Arquivo da tag: Rui

“Jogaram Mentos na geração Coca-Cola”

mentos

Rui Luis Rodrigues, no Facebook

Da Sé à Paulista. Andando no meio daquela multidão bonita, ao lado do meu filho de 15 anos, eu recuperava sentimentos de outros tempos, de outras épocas. Como sou historiador, recuperava, pela mágica varinha de condão que os de meu ofício possuem, até mesmo sentimentos e impressões de épocas que eu não vivi.

Falaram-me tanto de maio de 68! Eu tinha então apenas dois anos, mas hoje sei que, de certa forma, todos nós viemos de lá, assim como toda a música contemporânea, de certa forma, veio dos Beatles. Nós carregamos maio de 68 dentro do peito, mesmo quando não sabemos direito o que aconteceu lá.

Mas o que testemunhamos agora, em junho de 2013 no Brasil, contém os elementos fundamentais daquele ano emblemático. Porque maio de 68 foi, acima de tudo, juventude. E juventude é o que temos agora em nossas ruas.

“Vai pra prefeitura, não vai?”, me perguntava a velhinha, ainda em plena Praça da Sé. “Acho que sim”, respondi. E ela seguiu, misturando-se na multidão. Jovem também, porque coisas como essa, quando acontecem, têm o dom de remoçar os que foram sendo ultrapassados pela vida. De repente, o engravatado de 20 e poucos anos que apenas nos olhava da janela do escritório envelheceu, porque ficou de fora; e a velhinha ali ao nosso lado recebeu dele a juventude, por transferência.

Nada impressionou mais a este professor aqui, e nada deixou-o mais feliz, do que ver a quantidade de gente jovem nas ruas. De todos os tipos, de todos os perfis, de todos os segmentos; agrupados, e era possível ver as simpatias ideológicas a partir desses alinhamentos. Caminhando, erguendo a voz, pulando (porque, como cantamos à exaustão, “Quem não pula quer tarifa!”), erguendo as mãos (“Mãos para o alto! R$3,20 é um assalto!”), portando cartazes (“Que apenas beijos nos calem!”, esse foi dos que mais gostei). Lindo de ver!

Perto de nós, uma garota erguia sua cartolina. As letras algo inseguras diziam: “Jogaram Mentos na geração Coca-Cola!” Do lado tinha um desenho ingênuo, a garrafa de Coca-Cola expulsando um jato violento. A frase reapareceu em outros cartazes, em outros momentos. E ficou gravada em minha mente. Talvez ela, melhor do que qualquer outra, traduza esse movimento das ruas.

Tanto critiquei os jovens de hoje, em outros momentos! Via-os indiferentes, alienados, adeptos do “Vou deixar a vida me levar”. O erro não estava com eles; o professor aqui é que não os estava entendendo.

Percebi, ontem, que o poder explosivo dessa geração estava o tempo todo nela. Eles eram a Coca-Cola. E carregavam o pacotinho de Mentos no bolso. Estavam apenas à espera de algo que os despertasse, que fizesse a operação louca, que atiçasse a química que transforma refrigerante em explosivo.

Vou além: não estavam à espera, estavam à procura. Não eram alienados; estavam parados por causa de seu raciocínio crítico e de sua visão clara. Entendiam que o estado de coisas tinha chegado a um limite insuportável; percebiam que a participação na realidade pública estava tolhida por um sem-número de amarras, de convenções, de conchavos, de acertos. Procuravam um caminho, mas não o encontravam. Olhavam para nós, para os mais velhos, para seus pais e professores, esperando um norte. E nós (sobretudo nós, intelectuais), perdidos em nossas próprias perplexidades (E agora? Pra onde daqui? Modernidade, pós-modernidade, o diabo…), incapazes de dar a eles a ajuda que desejavam.

Os garotos encontraram o caminho. Talvez ele nos surpreenda um pouco, talvez ele inquiete um pouco os velhos revolucionários que habitam dentro de nós. “O povo unido não precisa de partido!”, gritavam, quando PCO ou PSTU (sempre eles!) tentavam desenrolar suas bandeiras. Eu não participava nesse momento, porque entendo que partidos, assim como outras agremiações que estavam ali presentes, têm o direito de participar. Mas meu filho gritava, a plenos pulmões. Acho que ele entendeu, melhor e antes de mim; afinal, ele é dessa geração.

