Arquivo da tag: São Paulo

Adeus, São Paulo

predios_sao_paulo_luis_prado_estudio

Por Matheus Pichonelli, na Carta Capital

Do alto, sentia a vertigem e imaginava quantos pedaços de mim se espalhariam pelo chão se a grade mambembe, espetada em uma parede com as primeiras rachaduras, se partisse naquele instante. Estávamos no 23º andar e eu, como sempre acontecia quando meus pés se afastavam do chão, imaginava com quantos calafrios eram construídos um edifício como aquele. O corretor, de cabelo espetado e brinco na orelha esquerda, falava comigo com todos os pronomes e plurais ensaiados. Educadíssimo, me chamava de senhor, embora aparentasse ser mais novo do que eu.

Antes de fechar a janela do apartamento, um cubículo de 30 metros quadrados cujo preço, em minha terra, valeria um rancho inteiro com os cavalos incluídos, observei um cão à beira da avenida principal. Andava em círculos pelo portão e recuava. De dentro, já não ouvia a conversa sobre a projeção milionária da região (segundo o corretor, aquela era a nova fronteira do mercado imobiliário paulistano).

-Daqui a dez anos você pode faturar, por baixo, por baixo, uns…

Eu via os lábios dele se mexer, mas não ouvia voz alguma: só queria saber se quando chegasse ao térreo iria encontrar um cão salvo ou atropelado. Paramos em um dos andares para conhecer a sala de academia. Depois em outro, para conferir a living room, bem ao lado do home office. Na orelha de um dos andares, havia uma lavanderia.

-Por dez reais, você tira uma ficha e lava tudo o que precisa sem nem sair de casa.

Sair de casa pra quê?, pensava eu. Perto dali o ponto mais charmoso da rua era um posto de gasolina de telhado arrebentado. O resto eram galpões com marcas de sangue de cordeiro na entrada. Tinham data e hora para ir ao chão. A cidade que erguia e destruía coisas belas também construía belezas funcionais onde antes reinava o abandono – as fábricas foram embora havia muitos anos, e os galpões que resistiam ao tempo não inspirariam uma única linha de Antonio Alcântara Machado, hoje um nome de rua cinzenta perto dali.

A cada andar que descia, colocava o nariz para fora da janela para espiar o cachorro. Com o vento, vinha uma frase do filósofo Claude Lévi-Strauss cantada por Caetano Veloso: “Aqui tudo parece que é ainda construção e já é ruína”.

-E o melhor de tudo: é próximo ao metrô.

Sim, era próximo, mas para chegar até ali passaria por um viaduto granindo para a rua, um entre tantos a se emaranhar por um rastro de ódio e destruição.

-Daqui a uns anos, todo mundo vai estar morando aqui. Está caro? Está. Mas vai ficar muito mais…

Admirava a forma como o corretor descrevia ouro onde eu só via a ruína da música. E me perguntava se ele realmente acreditava no que dizia e vendia. Era um peão, como eu e, como eu, precisava vender seu peixe pra poder, como eu, chegar em casa, jogar a chave em cima da escrivaninha, tirar a camisa, lançar o tênis pela sala e ligar a tevê para, como eu, se distrair ao esquentar o jantar e dormir o quanto antes de olho no dia seguinte. Viveria também em uma caixa de sapato que dali a dez anos, quando incorporadores, padarias e supermercados se mudassem pra lá por osmose e expulsassem de vez os pequenos comerciantes dos grandes galpões, triplicaria de preço?

Nos folders e páginas na internet, a corrida imobiliária parecia resgatar a lenda da corrida americana em direção ao Oeste. “Juntos, vamos expulsar os índios e instalar as bases da única civilização possível, esta que substituiu a mesa de bar pela área gourmet”. (Um pensamento virava obsessão: será que Guimarães Rosa escreveria o Grande Sertão: Veredas na sacada de uma área gourmet?)

Dias depois, vou ao outro lado da fronteira paulistana, onde da terra brotam três torres prontas para serem habitadas. “A poucos metros da estação do metrô”, dizia a propaganda. Mas a estação do metrô não está pronta. Há anos que não está.

-Era pra estar funcionando, mas sabe como é a política, né?, disse o novo corretor, este com a voz mais calma, enquanto enxugava as lentes dos óculos.

