O problema das Santas Casas é o problema dos santos

Atirador do CinemaPublicado por Ricardo Alexandre

Que se escancare, que se puna, que se apure a questão dos 2100 hospitais sem fins lucrativos brasileiros, que acumulam uma dívida de 15 bilhões de reais, que ameaçam baixar as portas e deixar milhares de pessoas sem atendimento.

Mas há uma questão periférica no problema que convém ser lembrada, especialmente depois que o maior de todos eles, a Santa Casa de Misericórdia de São Paulo (foto acima), fechou temporariamente seu pronto-socorro porque seus fornecedores recrudesceram diante de uma dívida de 45 milhões de reais. É claro que, em tempos eleitoreiros, foi fogo no rastilho: onde está o repasse do governo federal, onde está o dinheiro que o governo federal disse que repassou ao governo estadual etc. Tudo importante, e tudo da maior importância.

Mas não me escapou o fato de que o agigantamento de uma Santa Casa tem muito a ver com o agigantamento das denominações religiosas, e a complexidade da questão com a velocidade de tempos em que sequer paramos para pensar no óbvio de que uma obra de filantropia (que tem todo o direito de buscar parcerias tanto na iniciativa privada quanto no governo) é, sim, um problema público, mas é um problema dos santos.

“Santos” (“separado”, “destacado”) era como os primeiros cristãos referiam-se uns aos outros nos tempos em que a palavra “cristão” ainda não havia sido cunhada. Na Bíblia, os apóstolos escreviam “aos santos de Corinto”, “aos santos de Tessalônica”etc. É por isso que a Santa Casa chama-se Santa Casa: porque foi obra de santos, gente destacada para uma missão muito específica, que buscou no governo apoio, mas que não esperou do governo o seu sustento.

A importância do cuidado com os pobres na igreja cristã primitiva era pivotal. Há um episódio na Bíblia que me espanta em particular. Conta que, um belo dia, aparece em Jerusalém um ex-oficial romano, algoz de vários cristãos, dizendo-se convertido ao cristianismo. Pior: dizendo ter encontrado o próprio Jesus Cristo ressuscitado, conversado com ele e tendo por ele próprio sido enviado para falar de sua mensagem. Em outras palavras, se dizendo tão apóstolo quanto os apóstolos originais. Depois de quebrar o gelo e se entenderem, o ex-oficial romano, hoje conhecido como São Paulo, saiu com uma única recomendação do grupo original de cristãos: que não se esquecesse dos pobres (Gálatas 2.10).

Nos séculos seguintes, a ideia de curar os doentes e cuidar dos pobres foi seguida tão a risca que logo após a descriminalização do cristianismo, os monastérios começaram a abrir suas portas para andarilhos e doentes pobres. Lá pelo século quarto, os monges já cultivavam ervas medicinais que seriam usadas para tratar os viajantes em alas chamadas “infirmitorium”, que é a raiz da palavra “enfermaria”.

Embora não seja muito correto dizer que os hospitais sejam criação cristã (há registros bissextos de reunião de médicos na Ásia, na Índia  e no império romano), foi definitivamente na cristandade que eles começaram a se espalhar. Acredita-se que só a Ordem de São Bento (do lema “ora e trabalha” e seus votos de pobreza e amparo aos peregrinos) tenha inaugurado mais de 2 mil deles.

O primeiro hospital brasileiro, aliás, foi criação dos jesuítas, a Santa Casa de Misericórdia de Santos, em 1543. “Criado” é um eufemismo para dizer que os monges limpavam o chão, atendiam os colonos, faziam cirurgias e manipulavam os remédios – na falta de profissionais que quisessem se aventurar em um país selvagem daqueles.

Nos anos 1960, o surgimento da teologia da libertação rachou a igreja católica. De uma hora para outra, quem tinha agenda social virou “marxista”. Quem não tinha virou alienado – não que não o fosse antes. Há poucos meses, o papa Francisco matou a charada: “O socialismo roubou a bandeira dos pobres dos cristãos”. Pior do que isso, os santos contemporâneos se esqueceram dos pobres, e aprenderam a fazer filantropia desde que seja com o dinheiro do estado.

