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Dilma prestigia aliado evangélico e inaugura templo de Edir Macedo

Com a bênção de Macedo

foto: Universal

foto: Universal

Lauro Jardim, na Veja on-line

Dilma Rousseff confirmou sua presença na inauguração do Templo de Salomão, a milionária obra de Edir Macedo que será inaugurada em 31 de julho em São Paulo.

A aproximação com a Igreja Universal é, por enquanto, o único ativo de Dilma com os evangélicos para a campanha eleitoral. Desde 2010, o PT tem dificuldade de lidar com o segmento.

A propósito, o templo, construído “com base nas orientações bíblicas” num terreno de 70 000 metros quadrados, é uma réplica do Templo de Salomão, erguido e destruído duas vezes em Jerusalém, cinco séculos antes do nascimento de Jesus.

Até o fim do ano passado, com 72% da obra concluída, a Universal já havia gasto 413 milhões de reais com o templo.

Igreja Católica lança nota de apoio aos LGBTS às vésperas da Parada Gay

paulista

 

 

 

 

 

 

 

Publicado em O Povo

Comissão Justiça e Paz da Arquidiocese de São Paulo publicou uma nota em “defesa da dignidade, da cidadania e da segurança” dos homossexuais. De acordo com o Estadão, o texto foi publicado às vésperas da 18ª Parada do Orgulho de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais de São Paulo, que acontecerá neste domingo, 4, na Avenida Paulista.

“Não podemos nos calar diante da realidade vivenciada por esta população, que é alvo do preconceito e vítima da violação sistemática de seus direitos fundamentais, tais como a saúde, a educação, o trabalho, a moradia, a cultura, entre outros”, afirma, em nota, a entidade da Igreja Católica.

A comissão ainda afirma que LGBTs “enfrentam diariamente insuportável violência verbal e física, culminando em assassinatos, que são verdadeiros crimes de ódio”.

A entidade convida “pessoas de boa vontade e, em particular todos os cristãos, a refletirem sobre essa realidade profundamente injusta das pessoas LGBT e a se empenharem ativamente na sua superação, guiados pelo supremo princípio da dignidade humana”.

A nota afirma ainda que o posicionamento da entidade, “fiel à sua missão de anunciar e defender os valores evangélicos e civilizatórios dos direitos humanos, fundamenta-se na Constituição Pastoral Gaudium et Spes, aprovada no Concílio Vaticano II: “As alegrias e esperanças, as tristezas e angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem, são também as alegrais e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo”, segundo o documento.

Geraldo Magela Tardelli, diretor da Comissão Justiça e Paz da arquidiocese, disse que esta é a primeira vez que a comissão escreve “formalmente” a favor dos homossexuais. “A comissão tem uma missão, segundo D. Paulo Evaristo Ars: ‘temos que dar voz aqueles que não tem voz’. Neste momento, o que estamos percebendo é que há um crescimento de violência contra homossexuais, então a gente não pode se omitir em relação a essa violação dos direitos humanos”, afirmou o diretor.

Ainda segundo ele, a realização da Parada Gay determinou a divulgação da nota. “Nós achamos que esse era o momento correto de colocar essa nota em circulação. Nós da Igreja estamos engajados na defesa dos direitos humanos e não compactuamos com nenhuma violação, independentemente da cor e da orientação sexual das pessoas”, disse Tardelli.

“Faça o que gosta e ajude pelo caminho”

Parceiro da ONG Waves for Waters no Brasil, Guga Ketzer distribui filtros portáteis em regiões carentes de SP

Ricardo Rossetto, na Veja SP

"Água potável é o princípio básico da vida e todos devem ter direito a ela", afirma o publicitário Guga Ketzer (foto: Lucas Lima)

“Água potável é o princípio básico da vida e todos devem ter direito a ela”, afirma o publicitário Guga Ketzer (foto: Lucas Lima)

Embora seja um fã do esporte, durante os dias de jogo da Copa em São Paulo o publicitário Guga Ketzer estará envolvido em uma atividade que não tem nada a ver com futebol.Como ativista de uma entidade preocupada em garantir água potável para pessoas carentes, ele vai aproveitar o período da competição para distribuir equipamentos portáteis capazes de filtrar em minutos o líquido de qualquer fonte, como uma poça barrenta, por exemplo, eliminando bactérias causadoras de cólera, febre tifoide e disenteria. Serão doados durante o torneio da Fifa 600 aparelhos,beneficiando cerca de 60 000 pessoas em locais como Jardim Ângela, Cidade Tiradentes, Parelheiros e Marsilac.

