Pai larga emprego em multinacional para investir em filho funkeiro de 17

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MC Novinho, 17 anos, e o Marcelo, de 43, administrador que se demitiu para investir na carreira do filho funkeiro: ‘Funk é um mercado forte, não é só moda’, aposta o pai (Foto: Divulgação)

Publicado no G1

Aos 43 anos, o administrador Marcelo dos Santos Carvalho rodava o mundo a serviço da multinacional alemã Arburg, fabricante de máquinas industriais. Pós-graduado em logística empresarial, ele não achava uma logística equilibrada entre trabalhar e dar atenção ao filho caçula, de 17 anos. O garoto Marcelo, ou MC Novinho, sentia falta do pai e queria ajuda para virar funkeiro famoso. O pai armou reviravolta nos negócios e na vida pessoal: há três meses se demitiu e virou empresário do filho. Eles são de Jardim Imperador, zona leste de SP.

MC Novinho faz parte do especial do G1 “Pop de menor”, sobre músicos brasileiros rumo ao estrelato sem idade nem para dirigir. Com pequenas idades e grandes fã-clubes, eles têm cifras que superam veteranos nas redes sociais. Os famosinhos contam como é se dividir entre aulas de matemática e milhões de cliques somados no YouTube.

Até R$ 400 mil investidos

A dedicação à carreira do rebento é séria. “Até agora, na primeira fase, investimos entre R$ 300 e 400 mil”, estima. No início de outubro, saiu o clipe de “Princesinha de aba reta”, e menos de um mês depois veio o seguinte, “Rainha da ostentação”. Novinho já começa a dar retorno com até quatro shows semanais, diz o pai. Uma ajuda vem de MC Gui, ícone do novo mercado “funk-teen”, amigo e parceiro na faixa “Ela quer”.

Novinho é obstinado: “Já pedi ajuda a muita gente que virou as costas. O único que auxiliou foi meu pai. Antes, eu ficava triste, às vezes me isolava, ficava bravo”. O pai teve que ser convencido. “Ele queria cantar e reclamava por atenção, pois eu trabalhava muito. Mas não entendia nada de funk. Era estranho. Ele fez um perfil no Facebook para mim. Eu colocava ‘bom dia’, ninguém respondia. Ele falava ‘oi’, em dois minutos mais de cem respostas. Achei que tinha algo diferente ali”, conta Marcelo.

O pai foi estudar batidão e ostentação. “Funk é um mercado forte, não é só moda. A gente vê pelos clipes de rap americano, que está aí há muito tempo e corresponde ao nosso funk. Aquela coisa de ‘wiggle wiggle”, Marcelo compara. Ele cita o hit de Jason Derulo com a naturalidade com que antes falava sobre máquinas injetoras alemãs. O filho o arrastou para bailes funk para mostrar que não tinha nada “proibidão”: “Meu pai viu como funcionava, que não era o mundo do crime, como alguns pensam. E aí ele me disse: ‘Para realizar seu sonho, posso parar tudo’.”

‘Novinháticas’

Aos poucos, MC Novinho capta sua base de fãs, chamadas “Novinháticas”. São 30 mil seguidores no Facebook e 300 mil visualizações no YouTube. “Tentam me abraçar, beijar, tirar foto, mas nem todas conseguem. Desmaiam, fazem loucura”, garante o cantor. O pai confessa que “antes, tinha que chamar pra ver quem queria tirar foto depois do show; mas agora tem que organizar a fila e nem sempre tem tempo para todas”. Novinho nem pensa em namorar. “As fãs iam ficar loucas. Eu poderia perdê-las”, justifica.

Marcelo acumula funções de empresário e produtor de shows, mas não descuida das tarefas paternas. “Graças a Deus ele tem uma cabeça muito boa. No camarim a gente nunca pede bebida alcóolica para ninguém. Até gosto de uma cervejinha, mas quando trabalho com ele é só energético, água e guaraná. E confio muito nele.”

O administrador diz que trabalha de manhã até a madrugada com a carreira do funkeiro, mas está mais feliz do que na época da Arburg. “Estava cansado de viajar, agora tenho contato com a família, estou com meu filho por perto”. As duas irmãs e a ex-mulher e mãe de Novinho também ajudam nos shows.

