Arquivo da tag: ricardo gondim

Quando o inferno nos rodeia

Palestino carrega corpo de uma menina de dois anos morta após os ataques israelenses (foto: Suhaib Salem/Reuters)

Palestino carrega corpo de uma menina de dois anos morta após os ataques israelenses (foto: Suhaib Salem/Reuters)

Ricardo Gondim

Em Metamorfose, obra-prima de Franz Kafka, o caixeiro viajante Gregor Samsa acorda transformado em inseto. Kafka se vale dessa terrível sina para denunciar o descaso. No sofrimento crônico, enquanto a agonia de Samsa se prolonga, familiares, inclusive os inicialmente chocados e prontos para ajudar, o abandonam.

Kafka fez Gregor Samsa incorporar a insignificância do ser humano nos longos processos de dor para denunciar: o tempo conspira contra a solidariedade. Se, para sobreviver ele continua necessitando dos outros, morrerá à mingua. A família acaba por esquecer o homem metamorfoseado em inseto (alguns acham que era uma barata). Quem se vê preso ao sofrimento abjeto, acorrentado à miséria, não terá escapatória.

Diversos países da África agonizam há anos. Na Palestina que arde, crianças voltam a morrer, dizimadas por bombas de fósforo – Israel já usou essas bombas banidas na Convenção de Genebra. Mas, com o alongar do horror, os noticiários acabam mudando a ênfase – ninguém suporta ficar diante da barbárie o tempo todo.

O fracasso do capitalismo de evitar que mais de um bilhão de pessoas durmam com fome, o neocolonialismo econômico, que perpetua os bolsões de miséria, e o poder da indústria bélica passam quase despercebidos por serem já antigos.

No começo do ano, o Jornal Nacional da Globo gasta, invariavelmente, vários minutos, com alguma reportagem sobre o preço do material escolar de grife; mães e filhos falam sobre o absurdo de comprar um caderno duas vezes mais caro por estampar o emblema de algum time de futebol na capa. O telejornal de maior audiência no Brasil dá pouca ou nenhuma nota sobre o genocídio do Congo, sobre a violência mexicana ou sobre a vida dos emigrantes africanos. A Palestina não toma mais que dois minutos – e a matéria vem de Nova Iorque, Londres ou Tel Aviv – que, obviamente, é versão oficial de quem detém o poder. A mídia brasileira é medíocre.

Voltemos a Gregor Samsa. A morte cotidiana de crianças e idosos em Gaza, pouco a pouco, perderá espaço. Não é bom ver meninos despedaçados. Quem gosta de jantar com imagens de um campo de refugiados da ONU?  Milhares de seres humanos a vagar, transformados em gafanhotos em um deserto sem grama, nunca é agradável.

Precisamos resistir. Nenhum ser humano, diminuído à condição de inseto, merece ser esquecido. Continuar a vida e abandonar ao largo os que jazem na estrada entre Jerusalém e Jericó, só nos desumaniza. Rejeitemos a notícia rala sobre a vida íntima de ricos e famosos. Procuremos análises mais profundas sobre os acontecimentos. Cobremos manchetes imparciais. Não aceitemos melindre piegas quando circulam fotografias pavorosas na internet, elas nos acordam da complacência.

Acostumar-se à guerra é monstruoso. Toda aventura militar é sórdida. O arrazoamento bélico, que desconsidera pessoas em nome de projeto político, nasce no inferno. Paz forjada sobre retaliação e vingança não é paz. Intolerância fermenta ódio.

Diz-se que C.S. Lewis confrontou seus amigos que gostavam de discutir literatura em um pub de Oxford em plena II Guerra: O que fazemos aqui discutindo literatura, enquanto a Europa arde? Nero não foi um monstro por incendiar Roma, mas por tocar violino diante do inferno. 

Se crianças morrem estraçalhadas por granadas ou de fome, a vida não pode seguir adiante, como normal. Kafka abandona Gregor Samsa empoeirado e triste para nos avisar: se nos acostumarmos com o inferno, nós nos tornamos menos que gente. Que Deus não nos deixe dormir em paz.