A tradição protestante, com sua teologia da missão integral, aparentemente conseguiu acomodar as questões sociais dentro da ortodoxia. Eu, que não sei de nada, gosto muito da ideia por trás da Rede Ibab Solidária, da Igreja Batista de Água Branca, zona oeste de São Paulo, por exemplo: angariar dinheiro e contingente humano em sua própria comunidade e enviá-los a mais de 30 ONGs de São Paulo. Quando lancei meu livro mais recente, o Cheguei bem a tempo de ver o palco desabar, o lucro das noites de lançamento foi doado para a Casa de Acolhedora de Vinhedo, também uma parceria entre uma igreja e uma prefeitura. Em vez de servir “para dentro”, os cristãos servem “para fora”, conforme desejou o teólogo alemão Dietrich Bonhoeffer. Mas é apenas um modelo possível. Sei que há outros mais institucionais, outros mais pessoais, frutos do mesmo espírito. Curiosamente, mesmo dentro deles a prática hospitalar tem tido cada vez menos espaço.

Hoje, discute-se muito sobre a isenção fiscal em relação a instituições religiosas. Semana passada, um vídeo do grupo Porta dos Fundos foi ao ar, no qual um sujeito camuflava uma padaria de igreja, a fim de não pagar impostos. É uma discussão boa, mas que não precisaria avançar para muito além do próprio entendimento do que é filantropia: amor ao ser humano, ao desfavorecido. O governo cuida das pessoas por intermédio de instituições que cuidam das pessoas, e as viabiliza por meio de certas isenções fiscais. A discussão razoável seria menos sobre o sentido da isenção e muito mais sobre quais instituições são, de fato, filantrópicas.

A dificuldade das Santas Casas é, em parte, a dificuldade de uma prática religiosa que, com o avançar dos séculos, se transformou em algo cada vez mais individualista, imediatista e distante de sua mensagem original. É falta de governo, é corrupção, é desvio de dinheiro, mas também é falta de mulheres e homens santos, dispostos a, literalmente, colocar as mãos nas chagas da sociedade.

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Concurso da Secretaria de Educação de SP pede comprovante de virgindade

Para 'Bebel', da Apeoesp, pedido de atestado é uma "violação" da dignidade da mulher
Para ‘Bebel’, da Apeoesp, pedido de atestado é uma “violação” da dignidade da mulher

Publicado no Último Segundo

Luísa*, de 27 anos, nunca imaginou ter de passar por esta situação. Ela precisou comprovar, por meio de um atestado médico, que “não houve ruptura himenal” [ou seja, que não teve seu hímen rompido] para preencher um dos requisitos do concurso público da Secretaria de Estado da Educação de São Paulo (SEE-SP). Ela é candidata a uma das quase 10 mil vagas para o cargo de Agente de Organização Escolar da seleção pública da SEE-SP.

“Achei um absurdo. Fiquei mais de uma semana decidindo se deveria fazer isso ou não. Na hora em que fui a um consultório para me submeter à análise ginecológica, entrei em pânico. Foi constrangedor explicar para a médica que precisava de um atestado de virgindade para poder assumir uma vaga em um concurso”, diz.

A seleção pública à qual Luísa se refere foi aberta em 2012. Depois de passar pelas provas regulares, ela ficou aguardando sua convocação, o que se deu apenas neste ano. Chamada para a realização dos exames médicos de admissão, Luísa foi surpreendida com um comunicado recente da organização do concurso, onde constavam mais detalhes sobre os exames médicos de admissão solicitados pelo certame.

Publicado em junho, o comunicado, emitido pela Coordenadoria de Gestão de Recursos Humanos da SEE e pelo Departamento de Perícias Médicas do Estado (DPME), traz detalhes sobre testes ginecológicos requeridos às candidatas mulheres.