‘Zoado’ na escola

Entre um funk ostentação e outro, MC Novinho está cursando o terceiro ano do Ensino Médio. “Com a sequência de shows nos últimos tempos, tive que parar um pouco na escola. Talvez consiga terminar, ou então faço de novo no ano que vem”. Antes, ele queria estudar engenharia mecânica. Agora, se tiver tempo para fazer faculdade, será de música. Universidade não está nos planos imediatos. “Decidimos apostar agora que é o momento certo. Depois a gente volta onde estava”, diz o pai. “No colégio, alguns ‘zoavam’, falavam que eu não ia conseguir, que eu não era MC. Outros falavam para continuar. Agora até o tratamento deles comigo já é diferente”, compara.

Quando perguntado qual é seu maior sonho como músico, Novinho não cita questões musicais, e vai direto à fama. “Sonho em ser famoso. Ser bem conhecido. Passar em algum lugar e ter gente querendo tirar foto. Já tenho isso um pouco, mas quero mais, sempre subir”, diz. O pai vai atrás. “É o que ele quer. Posso dar ao meu filho oportunidade que não tive. Eu fui atrás do que precisava e meus pais nem sabiam o que eu fazia. Agora tento ajudar.”

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MC Novinho busca sucesso no funk paulista com ajuda do pai e do amigo MC Gui (Foto: Divulgação)

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‘Fora Dilma’ é a banalização da retórica golpista

Manifestantes contrários à reeleição da presidente Dilma Rousseff (PT) realizam um protesto na região central de São Paulo. O grupo pede o impeachment de Dilma e o fim do PT (Partido dos Trabalhadores) (foto: Dario Oliveira/Código 19/Estadão Conteúdo)
Manifestantes contrários à reeleição da presidente Dilma Rousseff (PT) realizam um protesto na região central de São Paulo. O grupo pede o impeachment de Dilma e o fim do PT (Partido dos Trabalhadores) (foto: Dario Oliveira/Código 19/Estadão Conteúdo)

Josias de Souza, no UOL

Seis dias depois da abertura das urnas do segundo turno, pipocaram manifestações em pelo menos três capitais. A maior delas, em São Paulo, reuniu cerca de 2.500 pessoas. Pediram o impeachment de Dilma Rousseff. Alguns chegaram a defender a volta dos militares. PT e PSDB ainda não se deram conta. Mas patrocinaram em 2014 um processo de deseducação política que fez alguns brasileiros recuarem à fase pré-1964.

Se a última campanha presidencial evidenciou alguma coisa foi que PT e PSDB consideram-se um ao outro desprovidos de senso moral. Discutiram mais a textura da lama de cada um do que planos para o país. A brigalhada entre os partidos ateou fogo às redes sociais. Atiçados por robôs e militantes remunerados, grupelhos anônimos destilaram na web uma histeria que saltou da tela do computador para se converter na principal marca da campanha.

A ameaça de perder o poder e suas benesses fez com que o PT levasse às fronteiras do paroxismo a tática do ‘nós contra eles’. Rendido à marquetagem de João Santana, o partido fez da política um mero ramo da publicidade. O verbo da eleição foi desconstruir. Conjugando-o, Dilma prevaleceu sem se preocupar com a autoconstrução. Derrotado por um placar apertado, o PSDB levou ao tapetão do TSE um pedido de auditoria das urnas sem pé nem cabeça.

Eleita, Dilma vive a antecipação de 2015. Começa a colocar em prática a agenda econômica de Armínio Fraga, o ex-futuro-ministro da Fazenda de Aécio Neves. Para tentar deter uma inflação que a candidata dizia estar sob controle, o Banco Central elevou os juros. Para tapar o rombo nas contas públicas que o marketing disfarçava, a Fazenda prepara um ajuste fiscal de gelar os ossos.

Eliminou-se o último exemplo que pais e mães poderiam dar aos filhos. Que dizer na hora das refeições de agora em diante? Não minta, meu filho. Olha que você acaba morando no Palácio da Alvorada! E pensar que ainda nem vieram à luz os depoimentos dos delatores premiados da Petrobras.

Quanto ao PSDB, sempre foi um oposicionista capaz de tudo, menos de se opor. De repente, questiona na Justiça Eleitoral o resultado da eleição sem apresentar uma mísera prova de fraude. De uma legenda de oposição, espera-se que embarace o governo na base da fiscalização e cobrança, não na mão grande.