Cada fltro custa 50 dólares e é fornecido pela ONG americana Waves for Water (ondas para água, em inglês). No Brasil, Guga é o representante da causa, e a sua primeira ação ocorreu em 2011 após os deslizamentos na Região Serrana do Rio de Janeiro, onde distribuiu 200 unidades. No ano seguinte, liderou uma missão no Jardim Itápolis, bairro carente na Zona Oeste de São Paulo, e deixou outros 350 fltros para os moradores. Cada equipamento pode ter seu uso dividido por um grupo de até 100 pessoas. “A água potável é o princípio básico da vida, e todos devem ter direito a ela”, afirma Guga, um gaúcho radicado em São Paulo desde 1999.

O publicitário conheceu o trabalho da Waves for Water durante uma viagem ao Havaí com o amigo americano Jon Rose, surfsta e fundador da ONG. Guga fcou motivado com o lema da entidade, “Faça o que gosta e ajude pelo caminho”, e tornou-se um voluntário. Rose entrou em ação pela primeira vez em 2009, quando estava na Ilha de Sumatra, na Oceania, e um terremoto destruiu a cidade de Padang. Em meio ao caos, passou a distribuir alguns filtros portáteis para garantir água potável à população desalojada. De lá para cá, a ONG já esteve em mais de vinte países e doou equipamentosdo tipo que beneficiaram 10 milhões de pessoas.

Em São Paulo, CPI do Trabalho Escravo cria canal para receber denúncias

Luiz Fabre, procurador do MPT; Leonardo Sakamoto, coordenador da Repórter Brasil; Carlos Bezerra Jr. (PSDB), deputado estadual presidente da CPI; e Renato Bignami, auditor fiscal e coordenador estadual do Programa de Erradicação do Trabalho Escravo da Superintendência Regional do Trabalho e Emprego. Fotos: Divulgação

Publicado no Repórter Brasil

A Comissão Parlamentar de Inquérito aberta na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo para investigar escravidão contemporânea criou um canal para envio de denúncias de violações ocorridas em São Paulo. Os casos devem ser enviados por e-mail para o endereço cpitrabalhoescravo@al.sp.gov.br.

A CPI foi instaurada na semana passada, a pedido do deputado estadual Carlos Bezerra Jr. (PSDB), que foi eleito seu presidente. A relatoria ficou com a deputada estadual Leci Brandão (PCdoB), e a vice-presidência com o deputado estadual Carlos Cezar (PSB). “Nosso trabalho será divido em três fases: diagnóstico, investigação e intervenção. Agora, estamos ouvindo especialistas e autoridades envolvidas com o tema. Buscamos uma noção precisa sobre o problema em São Paulo. Depois, passaremos às diligências e convocações.

Por fim, virá a etapa de intervenção, com o relatório e seus desdobramentos legais”, explica Bezerra, que no ano passado convocou representantes dos grupos GEP (dono das marcas Cori, Emme, Lugi Bertolli e GAP do Brasil), e Restoque (Le lis Blanc e Bourgeis Bohême – Bo.Bô) para prestar esclarecimentos à Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa.

As duas empresas foram responsabilizadas por flagrantes de escravidão de 56 pessoas (28 em cada), em inspeções realizadas em março junho, respectivamente. Publicamente, ambas assumiram o compromisso de tomar medidas imediatas e contribuir para que tais violações sejam erradicadas. Nem sempre, porém, as companhias colaboram com as autoridades e por vezes os próprios mecanismos de combate à escravidão são questionados. Em 2012, por exemplo, o grupo Inditex (da marca Zara), um dos maiores do setor têxtil no mundo, não só criticou a fiscalização que resultou no resgate de 15 trabalhadores costurando peças da marca um ano antes, como também questionou a própria existência do cadastro oficial de empregadores flagrados, a chamada “lista suja”, posicionamento extremo que levou a empresa a ser suspensa do acordo empresarial contra a escravidão, o Pacto Nacional pela Erradicação do TrabalhoEscravo.

Há duas semanas, a Zara foi considerada pela Justiça responsável pela situação; e seus representantes anunciaram que a empresa irá recorrer da sentença.