No documento, há mais informações sobre os exames de colposcopia e o de colpocitologia oncótica, o Papanicolau, exigidos às candidatas. O comunicado informa que mulheres que “não possuem vida sexual ativa, deverão apresentar declaração de seu médico ginecologista assistente”. Dessa forma, com a comprovação de virgindade, estariam isentas da realização dos exames ginecológicos intrusivos, de acordo com confirmação do próprio DPME.

“Só fiquei sabendo disso quando fui convocada para realizar os exames médicos. Antes, não era pedido esse atestado [de virgindade]. O pior de tudo é que todos esses exames são caros e são bancados pelo próprio candidato. Teve gente que pagou mais de R$ 500 pelos exames”, fala Luísa.

Segundo a ginecologista Marcia Terra Cardial, da Associação de Obstetrícia e Ginecologia do Estado de São Paulo, os exames ginecológicos solicitados pela SEE servem, por exemplo, para “rastrear mulheres com lesões precursoras do câncer de colo de útero, separando as mulheres normais, daquelas com necessidade de prosseguir a investigação”. No entanto, segundo ela, “dependendo do tratamento, os casos de lesão precursoras de câncer não inviabilizam o trabalho”

Violação

Solicitados para atestar a saúde dos futuros funcionários públicos, tanto o atestado de virgindade quanto os exames ginecológicos para candidatas com mais de 25 anos ou vida sexual ativa são vistos como uma “violação” da dignidade da mulher, segundo Maria Izabel Noronha, presidente do Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp).

“Atestado de virgindade? Por favor! Estamos em pleno século XXI. Querem evitar candidatas doentes? A verdade é que elas entram com saúde e é a falta de condições da rede que as deixam doentes”, diz Maria Izabel, que também é vice-presidente da Câmara de Educação Básica do Conselho Nacional de Educação (CNE), órgão consultivo do Ministério da Educação (MEC).

A crítica de Maria Izabel se refere a uma das razões defendidas pelo DPME, quando da exigência de tais exames. Segundo o comunicado, a avaliação médica oficial tem por objetivo identificar patologias que possam vir a provocar “permanência precária no trabalho, com licenciamentos frequentes e aposentadorias precoces”.

Atualmente, a SEE enfrenta o desafio de atenuar as faltas com afastamentos e licenças, por motivos de saúde de professores e técnicos da educação. Só os professores, chegam a faltar, em média, 27 dias por ano.

“Esses exames que pedem não têm nada a ver com a função. Aferir a pressão, apresentar um exame cardiológico pode até ter a ver, mas exames ginecológicos ou atestado de virgindade?”, questiona Luísa.

Como Agente de Organização Escolar, o trabalho de Luísa será dar suporte às atividades pedagógicas e ajudar na supervisão de estudantes na entrada, saída e durante o intervalo escolar. O salário é de cerca de R$ 900 para uma jornada de oito horas diárias.

Deboche

Se já foi complicado para Luísa tomar a decisão de ir adiante com o atestado de virgindade, a apresentação do documento para a perícia foi ainda mais constrangedor.

“Quando apresentei ao médico perito do Estado, acho que ele pensou que fosse mentira. A sua assistente olhava de lado como um ar de deboche quando eu disse que ainda era virgem. Não conseguiria passar por isso mais uma vez”, fala Luísa.

Mesmo tendo apresentado o atestado de virgindade, a candidata ainda aguarda resposta definitiva do DPME sobre sua aprovação. A expectativa e que até o dia 14 deste mês o órgão se posicione sobre o seu caso.

“Eu apresentei tudo que deveria apresentar, mas me consideraram inapta. Disseram que não havia apresentado o atestado de virgindade. Entrei com um pedido de reconsideração para que eles analisem a minha situação”, diz.