Para chegar às torres, andamos uma ladeira de declive considerável. Eu, que só ando a pé, seria levado pela enxurrada na primeira garoa. Na torre, todos os apartamentos são iguais, mas uns são mais iguais que outros: quanto mais perto da comunidade vizinha ao empreendimento, menor o valor do metro quadrado. Meio constrangido, o corretor explicou: “De vez em quando se ouve um pancadão vindo de lá. Mas a janela é virada para o outro lado. Você não os vê, e eles não veem vocês”.

Eles: os outros. Os indesejados. Por causa deles há um muro. Há seguranças. Há um sistema de vigilância permanente para você e a sua família.

E quem precisa sair de casa e andar pelo bairro, pedir emprestada uma xícara de açúcar para o vizinho pobre quando tudo o que é necessário para a reprodução da espécie está do lado de cá do muro?

Pelo preço e localização, parecia um bom negócio. Um bom investimento, pelo menos. Na ponta do lápis, todos os números do mundo saltavam aos olhos. Chegavam a dar dor de cabeça. Era como calcular a dosimetria de uma pena: “em 30 anos, as parcelas são reduzidas e o apartamento é seu”. Primeiro, a simulação em um banco. Depois, em outro. Primeiro, com um valor de entrada. Depois, com uma prestação menos elástica. O preço da liberdade é o preço de uma projeção: “Antes o metrô quadrado custava tanto. Hoje vale duas vezes tanto. Daqui a dez anos…”

Só parava de fazer contas para pensar em como seria a vida nos próximos anos até ganhar a carta de alforria. Pensava em uma música antiga do Raul Seixas (pensava em muitas músicas do Raul Seixas naqueles dias): “Tô terminando a prestação do meu buraco, meu lugar no cemitério pra não me preocupar de não mais ter onde morrer. Ainda bem que no mês que vem posso morrer, já tenho o meu tumbão. O meu tumbão”.

Naquela semana, passei os dias lançando filtros nas buscas dos sites especializados: bairro, valor mínimo e total, número de quartos. Cheguei ao ridículo de calcular em quanto tempo pagaria uma casa de vila. Imagina? Morar em uma vila em plena metrópole? Chegava ao trabalho e procurava a rua das futuras casas no Google Street View. Rodava o mouse, parava e olhava. Tentava me imaginar ali com um carrinho de criança em um sábado de sol, se em algum sábado o sol saísse. De bairro em bairro, resolvi, por curiosidade, digitar o endereço da minha primeira casa, a casa de tijolo à vista onde nasci, em Araraquara. Olhava aquela imagem e imaginava quantos pedaços de mim se espalhariam naquela parede de tijolo se caísse para dentro da tela. Era minha única distração: mal me conectava, buscava o endereço da velha casa, como quem busca um fundo de tela e um descanso para a memória. A casa era a mesma, mas estava envelhecida. Faltava alguma coisa: o pinheiro do jardim, um primeiro plano de todas as fotos desbotadas da minha infância. O que fizeram com o pinheiro? Quem tem um pinheiro hoje em dia dentro de casa?

Por que nos mudamos de lá? Não era uma casa grande. Era uma casa simples, sem piscina nem área gourmet. De vez em quando, improvisávamos uma churrasqueira de ferro ao lado da garagem e armávamos uma piscina de plástico. Todo mundo da rua aparecia. E eu sabia o nome dos meus vizinhos: pela janela, eu os olhava e eles nos olhavam sem medo.

-Preciso pensar.

-Se pensar muito vamos vender.

-Posso te dar uma resposta na semana que vem? Quero primeiro andar pelo bairro, conhecer melhor…

-Poder pode. Mas vamos vender.

Quanto mais fazia perguntas, mais o tempo passava. Quanto mais o tempo passava, mais fazia contas. Quanto mais fazia contas, mais mirava a projeção de ganhos. Quanto mais fazia projeções, mais sentia vontade de beber. Quanto mais vontade de beber, mais fome eu tinha. Quanto mais comia, mais sono eu tinha no fim da tarde. Quanto mais sono no fim da tarde, menos dormia na madrugada.

