Funcionário distribui falsas bênçãos do papa a políticos para obter patrocínio de projetos

Divulgação/Agência Alesp
Divulgação/Agência Alesp

Publicado na Folha de S. Paulo

Presidente da Assembleia Legislativa, o deputado Barros Munhoz (PSDB-SP) fez pose para o momento solene. O ano era 2009 e a ocasião merecia. Ele acreditava estar recebendo uma bênção do papa Bento 16, trazida do Vaticano especialmente para ele.

Talvez o deputado ainda não saiba, mas foi enganado: naquele dia, posou para o fotógrafo oficial com uma peça falsa emoldurada. Ela não veio do Vaticano. Segundo funcionários da Assembleia, foi impressa numa gráfica da alameda Jaú, em São Paulo.

Em Roma, apenas um arcebispo tem permissão para assinar pergaminhos com a bênção apostólica do papa como a que o tucano recebeu.

E o arcebispo cuja assinatura aparece na bênção de Barros Munhoz, datada de 15 de março de 2009, se aposentara e fora substituído dois anos antes, em julho de 2007.

Mas o deputado não foi o único. Prefeitos e outras autoridades também receberam bênçãos falsas das mãos do mesmo homem: Emanuel von Laurenstein Massarani, um senhor de 78 anos que, com gravata borboleta e crucifixo na lapela, circula à vontade pela Assembleia paulista há pelo menos oito anos.

Filho de pai italiano e mãe alemã, Massarani tem sala, equipamentos e funcionários na Casa. Dispõe também de um carro oficial para ir ao trabalho e voltar para casa. Foi nomeado chefe da Superintendência do Patrimônio Cultural da Assembleia em 2005.

Apesar do cargo, ele não tem vínculo empregatício nem figura na lista de servidores da Casa. Seu posto é “honorífico” –lhe dá direito a regalias, mas não a salário.

Oficialmente, a função de Massarani é promover exposições e organizar o acervo de arte da Assembleia. Extraoficialmente, ele usa a estrutura do Legislativo para tocar os negócios de uma organização particular que preside, o IPH (Instituto de Recuperação do Patrimônio Histórico).

O instituto classifica projetos culturais como de “interesse nacional”, ajudando a captar verbas de patrocínio que depois podem servir para abater Imposto de Renda.

Foi por meio de seu instituto, por exemplo, que a pintora Denise Chiaradia Christofari participou das bienais de Florença, em 2009, e Roma, em 2010. Ela viajou graças a uma verba de R$ 46,5 mil da Cesp (Companhia Energética de São Paulo).

Quem viabilizou o patrocínio da estatal com o IPH foi o pai de Denise, o engenheiro Vilson Christofari, que na época era diretor de geração da Cesp e, meses após a filha voltar de Roma, assumiu a presidência da companhia. (Leia mais no texto abaixo)

Massarani aparece em documentos oficiais como “ex-embaixador”, mas nunca ocupou a posição. Segundo o Mistério das Relações Exteriores, ele se aposentou no Itamaraty como assistente de chancelaria, antiga carreira de nível médio já extinta.

Massarani afirma que há uma “confusão” em torno desse assunto. Ele esclarece que trabalhou no passado como “adido cultural” em Genebra, mas recebeu há alguns anos o título de “embaixador de Itápolis”, cidade do interior paulista que ajudou a promover ações de intercâmbio cultural com a Itália.

As boas relações com os políticos são uma marca na carreira de Massarani, que trabalhou para o ex-presidente Jânio Quadros no período em que ele foi prefeito de São Paulo e depois foi secretário de Patrimônio Cultural do Estado, no governo Mário Covas.

Em 2001, o governador Geraldo Alckmin acabou com a pasta e Massarani foi para a Assembleia. “Católico fervoroso”, ele diz não entender como as bênçãos que distribui podem ser falsas. “Tenho um contato em Roma. Vou falar com ele. Para mim, eram todas verdadeiras”, garante.

Procurada pela Folha, a Assembleia informou que abriu uma apuração preliminar para verificar a situação de Massarani. No dia em que ele concedeu entrevista à Folha, uma de suas funcionárias interrompeu a conversa na hora de ir embora. “Sua bênção, doutor”, ela pediu, dando um beijo na mão dele. Massarani respondeu: “Deus te abençoe, minha filha”.

