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Só a esperança me salvará de mim mesmo

imagem: Internet

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Ricardo Gondim

Meus olhos abarcam o mundo. Por vezes enxergo torto, vesgo, daltônico. Meu olhar entristece. Capto os tons cinzas. Miro a existência como um pântano de águas paradas de onde ressoam o grito das crianças pobres, o pranto dos idosos abandonados e o lamento das mães diante das covas rasas. Inquieto-me com os campos de refugiados de guerra, com os becos imundos das metrópoles, com os mísseis espatifando vilarejos e com os religiosos rezando a favor da guerra. Não consigo evitar o meu pessimismo. Trato a existência como estrada sinuosa, que reduz os viajantes ao pó de onde nasceram.

Nessas horas, as utopias se distanciam de mim como as miragens de um míope. Pouco espero das ideologias. Dou de ombros às metanarrativas religiosas. Mal consigo entrever, nas frestas do dia a dia, o aceno da esperança. Não raro, me desencontro do deus do teísmo – a divindade que arbitra e dirige a história, impassiva diante do horror dos holocaustos, dos genocídios e das limpezas étnicas; desanima imaginar o vazio provocado pela indiferença de um soberano que tudo microgerencia, inclusive a barbárie.

Contudo, a esperança renasce desde o hades do meu leito. Como os insetos, passo a enxergar a vida multifacetada. Prismo a luz, mesmo opaca, e fragmento um arco-íris em meu espírito. Observo o mundo e me alegro com os prados de onde ressoam o zumbir das abelhas, o murmúrio dos regatos e o estrondo do trovão. Meu olhar canhoto deixa de ser sinistro quando vejo médicos em zonas de desastre, freiras em leprosários e advogados em mutirões pela justiça; passo a crer na beleza humana assim como acredito na viagem da luz pela imensidão do universo.

Insisto em reconhecer o Criador nos lábios do poeta que lamenta, no canto do namorado que serenata, no riso da mãe que afaga e nos joelhos do Samaritano que se ajoelha. Em meus olhos otimistas moram Juazeiros eternamente verdes, raros Uirapurus sinfônicos e marés em fúria. Minha utopia consegue antever bois pastando ao lado das cobras, artesãos transformando canhões em arados e Deus brincando de roda com as crianças.

Sempre que me tranco e permito que a fé azede, deixo de redimir o tempo, de valorizar os encontros e de reverenciar o próximo. Quando saio das minhas masmorras quero doar-me ao mundo. Livre do meu cinismo, teimo em acreditar no amanhã. Despido da máscara dos ingênuos, anseio continuar tecendo beleza entre os dedos. Só a esperança me salvará de mim mesmo. Se a vida acontece no hiato que separa os porões trágicos da desgraça dos palcos festivos da felicidade, nessa brecha desejo seguir adiante.

Soli Deo Gloria

fonte: site do Ricardo Gondim

Guia da sobrevivência religiosa

Mulher na praia!!!

Ricardo Gondim

Suspeite de quem sabe mostrar ares de piedade. Algumas pessoas aprendem a arquear as sobrancelhas para baixo como jeito de exibir um elevado grau de pureza; elas são perigosíssimas. Prefira os mais soltos, os mais debochados, os menos cientes de suas virtudes. Gente espirituosa é melhor companhia que circunspectos sisudos, que se arrastam pela vida com chumbo nos pés.

Evite sentar na roda de quem exige rigor semântico até na hora da conversa fiada. Nada mais intolerável do que conviver com quem adora corrigir os outros. Se alguém diz, vou à igreja, ele dispara: “a igreja somos nós, não um prédio”; se confessa, ando desanimado, ele engatilha um versículo: “mas os que esperam no Senhor renovam as suas forças”.

Apure rigorosamente todo relato de milagre. Prefira ser cético a simplório. A verdade não teme análise, questionamento, suspeita. Pergunte também pelas motivações. Queira saber os porquês por detrás dos relatórios de eventos fantásticos. Exageros, prodígios forçosos, números evangelásticos, em sua esmagadora maioria se prestam a alimentar os músculos financeiros do narcisista ou pretensão messiânica da igreja ou da agência missionária . Critique toda correria para alcançar os primeiros lugares na seara de Deus.

Reconheça as mentes sórdidas escondidas no rigor moralista. Quem passa muito tempo se exasperando contra os pecados da carne vem sendo escravo da lascívia há muito tempo. Rigidez puritana não abranda o fogo da libido, só o adoece. As taras mais grotescas – sadismo, masoquismo, pedofilia e zoofilia – se proliferam em ambientes austeros e probos. Os que vivem uma sexualidade lúdica conseguem ser menos adoecidos.