O que o PSDB insinuou com sua petição ao TSE foi o mero desejo de puxar o tapete da presidente. Mal comparando o tucanato faz agora o que o petismo fazia, por meio da CUT, em 2001. Naquele ano, a máquina sindical do PT desfilava a faixa ‘Fora FHC’ em manifestações pelo país.

O ‘Fora Dilma’ é a banalização dessa mesma retórica golpista. Pode interessar a muita gente, menos aos dois partidos que se servem da normalidade institucional para monopolizar as disputas presidenciais há duas décadas. Por sorte, a democracia brasileira é mais sólida do que o miolo mole de petistas e tucanos. Em tempos de Comissão da Verdade, o atalho dos quartéis caiu em desuso.

Ainda assim, o flerte com a ruptura institucional é um abuso desnecessário. Melhor aposentar essa retórica de fim do mundo que ganha as ruas. A moderna política brasileira já viveu um Apocalipse. Deu-se na época de Fernando Collor. Ficou demonstrado que a saída passa pelas vias institucionais, não pelo golpe. O asfalto é sagrado. Merece mais respeito.

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Conversa no WhatsApp é usada como prova de paternidade em SP

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Publicado no Tecmundo

Mensagens trocadas pelo WhatsApp serviram como prova de indício de paternidade em um processo em andamento na 5ª Vara da Família de São Paulo. Em sentença, o juiz André Salomon Tudisco exigiu o pagamento de R$ 1 mil mensais para a cobertura de despesas durante a gestação.

O relacionamento do casal, que se conheceu pelo Tinder, durou pouco, mas foi o suficiente para que ela engravidasse. Na petição, o advogado da gestante, Ricardo Amin Abrahão Nacle, utilizou cópias das mensagens trocadas pelo casal no WhatsApp, indicando que elas não deixavam dúvidas de que o casal teve relações sexuais sem preservativos durante o período fértil da mulher.

Confira abaixo a transcrição de dois trechos das conversas entre o casal, que serviram de prova de indício de paternidade na justiça.

Mulher: to pensando aqui..
Homem: O que
Homem: ?
Mulher: vc sem camisinha ..
Mulher: e eu sem pilula
Homem: Vai na farmácia e toma uma pílula do dia seguinte
Mulher: eu ja deveria ter tomado
Mulher: no domingo..”
Outra conversa transcrita na petição é de um mês depois:

Mulher: Amanha tenho o primeiro pre natal, minha amiga nao vai poder ir comigo.
Mulher: Sera que voce pode ir comigo ?
Mulher: A medica e as cinco e meia.
Homem: Olá….já estou dormindo….bjo
Mulher: Oi Fulano [nome omitido] tudo bem? Fui a medica, preciso ficar 10 dias em repouso absoluto. Minha irma e meu cunhado querem te conhecer. Vc. Pode vir este final de semana, podemos marcar um almoco ou um jantar ? Beijos
Homem: Bom dia! Fds vou trabalhar! Bjo”

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Integrantes de CPI de alvarás de SP são acusados de extorsão

Eles são acusados de extorquir dinheiro de comerciantes.
Uma dessas conversas aconteceu dentro da Câmara e foi gravada.

Eduardo Tuma, presidente da CPI dos Alvarás.
Eduardo Tuma, presidente da CPI dos Alvarás.

Publicado no G1

Integrantes da CPI criada para fiscalizar a emissão de alvarás para comerciantes são exatamente os acusados de extorquir dinheiro desses comerciantes. Uma dessas conversas aconteceu dentro da câmara e foi gravada. O Ministério Público vai investigar.

Dois homens entram em um bar e se apresentam como fiscais de uma CPI. Dizem que o comércio tem irregularidades. Depois, marcam um encontro com o dono e falam: ‘é só dar dinheiro, que tudo se resolve’. Como você se sentiria se passasse por isso?

Um comerciante, que enfrentou essa situação, responde: “Eu me sinto mal. Me sinto constrangido. Sensação de impotência. Essa é a verdade”.