OUTRO LADO

O engenheiro Vilson Christofari, ex-presidente da Cesp (Companhia Energética de São Paulo) admite ter atuado na estatal para ajudar a financiar a participação da filha em duas exposições internacionais na Itália, mas diz não haver conflito ético no caso.

Christofari afirma que a filha, que é pintora, não viajou a passeio e teve trabalhos premiados tanto na mostra de Florença quanto na de Roma.

“Minha filha recebeu o convite para representar o Brasil, por uma entidade credenciada, o IPH. Comentei com colegas sobre o assunto, sim, e não vejo nada de errado nisso”, diz o engenheiro.

“A empresa patrocina esses eventos. Havia isenção fiscal. Melhor pedir à Cesp do que a qualquer um dos fornecedores da companhia, que certamente não iriam se negar a ajudar”, diz Christofari.

A Cesp afirmou por meio de sua assessoria que deu “apoio financeiro a uma entidade legalmente estabelecida”, o IPH (Instituto de Recuperação do Patrimônio Histórico de São Paulo), a quem cabia “aplicar os recursos nos termos da lei”.

O presidente do instituto, Emanuel von Laurenstein Massarani, diz que não sabia que a pintora Denise Chiaradia era filha do presidente da Cesp. “Só fui saber depois do fato consumado”, afirma.
Depois de promover a viagem da filha de Christofari à Itália, Massarani conseguiu ajuda da Cesp para tocar um segundo projeto, um livro sobre as barragens do rio Tietê.

A Cesp cedeu um de seus funcionários a Massarani. Ele passou a trabalhar para o IPH, com a missão de fotografar as paisagens para o livro.

Christofari diz ter sido chantageado por esse funcionário, que teria ameaçado revelar o caso do patrocínio da sua filha. O ex-funcionário, Augusto Cezar, negou ter feito chantagem, mas confirmou ter trabalhado para Massarani na Assembleia.

 

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Feliciano participa de culto e enfrenta protestos em Marília (SP)

Manifestantes saíram às ruas em passeata contra a presença do deputado na cidade Foto: Érica Montilha / Especial para Terra
Manifestantes saíram às ruas em passeata contra a presença do deputado na cidade Foto: Érica Montilha / Especial para Terra

Izabel Dias, no Terra

O deputado federal e pastor Marco Feliciano (PSC-SP) participou na noite deste sábado de um culto evangélico em Marília, interior de São Paulo, e enfrentou protestos de manifestantes que saíram às ruas em passeata contra a presença do deputado na cidade. Feliciano ministrou o culto na Igreja Assembleia de Deus, localizada na rua Nove de Julho, no centro. Um forte esquema de segurança foi montado nas proximidades da igreja para evitar confronto com manifestantes mas não houve incidentes.

Durante o culto ele recebeu título de visitante ilustre concedido pela Câmara de Marília. O requerimento foi iniciativa do vereador José Menezes (PSL), também evangélico. Marco Feliciano é presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados e se tornou alvo de críticas e protestos por suas opiniões sobre negros e homossexuais.

Quando foi anunciada a vinda de Feliciano a Marilia no início da semana, uma moção de repúdio começou a ser organizada através das redes sociais. Hoje cerca de 80 pessoas com faixas e cartazes “Fora Feliciano” se foram para a frente da Câmara da cidade e seguiram em passeata até a igreja onde o pastor estava participando do culto. O grupo não pôde se aproximar da igreja, já que o quarteirão estava interditado e vários policiais faziam a segurança do prédio.

Um forte esquema de segurança foi montado nas proximidades da igreja Foto: Érica Montilha / Especial para Terra
Um forte esquema de segurança foi montado nas proximidades da igreja Foto: Érica Montilha / Especial para Terra

Segundo Edson Duarte, representante do movimento LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transgeneros) em Marília, o deputado Marco Feliciano não poderia estar à frente de uma comissão tão importante como a de Direitos Humanos, pois demonstrou ideias totalmente retrógradas em relação às minorias. “É profundamente lamentável que um político como Feliciano possa ainda receber um título de visitante ilustre pela Câmara de Marília, totalmente na contra-mão da luta dos movimentos de minorias no país”, disse.

O deputado Marco Feliciano não atendeu a imprensa antes do início do evento e a assessoria disse que “caso ele concedesse alguma entrevista”, não responderia perguntas sobre política, já que ele estava na cidade para participar de um evento religioso.