Obriguei-me a refletir (isso sei fazer ainda, graças a Deus). Essa recusa aos partidos não é expressão de alienação; é expressão de saco-cheio. É sintomático que esses jovens vejam, nas expressões de política partidária existentes, exemplos do mesmo beco-sem-saída do qual estão lutando para escapar. Daí seu grito, legítimo. Seu grito é puro afã, é pura busca. Querem algo novo! E, se bem me lembro, esse é o princípio de toda revolução genuína, desde o inesquecível 14 de julho de 1789.

Meu coração se confrangeu ontem, e se confrange também agora. Nesse caminho arriscado, quero estar ao lado desses jovens. Será que me aceitam? Quero aprender com eles. Aprender a sonhar com algo novo, com um mundo melhor; aprender a desejar caminhos ainda não batidos, ao invés da mesma velha estrada de sempre. Aprender a fazer festa enquanto se faz política, aprender a fazer da política uma festa. Unir minha voz à deles na canção, no desabafo, na palavra de ordem, no riso solto e até mesmo no poder catártico do palavrão.

A cartolina daquela menina deveria ser conservada num memorial, para assinalar o instante em que essa geração, alegremente, encontrou caminho para expressar seu desejo de influir, de fazer política, de participar.

(“Como sou feliz!”, cantavam os jovens na Paulista, e eu com eles, jovem também. “Estou aqui melhorando o meu país!”)

Que a luz dos sorrisos de vocês, e o brilho de seus olhares, nos iluminem ainda por muito tempo o caminho em direção ao futuro!

* * *

Os partidos políticos, e sobretudo aqueles oriundos do sonho revolucionário, precisam aprender a lição contida na palavra de ordem “O povo unido não precisa de partido!”

Os movimentos revolucionários aderiram à política partidária por razões de necessidade histórica. Ao fazê-lo, contudo, muitos se esqueceram de que sua força, a força dos seus movimentos, estava não numa sigla partidária reconhecida, mas no trabalho lento e constante de conscientização. Um trabalho que acontecia não de forma panfletária ou interesseira, mas através da participação solidária junto à sociedade e suas lutas. Institucionalizados como partidos, muitos desses movimentos perderam o empuxo popular, a sintonia com os setores sociais que os embasavam.

Alguns perderam, também, o bonde da história. Seus discursos ficaram velhos, suas cartilhas fazem as vezes, no cenário político, daqueles catecismos católicos anteriores ao Vaticano II. Preocupados demais com sua “ortodoxia”, esqueceram-se de que Marx nunca foi marxista.

O preço? A moçada não quer ver as bandeiras deles nas manifestações. A solução? Dobrar a bandeira e guardá-la; participar ativamente sem ela, inventando formas originais de manifestar sua filiação ideológica. E, sobretudo, ir pra casa fazer o dever: refletir sobre como reatar com a sociedade, como tornar-se novamente fermento de conscientização.

* * *

Ontem a tarde estava belíssima. Sobre a Sé, um céu azul mediterrânico, que foi ficando esmaecido à medida que entardecia. Acima das palmeiras, uma lua (crescente?) olhava a multidão, invejosa do privilégio dos homens: o privilégio de tomar nas próprias mãos os rumos de seu destino.

O peso da noção de pecado nas culturas islâmicas

Rui Luis Rodrigues, no Facebook

Entre as muitas reflexões que o belo filme A Separação (foto), dirigido pelo iraniano Asghar Farhadi (Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2012), despertou em mim, uma tem a ver com a maneira pela qual as culturas islâmicas foram permeadas pela noção de “pecado”. Já se falou e escreveu muito sobre o que representou, para essas sociedades, não terem se beneficiado do fermento crítico da Ilustração (São Voltaire, rogai por todos nós!). Opinião muito eurocêntrica, de fato, e ainda ancorada na ideia antiga e errônea de que os desenvolvimentos da civilização ocidental teriam sido “padrão” e que todas as demais culturas deveriam experimentar seus desdobramentos. Obviamente, não concordo com essa ênfase; mas, como ocidental que sou, não posso deixar de respirar aliviado por ver que, em nossa civilização, os encaminhamentos da história nos conduziram a uma profunda (e benéfica) relativização desse conceito religioso.

