético, por mais admiráveis, estamos longe, muito longe, de subjugar o tal potro.

Mantemos uma inquietação estranha. Ambicionamos controle. Como tornar o futuro minimamente previsível? A religião se oferece como resposta alternativa. Os templos lotados atestam sua força. A necessidade humana de antecipar-se a acidentes, de prever intempéries e de se proteger da aleatoriedade, leva muitos a acessar o divino. O desencanto pós-moderno é, em grande parte, responsável pelo avivamento da crença de que resta esperar pela proteção de Deus. A lógica do javismo de Deuteronômio ensina que Deus blinda, desde que ele contemple uma contrapartida dos filhos. Quem cumprir os mandamentos, cria defesa para tudo: do ataque dos gafanhotos na plantação à vaca infértil. Devido a essa expectativa, sobejam os marqueteiros da religião, que repetem (nunca de graça): Deus coloca seus filhos debaixo de suas asas. (Onde estão as redomas de aço ao dispor dos santos?) Outros místicos prometem: Com Deus, nenhum mal acontece. Livretos repetem, ad nauseum, fórmulas para fechar o corpo, quebrar maldição, receber milagre, anular o poder do diabo, alcançar graça, neutralizar os efeitos da macumba. Jargões, decorados e esbravejados, tentam gerar uma fé com o poder de domesticar o futuro selvagem.

Muito do que se busca no milagre não passa de esforço para tornar o dia a dia mais plácido e sem sacolejos ou surpresas desagradáveis. Acontece que essa mentalidade não encontra eco na tradição cristã  – nem se sustenta na realidade concreta das pessoas. Jesus jamais cogitou esse tipo de vida. O Nazareno se esforçou para mostrar que, antes de reverter a realidade, temos de mudar os conteúdos do coração. No universo conceitual do Carpinteiro, o mundo, repleto de predadores, sofre ameaça dos maus. Justos e injustos nunca se veem livres dos perigos da natureza. Viver é perigoso – arriscado.

Fé tem a ver com nossa capacidade de lidar com as diferentes fases da vida. Estações distintas compõe nossa história. Em cada uma delas – infância, adolescência, vida adulta e velhice – existem problemas. Fé se irmana à sabedoria para nos ajudar a encarar – e apreciar –  essas estações em sua beleza, limitações e desafios. Devido à fé, não nos destruímos nos picos de euforia ou nos vales de tristeza – na gangorra emocional – que as muitas épocas da vida trazem.

Nossa fé tem a ver, também, com liberdade. Quais as avenidas do amanhã, sempre inédito, que decidimos andar? Reconheçamos: toda liberdade é limitada. Não nos perguntaram nossa preferência de sexo, cor da pele, hereditariedade ou lugar de nascimento. Igualmente, ninguém opta se vai ou não precisar beber água. Podemos escolher, pelo menos, a atitude que beberemos. O modo como encaramos nossa contingência pode determinar nossa qualidade da vida. Fé procura influenciar a resposta aos prêmios, ou às vicissitudes, que compõe o enredo de nossa história.

Ninguém é uma ilha. Pessoas dependem de pessoas. Para viver é preciso saber estabelecer relacionamentos.  Fé repousa, assim, em um alicerce essencial: a convivência com o próximo. Nela, desenvolvemos nossa capacidade de amar e deixar-nos amar.

Como a vida é alazão arisco e indomável, vive quem respeita as fases que o tempo escancara, lida com suas flutuações emocionais e reconhece – e aceita – os desdobramentos de suas escolhas. Acima de tudo, vive quem se vê, neste vasto mundo, parte de uma mesma família.

Fé avisa ao potro: esperneie o quanto desejar, eu não desistirei.

Soli Deo Gloria

fonte: site do Ricardo Gondim

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Os felizes e os desgraçados

trapezistas

Ricardo Gondim

Bem-aventurados os contentes com a vida.
Neles qualquer migalha divina
será bênção dividida.
E toda alegria,
a negação da rotina.

Bem-aventurados os que têm fome e sede de beleza.
Neles encarna o Filho do Poeta.
Seus versos entrarão na sala da realeza
E só eles perceberão, no inefável,
uma partitura completa.

Bem-aventurados os trapezistas.
Eles no alto circo balançam.
No perigo de viver,
destilam nos mortais, pistas
que só os riscos aguçam.

Bem-aventurados os maratonistas.
Eles correm sem o prêmio esperar,
buscam metas
pela alegria das conquistas
que os anos querem temperar.

Bem-aventurados os impotentes.
Eles se sabem incapazes de amar,
se enxergam carentes,
e  só esperam o espírito depurar.

Mal-aventurado o africano.
A humanidade o ensinou a pescar
no rio do desengano.
Desgraçado o que aprendeu a descansar
no colchão desumano,
onde o piolho pica até cansar.

Mal-aventurada a mãe que chora
no morro carioca.
Ela que, em toda hora,
contempla o rés do chão traiçoeiro,
nunca terá desforra.
Não há cavalheiro
para o lenço estender
ou a face suavizar na
lágrima que lhe acalora.