Faça qualquer coisa – fuja, esconda-se, dê o fora, encontre um escape – para evitar os tapetes azuis do poder. Se for nomeado síndico, presidente de honra da quermesse ou venerando líder da igreja, considere os perigos avassaladores de qualquer cargo. Abra mão de ostentar títulos em cartão de visita, no perfil de redes sociais. Placa de bronze ou acrílico, diploma e medalha não passam de confetes, lixo da quarta-feira de cinza.

Soli Deo Gloria

fonte: site do Ricardo Gondim

Viver não é para amadores

Ricardo Gondim

Todos vivem em constante tensão. A vida é complexa, paradoxal e plena de riscos – jamais passeio despretensioso. Sem parar, todos marcham responsáveis e, ao mesmo tempo, vítimas das circunstâncias. As estradas escolhidas bifurcam. Uma simples decisão gera desdobramentos mil. Poetas, místicos e filósofos já perceberam: o siso necessário para enfrentar a aventura de viver se ramifica infinitamente. Todo instante, inédito, exige a precisão de um relojoeiro.

Viver não é para amadores. Tudo o que se faz produz ondas.  Semelhantes à pedra jogada no meio da lagoa, escolhas também se propagam em círculos concêntricos. Espalham-se. No caso da pedra, as marolas morrem na margem do lago. Com os humanos, as consequências se alastram para sempre. Ninguém tem o controle dos efeitos de suas escolhas, que se repercutirão eternamente.

Viver não é para amadores. Os pais influenciam os filhos. Tanto bondade como maldade se reproduz nas gerações. Crianças sofrem sequelas de famílias disfuncionais. Muitas, oprimidas e castradas emocionalmente, não conseguem quebrar o ciclo da disfuncionalidade.

Viver não é para amadores. Sem saber organizar desejos, a vida pode se perder em projetos irrelevantes. Sem dar sentido ao cotidiano, a existência pode patinar no tédio. Porém, quais princípios, verdades e valores servem para direcionar o cotidiano? As pressões do dia a dia têm a capacidade de destruir quem não escolhe; contudo, escolher sem cessar, cansa.

Viver não é para amadores. Os indivíduos precisam uns dos outros enquanto se magoam. O próximo pode se tornar fonte de alegria ou de frustração. Os que se isolam, empobrecem. Chega a hora de dizer basta para as decepções. Mas, não é possível resguardar-se do amigo sem perder o viço. Só vive quem não considera o outro a razão do seu inferno. O céu não é fácil, já que se torna necessário relevar as inadequações alheias. Só o longânimo tem chance de ser feliz em um mundo lotado de intolerância.

Viver não é para amadores. A existência se mostra imprevisível. Não há como controlar a história ou situar eventos futuros dentro de qualquer lógica. Por mais que religiosos prometam, filósofos pretendam e sociólogos estudem, a história não se restringe aos trilhos do destino. De repente, sempre de repente, o improvável desaloja os mais criteriosos; nessa hora, teimosia. Não vou desistir!  A viagem rumo ao porvir requer brios até dos tímidos.

Viver não é para amadores. Nunca é fácil equilibrar o lazer com o dever, o ócio com o trabalho. Muito lazer, sinônimo de tédio e muito dever, de estresse. A preguiça acompanha o ócio, e a fadiga, o trabalho. O Eclesiastes avisa sobre o tempo de todas as coisas: “tempo para plantar e tempo para arrancar o que se plantou, tempo de cozer e tempo de rasgar, tempo de juntar e tempo de espalhar o que se juntou” – que peso viver entre acontecimentos tão contraditórios.

Viver não é para amadores. Depressão e riso, alegria e tristeza formam a história de cada um. Quem foge da tristeza acaba neurótico, em negação, à procura de um mundo ilusório. Por outro lado, quem não sabe rir termina inclemente, à caça de gente para povoar o seu purgatório.

Viver não é para amadores. O sofrimento do mundo dói muito. Crianças vasculhando monturo de lixo, bombas mutilando, epidemias arrastando milhares para um fim triste. Como achar alegria para celebrar aniversários, casamentos e formaturas? Os que se blindam para não sentir a dor universal sucumbem, cínicos. Já os inconformados com o sofrimento universal são tentados a destilar rancor quando falam e escrevem.