A vertigem, iniciada em uma sacada do 23º andar erguido no terreno de um antigo galpão do centro de São Paulo, só cessou quando me dei conta de que tudo o que me movia era uma única frase dos corretores: “Pensa direito. Essa região vai se valorizar…” Pensar bem significava comprar uma projeção: uma projeção de futuro. Esta projeção de futuro significava viver mal durante meses, anos, e esperar a civilização chegar com suas cifras salvadoras. É a mola propulsora de uma lógica inerente à metrópole: em nome de um bom negócio, a gente se priva de tudo durante anos, inclusive da delícia de poder largar tudo um dia – carro, trabalho, bairro e móveis – e começar tudo do zero a qualquer momento. Mas porque temos um compromisso (alguns chamam de “dívida”, outros de “honra”), a gente engole qualquer coisa, inclusive o que nos destrói. Foi quando arrisquei uma sociologia de botequim: é por causa dessa felicidade dos anúncios das incorporadoras que nos enforcamos em dívidas, e por causa das dívidas nos apegamos ao emprego e trabalhamos cada vez mais, e porque trabalhamos cada vez mais, vemos cada vez menos os amigos, e como não vemos os amigos, nos acostumamos a viver em cativeiro, e como do cativeiro vem o sustento, passamos a agir como animais para proteger o nosso emprego, nossas conquistas e nossas posições. É quando o vizinho se torna uma ameaça e o novo colega recém-contratado pela empresa, um perigo. Eis a origem do nosso carreirismo, das nossas ansiedades e das nossas síndromes do pânico. Tudo está embutido nos juros estendidos ao longo dos anos, menos os remédios. (“Não entendo os homens: perdem a saúde para economizar dinheiro quando jovens e perdem o dinheiro para recuperar a saúde quando velhos”. Onde está o Dalai Lama, ou seja lá quem disse isso, quando mais se precisa dele?)

Ao fim das contas, percebia que o ciclo do progresso tinha um custo, como todo ciclo. Mas para mim era demais.

-Pensa bem, insistia o corretor. O que você quer da sua vida?

-Oi?

-Da sua vida. O que você quer? Vai viver a vida inteira de aluguel?

-Oi?

-O que você quer da sua vida?

O que eu quero?

O que eu quero é sumir daqui.

Assédio sexual em vagão vira fetiche em Tóquio e dá prisão em NY

Tóquio tem metrô com vagão exclusivo para mulheres nos horários de pico (foto: Kenji Suzuki-Sankei/Reuters)

Tóquio tem metrô com vagão exclusivo para mulheres nos horários de pico (foto: Kenji Suzuki-Sankei/Reuters)

Alexandre Porto, Isabel Fleck, Leandro Colon e Lígia Mesquita, na Folha de S.Paulo

O assédio sexual a passageiros ocorre em São Paulo e repete-se nos vagões de outras metrópoles. Em Tóquio, o ato é comum e virou fetiche. Há motéis com suítes que imitam o ambiente do metrô.

Em Nova York, um decisão da Justiça estabeleceu prisão de até um ano para “encoxadores”. Já em Londres, há operações para detê-los. Em Buenos Aires, os assediadores trocavam “dicas” num blog para cometer o crime e, no Rio, o público masculino insiste em desrespeitar o vagão exclusivo para mulheres.

Saiba mais sobre cada metrópole abaixo.

*

Tóquio

Fetiche do metrô

No metrô de Tóquio, assédio sexual é comum. Segundo as autoridades, dois terços das passageiras entre 20 e 30 anos já foram vítimas. O chikan —como é conhecido no Japão— ocorre mais frequentemente pela manhã, em linhas com grandes distâncias entre as paradas. Cartazes de advertência contra o abuso estão em todas as estações e há vagões exclusivos para mulheres nos horários de pico.

A cultura machista japonesa, no entanto, procura transformar abuso em fetiche. Em alguns motéis, há suítes temáticas com a aparência de um vagão de metrô, para a prática do chikan como fantasia sexual.

*

Nova York

Prisão para abuso

Uma decisão tomada em fevereiro pela mais alta corte do Estado de Nova York estabeleceu que “encoxadores” em metrôs poderão ser acusados criminalmente e receber penas de até um ano de prisão.

A decisão se refere a um caso de 2009, em que um homem foi preso após esfregar seu órgão genital em um rapaz numa estação de metrô de Nova York. A medida foi considerada uma vitória por grupos que defendem punições mais rigorosas para esse tipo de abuso. O Departamento de Polícia de Nova York registrou, em 2012, cerca de mil denúncias de contatos forçados ou exposição pública.