O grupo não pôde se aproximar da igreja, já que o quarteirão estava interditado Foto: Érica Montilha / Especial para Terra
O grupo não pôde se aproximar da igreja, já que o quarteirão estava interditado Foto: Érica Montilha / Especial para Terra

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Sobe para 18 número de empresas investigadas por pirâmides financeiras

Além da Telexfree, BBom, Multiclicks, NNex, Priples e Cidiz, outras doze companhias estão sendo averiguadas com suspeita de praticarem crime financeiro. Outras cinco podem ainda juntar-se ao grupo na semana que vem

  Telexfree e BBom foram as duas empresas que tiveram os bens bloqueados até agora pela Justiça Cerca de 300 manifestantes bloquearam a BR 116, em frente ao Parque de Exposições Assis Brasil em Esteio (RS), durante protesto contra a decisão da juíza do Acre que suspendeu as contas bancárias da empresa Telexfree em todo o país, em 02 de julho (Marcio Rodrigues/Futura Press)
Telexfree e BBom foram as duas empresas que tiveram os bens bloqueados até agora pela Justiça Cerca de 300 manifestantes bloquearam a BR 116, em frente ao Parque de Exposições Assis Brasil em Esteio (RS), durante protesto contra a decisão da juíza do Acre que suspendeu as contas bancárias da empresa Telexfree em todo o país, em 02 de julho (Marcio Rodrigues/Futura Press)

Naiara Infante Bertão, na Veja on-line

O número de empresas investigadas de praticar pirâmide financeira, considerado crime no Brasil, só aumenta. O total de empresas averiguadas saltou para dezoito, segundo o promotor José Augusto Perez Filho, do departamento de Defesa do Consumidor do Ministério Público do Rio Grande do Norte. A elas podem se somar mais cinco na semana que vem, chegando a 23 companhias investigadas. Na quinta-feira, o número estava em treze.

O promotor ressalta, contudo, que esta é a fase inicial de apuração para a maioria delas e ainda não foi comprovado se seu modelo de negócio está enquadrado no crime de pirâmide financeira. “Pode ser que seja constatado que algumas são, de fato, empresas de marketing multinível. Temos muito trabalho daqui para frente”, conta Perez.

As investigações estão sendo feitas por quase 20 promotores e procuradores federais de vários estados, tais como Acre, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte, Alagoas, Santa Catarina, Goiás, Mato Grosso, São Paulo (interior), Maranhão e Distrito Federal.

Duas empresas já tiveram os bens bloqueados por medida judicial – a Telexfree e a BBom. Outras quatro já estão com inquéritos de investigação instaurados: Nnex, Cidiz, Multiclick e Priples. O promotor não quis revelar quais os nomes das outras empresas investigadas.

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São Paulo é a cidade com mais problemas mentais no mundo

Foto: Yasuyoshi Chiba/AFP
Foto: Yasuyoshi Chiba/AFP

Charles Nisz, no Vi na Internet

Segundo um estudo da Organização Mundial de Saúde (OMS), a região metropolitana de São Paulo tem a maior ocorrência de problemas mentais em todo o mundo, com cerca de 30% da população. Para fazer o levantamento, a OMS pesquisou 24 cidades em diferentes países.

A pesquisa São Paulo Megacity Mental Health Survey apurou uma incidência de problemas mentais em 29,6% da população ao redor de São Paulo. Entre os problemas mais comuns estão a ansiedade, mudanças comportamentais e abuso de substâncias químicas, nos 12 meses anteriores à entrevista.

De acordo com os pesquisadores, a alta incidência de problemas mentais é causada pela alta urbanização juntamente com privações sociais. A ansiedade é o problema mais comum, afetando 19,9% dos 5037 entrevistados pela pesquisa. Os mais afetados são homens migrantes e mulheres em regiões de instabilidade social.

