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Adeus, São Paulo

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Por Matheus Pichonelli, na Carta Capital

Do alto, sentia a vertigem e imaginava quantos pedaços de mim se espalhariam pelo chão se a grade mambembe, espetada em uma parede com as primeiras rachaduras, se partisse naquele instante. Estávamos no 23º andar e eu, como sempre acontecia quando meus pés se afastavam do chão, imaginava com quantos calafrios eram construídos um edifício como aquele. O corretor, de cabelo espetado e brinco na orelha esquerda, falava comigo com todos os pronomes e plurais ensaiados. Educadíssimo, me chamava de senhor, embora aparentasse ser mais novo do que eu.

Antes de fechar a janela do apartamento, um cubículo de 30 metros quadrados cujo preço, em minha terra, valeria um rancho inteiro com os cavalos incluídos, observei um cão à beira da avenida principal. Andava em círculos pelo portão e recuava. De dentro, já não ouvia a conversa sobre a projeção milionária da região (segundo o corretor, aquela era a nova fronteira do mercado imobiliário paulistano).

-Daqui a dez anos você pode faturar, por baixo, por baixo, uns…

Eu via os lábios dele se mexer, mas não ouvia voz alguma: só queria saber se quando chegasse ao térreo iria encontrar um cão salvo ou atropelado. Paramos em um dos andares para conhecer a sala de academia. Depois em outro, para conferir a living room, bem ao lado do home office. Na orelha de um dos andares, havia uma lavanderia.

-Por dez reais, você tira uma ficha e lava tudo o que precisa sem nem sair de casa.

Sair de casa pra quê?, pensava eu. Perto dali o ponto mais charmoso da rua era um posto de gasolina de telhado arrebentado. O resto eram galpões com marcas de sangue de cordeiro na entrada. Tinham data e hora para ir ao chão. A cidade que erguia e destruía coisas belas também construía belezas funcionais onde antes reinava o abandono – as fábricas foram embora havia muitos anos, e os galpões que resistiam ao tempo não inspirariam uma única linha de Antonio Alcântara Machado, hoje um nome de rua cinzenta perto dali.

A cada andar que descia, colocava o nariz para fora da janela para espiar o cachorro. Com o vento, vinha uma frase do filósofo Claude Lévi-Strauss cantada por Caetano Veloso: “Aqui tudo parece que é ainda construção e já é ruína”.

-E o melhor de tudo: é próximo ao metrô.

Sim, era próximo, mas para chegar até ali passaria por um viaduto granindo para a rua, um entre tantos a se emaranhar por um rastro de ódio e destruição.

-Daqui a uns anos, todo mundo vai estar morando aqui. Está caro? Está. Mas vai ficar muito mais…

Admirava a forma como o corretor descrevia ouro onde eu só via a ruína da música. E me perguntava se ele realmente acreditava no que dizia e vendia. Era um peão, como eu e, como eu, precisava vender seu peixe pra poder, como eu, chegar em casa, jogar a chave em cima da escrivaninha, tirar a camisa, lançar o tênis pela sala e ligar a tevê para, como eu, se distrair ao esquentar o jantar e dormir o quanto antes de olho no dia seguinte. Viveria também em uma caixa de sapato que dali a dez anos, quando incorporadores, padarias e supermercados se mudassem pra lá por osmose e expulsassem de vez os pequenos comerciantes dos grandes galpões, triplicaria de preço?

Nos folders e páginas na internet, a corrida imobiliária parecia resgatar a lenda da corrida americana em direção ao Oeste. “Juntos, vamos expulsar os índios e instalar as bases da única civilização possível, esta que substituiu a mesa de bar pela área gourmet”. (Um pensamento virava obsessão: será que Guimarães Rosa escreveria o Grande Sertão: Veredas na sacada de uma área gourmet?)

Dias depois, vou ao outro lado da fronteira paulistana, onde da terra brotam três torres prontas para serem habitadas. “A poucos metros da estação do metrô”, dizia a propaganda. Mas a estação do metrô não está pronta. Há anos que não está.

-Era pra estar funcionando, mas sabe como é a política, né?, disse o novo corretor, este com a voz mais calma, enquanto enxugava as lentes dos óculos.