*

Londres

Guardião do trem

Criado há um ano, o “Guardian”, programa de prevenção e combate ao assédio sexual no transporte público em Londres, dá resultados práticos. Numa operação no mês passado, 16 homens foram detidos sob suspeita de praticar algum tipo de assédio. O projeto foi criado depois de uma pesquisa mostrar que 15% das mulheres sofreram algum tipo de abordagem sexual em meios de transporte. Mas 90% delas nunca haviam informado as autoridades. A polícia de Londres diz que o combate ao assédio sexual é importante por ter “efeito desproporcional na confiança das pessoas em viajar, sobretudo as mulheres”.

*

Buenos Aires

Blog do assédio

O Programa das Vítimas contra as Violências do Ministério da Justiça registrou 1.139 denúncias em 2012. Desse total, 6% (68 casos) ocorreram em ônibus, metrô, trens e táxis. Entre janeiro e maio de 2013, 18 dos 418 casos se deram em meios de transporte.

Em Buenos Aires, onde o metrô costuma estar lotado, não há vagão exclusivo para as mulheres. A Agência Nacional de Notícias Jurídicas do país denunciou, em 2013, um blog no qual homens que assediavam mulheres em trens e ônibus da capital trocavam “dicas” para cometer o crime. A página foi retirada do ar.

*

Rio de Janeiro

Vagão para elas

O vagão exclusivo para mulheres nos trens e no metrô do Rio de Janeiro completa neste mês oito anos de existência. De segunda a sexta, das 6h às 9h e entre 17h e 20h, sempre há o espaço destinado para elas. A medida, aprovada em lei, surgiu para evitar que homens se aproveitassem da superlotação para assediar as passageiras.

Hoje, alguns homens ainda ignoram a regra. Segundo a SuperVia, que administra os trens, a lei não dá autonomia para que agentes possam expulsá-los. Na manhã da última terça-feira, um dos infratores ejaculou num dos vagões femininos. Ele acabou preso por violação sexual.

Justiça do Estado de Nova York definiu pena de até um ano para "encoxadores" (foto: AFP)

Justiça do Estado de Nova York definiu pena de até um ano para “encoxadores” (foto: AFP)

Carioca leva mais tempo que paulistano a caminho do trabalho

Engarrafamento na Linha Amarela Rafael Moraes / Agência O Globo

Engarrafamento na Linha Amarela Rafael Moraes / Agência O Globo

Média é de 47 minutos por trajeto, no Rio, contra 45,6 minutos, em SP. “Vocês podem confiar nesses números, são do IBGE”, brinca pesquisador do Ipea, referindo-se a erro em estudo sobre estupro

 Mariana Timóteo da Costa, em O Globo

RIO – O carioca gasta mais tempo do que o paulistano para ir e voltar de casa para o trabalho: uma média de 47 minutos por trajeto contra 45,6 minutos. A população do Rio também ocupa o primeiro lugar no ranking percentual de trabalhadores que gastam mais de uma hora em cada trajeto casa-trabalho: 24,7% contra 23,5% de São Paulo.

Os dados foram compilados pelo pesquisador Carlos Henrique Ribeiro de Carvalho, do Ipea, com base nos dados do último Pnad (Pesquisa Nacional por Amostras de Domicílio) do IBGE e apresentados nesta sexta-feira no evento “Anda SP”, na capital paulista.

- E vocês podem confiar nesses números, que são do IBGE – brincou Carvalho, em relação ao recente erro do Ipea na pesquisa sobre tolerância social à violência contra as mulheres.

A plateia do Museu da Imagem e do Som (MIS), lotada, se surpreendeu com o fato de os cariocas gastarem mais tempo no trânsito do que os moradores de São Paulo, cidade conhecida mundialmente pelos grandes engarrafamentos.

Mas esta que parece ser a percepção de quem freqüenta as duas cidades agora foi comprovada empiricamente.

O pesquisador diz que é preciso investigar mais porque o trânsito carioca é mais pesado do que o de São Paulo. Mas já possui várias hipóteses.

A primeira é que as regiões densamente povoadas da Região Metropolitana do Rio, como a Baixada Fluminense e São Gonçalo, não têm empregos suficientes, funcionando como espécies de “cidades dormitórios” e obrigando seus moradores a se deslocarem até o município do Rio para trabalhar.

- Já a Região Metropolitana de São Paulo tem mais ofertas de emprego espalhadas por seu território – diz o pesquisador

Outro fator é que São Paulo tem mais oferta de metrô, trem e mais corredores de ônibus, além de um maior número de ruas e avenidas, que “propiciam a população a adotar caminhos mais alternativos”.