Em São Paulo também há a maior ocorrência de casos graves, com 10%, à frente dos Estados Unidos, com 5,7%, de da Nova Zelândia, com 4,7%. Depois de São Paulo, representante brasileira no ranking da OMS, Saúde (OMS), aparece a cidade norte-americana, com pouco menos de 25% de incidência de perturbações mentais. (vi no Jornal de Notícias)

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A frota de sete helicópteros à disposição do governador Sérgio Cabral

Enquanto o estado de São Paulo prepara venda de helicóptero, governador do Rio mantém sete aeronaves e usa modelo de luxo para se deslocar para o trabalho e viajar com família e empregados nos fins de semana

21 de junho - 10h46: O Agusta volta para a Lagoa, onde Adriana embarca com dois filhos, duas babás e o cachorro Juquinha 21 de junho - 10h46: O Agusta volta para a Lagoa, onde Adriana embarca com dois filhos, duas babás e o cachorro Juquinha - Oscar Cabral
21 de junho – 10h46: O Agusta volta para a Lagoa, onde Adriana embarca com dois filhos, duas babás e o cachorro Juquinha

título original: O Brasil descobre as viagens de Cabral

Leslie Leitão, na Veja

Dez quilômetros separam a residência de Sérgio Cabral, no Leblon, do Palácio Guanabara, em Laranjeiras. O caminho considera as ruas da Zona Sul do Rio. Diariamente, no entanto, o governador opta por outro caminho, como revela a edição de VEJA desta semana: percorre três quilômetros até a Lagoa, escoltado por três blindados e oito motocicletas, e de lá sobrevoa o engarrafamento em um dos helicópteros do estado, até chegar à sede do governo estadual. No início da tarde do último dia 20 de junho, o governador chegou ao heliporto da Coordenadoria Adjunta de Operações Aéreas (Caoa), na Lagoa, e embarcou com um segurança e um ajudante de ordens exatamente às 12h51. Voou para o gabinete e, de lá, acompanhou a maior manifestação da história recente do Brasil – deflagrada por uma insatisfação popular com a má qualidade e o alto custo do transporte público. A reportagem de VEJA percorreu o trajeto de carro, sem batedores: os sete quilômetros foram percorridos em doze minutos.

Atualmente o governo do estado do Rio tem sete helicópteros à disposição dos gabinetes do Poder Executivo. Além de Cabral, o vice-governador, Luiz Fernando Pezão, já em campanha para o governo em 2014, secretários e até o presidente da Assembleia Legislativa, deputado Paulo Melo (PMDB) voam com frequência quase diária.

A estrela da ‘esquadra fluminense’ foi adquirida em outubro de 2011: o Agusta AW109 Grand New, comprado por 9.732.934 dólares (o equivalente a 15.233.015 reais, à época). Para os entendidos em aviação, trata-se de uma limusine do ar, segura e confortável, a ponto de ser a preferida de Eike Batista e outros bilionários.

No mercado de táxi aéreo, o aluguel do Agusta custa 9.500 reais por hora. “Como o estado opera uma aeronave própria, pode-se dizer que o custo operacional fica 30% mais barato”, afirma o dono de uma empresa que aluga o Agusta para turistas abastados. Estima-se, então, que o custo operacional da aeronave para o contribuinte fluminense é de cerca de 6.000 reais por hora de voo, ou 312.000 por mês. Ou ainda 2,8 milhões anuais. Se considerado este padrão de gasto, uma ida e volta do governador ao trabalho consome 6.000 reais, ou 2.181 passagens de ônibus (de tarifa a 2,75). Os fins de semana em Mangaratiba saem por 54.000.

O Agusta é o favorito também da primeira-dama. No hangar que atende à família, corre a história de que ele só foi comprado porque Adriana Ancelmo não gostou do modelo EC-135, um dos mais novos e modernos bimotores da frota – também com custo da hora de voo em torno de 9.000 reais. “A Adriana não gostou do EC-135. Por isso, o governador comprou o Agusta e deixou esse para o Pezão”, conta um piloto lotado na unidade.

No dia seguinte ao protesto que reuniu 300.000 pessoas no Rio de Janeiro contra o preço das passagens de ônibus, Cabral voou novamente às 10h15. O helicóptero retornou à Lagoa às 10h32 e, quatro minutos mais tarde, a primeira-dama chegou escoltada por seguranças. Exatamente às 10h46, ela, dois filhos, duas babás e um cachorrinho de estimação decolaram. Destino: Mangaratiba, na Costa Verde, onde a família tem uma mansão de veraneio. Uma semana depois, dia 28 de junho, Adriana, as crianças, as babás e o mesmo cãozinho embarcaram no Agusta às 11h19, de novo rumo ao Litoral Sul, apesar do mau tempo. “Pode estar desabando o mundo que eles voam para Mangaratiba todo fim de semana”, diz um funcionário do heliponto.