Viver não é para amadores. O tempo passa velozmente carregando tudo e todos. A pior angústia? Ver a areia da ampulheta e o pêndulo do relógio avisando  que o calendário escasseia. Vaidade e megalomania, ladras, espreitam em cada esquina. Alguns não se dão conta que jogam a vida fora. Valorizar o instante parece o segredo onde mora a felicidade, mas ele foge.

Viver, definitivamente, não é para amadores.

Soli Deo Gloria

fonte: site do Ricardo Gondim

Homens bons, religiosos maus

Religião-

Ricardo Gondim

No judaísmo contemporâneo de Jesus, o fariseu representava uma facção austera, conservadora, dogmática. Embora tenham sido execrados como ícones da demagogia religiosa, é preciso todo cuidado para não discriminá-los. Não devemos generalizar, nem quando se trata de uma seita rotulada a priori como falsa. Sim, é verdade, Jesus denunciou que eles estavam fermentados pela hipocrisia. Contudo, torna-se necessário também reconhecer que mesmo em uma instituição religiosa adoecida, joio e trigo convivem juntos.

Hipocrisia, no contexto dos fariseus, significa falsidade, dissimulação, mera representação, incoerência. Um hipócrita religioso, então, seria alguém que prega, mas não vive – um santarrão público, pecador de bastidores.

Existe, todavia, outra possibilidade de entender a hipocrisia, percebendo a incoerência dos fariseus em sentido inverso. Eles se mostravam bons quando se distanciavam dos espaços religiosos, mas se comportavam como gente horrorosa, quando investidos nas funções sacerdotais. O farisaísmo tipificou um clero perverso nos conclaves e dóceis na vida privada.

Jesus lidou com os fariseus em ambientes distintos. Nas refeições, nas conversas em “off”, eram afáveis, curiosos e abertos para o diálogo. Contudo, no instante em que se reuniam para deliberar sobre seus interesses religiosos se transformavam em pessoas temíveis. Jesus nunca evitou encontrar-se com qualquer fariseu fora do templo. E não há registro de ele comparecer a qualquer assembleia oficial da seita.

O sumo sacerdote Caifás não devia ser tão ruim quando brincava com os netos, mas na hora em que assumia as funções de chefe do templo revelava-se um facínora. Caifás foi capaz de conspirar na morte de um homem bom.

Conheço líderes religiosos cordatos e amigáveis, mas só se rodeados de filhos e netos. Desfrutei da intimidade de alguns e testemunho que foram companhias agradabilíssimas, desde que em ambientes não-religiosos. Os mesmos, vestidos em hábitos clericais, assustam. Reencontrei “companheiros” presidindo reuniões plenárias em suas instituições, e tremi. Um título tem força de desfigurar. Paletó e colarinho clerical ajudam na empáfia. Cargos têm força de suscitar pessoas implacáveis, legalistas e maquiavélicas. Um religioso não deve ser bom apenas no particular, ele tem de se mostrar coerente nos corredores eclesiásticos.

A religião pode adoecer porque convive com três forças avassaladoras: poder, dinheiro e fama. O perigo aumenta exponencialmente quando se reivindica o nome de Deus. Facilmente um sacerdote pode se valer da Bíblia para escudar comportamentos nefastos. Quando influenciado por falsa onipotência, o religioso não hesita derrubar quem se coloca no meio do caminho. Consciente de que sua verdade é a revelação divina, elimina quem julgar nocivo. Imbuído de uma cruzada de conquistar o mundo, arrasa possíveis inimigos. Nessa trilha, o líder religioso vai se desfigurando, desfigurando, até encarnar o Iníquo.

Paulo advertiu a Timóteo que os “últimos dias” seriam difíceis (2Tm 3.1); previu sacerdotes vivendo uma “forma de piedade, mas negando-lhe o poder”. Que seriam inescrupulosos a ponto de entrarem “sorrateiramente nas casas para seduzir mulheres incautas”. Donos de um perfil pernicioso se pareceriam com bandidos comuns.

“Sabe, porém, isto: Nos últimos dias sobrevirão tempos difíceis; pois líderes religiosos serão egoístas, avarentos, jactanciosos, arrogantes, blasfemadores, desobedientes aos pais, ingratos, irreverentes, desafeiçoados, implacáveis, caluniadores, sem domínio de si, cruéis, inimigos do bem, traidores, atrevidos, enfatuados, antes amigos dos prazeres que amigos de Deus”.

O maior desafio de um líder não é só viver o que prega, mas tornar a sua religiosidade pública parecida como a que vive na vida particular. Para ser verdadeiro, basta que deixe a humanidade particular transbordar para os espaços religiososos. Se os santos engravatados continuarem tão humanos quanto as pessoas que vestem bermuda, está de bom tamanho.