- O Rio é mais linear, espremido entre o mar, a montanha, a Lagoa…. Se uma avenida para, se a Ponte Rio-Niterói para, você não tem para onde correr. Em São Paulo, agora um monte de gente que tem carro usa o aplicativo Waze, consegue sair cortando as ruas e chegar mais rápido em casa – comenta Carvalho, que participou do evento, promovido pela TV Globo e pela USP, junto com outros especialistas, incluindo Robert Cervero, da Universidade da Califórnia, e Regina Meyer, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP.

Todos falaram como a questão da mobilidade urbana deve ser melhorada nas principais cidades brasileiras. Para Cervero, o ideal seria se gastar um total de até uma hora por dia nas duas viagens.

- O carioca gasta 94 minutos, e o paulistano um pouco menos, mas todos mais de uma hora e meia. Isso afeta profundamente a qualidade de vida dessas populações _ atestou Carvalho.

Relatório e guia sobre tráfico de pessoas são lançados em São Paulo

Baixe a versão digital do relatório “Tráfico de pessoas na imprensa brasileira” e do “Guia para jornalistas com referências e informações”

Juliana Armed, Carlos Bezerra Jr., Fernanda dos Anjos, Leonardo Sakamoto, Larissa Beltrami e Gilberto Duarte na mesa de abertura do evento. (foto: Stefano Wrobleski)

Juliana Armed, Carlos Bezerra Jr., Fernanda dos Anjos, Leonardo Sakamoto, Larissa Beltrami e Gilberto Duarte na mesa de abertura do evento. (foto: Stefano Wrobleski)

Daniel Santini, no Repórter Brasil

A Repórter Brasil apresentou na manhã desta sexta-feira, dia 11, duas publicações sobre tráfico de pessoas, desenvolvidas com apoio do Ministério da Justiça e do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC). Trata-se de um relatório sobre a cobertura da imprensa e um guia para jornalistas com referências e informações sobre o enfrentamento ao problema. O lançamento foi realizado nesta manhã durante evento realizado no Auditório da Secretaria de Justiça e da Defesa da Cidadania do Estado de São Paulo, que fica no Pateo do Collegio, no Centro de São Paulo, durante evento que reuniu alguns dos principais especialistas do Brasil sobre o tema.Tráfico-de-Pessoas-publicações

O relatório “Tráfico de pessoas na imprensa brasileira” (versão digital em PDF) teve como base a análise de 655 textos publicados entre 1º de janeiro de 2006, ano de lançamento da Política Nacional de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas, e 1º de julho de 2013, ano do II Plano Nacional de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas. O estudo indica que o tema ainda não recebe atenção suficiente por parte da mídia. Em 57% dos textos analisados, o tráfico de pessoas é apenas mencionado, não raro de forma equivocada, misturando conceitos e interpretações. Entre os 43% restantes, a maioria (54%) não trata de causas ou contextualiza a questão e boa parte (44%) é focada apenas no tráfico para fins de exploração sexual.  A cobertura se baseia na agenda governamental ou em ações policiais e em muitos casos limita-se a aspectos criminais, sem os aprofundamentos necessários para tratar de um fenômeno complexo, multifacetado e dinâmico, com diferentes modalidades, causas e consequências.

O “Guia para jornalistas com referências e informações sobre enfrentamento ao tráfico de pessoas” (versão digital em PDF), baseado em entrevistas com mais de 20 especialistas, entre autoridades, acadêmicos e representantes da sociedade civil, reúne recomendações para a cobertura e acompanhamento, incluindo sugestões de fontes, datas importantes e o marco legal, com indicações da legislação e de tratados internacionais ratificados pelo Brasil. A publicação elucida que as definições previstas no Protocolo de Palermo são as mais amplas sobre o problema e destaca que o o Brasil é um país de origem, trânsito e destino de tráfico de pessoas, o que torna a cobertura complexa, delicada e relevante. Aos jornalistas preocupados em acompanhar a questão, o guia recomenda focar direitos humanos, contextualizar acompanhar políticas de prevenção, diversificar fontes, a ter atenção para identificar novas modalidades de tráfico.