Oficina em que 14 costureiros foram resgatados em Itaquaquecetuba, na Grande São Paulo. Foto: Sabrina Duran

A crítica aos mecanismos de combate ao trabalho escravo no Brasil encontra espaço inclusive no Congresso Nacional, onde representantes da Frente Parlamentar de Agropecuária, aBancada Ruralista, pressionam para que o próprio conceito de escravidão contemporânea seja descaracterizado. O presidente da CPI estadual do Trabalho Escravo afirma que a comissão está pronta para enfrentar opositores. “Sabemos das pressões que estão por vir. O que queremos é enfrentar de fato essa violação”, diz. A CPI tem duração inicialmente prevista de 120 dias, podendo ser prorrogada em mais 60 dias se necessário for.

Panorama nacional
No Congresso Nacional, a CPI do Trabalho Escravo aberta na Câmara dos Deputados terminou no ano passado sem a aprovação de um relatório final. Em entrevista à Repórter Brasil na ocasião, seu presidente, o deputado federal Cláudio Puty (PT-PA), lamentou a resistência que encontrou entre seus colegas e denunciou “uma forte ofensiva de setores obscurantistas no Congresso Nacional contra direitos que já achávamos consolidados”. Puty lamentou as dificuldades encontradas durante os trabalhos.

”Apesar de não termos votado o relatório, vamos apresentar um relatório conjunto dos deputados que concordam que a pauta da CPI deveria ter sido ‘os avanços na fiscalização e na erradicação do trabalho escravo’, e não o ‘combate à fiscalização’. Então, nós, eu, o relator [deputado federal Walter Feldman (PSDB-SP)] e outros deputados do PT e do Psol, vamos elaborar um relatório conjunto, apresentando propostas como parlamentares individuais”, afirmou.

Em São Paulo, a conjuntura tem sido mais favorável a matérias legislativas relacionadas ao aprimoramento do combate à escravidão. O Estado foi o primeiro a aprovar lei que prevê o fechamento de empresas que utilizem trabalho em condições análogas à escravidão. A lei, proposta pelo deputado Bezerra, o presidente da nova CPI estadual, foi sancionada em 28 de janeiro de 2013 pelo governador Geraldo Alckmin (PSDB) e prevê a cassação da inscrição no cadastro de contribuintes do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) dos estabelecimentos comerciais envolvidos na prática desse crime – seja diretamente ou no processo de produção, como nos casos de terceirização ilegal, por exemplo. Além disso, os autuados ficam impedidos por dez anos de exercer o mesmo ramo de atividade econômica ou abrir nova firma no setor.

O projeto inspirou iniciativas semelhantes em outros estados.

Adeus, São Paulo

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Por Matheus Pichonelli, na Carta Capital

Do alto, sentia a vertigem e imaginava quantos pedaços de mim se espalhariam pelo chão se a grade mambembe, espetada em uma parede com as primeiras rachaduras, se partisse naquele instante. Estávamos no 23º andar e eu, como sempre acontecia quando meus pés se afastavam do chão, imaginava com quantos calafrios eram construídos um edifício como aquele. O corretor, de cabelo espetado e brinco na orelha esquerda, falava comigo com todos os pronomes e plurais ensaiados. Educadíssimo, me chamava de senhor, embora aparentasse ser mais novo do que eu.

Antes de fechar a janela do apartamento, um cubículo de 30 metros quadrados cujo preço, em minha terra, valeria um rancho inteiro com os cavalos incluídos, observei um cão à beira da avenida principal. Andava em círculos pelo portão e recuava. De dentro, já não ouvia a conversa sobre a projeção milionária da região (segundo o corretor, aquela era a nova fronteira do mercado imobiliário paulistano).

-Daqui a dez anos você pode faturar, por baixo, por baixo, uns…

Eu via os lábios dele se mexer, mas não ouvia voz alguma: só queria saber se quando chegasse ao térreo iria encontrar um cão salvo ou atropelado. Paramos em um dos andares para conhecer a sala de academia. Depois em outro, para conferir a living room, bem ao lado do home office. Na orelha de um dos andares, havia uma lavanderia.

-Por dez reais, você tira uma ficha e lava tudo o que precisa sem nem sair de casa.