Para chegar às torres, andamos uma ladeira de declive considerável. Eu, que só ando a pé, seria levado pela enxurrada na primeira garoa. Na torre, todos os apartamentos são iguais, mas uns são mais iguais que outros: quanto mais perto da comunidade vizinha ao empreendimento, menor o valor do metro quadrado. Meio constrangido, o corretor explicou: “De vez em quando se ouve um pancadão vindo de lá. Mas a janela é virada para o outro lado. Você não os vê, e eles não veem vocês”.

Eles: os outros. Os indesejados. Por causa deles há um muro. Há seguranças. Há um sistema de vigilância permanente para você e a sua família.

E quem precisa sair de casa e andar pelo bairro, pedir emprestada uma xícara de açúcar para o vizinho pobre quando tudo o que é necessário para a reprodução da espécie está do lado de cá do muro?

Pelo preço e localização, parecia um bom negócio. Um bom investimento, pelo menos. Na ponta do lápis, todos os números do mundo saltavam aos olhos. Chegavam a dar dor de cabeça. Era como calcular a dosimetria de uma pena: “em 30 anos, as parcelas são reduzidas e o apartamento é seu”. Primeiro, a simulação em um banco. Depois, em outro. Primeiro, com um valor de entrada. Depois, com uma prestação menos elástica. O preço da liberdade é o preço de uma projeção: “Antes o metrô quadrado custava tanto. Hoje vale duas vezes tanto. Daqui a dez anos…”

Só parava de fazer contas para pensar em como seria a vida nos próximos anos até ganhar a carta de alforria. Pensava em uma música antiga do Raul Seixas (pensava em muitas músicas do Raul Seixas naqueles dias): “Tô terminando a prestação do meu buraco, meu lugar no cemitério pra não me preocupar de não mais ter onde morrer. Ainda bem que no mês que vem posso morrer, já tenho o meu tumbão. O meu tumbão”.

Naquela semana, passei os dias lançando filtros nas buscas dos sites especializados: bairro, valor mínimo e total, número de quartos. Cheguei ao ridículo de calcular em quanto tempo pagaria uma casa de vila. Imagina? Morar em uma vila em plena metrópole? Chegava ao trabalho e procurava a rua das futuras casas no Google Street View. Rodava o mouse, parava e olhava. Tentava me imaginar ali com um carrinho de criança em um sábado de sol, se em algum sábado o sol saísse. De bairro em bairro, resolvi, por curiosidade, digitar o endereço da minha primeira casa, a casa de tijolo à vista onde nasci, em Araraquara. Olhava aquela imagem e imaginava quantos pedaços de mim se espalhariam naquela parede de tijolo se caísse para dentro da tela. Era minha única distração: mal me conectava, buscava o endereço da velha casa, como quem busca um fundo de tela e um descanso para a memória. A casa era a mesma, mas estava envelhecida. Faltava alguma coisa: o pinheiro do jardim, um primeiro plano de todas as fotos desbotadas da minha infância. O que fizeram com o pinheiro? Quem tem um pinheiro hoje em dia dentro de casa?

Por que nos mudamos de lá? Não era uma casa grande. Era uma casa simples, sem piscina nem área gourmet. De vez em quando, improvisávamos uma churrasqueira de ferro ao lado da garagem e armávamos uma piscina de plástico. Todo mundo da rua aparecia. E eu sabia o nome dos meus vizinhos: pela janela, eu os olhava e eles nos olhavam sem medo.

-Preciso pensar.

-Se pensar muito vamos vender.

-Posso te dar uma resposta na semana que vem? Quero primeiro andar pelo bairro, conhecer melhor…

-Poder pode. Mas vamos vender.

Quanto mais fazia perguntas, mais o tempo passava. Quanto mais o tempo passava, mais fazia contas. Quanto mais fazia contas, mais mirava a projeção de ganhos. Quanto mais fazia projeções, mais sentia vontade de beber. Quanto mais vontade de beber, mais fome eu tinha. Quanto mais comia, mais sono eu tinha no fim da tarde. Quanto mais sono no fim da tarde, menos dormia na madrugada.