Por se tratar de um fenômeno clandestino e de difícil mensuração, a publicação sugere cuidado com números e estatísticas, e com os mitos e estereótipos que ainda são comuns e mais atrapalham do que ajudam no entendimento sobre o tema. Mais do que reforçar a ideia de que o tráfico hoje se limita a redes criminosas internacionais e atinge apenas mulheres, a publicação propõe uma abordagem integral, e destaca que não existe um perfil único de vítimas; em tese, qualquer pessoa pode ser traficada. Ao aprofundar a questão é preciso sensibilidade com vítimas, que não devem ser tratadas como coitadas, inocentes, ignorantes, mas como sujeitos de direitos que merecem respeito. Também vale cuidado redobrado em casos que envolvem crianças e adolescentes, e estar atento a termos inadequados (o guia traz diversos exemplos). Outras recomendações são ter a perspectiva de gênero e lembrar que diferenças sexuais são produtoras de desigualdades sociais; entender migração como um direito humano; e considerar que a prostituição não é crime no Brasil.  Há análises específicas sobre cada um desses pontos na reportagem.

Os trabalhos de pesquisa foram encabeçados pelas jornalistas Raiana Ribeiro e Fernanda Sucupira, com edição de Leonardo Sakamoto, Daniel Santini e Igor Ojeda. A diagramação é de Gustavo Monteiro. Participaram do evento de lançamento Carlos Bezerra Jr, deputado estadual, criador da Lei Paulista de Combate ao Trabalho Escravo; Fernanda dos Anjos, diretora de Justiça, Classificação, Títulos e Qualificação da Secretaria Nacional de Justiça do Ministério da Justiça; José Guerra, secretário executivo da Comissão Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo; Juliana Armed, da Comissão Estadual pela Erradicação do Trabalho Escravo de São Paulo (Coetrae-SP) e do Núcleo de Enfrentamento ao Tráfico Humano do Estado de São Paulo; Larissa Beltrami, secretária-executiva da Secretaria Municipal de Direitos Humanos; Leonardo Sakamoto, coordenador da Repórter Brasil; Luiz Machado, coordenador do projeto de combate ao trabalho escravo da Organização Internacional do Trabalho- OIT; Maurício Hashizume, jornalista, membro da Repórter Brasil; Nívio Nascimento, oficial de campanhas da UNODC; Renato Bignami, membro do programa de erradicação do trabalho escravo da Superintendência Regional do Trabalho e Emprego em São Paulo;  e Roque Pattussi, coordenador do Centro de Apoio ao Migrante.

Clique nas imagens para baixar a versão digital em PDF das publicações apresentadas: 

pesquisatráfico

guiatráfico

Organizador dos rolezinhos morre após briga em baile funk na zona leste de São Paulo

Arthur Rodrigues, na Folha de S.Paulo

Um dos criadores dos rolezinhos, Lucas Lima, 18, morreu no domingo (6) após uma briga em um baile funk, na zona leste.

Segundo relatos de amigos dele, o rapaz se envolveu em uma confusão relacionada a uma garota no sábado (5). Recebeu uma pancada na cabeça e começou a se debater.

Ele foi encaminhado ao pronto-socorro, mas não resistiu aos ferimentos. Foi enterrado nesta segunda-feira (7) no cemitério municipal de Itaquera.

O jovem tem 56,7 mil seguidores no Facebook. Era um dos organizadores dos rolezinhos que chegaram a reunir 3.000 jovens no shopping Itaquera.

Bruno Poletti – 11.jan.14/Folhapress
O jovem Lucas Lima, 17, organizador do
O jovem Lucas Lima, 18, organizador do “rolezinho”, no shopping Itaquera

Lucas morava a poucas quadras do shopping, onde gastava o dinheiro dos bicos que fazia como ajudante de pedreiro em roupas de marca.

Em janeiro, a Folha chegou a acompanhar por duas semanas a rotina dele e de seus amigos. Na época, ele disse que a polícia já sabia que era ele quem organizou o rolezinho no shopping Itaquera. “Tô ligado que ‘os polícia’ tão em peso e já sabem quem eu sou”, disse Lima, estudante do terceiro ano do ensino médio em um colégio público da zona leste que fazia bicos como ajudante de pedreiro.

No Facebook, a irmã do jovem, Sthefanie Oliveira, escreveu: “Foi difícil deixar você naquele lugar, naquela caixa coberta de areia, mas agora você está com Deus cuidando de todos”.

A reportagem entrou em contato com o 24º Distrito Policial (Ponte Rasa), onde foi registrado o caso. Policiais afirmaram que o crime será investigado no 62º DP (Ermelino Matarazzo).