Governo de São Paulo

Questionada sobre a exigência de tais exames para o cargo em questão e se eventuais candidatas com problemas ginecológicos estariam inaptas ao cargo, a Secretaria de Estado da Educação de São Paulo (SEE-SP) informou que as determinações atinentes aos exames médicos são de responsabilidade do Departamento de Perícia Médica do Estado (DPME).

O DPME, ligado à Secretaria de Gestão Pública, disse que é “absolutamente errado afirmar que é exigido à candidata a cargo público qualquer laudo, ou suposto ´comprovante de virgindade´ – termo sequer considerado na literatura médica”.

Em nota, o órgão afirmou que “àquelas que ainda não tenham iniciado atividade sexual, é oferecida como alternativa a apresentação de um relatório de seu médico pessoal; e com isso não há a necessidade da realização dos exames”.

O órgão também afirma que os testes solicitados aos candidatos funcionam como medida preventiva. Por fim, segundo o DPME, “todos os candidatos aprovados em concurso, sejam homens ou mulheres, devem passar por uma série de exames, todos previstos em edital, para que comprovem, além de sua capacidade técnica, a capacidade física e mental para exercer o cargo por aproximadamente 25 anos – tempo médio de permanência no Estado”.

No entanto, segundo o próprio comunicado emitido pelo órgão, o teste para detecção de câncer de próstata é exigido apenas para homens com mais de 40 anos. Para as mulheres mais velhas, a partir de 40 anos, também é solicitado um exame específico: a mamografia, para identificação de câncer de mama. Para os homens jovens, na mesma faixa etária de Luísa, por exemplo, não são solicitados exames específicos extras.

Secretaria das Mulheres

Consultada, a Secretaria de Políticas para as Mulheres (SPM) da Presidência da República afirma que é “contra qualquer exigência que envolva a privacidade da mulher e reverta em preconceito e discriminação. A mulher tem o direito de escolher se quer fazer um exame que em nada interferirá em sua vida profissional”.

A SPM ainda considera que “a exigência de exames ginecológicos em seleções e concursos é abusiva, pois viola o princípio da dignidade da pessoa humana, consagrado na Constituição Federal de 1988, bem como o artigo que dispõe sobre o Princípio da Igualdade e o Direito a Intimidade, Vida Privada, Honra e Imagem, que proíbe a exigência de atestados de gravidez e esterilização e outras práticas discriminatórias para efeitos admissionais ou de permanência da relação jurídica de trabalho”.

No ano passado, caso parecido ocorreu na Bahia. No concurso para Polícia Civil, também era exigido às candidatas mulheres comprovação de “hímen íntegro”. Contudo, depois da repercussão do caso em todo o País, o governador Jaques Wagner suspendeu tal exigência presente de forma explícita no edital. Há concursos públicos, no entanto, que seguem com tais requisitos de seleção, tidos como padronizados pelas empresas que realizam as seleções públicas.

*Para preservar a identidade da candidata foi utilizado um nome fictício

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Silvio Santos cede espaço de programa para matéria sobre Templo de Salomão

Publicado no UOL

Pela segunda semana consecutiva, o apresentador Silvio Santos cedeu parte do espaço do seu programa para exibir reportagem sobre a inauguração do Templo de Salomão. A sede mundial da Igreja Universal do Reino de Deus, localizada no bairro do Brás, em São Paulo, foi inaugurada na última quinta-feira com a presença da presidente Dilma Rousseff (PT) e do governador Geraldo Alckmin (PSDB).

A matéria, com cerca de quatro minutos e exibida na noite deste domingo (3), foi feita por Simone Queiroz, do departamento de Jornalismo do SBT. Na reportagem, a emissora ressalta a mensagem de tolerância religiosa e entrevista estrangeiros, que destacam a exuberância do Templo. Na semana anterior, o próprio Silvio Santos já havia classificado o projeto como “extraordinário” e que “vai se tornar o ponto turístico número 1 de São Paulo”.