Soli Deo Gloria

fonte: site do Ricardo Gondim

Vida efêmera

foto: Hesham Alhumaid

foto: Hesham Alhumaid

Ricardo Gondim

Como um pai tem compaixão de seus filhos, assim o Senhor tem compaixão… pois ele sabe do que somos formados; lembra-se que somos pó”  [Salmos 103.13-14]

Somos limitados. O número de palavras que nos valemos para conversar, escrever, poetizar, criticar, não lota cem páginas. O espectro da nossa audição é menor do que o dos cães. Existem milhões de cores que nossos olhos não conseguem perceber. Intuímos, mas estamos longe de entender o que significa a palavra percepção. Na vastidão do mistério que nos escapa, oscilamos entre a passividade e a angústia. Qualquer altitude nos mete medo. Tratamos uma pequena depressão como vale da sombra da morte. Dizemos que o futuro parece um oceano desconhecido. O medo do infortúnio se torna pior do que o próprio infortúnio – [ditado iídiche]

Somos óbvios. Previsíveis. Não relutamos quando a vida reduz as opções. Se precisamos alçar voo, nos amesquinhamos. Contentes, sequer reparamos o ar viciado da sala povoada com nossos iguais. Não nos envergonhamos de nosso sedentarismo – que atrofia músculos e coração.

Somos efêmeros. As carpas vivem mais do que nós. Os abutres sobrevivem com bem menos. A ursa cuida da prole com mais atenção. Nossa pele enruga com pouco sol. Bastam quatro décadas, e nossos olhos perdem a capacidade de manter a nitidez. Nosso cabelo embranquece e cai sem motivo. Basta um mínimo desequilíbrio no sangue, um leve aumento da temperatura, e convulsionamos. Sacrificamos a boa comida em nome da saúde, mas não driblamos o câncer, a diabetes, a pressão alta. A vida passa e apagamos como fagulha na neblina. Os primeiros anos – da infância – se esconderam no inconsciente e os últimos – da velhice – se perderão na demência. Custamos atinar: não passamos de folha, que amarela e despenca no outono.

Somos carentes. Precisamos de companhia. O outro, por mais impertinente que seja,  é melhor que a solidão. Se fugimos para o deserto, lá choramos de saudade. A irritação do conflito não basta para nos afastar do amor. Suplicamos por abraço, mão estendida, colo. O crepúsculo nos inunda de melancolia. Sentimento de orfandade nos acorda de manhã e passamos o resto do dia à espera da mãe que perdemos.

Bendita precariedade que escancara nossos limites. Por nos sabermos passageiros, conhecemos a peculiaridade do instante. Na especificidade de cada momento vivido, degustamos a eternidade.

Soli Deo Gloria

fonte: site do Ricardo Gondim

Chico Buarque e a cultura humanista cristã

chicocapaRicardo Gondim

Vários artistas e intelectuais escreveram sobre a vida e obra de Chico Buarque de Holanda nos seus 60 anos de idade. - Chico Buarque do Brasil - Editora Garamond – Edições Biblioteca Nacional. Entre as análises, interessei-me pelo capítulo de Leonardo Boff –  Chico Buarque e a cultura humanista cristã. Transcrevo alguns parágrafos:

O cristianismo é mais que uma confissão religiosa, encarnada em muitas igrejas. É principalmente uma força cultural que desborda das confissões e segue uma via secular, marcando a cultura ocidental, incompreensível sem a seiva cristã que corre por suas veias.

Esta expressão cultural e secular do cristianismo talvez seja a contribuição maior e mais perene que a utopia e o sonho do Nazareno legaram à humanidade.

Seria, entretanto, um erro histórico e pretensão descabida pensar que o cristianismo seja a única fonte modeladora deste humanismo. Presentes nele estão a filosofia e o teatro gregos, o direito e organização político-militar romana, o espírito inovador da Renascença, a liberdade reivindicada pelos formuladores do paradigma da ciência moderna com Galilei, Newton e Copérnico, a tradição emancipatória da Revolução Francesa e a reflexão moderna filosófica, psicanalítica e cosmológica.