Soli Deo Gloria

fonte: site do Ricardo Gondim

Ricardo Gondim: “A permanência de Feliciano no cargo de presidente da CDH desgasta a imagem do mundo evangélico no País”

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Roldão Arruda, no Estadão

A permanência do pastor Marco Feliciano no cargo de presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara desgasta a imagem do mundo evangélico no País, provoca constrangimentos e rejeições. A  atitude mais lúcida diante do impasse seria a renúncia imediata.

Quem faz essas afirmações é o também pastor evangélico Ricardo Gondim, teólogo, mestre em ciências das religião e líder da Igreja Betesda. Na entrevista abaixo, ele também critica as declarações feitas por Feliciano de que a África e seus habitantes seriam amaldiçoados por Deus. Tal tipo de  teologia, segundo Gondim, é racista e fundamentalista na sua essência.

Gondim, que tem 58 anos, passou pelas igrejas Presbiteriana e Assembleia de Deus, antes de se vincular à Betesda, que em hebraico significa “lugar da misericórdia de Deus”. No ano passado ele rompeu com parte do movimento evangélico, após ter sido atacado e chamado de herege, por suas críticas à chamada “teologia da prosperidade”. Ele tem dito que o Deus da Bíblia não deve ser visto como um sádico que se compraz em amaldiçoar os homens, mas sim como parceiro deles.

O pastor também defende o direito dos gays ao casamento civil: “Numa sociedade que se pretende laica, é assim que deve ser.”

Como pastor, de que maneira analisa a polêmica que envolve Marco Feliciano e a Comissão de Direitos Humanos?

Fico muito constrangido com o que está ocorrendo.

Acha que as críticas a ele são dirigidas a todo os evangélicos? Ele fala em cristofobia.

O Marco Feliciano se apresenta como representante não só do mundo evangélico, mas de todo o protestantismo. Na verdade, ele pouco representa das tendências protestantes. Foi eleito por um segmento muito alienado politicamente. Candidatos como ele são eleitos, geralmente, para se tornarem os representantes de sua igreja no parlamento. Eles se preocupam mais com os interesses da igreja do que com as questões que dizem respeito a todo o País.

A que atribui o antagonismo com grupos que defendem os direitos humanos?

Ele se antagonizou com o Brasil porque expressou pelo Twitter e, depois, num culto, opiniões sobre a questão dos negros. Disse que são descendentes da parte amaldiçoada dos filhos de Noé, os filhos de Cam. É interessante observar ele não criou nada ao fazer tais afirmações. Essa teologia é muito antiga, muito anterior a ele, persistindo até hoje em alguns poucos segmentos fundamentalistas. Ela tem origem entre os colonialistas, que dividiam o mundo em três áreas – o ocidente, o oriente e o sul. Nesta última teriam ficado os possíveis descendentes do personagem bíblico, os amaldiçoados. O Feliciano lucra em cima dessa teologia, fatura em cima dela, mas não acrescenta nem desenvolve nada. É apenas o porta-voz de um grupo que, no atual contexto religioso, ainda replica argumentos usados por países colonialistas para a dominação e exploração dos mais pobres, especialmente na África. Isso é muito triste.

Diria que é uma teologia superada, fora de uso?

Não. Ainda é usada por setores de direita, ultraconservadores. Em 2010, o tele-evangelista americano Pat Robertson, dono de um canal de televisão, disse que a grande tragédia provocada pelo terremoto no Haiti naquele ano era decorrente de um pacto que os haitianos haviam feito com o diabo, quando lutavam para se livrarem do jugo da França e se tornarem independentes. Em outras palavras, em 1804 eles venderam a alma ao demônio, que veio cobrar a dívida agora, dois séculos depois. A manifestação de Robertson foi uma asneira, uma estupidez que provocou manifestações de repúdio em amplos setores da sociedade americana. Mas ele não estava falando sozinho. Ainda existem segmentos, dos quais Marco Feliciano faz parte, que repetem esse tipo de coisa, que defendem a relação entre causa e efeito, a maldição das pessoas pela divindade que tudo ordena e orquestra, como se nossas escolhas, decisões e articulações sociais não interferissem nos resultados. Trata-se de um simplismo cruel e inútil.

É o que pregam nas igrejas?

Sim. Enquanto o Marco Feliciano dizia essas coisas num círculo religioso restrito, era bem recebido pelos seus pares. Tem uma expressão que define isso da seguinte maneira: “Quando você prega para o coral, é bem aceito por ele.” Ao se tornar um homem público, porém, o discurso dele transbordou, extravasou o espaço religioso e se tornou passível de crítica pela sociedade civil.