A vertigem, iniciada em uma sacada do 23º andar erguido no terreno de um antigo galpão do centro de São Paulo, só cessou quando me dei conta de que tudo o que me movia era uma única frase dos corretores: “Pensa direito. Essa região vai se valorizar…” Pensar bem significava comprar uma projeção: uma projeção de futuro. Esta projeção de futuro significava viver mal durante meses, anos, e esperar a civilização chegar com suas cifras salvadoras. É a mola propulsora de uma lógica inerente à metrópole: em nome de um bom negócio, a gente se priva de tudo durante anos, inclusive da delícia de poder largar tudo um dia – carro, trabalho, bairro e móveis – e começar tudo do zero a qualquer momento. Mas porque temos um compromisso (alguns chamam de “dívida”, outros de “honra”), a gente engole qualquer coisa, inclusive o que nos destrói. Foi quando arrisquei uma sociologia de botequim: é por causa dessa felicidade dos anúncios das incorporadoras que nos enforcamos em dívidas, e por causa das dívidas nos apegamos ao emprego e trabalhamos cada vez mais, e porque trabalhamos cada vez mais, vemos cada vez menos os amigos, e como não vemos os amigos, nos acostumamos a viver em cativeiro, e como do cativeiro vem o sustento, passamos a agir como animais para proteger o nosso emprego, nossas conquistas e nossas posições. É quando o vizinho se torna uma ameaça e o novo colega recém-contratado pela empresa, um perigo. Eis a origem do nosso carreirismo, das nossas ansiedades e das nossas síndromes do pânico. Tudo está embutido nos juros estendidos ao longo dos anos, menos os remédios. (“Não entendo os homens: perdem a saúde para economizar dinheiro quando jovens e perdem o dinheiro para recuperar a saúde quando velhos”. Onde está o Dalai Lama, ou seja lá quem disse isso, quando mais se precisa dele?)

Ao fim das contas, percebia que o ciclo do progresso tinha um custo, como todo ciclo. Mas para mim era demais.

-Pensa bem, insistia o corretor. O que você quer da sua vida?

-Oi?

-Da sua vida. O que você quer? Vai viver a vida inteira de aluguel?

-Oi?

-O que você quer da sua vida?

O que eu quero?

O que eu quero é sumir daqui.

Jesus era uma metralhadora de spoilers

E aí eu vou dizer: “perdoa, pois eles não sabem o que fazem”. Ai a galera fica olhando, é muito louco

E aí eu vou dizer: “perdoa, pois eles não sabem o que fazem”. Ai a galera fica olhando, é muito louco

Publicado no Pdh Título original: O spoiler e toda sua complexidade

Jesus era uma metralhadora de spoilers. Contou aos apóstolos, no auge de sua trama pessoal, que seria capturado e crucificado. Contou para eles também que a reviravolta aconteceria com a traição de um dos seus. Como se não bastasse, abriu para todos, como se fosse normal e pertinente, que ele voltaria depois do fim, como se as cenas pós-créditos não tivessem o mesmo peso no que houve e no que estaria por vir.

Indo mais a fundo, o messias ainda colou em um solitário Pedro e, sem botar hashtag alguma, soltou ao coitado que, antes do galo cantar, ele o negaria por três vezes. E foi batata.

Foi ainda nesse ano que, falando sobre final de séries ou algo que valha, surgiu no papo o desfecho de LOST, série que tinha tudo — pelo impacto que teve em seus primeiros anos — para estar entre as mais queridas e lembradas de todos os tempos, mas que ficou guardada atrás de outras caixas de lembranças das pessoas. Nesse papo, antes que desenvolver qualquer raciocínio, o Guilherme se colocou em posição de defesa e mandou em alto e bom tom: “sem spoiler, hein. Eu ainda não vi”.

Quatro anos se passaram e, mesmo sem continuar com ele por perto, me senti na liberdade de desenvolver o assunto, atitude não tomada pelo bom senso, e não por algum decoro. Poxa, uma copa do mundo de distância. Não se pode pedir segredo com esse tanto de água passada por debaixo da ponte. Isso me lembrou de outro fato curtinho.

Anos antes, antes mesmo de LOST estar entre nós, fui a um sebo e comprei, dentre outras delicinhas, o Histórias Extraordinárias do Edgar Allan Poe. Nele, há o conto “O Gato Preto”, um dos mais legais do autor. Em outro papo com amigos, um deles — que já havia lido o livro — me disse que eu iria adorar ler o conto d’O Gato Preto e, em sua análise, contou a porra do conto todo. Eu, claro, fiquei chateado.

Cacete, estamos falando de uma historieta publicada no começo do começo do século 19!

É, se o spoiler for medido em tempo, teremos mais paradoxos do que julga nossa vã filosofia de internet. Querendo desabafar, eu fui contar a um casal de amigos o que o cara me fez e, empolgado em minha própria narrativa revoltosa, contei a eles a porra do conto. Eles também não haviam lido esse livro do Poe.