A sacralidade e a inviolabilidade de cada pessoa, subjacente a toda luta pelos direitos humanos, têm sua razão derradeira na crença de que todos, por humílimos que sejam, são filhos de Deus. Foi por aí que Gandhi fundava a dignidade dos párias e condenava todo tipo de violência: ‘não se pode fazer isso, com um filho e filha de Deus’.

O fato de sentirmos em nós um desejo infinito que não encontra no mundo nenhum objeto que lhe seja adequado, como tão bem vem insinuado em algumas letras das músicas de Chico (a função do tormento em sua produção), encontra seu fundamento ontológico no falto de que somos seres de transcendência, abertos aos outros, ao mundo, ao Todo e, no termo, ao Grande Outro. Por isso, sentimo-nos um projeto infinito, que nenhuma religião, nenhuma ideologia, nenhuma ciência, nenhum Estado ou configuração social pode realizá-lo adequadamente, permitindo-nos repousar.

Partindo dessa percepção é que o filósofo Immanuel Kant afirmava insistentemente em sua ética que o ser humano é sempre um fim em si mesmo e jamais um meio para qualquer outra coisa. (o grifo é meu).

Terminei o capítulo de Boff impressionado com o reconhecimento de um cristão pela grandeza humana de alguém que não se declara religioso. Lembrei da música Geni e o Zepelin. A letra transborda uma percepção extraordinária da grandeza da prostituta que “dava” para os desvalidos, mas sentiu asco de deitar com o comandante do Zepelin gigante. Apesar de demonizada e apedrejada, Geni era uma linda mulher. É preciso um coração terno para notar as lindas mulheres que perambulam nos arredores da vida. (A música, aqui)

De tudo que é nego torto
Do mangue e do cais do porto
Ela já foi namorada
O seu corpo é dos errantes
Dos cegos, dos retirantes
É de quem não tem mais nada
Dá-se assim desde menina
Na garagem, na cantina
Atrás do tanque, no mato
É a rainha dos detentos
Das loucas, dos lazarentos
Dos moleques do internato
E também vai amiúde
Com os velhinhos sem saúde
E as viúvas sem porvir
Ela é um poço de bondade
E é por isso que a cidade
Vive sempre a repetir
Joga pedra na Geni
Joga pedra na Geni
Ela é feita pra apanhar
Ela é boa de cuspir
Ela dá pra qualquer um
Maldita Geni

Um dia surgiu, brilhante
Entre as nuvens, flutuante
Um enorme zepelim
Pairou sobre os edifícios
Abriu dois mil orifícios
Com dois mil canhões assim
A cidade apavorada
Se quedou paralisada
Pronta pra virar geléia
Mas do zepelim gigante
Desceu o seu comandante
Dizendo – Mudei de idéia
– Quando vi nesta cidade
– Tanto horror e iniquidade
– Resolvi tudo explodir
– Mas posso evitar o drama
– Se aquela formosa dama
– Esta noite me servir
Essa dama era Geni
Mas não pode ser Geni
Ela é feita pra apanhar
Ela é boa de cuspir
Ela dá pra qualquer um
Maldita Geni
Mas de fato, logo ela
Tão coitada e tão singela
Cativara o forasteiro
O guerreiro tão vistoso
Tão temido e poderoso
Era dela, prisioneiro
Acontece que a donzela
– e isso era segredo dela
Também tinha seus caprichos
E a deitar com homem tão nobre
Tão cheirando a brilho e a cobre
Preferia amar com os bichos
Ao ouvir tal heresia
A cidade em romaria
Foi beijar a sua mão
O prefeito de joelhos
O bispo de olhos vermelhos
E o banqueiro com um milhão
Vai com ele, vai Geni
Vai com ele, vai Geni
Você pode nos salvar
Você vai nos redimir
Você dá pra qualquer um
Bendita Geni
Foram tantos os pedidos
Tão sinceros, tão sentidos
Que ela dominou seu asco
Nessa noite lancinante
Entregou-se a tal amante
Como quem dá-se ao carrasco
Ele fez tanta sujeira
Lambuzou-se a noite inteira
Até ficar saciado
E nem bem amanhecia
Partiu numa nuvem fria
Com seu zepelim prateado
Num suspiro aliviado
Ela se virou de lado
E tentou até sorrir
Mas logo raiou o dia
E a cidade em cantoria
Não deixou ela dormir
Joga pedra na Geni
Joga bosta na Geni
Ela é feita pra apanhar
Ela é boa de cuspir
Ela dá pra qualquer um
Maldita Geni.