O elemento religioso é apresentado no filme com extrema sutileza, como convém a um diretor que trabalha sob as condições específicas de um país onde a voz dos aiatolás é decisiva; não há, portanto, nenhuma crítica direta – mas o expectador atento pode, sem dúvida, lê-la “nas entrelinhas”. No Irã, a religião exerce um peso asfixiante sobre o tecido social.

Boa parte do drama gira em torno do temor que uma das personagens tem de ser “castigada” por fazer algo “pecaminoso”. Para questões cotidianas, ela chega a telefonar a um tipo de aconselhamento especializado em dizer se tal coisa é ou não pecado; a presença dessa casuística mostra como a noção é, naquele contexto, uma construção socialmente densa. (Situação análoga, aliás, à vivida pelo Ocidente a partir da segunda metade do século XVI, quando a ênfase no confessionário – e o trabalho dos jesuítas – geraram toda uma casuística quanto ao “pecado” e um pastoralismo bastante policialesco.)

“Eu tenho medo de que algo aconteça com nossa filha, se eu fizer isso ou aquilo” – é como a personagem do filme expressa, em dado momento, o seu temor. O que não é afirmado, mas se subentende, é o mais grave e triste: o temor dessa fiel que não sai à rua sem seu xador é que Alá mate sua filha (com uma dessas doenças graves que roubam a infância, por exemplo) como represália pelo pecado da mãe.

Como cristão que sou, não posso negar que muitos irmãos de fé relacionam-se com Deus dentro da mesma lógica sombria. Muitos anos atrás li um relato onde um seminarista norte-americano, desesperado, atribuía o tumor cerebral de seu filho de cinco anos ao fato de que ele, pai, era viciado em pornografia. “Deus me puniu”, dizia o pai.

Minha perplexidade talvez seja também a sua: como pode alguém crer que Deus, o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo; o Deus que aparece representado, numa das mais conhecidas parábolas de Jesus, como um pai sempre à espera do retorno de seu filho perdido; como pode alguém crer que esse Deus seja capaz de semelhantes atos? Como pode alguém ter tão distorcida em si a imagem de Deus a ponto de enxergá-lo dessa forma?

Ontem perdi a paciência no Facebook. Alguém postou um desenho infeliz (um “dedo divino” tocando a proa do navio Titanic para fazê-lo afundar) cuja legenda dizia mais ou menos: “É o que acontece com quem zomba de Deus”. Já se falou demais sobre a tal frase, presumidamente dita por ocasião da viagem inaugural do Titanic (“Nem Deus afunda este navio!”). Não sei se essa frase é autêntica; mas sei que tem gente que realmente acredita que o desastre do Titanic, onde centenas de vidas inocentes se perderam, teria sido represália divina por sua “honra” maculada.

Como pode um cristão crer num “deus” orgulhoso, violento e cruel, capaz de tais ações? Como podem as pessoas deixar de perceber que um “deus” que agisse assim agiria contra a própria essência da mensagem do evangelho?

Na fé cristã, felizmente, o peso da noção de “pecado” já foi bem relativizado. Sei que ainda há muitos que, infelizmente, ainda vivem e sentem essa noção na mesma lógica da fiel iraniana do filme. Ainda precisamos crescer muito na compreensão de que o evangelho é libertação, não escravidão; e que Deus, o verdadeiro Deus que se revelou em Jesus Cristo, não coloca tumores na cabeça de crianças para punir as escorregadelas de seus pais.

Conheço pouco a teologia islâmica. Mas creio que, se ainda não começou a experimentar, essa fé irá provar algo como a redescoberta de que “Alá é misericordioso!”; um movimento que, brotando de dentro dessa religião milenar, ajude seus fiéis a perceberem Deus de forma mais humana. Não acredito que o Islã deva ser esticado no leito de Procusto da Ilustração, mas desejo, de todo o coração, que movimentos dessa natureza tornem-no mais afável e acolhedor. Foi o que aconteceu, e ainda está acontecendo, com nossa própria fé cristã; pelo que fico profundamente grato.

dica do Moyses Negrão Monteiro

A maldição da teologia deuteronômica

Rui Luis Rodrigues, no site da Carisma

Em muitos aspectos o Exílio babilônico, suportado pelo reino de Judá a partir de 587 a. C., foi a fonte de avanços significativos na compreensão que esse povo tinha de seu Deus. Foi a partir dali que o javismo – termo pelo qual os estudiosos se referem à fé em Yahweh até o momento do Exílio – passou a reconhecer o caráter único de Deus, tão belamente descrito em passagens do Dêutero-Isaías (a porção do livro de Isaías escrita na época do Exílio e que corresponde aos capítulos 40-55) como, sobretudo, o capítulo 44.