Sair de casa pra quê?, pensava eu. Perto dali o ponto mais charmoso da rua era um posto de gasolina de telhado arrebentado. O resto eram galpões com marcas de sangue de cordeiro na entrada. Tinham data e hora para ir ao chão. A cidade que erguia e destruía coisas belas também construía belezas funcionais onde antes reinava o abandono – as fábricas foram embora havia muitos anos, e os galpões que resistiam ao tempo não inspirariam uma única linha de Antonio Alcântara Machado, hoje um nome de rua cinzenta perto dali.

A cada andar que descia, colocava o nariz para fora da janela para espiar o cachorro. Com o vento, vinha uma frase do filósofo Claude Lévi-Strauss cantada por Caetano Veloso: “Aqui tudo parece que é ainda construção e já é ruína”.

-E o melhor de tudo: é próximo ao metrô.

Sim, era próximo, mas para chegar até ali passaria por um viaduto granindo para a rua, um entre tantos a se emaranhar por um rastro de ódio e destruição.

-Daqui a uns anos, todo mundo vai estar morando aqui. Está caro? Está. Mas vai ficar muito mais…

Admirava a forma como o corretor descrevia ouro onde eu só via a ruína da música. E me perguntava se ele realmente acreditava no que dizia e vendia. Era um peão, como eu e, como eu, precisava vender seu peixe pra poder, como eu, chegar em casa, jogar a chave em cima da escrivaninha, tirar a camisa, lançar o tênis pela sala e ligar a tevê para, como eu, se distrair ao esquentar o jantar e dormir o quanto antes de olho no dia seguinte. Viveria também em uma caixa de sapato que dali a dez anos, quando incorporadores, padarias e supermercados se mudassem pra lá por osmose e expulsassem de vez os pequenos comerciantes dos grandes galpões, triplicaria de preço?

Nos folders e páginas na internet, a corrida imobiliária parecia resgatar a lenda da corrida americana em direção ao Oeste. “Juntos, vamos expulsar os índios e instalar as bases da única civilização possível, esta que substituiu a mesa de bar pela área gourmet”. (Um pensamento virava obsessão: será que Guimarães Rosa escreveria o Grande Sertão: Veredas na sacada de uma área gourmet?)

Dias depois, vou ao outro lado da fronteira paulistana, onde da terra brotam três torres prontas para serem habitadas. “A poucos metros da estação do metrô”, dizia a propaganda. Mas a estação do metrô não está pronta. Há anos que não está.

-Era pra estar funcionando, mas sabe como é a política, né?, disse o novo corretor, este com a voz mais calma, enquanto enxugava as lentes dos óculos.

Para chegar às torres, andamos uma ladeira de declive considerável. Eu, que só ando a pé, seria levado pela enxurrada na primeira garoa. Na torre, todos os apartamentos são iguais, mas uns são mais iguais que outros: quanto mais perto da comunidade vizinha ao empreendimento, menor o valor do metro quadrado. Meio constrangido, o corretor explicou: “De vez em quando se ouve um pancadão vindo de lá. Mas a janela é virada para o outro lado. Você não os vê, e eles não veem vocês”.

Eles: os outros. Os indesejados. Por causa deles há um muro. Há seguranças. Há um sistema de vigilância permanente para você e a sua família.

E quem precisa sair de casa e andar pelo bairro, pedir emprestada uma xícara de açúcar para o vizinho pobre quando tudo o que é necessário para a reprodução da espécie está do lado de cá do muro?

Pelo preço e localização, parecia um bom negócio. Um bom investimento, pelo menos. Na ponta do lápis, todos os números do mundo saltavam aos olhos. Chegavam a dar dor de cabeça. Era como calcular a dosimetria de uma pena: “em 30 anos, as parcelas são reduzidas e o apartamento é seu”. Primeiro, a simulação em um banco. Depois, em outro. Primeiro, com um valor de entrada. Depois, com uma prestação menos elástica. O preço da liberdade é o preço de uma projeção: “Antes o metrô quadrado custava tanto. Hoje vale duas vezes tanto. Daqui a dez anos…”

Só parava de fazer contas para pensar em como seria a vida nos próximos anos até ganhar a carta de alforria. Pensava em uma música antiga do Raul Seixas (pensava em muitas músicas do Raul Seixas naqueles dias): “Tô terminando a prestação do meu buraco, meu lugar no cemitério pra não me preocupar de não mais ter onde morrer. Ainda bem que no mês que vem posso morrer, já tenho o meu tumbão. O meu tumbão”.

