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Resistência ao elogio

Arte de Paul Klee

Publicado por Fabrício Carpinejar

Generosidade não é oferecer presentes, mas saber recebê-los.

Quando alguém nos dá algo que a gente queria muito, sabe o que falamos?
— Não precisava.

Por que mentimos?

Deveríamos dizer:
— Precisava sim, estava esperando tanto.

Isso demonstra uma dificuldade geral para ganhar elogios. Uma incompetência para ser feliz direto, de primeira, sem coitadismo, sempre temos que fazer charme e beiço e fingir que somos desimportantes.

Não acreditamos no elogio. Pensamos que é interesse, oportunismo, falsidade, exagero.

Se uma estranha recebe meu elogio, já julga que é cantada.

Se a namorada recebe meu elogio, já julga que quero sexo.

Se o filho me elogia de repente, eu já julgo que é pedido de dinheiro.

Mania de menosprezar o amor simplesmente porque não nos sentimos merecedores do amor.

As mulheres são as rainhas da culpa. Quer ver?

Encontro uma amiga no elevador e comento despretensiosamente:

— Que camisa linda!

Em vez de agradecer, ela vai se desculpar:
— Comprei barato numa liquidação.

Repare, eu não perguntei nada. Mas ela continua se justificando:
— Foi na loja Antonia Guedes, ali no Moinhos de Vento.

Ela é capaz de me dar o endereço, informar o nome da vendedora, o preço, tudo para não se sentir linda.

Por isso, hoje aceite o elogio com sinceridade. E diga apenas: obrigado, obrigado, obrigado!

Deus é o silêncio

Marcia Tiburi, em Vida Breve

Lembrando que um padre lhe dissera que o silêncio é sagrado, a mulher que passara a noite em claro com uma crise de enxaqueca caminhou pela rua e entrou na igreja depois de comprar os remédios prescritos pelo médico do pronto-socorro, onde foi buscar alívio.

A cabeça ainda doía e ela lembrou-se de rezar pedindo ajuda contra o mal que a mortificava. Se em todos os lugares, rádios, televisores, conversas, objetos que caíam, carros que passavam, tudo provocava uma sensação de catástrofe craniana no mundo profano da vida diária, na igreja ela encontraria a paz, a temperatura e a acústica que se pediu a Deus. A enxaqueca entrava pelos poros, era uma espécie de dor do mundo que podia ser curada com fé e paz. Talvez a enxaqueca tivesse algum fundo simbólico e pudesse ser curada com um pouco de contrição. Era assim que ela pensava. O silêncio podia ser remédio melhor do que aspirinas.

Ela pagou cinco reais para entrar na igreja a outra mulher sentada à porta com um livro por assinar, que lhe entregou um cupom e um panfleto. Ela agradeceu e entrou rapidamente no recinto onde sentiu aquela dúvida bem-aventurada de que estivesse realmente só. Podia-se sentir o peso das paredes, a luminescência dos metais antigos. A abóbada toda pintada e os santos entregues ao simples estar no mundo provocaram nela um suspiro teológico. Era bom demais para ser verdade. Ela se ajoelhou e pôde ouvir o eco do seu próprio movimento sobre o banco de madeira. Abaixou a cabeça, uniu as mãos e penetrou no silêncio sagrado guardado dentro da construção de séculos. Em segundos, sentiu-se tendo um lugar no mundo. Afundou na concentração como quem deita em cama de algodão depois de um dia de trabalho.

Só que não durou. De repente, um voz irrompeu pela igreja desfazendo seu ritual particular. Era a mulher da portaria que resolvera fazer o papel de um estranho guia turístico.

— Esse é o altar-mor. E esses são azulejos portugueses. E os santos foram retirados porque precisávamos limpar. Não é fácil limpar os santos.

A mulher da enxaqueca permaneceu quieta, levantou os olhos decepcionada, sem mudar de posição. A mulher da portaria chamou-a para ver, dizendo que explicaria tudo sobre a igreja:

— Você pagou pra entrar e visitar, tem que saber o que está visitando.

— Obrigada, não precisa, só quero mesmo um pouco de silêncio.

A mulher da portaria, entre a obrigação e a preguiça, preferiu a segunda e deixou a mulher sozinha com sua enxaqueca.

Ela pôde voltar à contrição. Entregou-se ao gesto penetrando novamente no silêncio do qual esperava tanto. Em segundos sentiu-se tendo de novo um lugar no mundo.

Na rua, um carro com alto-falantes a um volume altíssimo, tocando alguma daquelas músicas de que até Deus duvida, acabou logo com a ascese que nem bem começava.

Nós que observamos a cena podemos pensar várias coisas. Que há algo que não cabe nesse mundo, que nele não tem lugar. Algo que não se pode ter, porque não se pode comprar. Algo que escapa, que não se pode ter por preço algum. Talvez isso seja Deus. Em nosso mundo, seu nome é silêncio.

Ilustração: Rafa Camargo

Dica do João Marcos

No Twitter, Latino admite: sua música é uma ‘m….’