Mal-aventurados os velhos.
Eles jazem alucinados
na impura enfermaria.
A cadeia os alucina aprisionados,
por malignos escaravelhos
que pendem nos lustres empoeirados.

Mal-aventurados os generais.
Eles festejam faustos feitos.
Mas, deles é o cálice pleno de ais.
Infelizes nos coitos, eles
sabem que suas mulheres são iguais
às meretrizes menos geniais.

Mal-aventurados os religiosos.
Eles, das verdades fazem dardos.
Deles nascem males rancorosos
que condenam seus convertidos
à eternidade dos medrosos.

Soli Deo Gloria

fonte: site do Ricardo Gondim

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O homem resoluto e provisório – um conto

conto-gondim

Ricardo Gondim

Não! O homem esbravejou, contundente.

Enquanto caminhava, seguiu sem raiva.
Viajava com certa impaciência, sim.
Por isso, murmurou, insistindo consigo mesmo: Nunca!
Negar era seu jeito de procurar manter alguma lucidez.
Esperneou para não se ver enredado nas teias pegajosas da estrada imponderável.
Soltou um grito primitivo e pueril para fazer a catarse do negativo.
Mastigou palavras raras.
Contentou-se em repetir seu jamais todo próprio.
Logo a estrada bifurcou.
Ele empacou.
Notou o risco de escolher entre dois caminhos.
Pensou: Mais uma opção provisória.
Balbuciou com os dentes semicerrados um não a mais.

Andou bastante fora da trilha já aberta.
Pouco tempo depois, definitivo e obstinado, definhou.
Morreu se sentindo livre e feliz.

fonte: site do Ricardo Gondim

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O caminho menos trilhado

caminhando

Ricardo Gondim

Preciso da divina companhia de quem se atreve acompanhar-me por uma rota deserta chamada vida. Firo, magoo e decepciono muitas vezes. Sofro se não expresso gratidão. Afasto gente querida. Atropelo companheiros. Como sei a dor de olhar para trás e ter remorso de não ter celebrado mais instantes, vez por outra luto para não lacrar as janelas da existência.

Contudo, seguir na estrada menos pavimentada parece tanto meu flagelo como minha fortuna. Não é fácil andar comigo. Perseguir horizontes pouco nítidos –  nebulosos – me desafia desde sempre. Mesmo quando acho difícil desvelar os enigmas herméticos, insisto em esmiuçar a sutil revelação da transcendência. Acho tudo complicado e quero saber o porquê.

Solitário – sem escolher a solidão – subo desfiladeiro. Não me interesso por descidas. Minha alma se interessa por conquistar as escarpas das serras. Cavalgo por prados selvagens sem atentar para os buracos perigosos. Nado na contramão da enxurrada que empurra toras de madeira enquanto cava rochas. Perto de mim, canhoto, as pessoas entendem o significado mais profundo de ser sinistro.

Meu corpo pede quietude, todavia, não cesso de espernear por dentro. Sou todo desassossego, todo alvoroço, todo rebuliço. Se recuo diante de acenos inquisitórios é devido ao meu destemor dos patrulheiros dos bons modos. No banquete dos bem comportados, necessito de espaço para os cotovelos. Meu ímpeto de escrever não tolera a cisma de escandalizar. Quero devanear como um poeta: alucinado com a beleza imarcescível, apaixonado pelo mistério inesgotável e alumbrado com a solenidade do sagrado.

Sei que não devo tentar explicar-me. Não por descaso, mas por me faltarem palavras. Como descrever a imensidão submersa de um coração apaixonado? Eu também tenho um caso de amor com a vida.

Minha interioridade é só minha. Mesmo assim continuo estrangeiro de mim mesmo. O homem que me encara de dentro do espelho mal sabe quem eu sou. Meus pensamentos se agitam, insubmissos. Os sentimentos colidem em noites insones. Constantes terremotos misturam medo e ousadia, ternura e raiva, fé e dúvida, empenho e fadiga. Na areia do tempo, me desconheço cada dia mais. Sou ambíguo e lógico, sensível e ríspido, melancólico e cheio de esperança.

Se insisto em não precisar de ninguém, no mesmo fôlego choro por companhia. Procuro o deserto só para morrer de saudade. Entre retroceder e avançar nos afetos, fico tensionado como elástico de estilingue. Acendo os faróis para o futuro e, ao mesmo tempo, lanço âncora. Rasgo mapas, roteiros, bulas, dogmas, contudo, gosto do rito do encontro. A antiga eucaristia do pão rasgado e do vinho tinto me enchem de significados novos. Cafuné, abraço e pequenos parágrafos carinhosos se tornam tão essenciais quanto o vento – o espírito – que me anima com eternidades. Na senda pouco povoada por onde viajo, confesso carência de intimidade.

Soli Deo Gloria 

fonte: site do Ricardo Gondim

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