Naquela semana, passei os dias lançando filtros nas buscas dos sites especializados: bairro, valor mínimo e total, número de quartos. Cheguei ao ridículo de calcular em quanto tempo pagaria uma casa de vila. Imagina? Morar em uma vila em plena metrópole? Chegava ao trabalho e procurava a rua das futuras casas no Google Street View. Rodava o mouse, parava e olhava. Tentava me imaginar ali com um carrinho de criança em um sábado de sol, se em algum sábado o sol saísse. De bairro em bairro, resolvi, por curiosidade, digitar o endereço da minha primeira casa, a casa de tijolo à vista onde nasci, em Araraquara. Olhava aquela imagem e imaginava quantos pedaços de mim se espalhariam naquela parede de tijolo se caísse para dentro da tela. Era minha única distração: mal me conectava, buscava o endereço da velha casa, como quem busca um fundo de tela e um descanso para a memória. A casa era a mesma, mas estava envelhecida. Faltava alguma coisa: o pinheiro do jardim, um primeiro plano de todas as fotos desbotadas da minha infância. O que fizeram com o pinheiro? Quem tem um pinheiro hoje em dia dentro de casa?

Por que nos mudamos de lá? Não era uma casa grande. Era uma casa simples, sem piscina nem área gourmet. De vez em quando, improvisávamos uma churrasqueira de ferro ao lado da garagem e armávamos uma piscina de plástico. Todo mundo da rua aparecia. E eu sabia o nome dos meus vizinhos: pela janela, eu os olhava e eles nos olhavam sem medo.

-Preciso pensar.

-Se pensar muito vamos vender.

-Posso te dar uma resposta na semana que vem? Quero primeiro andar pelo bairro, conhecer melhor…

-Poder pode. Mas vamos vender.

Quanto mais fazia perguntas, mais o tempo passava. Quanto mais o tempo passava, mais fazia contas. Quanto mais fazia contas, mais mirava a projeção de ganhos. Quanto mais fazia projeções, mais sentia vontade de beber. Quanto mais vontade de beber, mais fome eu tinha. Quanto mais comia, mais sono eu tinha no fim da tarde. Quanto mais sono no fim da tarde, menos dormia na madrugada.

A vertigem, iniciada em uma sacada do 23º andar erguido no terreno de um antigo galpão do centro de São Paulo, só cessou quando me dei conta de que tudo o que me movia era uma única frase dos corretores: “Pensa direito. Essa região vai se valorizar…” Pensar bem significava comprar uma projeção: uma projeção de futuro. Esta projeção de futuro significava viver mal durante meses, anos, e esperar a civilização chegar com suas cifras salvadoras. É a mola propulsora de uma lógica inerente à metrópole: em nome de um bom negócio, a gente se priva de tudo durante anos, inclusive da delícia de poder largar tudo um dia – carro, trabalho, bairro e móveis – e começar tudo do zero a qualquer momento. Mas porque temos um compromisso (alguns chamam de “dívida”, outros de “honra”), a gente engole qualquer coisa, inclusive o que nos destrói. Foi quando arrisquei uma sociologia de botequim: é por causa dessa felicidade dos anúncios das incorporadoras que nos enforcamos em dívidas, e por causa das dívidas nos apegamos ao emprego e trabalhamos cada vez mais, e porque trabalhamos cada vez mais, vemos cada vez menos os amigos, e como não vemos os amigos, nos acostumamos a viver em cativeiro, e como do cativeiro vem o sustento, passamos a agir como animais para proteger o nosso emprego, nossas conquistas e nossas posições. É quando o vizinho se torna uma ameaça e o novo colega recém-contratado pela empresa, um perigo. Eis a origem do nosso carreirismo, das nossas ansiedades e das nossas síndromes do pânico. Tudo está embutido nos juros estendidos ao longo dos anos, menos os remédios. (“Não entendo os homens: perdem a saúde para economizar dinheiro quando jovens e perdem o dinheiro para recuperar a saúde quando velhos”. Onde está o Dalai Lama, ou seja lá quem disse isso, quando mais se precisa dele?)

Ao fim das contas, percebia que o ciclo do progresso tinha um custo, como todo ciclo. Mas para mim era demais.

-Pensa bem, insistia o corretor. O que você quer da sua vida?

-Oi?

-Da sua vida. O que você quer? Vai viver a vida inteira de aluguel?

-Oi?

-O que você quer da sua vida?

O que eu quero?

O que eu quero é sumir daqui.