Mas os ganhos também foram acompanhados por fraquezas. É preciso que compreendamos que isto faz parte das dinâmicas formativas da Escritura Sagrada. A Bíblia não é texto “divino”, mas relato humano através do qual Deus conseguiu revelar a Si próprio. A revelação de Deus está presente no texto, mas este foi construído humanamente e, em consequência, carrega as marcas e limitações de toda produção humana.

Um dos aspectos negativos adquiridos pelo javismo durante o Exílio (e que se desenvolveu enormemente no retorno para a Palestina) foi a teologia deuteronômica. Nenhum estudioso sério do Antigo Testamento questiona, hoje, o caráter pós-exílico do Deuteronômio e a releitura da Lei que esse texto faz. Indubitavelmente nesse texto encontramos grandes riquezas em termos de percepção do caráter de Deus e do seu amor. Mas isso vem misturado a outros elementos. Um desses elementos é o caráter retributivo dessa teologia, exemplarmente representado pelas bênçãos e maldições do capítulo 28.

O javismo precisava, no Exílio, compreender o próprio fato de sua desgraça, entender as causas que levaram à extinção do reino de Judá; sobretudo, precisava entender por que Deus permitira aqueles acontecimentos. A alternativa seria supor que o próprio Yahweh fora derrotado, em batalha cósmica, pelos deuses mesopotâmios. Essa explicação foi rejeitada fortemente pela escola profética de Isaías. Ao contrário, do cadinho do sofrimento emergiu a fé firmemente monoteísta que, a partir de então, iria caracterizar o javismo (até então o javismo era henoteísta, ou seja, cria na existência de vários deuses, cada um com autoridade sobre seu próprio território; daí porque a derrota dos judeus em sua própria terra era um problema teológico de enorme magnitude).

A explicação mais plausível parecia ser a de que Deus entregara seu povo ao sofrimento do Exílio em retribuição de sua infidelidade. Naquele contexto era impossível àqueles homens e mulheres qualquer consideração sobre o caráter histórico e social de seu próprio sofrimento; eles não conseguiam perceber o fato, para nós simples, de que foram submetidos aos babilônios porque estes se erguiam então como potência “mundial” (a rigor, como potência predominante no Oriente próximo). Precisamos compreender bem este ponto: imaginar que o Exílio fora concessão de Deus por causa da infidelidade de Judá serviu para preservar, no javismo, a fé em Yahweh como Deus que ama seu povo e se interessa por ele. Isso foi de valor inestimável. Mas, ao mesmo tempo, essa explicação lançava uma sombra sobre a imagem de Deus.

O caráter mais perverso da imagem de Deus que essa concepção formou foi, justamente, a teologia retributiva que encontramos em Deuteronômio 28. Essa teologia, segundo a qual sofrimentos resultam sempre da maldição que se segue à desobediência e prosperidade é a consequência lógica da obediência, incorporou-se à mentalidade judaica desde então. Culminará, nos dias de Jesus, naquela atitude religiosa que enxergará a desobediência de alguém como causa, por exemplo, de uma cegueira congênita (ver João 9:2 e a contundente negativa de Jesus, no versículo seguinte). Nos dias de Jesus essa teologia ganhou um peso opressivo todo especial: num contexto de miséria motivada, sobretudo, pela dominação estrangeira, a parcela mais sofredora do povo era mantida em duplo cativeiro; o cativeiro social, fruto da opressão estrangeira, e o cativeiro religioso, segundo o qual sua própria miséria era fruto de desobediência, pecado e negligência da Lei (ver, a propósito, a atitude dos líderes religiosos a respeito do povo, expressa em João 7:49).

É interessante perceber, também, como a própria teologia dos “amigos de Jó” (rejeitada como um todo pela lógica do livro) é essa mesma teologia deuteronômica: os amigos de Jó acreditavam que o sofrimento de seu amigo só podia ser fruto de pecado. Como sabemos hoje, o livro de Jó é de redação pós-exílica, tendo sido composto como reação a esse ambiente no qual a teologia deuteronômica começava a predominar. Continue lendo