O cantor Latino no clipe de 'Despedida de Solteiro'O cantor Latino no clipe de ‘Despedida de Solteiro’ (Reprodução)

Publicado originalmente na Veja on-line

A nova bomba de Latino — Despedida de Solteiro, uma versão oportunista de Gangnam Style, o hit do momento — é tão ruim que inspirou uma campanha contrária nas redes sociais. Em dois dias, a ação, iniciada na quarta pelo blog Não Salvo, motivou mais de 35.000 mensagens-pauladas dirigidas a Latino. Quem queria manifestar seu descontentamento com a canção só precisava preencher o espaço vazio deixado na frase ”Olá amigo @LatinoFesta eu achei a sua ‘música’ uma ___” e publicá-la no Twitter. Uma das mensagens mais leves substituía o espaço em branco pela palavra “gonorreia”.

A versão latina do sucesso do rapper sul-coreano Psy é fraca porque reúne aquelas características que distinguem o cantor: em vez de uma crítica social tem uma letra vazia sobre pegação e ainda traz latidos de pitbull entre um refrão e outro. É tão lamentável que, na noite desta sexta-feira, até o próprio Latino, aquele que modestamente se denomina “o maior showman do Brasil” em seu site, reconheceu a obra que fez.

Confira abaixo o tuíte postado pelo cantor por volta das 22h:

Reprodução
Latino tuíta contra a própria música, 'Despedida de Solteiro'

Curta: “Esta Terra é Minha”

KENTARO MORI, no S&H

Esta Terra é Minha, Deus deu esta Terra para Mim“, cantado na voz aveludada de Andy Williams, em uma tragicômica animação de Nina Paley sobre aquele pequeno pedaço de terra no Oriente Médio tão disputado desde os primórdios da história.

Dos primeiros habitantes coletores aos da terra de Canaã, passando pelos egípcios, assírios, aos “filhos de Israel” no antigo testamento, babilônios, macedônios, gregos, ptolemaicos, selêucidas, de volta aos hebreus, aos macabeus, romanos, bizantinos, califas, cruzados, mamelucos, otomanos, árabes e então aos tempos modernos, com a dominação europeia representada pelos britânicos, que então dividiram as terras entre palestinos e judeus… que continuam disputando esse pequeno pedaço de terra até hoje, na luta representada na animação pelo Hezbollah e o estado de Israel.

Paley deixa claro que esse é apenas um cartum, sem pretensão de ser uma representação histórica rigorosa de todo o sangue derramado, e na animação arrisca uma visão do futuro: ao final <spoiler>o verdadeiro dono da terra, o verdadeiro heroi do Antigo Testamento, é o Anjo da Morte</spoiler>.

Feliz Dia da Reforma Protestante – comemorando à moda de Lutero

Postado originalmente em Domingo de Massa

Ontem à noite, enquanto escrevia um artigo sobre o dia 31 de outubro, veio-me uma vontade irresistível de sair pelas ruas de São Paulo afixando teses de conclamação à volta ao Evangelho puro e simples de Jesus. Mas, como fazer isso?

De improviso mesmo. Ligamos para algumas pessoas, e conseguimos a adesão do Josef. Então ele imprimiu a Declaração de Cambridge (que versa sobre as cinco solas: Sola Scriptura, Sola Fide, Solus Christus, Soli Deo Gloria e Sola Gratia) e, por volta da 1:00h da madrugada, saímos ele, o Paulo Siqueirae eu em direção à Moóca e ao Brás, onde se localizam as sedes de alguns ministérios que precisam se voltar ao Evangelho puro e simples.

Nossa primeira parada foi na R. Dr. Almeida Lima, onde se localiza o Renascer Hall. Havia alguns poucos carrões entrando àquela hora, possivelmente uma reunião de pastores ou bispos. As luzes internas estavam ligadas, e temíamos pela presença de seguranças (afinal sabemos dos seus métodos). Enquanto eu filmava, na minha “tecpix menos que genérica”, o Paulo e o Josef colaram as teses. Em seguida, saímos rapidamente.

De lá, fomos ao Brás, na Av. Celso Garcia, onde se localiza a sede da Adbras Ministério Madureira, do Pr. Samuel Ferreira. Colamos as teses no vidro de entrada, atravessamos a rua e fizemos o mesmo na Igreja Universal do Reino de Deus. Logo depois, partimos para a Rua Carneiro Leão, também no Brás, e afixamos as teses na entrada da Igreja Mundial do Poder de Deus. E então fomos embora, pois já era quase 3 da manhã.

Só posso dizer que toda a honra e toda a glória pertencem a Cristo, pois nada foi previamente planejado. Em poucas horas, imprimimos um texto e saímos pelas ruas, no início sem saber bem para onde ir. Mas creio que Deus nos direcionou, e que algumas pessoas puderam ler os textos antes que fossem arrancados. Se bobear, algum ainda deve estar afixado. A Deus toda a honra e toda a glória sempre.

Afixando as teses na Igreja Mundial do Poder de Deus Sede

Teses fixadas na entrada do Renascer Hall

Apesar da garoa, do frio, do medo de sermos pegos, foi uma experiência muito marcante para mim, e fico feliz de ter podido participar. Se hoje há milhares de crianças fantasiadas de bruxos e monstros batendo nas portas e divulgando o “dia das bruxas”, houve alguns cristãos que bateram nas portas das catedrais gospel “pregando” o Evangelho puro e simples de Jesus.