Não há tempo como unidade de medida para um spoiler. Duas horas, oito minutos, três vidas inteiras. Há que se respeitar o momento do outro.

Coisa da mais simples, segurar a ponta da língua pra dentro da boca alguns segundos. Ao mesmo tempo, cabe ao não-curioso de saber seu lugar e não empacar um papo interessante por conta de ainda não ter assistido ao filme. Quer se preservar contra spoilers, não dê pano para manga e, o quanto antes, bota a bunda na cadeira e vá ver o que precisa ser visto. Ou lido. Ou escutado. Deu pra entender.

O bom e velho equilíbrio. Eu não conto e você não fica escutando. Li, em algum lugar na internet ontem de manhã que, se a pessoa realmente se interessa pela obra e não quer saber nenhum detalhe que possa lhe estragar a experiência, vai ver o quanto antes. Se assim não o fez, é porque não era tão importante assim. Achei bem pesado.

Eles estão em todos os lugares

Eles estão em todos os lugares

Sabemos que há situações que não dá pra ver na hora que se está passando. A maluca dicotomia embalando nossos argumentos. Assim como é bem triste ver os caça-spoilers se aventurando no Facebook logo pela manhã atrás de quem está “erroneamente” contando pra deus e o mundo o que deveria ser segredo. Se sabe que o bom senso não impera em nosso planeta, me parece bem errado contar com a sorte e sair lendo tudo o que contenha a palavra-chave da sua série favorita ou filme que quer ver.

Mas estamos na era dos exageros. Tempos velozes em que a internet, as redes sociais e a fibra óptica te botaram em contato com milhares e milhões de pessoas, muitas delas desprovidas de qualquer noção. Mesmo tentando escapar dos spoilers, granadas visuais são jogadas — imagens da cena final ou das pessoas que você jurava ter morrido retornando ou casais improváveis se abraçando, qualquer uma dessas bombas que não precisa nem ler para interpretar tudo — e pessoas da maior confiança pisam na bola, muitas vezes até sem querer.

Não é nem um pouco saudável também ficar se esquivando constantemente em seu Facebook ou Twitter ou o que mais apeteça. O amigo Rodolfo Viana escreveu sobre esse lance de spoilers. Mais interessante que sua opinião (desculpa, amigo), foi o comentário de uma menina que disse:

Quer dizer, internet é putaria. Mas mesmo assim tem que rolar uma ética e tal.

O problema provavelmente está na internet. Você conhece seus amigos, sabe quais deles não suportam a ideia mais vaga de poder, em qualquer momento, ouvir um suspiro que seja sobre qualquer coisa. Você tem outros camaradas que, ao contrário, ficam empolgadíssimos para ver algo justamente quando lhe contam uma parada fundamental. Já na internet, você não tem como saber da sensibilidade dos vários amigos que não são seus amigos. Mais ainda quando você amplifica sua voz em uma página pública, uma “fanpage”.

Ora pitombas, se não sabe com quem tá lidando, é hora de limar por baixo e botar um simples aviso de que está para contar algo revelador. Os menos afetados lerão sem problemas. Os afetadinhos seguirão com suas vidas e os muito afetados vão reclamar mesmo sem ter lido. Mesmo com ética e tal, a internet ainda será putaria.

Mais do que pensar em regras, há que se pensar no respeito com outra pessoa de não relevar nada que poderia estragar a experiência de alguém e, ao mesmo tempo, entender que a outra pessoa tem liberdade para falar sobre o que quiser, mesmo que seja sobre o final da sua série ou filme favoritos.

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Se você não liga para spoilers, agradeça a Deus. Se você odeia, reclama lá com Jesus.

Casal escolhe nome de filha baseado em sugestões de internautas

Publicado no UOL

O casal canadense Alysha e Stephen McLaughlin teve uma ideia que tinha tudo para dar errado: criaram um site, chamado NameMyDaughter, para que os internautas sugerissem e escolhessem o nome da sua filha por meio de votação.

E se não fosse a intervenção dos pais, teria dado errado mesmo. Isso porque o nome escolhido pela maioria foi “Cthulhu”, que representa um monstro das histórias de terror “The Call of Cthulhu”. Nos contos, o personagem é tido como sinônimo de mal extremo e horror.