Ele é dono de um bar na capital paulista, recebe em média 100 clientes por dia. Depois que foi assediado, o comerciante procurou o Fantástico e pediu ajuda. Disse que estava sendo vítima de uma tentativa de uma tentativa de extorsão por dois funcionários públicos. Com uma câmera escondida, passamos a acompanhar as conversas. Gravamos inclusive o encontro com o representante de uma empresa que, em troca de dinheiro, prometia regularizar a situação do comércio.

Representante: Eu vou dar baixa no seu processo para arquivo. E aí, morreu o assunto. Eu vou dar um parecer e eu vou falar direto com o vereador. Eu não vou nem falar com eles. É direto com o vereador que eu vou falar.

O comerciante diz que a corrupção começou quando os dois funcionários públicos foram ao bar dele. Era 15 de agosto passado.

“Os caras vieram aqui, comeram, pagaram. Depois se identificaram como integrantes da CPI dos alvarás. Olharam supostas irregularidades e pediram uma série de documentação”, conta o comerciante.

“CPI dos Alvarás” é a comissão da Câmara Municipal de São Paulo criada para investigar irregularidades nas emissões dos alvarás de funcionamento de bares, casas noturnas e restaurantes da cidade.

A CPI começou em fevereiro deste ano, com a promessa de evitar tragédias como o incêndio na Boate Kiss, em Santa Maria, no Rio Grande do Sul. Lá, 242 pessoas morreram, em janeiro de 2013.

Os dois funcionários públicos que procuraram o dono do bar, em São Paulo, são Roberto Torres e Antônio Pedace. Roberto é engenheiro civil, funcionário da Prefeitura de São Paulo. Trabalha na Secretaria Municipal de Licenciamento.

“O cargo que ele ocupava na prefeitura, nós consideramos, sim, sensível. É um cargo que trabalha na concessão de licenças, na liberação de licenças”, explica o controlador-geral da Prefeitura de São Paulo, Mário Vinicius Spinelli.

Em maio passado, a prefeitura autorizou roberto a trabalhar na CPI dos Alvarás da Câmara Municipal. Já Antônio Albertino Pedace é assistente parlamentar do vereador Eduardo Tuma, o presidente da CPI.

Depois de vistoriar o bar, no dia 15 de agosto, Roberto e Antônio deixaram um relatório com o comerciante. Quem assinou foi Roberto, que é engenheiro e assessor técnico da CPI. Disse ter encontrado oito irregularidades e pediu que oito documentos fossem apresentados. O prazo foi de cinco dias.

O comerciante reconhece que o bar não tem certificado de acessibilidade nem brigada de incêndio; e que espera a renovação do alvará dos Bombeiros. “Se eu estou errado, eu tenho que corrigir. Eu tenho que ter direito a fazer a correção do erro e ponto final”, diz o comerciante.

Mas não era bem isso que os integrantes da CPI pareciam querer como mostram as conversas a seguir:

Primeiro, Roberto Torres marcou, por telefone, uma reunião na Câmara dos Vereadores.

Roberto Torres: Você me dá uma ligadinha que eu vou estar na casa.
Comerciante: É na Câmara mesmo?
Roberto Torres: Na Câmara mesmo.

A reunião acontece 24 dias depois da suposta vistoria no bar, no dia 8 de setembro.

Os fiscais se encontraram com o dono do bar em uma sala, que fica no subsolo da Câmara Municipal. Uma sala que fica trancada. Tem que ter chave para entrar no local. Foi uma conversa particular, a portas fechadas. Em nenhum momento, ele prestou esclarecimentos públicos como deve acontecer em uma CPI desse tipo.

O comerciante mostra a documentação do bar, mas os dois integrantes da CPI não dão muita bola, não. O assessor Antônio Pedace vai direto ao assunto. Fala que o comerciante precisa de um laudo.

Antônio Pedace: “Vai fazer um laudo para nós que está tudo ok na casa de vocês, entendeu? Que está ok”.

E os dois indicam uma arquiteta chamada Margarete.

Comerciante: Como é que ela trabalha? Ela vai lá?
Pedace: Não, ela vai vir aqui.
Comerciante: Nós não vamos ter problema depois?
Torres: Não. Com relação à CPI, não. Como eu sou membro técnico, eu assino, mando para a secretaria e acabou.
Pedace: Tem o carimbinho e tudo. A gente dá baixa e põe no arquivo.
Comerciante: E o valor que ela vai?
Pedace: É R$ 15 mil que ela cobra. Porque ela já fez para outras casas aqui também para resolver.