Voar com essa frequência é para poucos. E custa caro. O governo de São Paulo – o estado mais rico do país – está acertando os detalhes da venda de um de seus dois helicópteros ainda este ano. Uma licitação ou concorrência pública deve arrecadar, segundo estimativa do Palácio dos Bandeirantes, cerca de 2,5 milhões de reais ao se livrar da aeronave, além de todos os custos com a manutenção, combustíveis e a operação de voo – um gasto de cerca de 4,5 milhões de reais por ano. A venda é parte do esforço para conter despesas e amortecer o impacto do subsídio que o orçamento paulista terá de prover para manter passagens de metrô e trem em 3 reais, em vez de 3,20. São Paulo, capital com o mais extenso e caótico trânsito do país, passará a ter, então, um helicóptero para o governador, secretários e emergências envolvendo o Poder Executivo.

No momento, esta não é uma preocupação do governo do Rio. Ao longo das últimas três semanas, a reportagem de VEJA acompanhou o sobe e desce da família Cabral e da frota baseada na Lagoa. Na última quinta-feira, dia 4, o governador saiu de casa às 10h59 e chegou 15 minutos depois à Lagoa. Bateu papo e embarcou às 11h20 não no Agusta, mas no ‘que a Adriana não gosta’. O decola e pousa frequente do governador deixa à vontade outras autoridades para acumular milhas – e gastar fortunas. O peemedebista Paulo Melo, que preside a Assembleia e é o braço forte de Cabral no Legislativo, também é um voador habitual. “Ele vai e volta para Saquarema praticamente todos os dias num dos bimotores”, conta um piloto.

O que a família Cabral e as autoridades talvez não saibam é que, no comando das aeronaves e em terra, os abusos com o vai e volta pelo ar indignam quem testemunha a farra. “Existe o voo das babás. No domingo, depois que eles voltam de Mangaratiba, o piloto tem que voltar lá e buscar as babás. Isso tudo com o dinheiro do povo. É revoltante”, desabafa outro piloto. Um funcionário que acompanha o dia a dia das viagens aéreas detalha outras excentricidades: “Já aconteceu de tudo nessas aeronaves. Levaram cabeleireira, médico, prancha, os amigos dos filhos do governador, convidados. Uma vez, a babá veio de Mangaratiba para pegar uma roupa que a Adriana tinha esquecido. Na outra, uma empregada veio fazer compras no mercado. É o verdadeiro ‘helicóptero da alegria’”, indigna-se.

Sobre a necessidade de tantos deslocamentos diários pelo ar, a assessoria do governo do estado respondeu, por email, que “o governador usa o helicóptero do governo sempre que necessário para poder otimizar o seu tempo e poder cumprir todos os seus compromissos”. Os assessores não responderam sobre o alto custo desse tipo de deslocamento, mesmo em horários sem trânsito.

A respeito da compra do Agusta, o modelo mais luxuoso da frota, a assessoria de Cabral informou que “o cargo de governador de um estado tão importante quanto o Rio de Janeiro exige que o seu ocupante se desloque em aeronaves seguras”, e que esta serve para que ele possa também ir a outros municípios em áreas montanhosas – uma necessidade que o governador do estado de São Paulo, também montanhoso, ainda não percebeu.

O governo do estado não considera que as viagens até Mangaratiba sejam “a passeio”: “O governador tem residência também em Mangaratiba, para onde precisa se deslocar com a sua família. Não é verdade que os helicópteros sejam usados por amigos. As babás, por vezes, viajam neles em companhia dos filhos do governador”, diz o e-mail.

Doutor em Direito Administrativo pela Universidade Complutense de Madrid, Fabio Medina Osório enxerga na forma como as aeronaves são usadas pelo Executivo no Rio uma afronta ao princípio da razoabilidade. “Tem que haver finalidade pública para justificar o uso de um helicóptero dessa maneira. A distância para o Guanabara é curta e a questão da segurança não é problema, porque um governador tem à disposição veículos blindados e escolta. Para o uso em lazer, é ainda mais grave”, afirma.

Na última sexta-feira, dia 5, depois do protesto que terminou com pancadaria entre manifestantes e policiais no Leblon, o governador não usou as aeronaves para ir ao Palácio Guanabara. Também não foi de carro: “despachou de casa”, informou sua assessoria.

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