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Os McLaughlin preferiram, no entanto, o nome “Amelia”, que foi o segundo mais votado pelos internautas. O nome completo da pequena menina ficou Amelia Savannah Joy McLaughlin (um final feliz, ufa).

O nome do meio (Savannah Joy) também podia ser escolhido pelos usuários, mas as decisões dos internautas foram descartadas pelos pais. Uma atitude sábia, uma vez que os nomes do meio preferidos da web foram coisas como Salad (salada) e Pond (lagoa).

Eu, no entanto, não entendo como ficaram de fora do topo nomes como “Princesa Leia” (“Star Wars”), “Penny” (“The Big Bang Theory”) ou tenente Uhura (“Star Trek”).

De qualquer forma, a sorte da pequenina Amelia foi não ter nascido menino. Se fosse, com certeza teria grandes chances de se chamar “Goku”, dada a popularidade do anime “Dragon Ball”.

Veja o que a internet já produziu sobre essa ideia de chamar um filho de “Goku”:

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E se hoje fosse o último dia ao lado do seu pai?

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Publicado no Obvious

Primeiramente, é preciso deixar claro que esse não será um texto fácil, talvez pelo tema, ou pelas imagens que serão apresentadas, mas acredito que principalmente por que todos temos mães e pais, e independentemente de qualquer adversidade da vida, é impossível não nos colocarmos no lugar de Phillip Toledano, com seu pai nos seus últimos anos de vida.

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O projeto fotográfico começa quando a mãe de Phillip falece no ano de 2006, deixando-o incumbido da tarefa de cuidar de seu pai, na época com 97 anos e portador da perda de memória recente, o sofrimento pela morte da esposa era revivido várias e várias vezes, até que chegaram os dias em que a melhor opção era dizer que sua amada estava em viagem a Paris. O idoso escrevia em um caderno as lacunas de lembranças e questionamentos que nunca foram e serão preenchidos: “Onde está todo mundo?”, “O que está acontecendo?”.

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Os Registros feitos por Phillip Toledano ao longo desses três anos foram agrupados e transformados no livro Days With My Father ou na sua versão traduzida “Dias Com Meu Pai”, que registram a simplicidade do convívio cotidiano e das adversidades enfrentadas por ele nesse período. Onde existiam dias, que o simples ato de ir ao banheiro era uma missão e que poderia levar o dia inteiro, já que a perda da memória recente fazia com que ele dispendesse uma enorme quantidade de tempo e logo ao colocar as calças dizer: “Espere um segundo, eu tenho que ir”.

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Mas também existiam dias bons, onde o pai de Toledano relembrava da sua juventude, de como era belo quando jovem e de como o humor sempre esteve presente em sua vida, nos breves trechos de texto do livro, momentos como esses eram descritos como um curto espaço de tempo onde tudo volta a ser como era antes.

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Mas como tudo na vida em algum momento ela chegaria ao fim, e depois de três anos de convívio diário e batalhas vencidas, o pai de Phillip Toledano falece, e na última página do livro uma foto sua logo após a morte, e a frase que encerra esse que é um dos mais belos ensaios reais retratando o amor entre pai e filho: “Eu me sinto um sortudo por ter passado os últimos três anos. Por não ter mais nada pra dizer. Por saber que nós amamos um ao outro nus, sem constrangimento. Por ter sentido seu orgulho por minhas realizações. E ter descoberto o quanto engraçado ele era.”

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Depois de ler o livro e rever imagem por imagem e nos colocarmos no lugar desse fotógrafo, quem é capaz de dizer que essas relações e ligações familiares não tem um laço mais forte? É obvio que diferenças vão surgir, e é natural que em dado momento pais e filhos se afastem, mas ao nascermos estamos presentes um na vida do outro. O que podemos tirar de lição desse ensaio fotográfico real, é que ao fim da vida, estaremos unidos novamente.

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Mas agora refaço a pergunta título dessa postagem e se hoje fosse o último dia de vida do seu pai? O que você faria? Sinceramente não importa, você pode viver, demonstrar, compartilhar momentos, qualquer ação é válida, só não deixe para o último dia aquilo que poderia ter sido feito ao longo de uma vida inteira de cumplicidade, viva cada dia com seus pais como se fosse o último ou melhor. Aproveite o fato de ainda ter pais, pois um dia eles não estarão mais presentes em nossas vidas e inevitavelmente chegará o último dia, e quando chegar quanto mais coisas foram vividas menos terá a ser dito.