O comerciante fala que está preocupado em perder movimento se tiver o bar citado na CPI e tiver que prestar depoimento.

Comerciante: Pode até ser chamado em plenário? Eu fiquei preocupado.
Pedace: Na semana passada, veio um monte de empresário chamado em plenário.
Comerciante: Está vendo.

O dono vai dando corda, para ver a reação dos dois. E ele termina a conversa fazendo uma proposta para encerrar o caso.

Comerciante: A gente não quer nenhum problema com a CPI. Agora, sei lá. Se der para fazer R$ 10 mil. Não sei.
Pedace: Eu vou falar com ela.

Comerciante: Quando você faz uma fiscalização, quando ela vem, ela vem, fotografa e a irregularidade põe no processo. Não tem nem processo. Não mostraram nem processo que foi aberto.
Fantástico: O que caracteriza isso para o senhor?
Comerciante: É pagamento de propina. Estou pagando dinheiro para que o processo seja arquivado.

O Fantástico mostrou as imagens do encontro na Câmara para dois promotores de Justiça que fazem parte do Grupo Especial de Combate a Crimes Financeiros.

“São evidências de que nós estamos diante de um esquema de corrupção”, diz o promotor Arthur Lemos Junior.

“Tudo indica que eles acabaram visitando outros comerciantes, usando a mesma estratégia ilícita”, completa Arthur Lemos Júnior.

O Fantástico falou com o vereador presidente da CPI dos Alvarás, Eduardo Tuma. Ele garantiu que não sabia de nada.

“A CPI não tem qualquer força para arquivar ou não arquivar caso. Ou para conceder ou não conceder alvarás. Nós fizemos diligências públicas. Quer dizer, contávamos com acompanhamento da Guarda Civil Metropolitana, com a TV Câmara. Conversar com comerciante dentro da Câmara não é procedimento da CPI. Não é mesmo”, diz Eduardo Tuma.

A história do dono do bar não parou por aí. Um dia depois do encontro na Câmara Municipal de São Paulo, o assistente parlamentar Antonio Pedace deu um aviso ao comerciante. A arquiteta Margarete, que nem chegou a ser apresentada ao dono do bar, não quis fazer o laudo por menos de R$15 mil.

Pedace: Não teve jeito de abaixar. Então, eu estou te mandando uma outra pessoa falar com você que se chama Marcos Peçanha.

Marcos Peçanha se apresenta como engenheiro: Fazemos tudo. Todo tipo de regularização. Eu vou dar baixa no seu processo para arquivo e morreu o assunto. Eu cobro R$ 13 mil, em duas vezes.

Comerciante: Mas o senhor faz parte da CPI?
Marcos Peçanha: Não.
Comerciante: Mas eu não vou ter problema não?
Marcos Peçanha: Não. Eu encerro a fiscalização lá.
Comerciante: Você está fazendo para mais gente também?
Marcos Peçanha: Eu fiz para várias pessoas.
Comerciante: Aqui nessa CPI dos Alvarás?

Como Peçanha conseguiria arquivar o processo tão facilmente?

Marcos Peçanha: Eu vou dar um parecer e eu vou falar direto com o vereador.
Comerciante: Com o engenheiro?
Marcos Peçanha: Eu não vou nem falar com eles. É direto com o vereador que eu vou falar.
Comerciante: Quem que é?
Marcos Peçanha: O presidente da CPI. Eu vou ser sincero. Eu vou matar o negócio no ninho.

Peçanha diz que vai dar um presente para Eduardo Tuma, o presidente da CPI dos Alvarás: “Um presente para o vereador e acabou. Uma garrafa de uísque, qualquer coisa”, diz Marcos Peçanha.

No fim da conversa, Peçanha dá a entender que o presente pode ser dinheiro também.

Marcos Peçanha: Não pense que eu vou pegar R$ 13 mil para mim que não funciona.
Comerciante: Já falaram que tem pessoas que precisam receber.
Marcos Peçanha: Deixa eu conversar com ele. Alguma coisa lá tem que dar para o vereador.
Comerciante: Está bom.
Marcos Peçanha: Um presente. Vamos ver.