Antes que os guardiões da reta moralidade se organizem para criticar Leonardo Boff ou Chico, preciso mencionar a Raabe bíblica. Os espias que invadiriam Jericó procuraram refúgio (eufemismo) na casa de luzes vermelhas. Josué pagou? Quanto? Nunca saberemos. Depois, a empreitada de invadir a cidade dependeu da lealdade de Raabe. Algo aconteceu. A estória sugere que um dos valentes foi para a cama com ela, que se amaram tanto que depois se casaram.

Jesus advertiu: as Genis e as Raabes entrarão no Reino antes dos religiosos. Me irmano ao frei Leonardo Boff, e sem medo também digo: Chico, sua sensibilidade humana me toca mais do que muitas afirmações da religiosidade institucional.

Soli Deo Gloria

fonte: site do Ricardo Gondim

Oração inspirada nos salmos

Oração-AgoraRicardo Gondim

Misericórdia, Senhor,

Estou em desespero! Tristeza me consome vista, vigor e apetite. Sinto-me muito fraco e totalmente esmagado; meu coração geme de angústia. Melancolia consome minha vida. Os meus anos se esgotam com gemidos. Aflição esvai minhas forças. Os meus ossos se enfraquecem no sofrimento renitente. Estou a ponto de desabar. Minha dor está sempre comigo.

Senhor, por que te manténs tão longe? Por que te escondes em tempos de angústia? Não consigo dormir. Pareço pássaro solitário em um telhado. Meu Deus! Meu Deus! Por que me abandonaste? Por que esse silêncio? Não fique assim, tão ausente dos meus gritos de angústia.

Misericórdia, Senhor! Estou em desespero! A tristeza me tritura a vista. Desespero me esmigalha aos poucos. Me cansei de pedir socorro. Minha garganta se abrasa. Meus olhos fraquejam de tanto esperar por Deus.

Devido a tantos adversários, sou motivo de ultraje para os meus vizinhos e de medo para os meus amigos. Os que me vêem na rua me evitam, como se não me vissem. Sou esquecido de quem imaginei amigo. Alguns me tratam como se estivesse louco. Me tornei como um pote quebrado. Ouço muitos cochicharem chistes a meu respeito. Pavor toma conta de minha alma; imagino gente conspirando contra mim.

Não sei explicar mas insisto em confiar em ti, Senhor. Repito em minha meditações: Tu és o meu Deus.

Tu, porém, não te mantenhas assim tão distante ao meu clamor! Insistirei dizer: Ó minha força, vem logo em meu socorro.

Sou pobre e necessitado. No íntimo, o meu coração está abatido. Vou definhando como a sombra vespertina. Basta uma brisa qualquer e sou lançado para longe, como um gafanhoto. Transforma meu deserto em açude e a terra ressecada do meu coração, em fontes.

Me ouve, Senhor. Tem misericórdia de mim.
Senhor, sê tu o meu auxílio.
Mesmo sem alento, voltarei a clamar a ti.
Tu serás sempre o meu refúgio
És tudo o que me sobra na terra dos viventes.

Soli Deo Gloria

(Toda a prece foi retirada, palavra por palavra, do livro bíblico dos Salmos – Nova Versão Internacional).

fonte: site do Ricardo Gondim