A informação de que o SBT gravaria este material foi dada com exclusividade por Flávio Ricco, colunista do UOL. Na ocasião, Ricco afirmou que a ideia da reportagem foi recebida com simpatia pelos bispos da Igreja Universal do Reino de Deus. “Fala-se até que será uma retribuição a uma homenagem que foi feita a ele, em 2010, no “Domingo Espetacular”, em reportagem feita pelo Marcelo Rezende”, antecedeu.

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Leitura obrigatória da Bíblia em escolas é vetada no interior de SP

Lucas Sampaio, na Folha de S.Paulo

O projeto de lei que tornaria obrigatória a leitura da Bíblia em escolas municipais de Nova Odessa, cidade de 55 mil habitantes a 122 km de São Paulo, foi vetado nesta segunda-feira (21) pelo prefeito.

Aprovado pela Câmara Municipal de Nova Odessa há duas semanas, o projeto do vereador Vladimir Antônio da Fonseca (SDD) imporia aos alunos do 1º ao 5º ano a leitura de um versículo bíblico por dia.

Se fosse sancionado, o projeto poderia atingir 4.000 alunos de 12 escolas municipais. Polêmico, ele dividia os moradores da cidade e era considerado inconstitucional por juristas ouvidos pela Folha.

Agora, o veto da prefeitura será apreciado pela Câmara, que está em recesso e retomará suas atividades em 4 de agosto. A análise do veto entrará na ordem do dia da Casa, onde a leitura de um versículo da Bíblia é tradição e ocorre sempre no início das sessões.

Segundo o prefeito Benjamin Bill Vieira de Souza (PSDB), o projeto foi vetado após pareceres contrários da Diretoria de Assuntos Jurídicos e da Secretaria de Educação, que respectivamente apontaram a inconstitucionalidade da proposta e a contrariedade às diretrizes educacionais vigentes, que impedem a prática religiosa no ensino público do município.

“Não dá pra aprovar uma lei que não é legal”, diz o prefeito tucano, que, apesar do veto, é simpático ao projeto. “O projeto, no mérito, não é ruim. Se não fosse inconstitucional, eu seria favorável ao projeto.”

NOVA TENTATIVA

Autor da proposta, o vereador Vladimir diz que aceita o veto do prefeito, mas vai propor um novo projeto, nos mesmos moldes do atual, mas com duas alterações.

“Vou continuar com o projeto. Vou apresentar duas emendas, sendo uma a leitura facultativa, não mais obrigatória, e a outra para se poder ler também provérbios e salmos”, diz o político do Solidariedade.

“Com isso, serão 3.000 versículos. Se ler um por dia, vai dar para passar dez anos lendo um versículo por dia na escola, sem repetir”, afirma Vladimir. “Vou correr atrás dos meus sonhos.”

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Deus e o “diabo” no mesmo espaço

O bispo Denis Almeida "ungiu" o lugar e orou por sete dias
O bispo Denis Almeida “ungiu” o lugar e orou por sete dias

Publicado na Carta Capital

A rua ilha da juventude já abrigou um “inferninho” daqueles. Aos domingos, o salão reunia até 1,5 mil funkeiros para o pancadão mais famoso do Jardim Paulistano, na zona norte de São Paulo. Os carros e motos turbinados, os rapazes com cueca à mostra e correntes no pescoço, as moças no rebolado até o chão, a truculência policial para dispersar a multidão… Nada disso existe mais. Hoje, quem passa pela Ilha da Juventude ouve outro som: os gritos dos fiéis e os cânticos da Igreja Evangélica Obra Vida com Deus – Conhecereis a Verdade e Ela Vos Libertará. O funk ostentação cedeu lugar à teologia da prosperidade.

Antes de abrir as portas do templo, o bispo Denis Almeida “ungiu” o lugar e orou durante sete dias. Elson Pereira de Souza, promotor dos antigos bailes funk e dono do galpão agora alugado ao pastor, brinca: “Vai demorar um ano para exorcizar. Era um ambiente tenso”.