“Isso que ele está dizendo é crime. Isso é crime. Eu quero que o Ministério Público atue nesse sentido. O que é isso? Imagina. Não conheço. Nunca recebi nada, qualquer forma de presente ou de vantagem licita ou ilícita desse senhor.  Eu não posso ser responsável por uma pessoa que se utiliza do meu nome. Quero que ele testemunhe isso. Faço questão de fazer uma acareação com esse senhor”, diz Eduardo Tuma.

No começo deste mês, a CPI dos Alvarás terminou, com a apresentação de 15 propostas, principalmente para diminuir a burocracia na concessão dos documentos.

O dono do bar nem chegou a ser nem citado no relatório. Acreditava que assim teria sossego. Mas nem com o fim da CPI, isso não aconteceu. Marcos Peçanha não desistiu.

Comerciante: Peçanha?
Marcos Peçanha: Isso.
Comerciante: Meu sócio ligou e falou que a CPI foi encerrada.
Marcos Peçanha: Ela está encerrada mas, como diz, ela foi encerrada. Mas quando eles foram aí, não estava encerrada, entendeu?

Peçanha faz uma sugestão: diz ao comerciante para ele oferecer menos dinheiro a Roberto Torres e Antônio Pedace, os dois homens que se apresentaram como fiscais da CPI.

Marcos Peçanha: “Se conselho fosse bom, a gente não dava, vendia. Faz uma contraproposta e acabou. Dentro das suas condições e já era”.

O Fantástico foi até o escritório de Marcos Peçanha, engenheiro que sugeria dar baixa nos processos.

A informação que o Fantástico recebeu é que Peçanha não estava. No dia seguinte, fomos lá outra vez e nada de novo. Também ligamos várias vezes, deixamos recados mas ele não retornou.

Procuramos Antônio Pedace na Câmara, mas ele não foi localizado. No sábado (25), o assistente parlamentar enviou uma nova ao Fantástico. Disse que: “Em nenhum momento, pediu qualquer valor a seu favor ou de outras pessoas e que simplesmente. Indicou uma empresa especializada, uma pessoa que já fazia esse trabalho de forma idônea, para regularizar e realizas as pendências realizadas no referido estabelecimento. E obras e mudanças seriam necessárias para a continuidade das atividades comerciais”.

O presidente da CPI afirmou que nem o assistente dele, Antônio Pedace, nem o engenheiro Roberto Torres tinham autorização para fiscalizar comerciantes. “Esse senhor é o Antônio. Ele é ligado a nós sim, mas não tinha qualquer autorização para trabalhar nessa questão da CPI. Talvez análise de documentos, sim”, declarou Tuma.

O escritório onde Marcos Peçanha recebeu o dono do bar fica na Rua Riachuelo, região central. O Fantástico investigou e o engenheiro Roberto Torres, o integrante da CPI dos Alvarás que procurou o comerciante, aparece na escritura desse imóvel. Roberto é o dono do escritório.

Roberto de Faria Torres está sendo monitorado desde junho do ano passado pelo setor de inteligência da Controladoria Geral do Município. O nome dele está em uma lista de servidores públicos que são analisados. É uma checagem que a controladoria faz para saber se o salário do funcionário é compatível com o patrimônio dele.

O Fantástico apurou que, nos últimos cinco anos, pelo menos 15 imóveis apareceram no nome de Roberto, como os mostrados no vídeo acima. Ele recebe da prefeitura um salário de R$ 4 mil por mês. A investigação da controladoria pode comprovar se o engenheiro teria ficado rico ilegalmente.

“Se, de fato, a conduta dele foi uma conduta que desabone a sua função enquanto servidor público, ele será sim penalizado. Inclusive, dependendo do caso, com a demissão”, destaca o controlador-geral da Prefeitura de São Paulo, Vinicius Spinelli.

Tentamos falar várias com Roberto Torres. Ele chegou a desligar duas vezes o telefone na nossa cara.

O Ministério Público vai investigar se havia uma máfia na CPI dos Alvarás.

“Há necessidade de outras pessoas que também foram vítimas desse esquema de nos procurarem para que a gente possa apurar os fatos não só em relação a essa vítima, mas em relação a todos os outros que também foram extorquidos por este grupo”, diz o promotor de justiça Roberto Bodini.