É possível afirmar que o discurso dele é racista?

É racista na sua essência. Nasceu do racismo, dos interesses coloniais de menosprezar e demonizar o negro para justificar a sua exploração.

Esse discurso não parece mais próprio dos Estados Unidos, onde a integração racial ainda incomoda alguns setores?

Não se deve esquecer que as lideranças evangélicas no Brasil estão se orientando basicamente por autores norte-americanos.

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Há pouco mais de meio século, quando se debatia o casamento interracial no Estados Unidos, grupos conservadores diziam que era proibido pela Bíblia.

Na época em que morei nos Estados Unidos e viajei pelo sul daquele país, fiquei impressionado com a forma como o movimento evangélico ainda está dividido, segregado do ponto de vista racial. Negros e brancos ainda congregam em igrejas diferentes. Certa vez acompanhei um pastor que havia ido a um hospital visitar uma pessoa muito doente. Durante a visita, ele disse ao doente que há muito tempo não o via na igreja e que estava interessado em saber o motivo daquele afastamento. Ele respondeu que não ia mais porque a igreja estava sendo frequentada por negros. O pastor quis amenizar, dizendo que os negros também são filhos de deus, mas o doente retrucou na hora que negros não têm alma. Ainda perdura ali a ideia de que o negro é um cidadão menor.

Como analisa essa ideia de maldição sobre um continente inteiro?

Além de inoportuno, é um discurso de um simplismo político absurdo, inadmissível para um deputado. Ele desconsidera que o continente africano, apesar de retalhado e dividido politicamente pelos países colonialistas, ainda abriga milhares de nações, etnias, dialetos, culturas. Quais delas são as amaldiçoadas? De qual povo ele está falando? Qual etnia? Eles não constituem um bloco único como quer o deputado.

Na sua avaliação, não existe mesmo a possibilidade de o deputado estar sendo atacado pelo fato de ser evangélico?

As declarações dele são inaceitáveis independentemente do fato de ser evangélico. Qualquer pessoa que dissesse o que ele disse enfrentaria problemas. Isso não quer dizer que a associação que se faz entre Feliciano e o mundo evangélico seja ilegítima, porque, como já disse, existem segmentos que repetem e ensinam essa teologia. Nas vezes em que me manifesto sobre isso, sempre aparecem pessoas me questionando: mas isso não está escrito na Bíblia? Não é uma verdade bíblica?

Não acha estranho esse tipo de teologia ter seguidores no Brasil?

Acho. Mas não se pode esquecer que aqui também temos os skinheads. O único país do mundo que não poderia ter ações desse grupo é o Brasil, mas nós temos.

E quanto às restrições do deputado aos gays?

O Congresso deve tratar a questão como uma demanda civil. A comunidade gay aspira por relacionamentos juridicamente estáveis e, na minha opinião, as demandas civis de qualquer grupo precisam ser contempladas pela sociedade e seus órgãos de representação. Um exemplo: foi aprovada agora uma série de leis trabalhistas que valorizam o trabalho das domésticas – o que era uma demanda justa. Todas as demandas justas precisam ser contempladas sem a necessidade de moralização exacerbada do debate. Não existem grupos que estão acima de todos os outros.

Acha que o Supremo Tribunal Federal acertou quando reconheceu os direitos dos gays?

Sim. O Supremo foi de uma felicidade extrema quando olhou para a questão homossexual de forma isenta, livre de qualquer pressão, tanto da Igreja Católica como de grupos protestantes e evangélicos. Numa sociedade que se pretende laica, é assim que deve ser. O Sérgio Buarque de Holanda já disse que o Estado não é um desdobramento maior da família ou de grupos de interesses. O Estado tem que se distinguir, tem que legislar à parte, porque não se trata de uma família grande. Se não for dessa maneira, o Brasil cai no patriarcalismo, fica sob o controle de oligarquias patriarcais, que irão legislar a partir de seus interesses, para que eles prevaleçam sobre todos. A questão gay deve ser contemplada pela sociedade civil como a reivindicação de um grupo que busca tratamento igual perante a lei.

Feliciano deve renunciar ou permanecer no cargo?

Deve renunciar logo. A teimosia dele em permanecer no cargo vai trazer prejuízos enormes para o grupo que pretende representar. O desgaste para o mundo evangélico já é patente. Existe o risco de rejeição ao grupo. Se ele realmente se vê como representante do mundo evangélico no parlamento, a renúncia seria a atitude mais lúcida diante do atual estado de coisas.