Almeida, que antes de pregar no Jardim Paulistano atuava no Jaraguá, na zona oeste, define-se como um “soldado de Cristo”. Sério, embora entusiasmado, gesticula intensamente, enquanto conta a própria história. Perdeu os pais cedo. À época morava em Campo Grande (MS) e sofria de depressão. Oprimido, carente, sonhava em ser jogador de futebol. Aos 19 anos, garante, foi curado da doença por Jesus e descobriu a vida dedicada à fé. Mudou-se para São Paulo e atuou em outras congregações até chegar ao seu destino atual e empenhar-se em uma cruzada contra o funk. “Ele destrói as famílias, é o eixo do mal, o próprio diabo. A jovem de 10, 12 anos sai escondida da mãe. Isso veio causar a divisão familiar. O mal veio para promover esses tipos de eventos. As letras vulgares, uma baixaria.

O bispo afirma ter “salvado” vários jovens do funk, entre eles uma ex-interna da Fundação Casa frequentadora de seus cultos. “Quero falar para os jovens que Jesus liberta, dá uma vida de paz. Quantas mães não perderam seus filhos? A igreja trouxe paz para a comunidade.” Segundo ele, um dia o funk chegará ao fim, pela graça divina. E cita seu próprio exemplo. “Os moradores esperavam tudo aqui neste lugar, menos uma igreja.”

Deus o colocou nessa missão, prossegue, para trazer paz à comunidade. “Eu acredito que São Paulo vai mudar muito sem o funk, os pais veem os filhos com problemas de drogas porque estão no funk, que também atrai a sensualidade.” Se as meninas não estiverem “sensuais”, afirma, não são bem-vistas. “Elas precisam ser vulgares e isso tem atraído muita destruição.”

Os moradores jovens da região têm opiniões diferentes sobre o fim do baile. Bruno Gabriel Adamczuk, de 16 anos, é indiferente à igreja, mas deixou de frequentar bailes e não procurou outra opção. “É melhor ficar em casa. Muita violência, polícia jogando bomba.” Segundo Milena de Souza Raimundo, 20 anos, o funk era bom, mas rolava muita coisa ruim. “A igreja é boa também.”

O fiscal de lotação Pedro Henrique dos Santos, de 29 anos, diz sentir raiva da transformação, pois gosta da “bagunça”. “Não gosto de lugar queto (sic), gosto de ver tumulto e fechar a rua e já era, tio.” Mayra Tainá de Souza, 21 anos, concorda: “O funk vai deixar saudades. Agora é uma igreja, fazer o quê?” Ela passou a frequentar um baile no Jaraguá. O motoboy Jonas Moisés da Silva, 25 anos, descreve a mudança na “balada” provocada pela igreja. A alternativa é o pistão, um espaço ao longo da rua no qual diversos carros mantêm o som ligado até o último volume. “Num lugar onde era um funk virar igreja não acho certo, muita coisa ruim aconteceu ali.”

O pastor não se abala: “Me sinto um predestinado por estar aqui”. Ele acredita que a igreja vai fazer bem. “Não cumpri nem um terço da minha missão. Vou fazer um trabalho benfeito nesse bairro. Oro pelo dono para ele vender o salão. Que ele seja tocado por Deus.” Como foi a escolha do lugar? “O Espírito Santo me tocou quando passei em frente.” Ele insiste: “Por todas as igrejas onde congreguei, esta é a mais marcante. Louvar onde era um funk. Oh, glória meu Deus! É um privilégio. Todos querem saber quem é o pastor que congrega onde era o baile funk”.

Souza, o antigo promotor do baile, reflete: “É interessante. De repente, você vê um pessoal de alma tão boa para limpar o ambiente. O baile funk é pesado. No dia que a vizinhança queria descansar, eu abria as portas. Mas não me arrependo. Financeiramente foi muito bom e gerei emprego para muita gente”. Souza não pode reclamar. No seu caso, Deus ou o “diabo” tanto faz. O milagre da multiplicação de dinheiro está garantido.

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