O comerciante não cedeu à pressão. “Se eu pagar, o que vai acontecer? Mês que vem, vai bater outra pessoa na minha porta. Não dá para, simplesmente, o cara querer sobreviver às nossas custas”, diz o comerciante.

a “nota de esclarecimento” do vereador evangélico pode ser lida aqui.

perguntas: por que ele esperou a veiculação da reportagem para agir? por que não afastou imediatamente seu assessor de confiança envolvido?

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Insônia crônica pode gerar depressão, ansiedade e falhas de memória

insônia
Segundo Instituto do Sono, 45% da população paulistana apresenta alguma dificuldade para dormir

Publicado no Estadão

Noites total ou parcialmente em claro, interrupções de sono ou sensação de não ter dormido. A ocorrência disso pelo menos três vezes por semana ao longo de três meses sugere um quadro de insônia crônica. A definição, usada como base por médicos do mundo todo no combate aos males do sono, pertence ao DSM-5, manual de diagnóstico de transtornos mentais da Associação Americana de Psiquiatria.
“A doença, eventualmente, tem causas bem definidas: problemas de saúde, físicos, psiquiátricos, mentais, neurológicos, do ambiente no qual a pessoa dorme, estresse”, explica o neurologista e pesquisador do Instituto do Sono de São Paulo Luciano Ribeiro. “Nossa busca é descobrir o vilão da história.”

E os números são de tirar o sono. Segundo o último levantamento realizado pelo instituto, 45% da população paulistana apresenta alguma dificuldade para dormir; destes, 15% sofrem de insônia crônica.

O neurologista do Hospital São Luiz Álvaro Pentagna aponta que a enfermidade pode estar associada a quadros depressivos e de ansiedade, como causa ou consequência de ambos. Isso se dá porque “a falta de sono afeta o bom funcionamento do sistema nervoso central e a manutenção do equilíbrio geral do organismo”.

Esse foi o caso do assistente administrativo Gilvan Soares, de 54 anos. Desde os 14, o cearense tem dificuldades para dormir e, nos últimos tempos, desenvolveu depressão, o que só piorou sua ausência de sono. “Não existe coisa pior do que passar noites em claro. Você fica horrível. É um inferno vivo”, conta.

Não raro, a privação de sono acompanha outros sintomas: alterações de humor, dificuldade de concentração, baixa resistência, perda de apetite e da libido, falhas de memória e agressividade. Entretanto, às vezes, não conseguir dormir é manifestação de outra doença. No publicitário paulista Túlio Darros, de 27 anos, a insônia se manifestou como indício do Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDHA). “Há pouco mais de um ano procurei ajuda médica, mas ligavam minha insônia ao estresse do trabalho”, lembra. “Isso estava prejudicando, inclusive, meu relacionamento.” Só depois de diversos exames no Insituto do Sono de Piracicaba se esclareceu a causa.

Hoje, Soares e Darros se tratam com medicamentos. O assistente administrativo toma fluoxetina e carbonato de lítio, para a depressão, e clonazepam, para dormir; já o publicitário usa ritalina. Apesar de não condenar o uso de remédios tradicionais, o neurologista Luciano Ribeiro defende, em alguns casos, outros caminhos antes da medicação. “Há uma linha interessante que é da terapia comportamental cognitiva”, diz. A forma de atuação, baseada em quatro ou seis sessões com um profissional de saúde, foca em mudança de hábitos e pensamentos para tratar a enfermidade.

Segundo ele, a utilização abusiva de medicamentos da família dos benzodiazepínicos (como o clonazepam, por exemplo), aliada à automedicação, também é grande vilã. “A médio ou longo prazo, além da dependência que causa, altera o sono normal e piora a própria insônia. O tratamento deve ser sempre com controle médico”, alerta.

Há quase 25 anos no Instituto do Sono, Ribeiro pontua que alguns fármacos mais modernos do que os calmantes tradicionais e ainda não tão difundidos na comunidade médica brasileira, como o Zolpidem, trazem menos malefícios ao paciente. “É um indutor de sono que age rápido e conserva a boa qualidade do sono”, afirma. Além disso, o medicamento não deixa “resíduos” de sonolência durante o dia. Mas remédios nessa linha são raros no Brasil e muitas novidades continuam sem previsão de chegada. “Estamos engatinhando ainda”, lamenta.

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