Rafael Cortez: O dia em que errei uma piada com Maria Bethânia

Rafael Cortez conta como foi o dia em que fez uma piada "sem graça" com Maria Bethânia

Publicado originalmente na Folha.com

Nunca esqueço: 11 de agosto de 2010, 21ª edição do Prêmio Vale de Música Brasileira. Maria Bethânia concorria a vários prêmios naquela noite. Nunca pensei que ela fosse à cerimônia no Teatro MunicipaI do Rio de Janeiro. Ela não é de sair de casa e ir a badalações. Mas, daquela vez, ela foi.

Eu, fã incondicional, me vi tremendo que nem vara verde enquanto aquela senhora era cercada por um batalhão de fotógrafos, repórteres, fãs e curiosos, à medida que percorria o saguão do teatro e -ai, meu Deus!- vinha involuntariamente em MINHA direção. E eu estava lá a trabalho, em mais uma pauta do “CQC”. Logo, era óbvio que eu teria de entrevistá-la. A maior cantora do Brasil. Comigo.

O produtor do programa, João Mesquita, e eu começamos a bolar alguma piada que a fizesse dar risada. Eu, que conheço sua história e seu temperamento há muitos anos, como fã, comecei a cortar um monte de ideias do João, achando que nada daria certo. Temos que ter cuidado, eu dizia. Na verdade, eu nem lembro que sugestões de abordagem ele me dava –eu estava nervoso demais para ouvi-lo. Só pensava que era surpreendente que aquela artista, que parece ter dois metros e oitenta no palco, de tão imponente que é sua voz e talento, tivesse pouco mais de um metro e sessenta de altura, quando vista de tão perto.

Enfim, bolamos juntos uma piadinha leve. Eu comentaria com ela um vídeo divertido que fora o número 1 do nosso quadro “Top Five”, de duas ou três semanas anteriores: nele, uma senhora aparecia no final de um show da musa, tentando beijar seus pés enquanto nossa artista se despedia da plateia. Era engraçado: a senhorinha ia rastejando atrás da Bethânia, que saia aos pulinhos, fugindo daquela situação. A missão era comentar o vídeo com ela, fazê-la rir da lembrança e terminar com um arremate engraçadinho: “olha, se aquela senhora quisesse beijar os meus pés, ia se incomodar com minhas unhas encravadas e meu chulé!”. Risos. Dos dois, sobre os meus pés.

Mas na hora “agá” eu travei. Fiz uma primeira piada só para aquecer: “você tem dois discos novos esse ano… é para dobrar suas chances de ganhar prêmios em 2010″? Não foi das melhores, mas ela até que riu… respondeu algo como, “imagine, que bobagem”. Foi delicada, mas eu já fiquei tenso. Eu nem devia ter feito piadinha de improviso; a gente só costuma se aventurar na improvisação quando está muito seguro, e eu não estava. Estava apavorado.

Aí, entrei no terreno do vídeo. Ela riu ao lembrar da imagem que fora vista por tanta gente. Justificou, simpática, que não tinha sentido deixar que seus pés fossem beijados, risos. Mas eu continuava apavorado. Não ouvia nada do que ela dizia e não ouvia nem meus pensamentos, só o meu coração –e ele batia mais que a bateria da Mangueira quando os Doces Bárbaros foram tema do samba-enredo. Não sei o que me deu. Fiz o arremate do papo todo errado. Disse: “ah, bom… achei que você não deixou a fã beijar seus pés por causa de frieiras, unhas compridas, chulé”… ou seja: EU ERREI A PIADA!!! Estava tão nervoso que esqueci de colocar o contexto em torno dos MEUS PÉS, deixando o péssimo papel para os pés DA BETHÂNIA! –a cantora que canta descalça por respeito ao palco e à relação sagrada com a terra!!

Ela, que sorria, fechou a cara e disse: “Me respeite”. E foi embora. E quer saber? Ela estava coberta de razão. Do jeito que eu fiz a piada, pareci desrespeitoso. Moleque, bobo. Eu imediatamente me dei conta do meu erro e travei. Travei e só pude lamentar, não mais para ela, mas para toda equipe do “CQC” em volta e a mim mesmo. Fiz um esforço sobre-humano para continuar a matéria –o incidente aconteceu nos primeiros 15 minutos da pauta. Gravei todo o resto sem me perdoar.

O pior é que até hoje eu não me perdoo. Eu erro muitas vezes na minha profissão. Desde que me conheço por gente, e isso tem uns três anos, eu só trabalho sob a condição de poder errar. É assim no “CQC”, no meu show de humor, no meu CD, nos eventos que faço etc. Mas, dos muitos erros que já cometi no programa da Band, que vocês tanto conhecem, esse foi o que mais me machucou.

Há, para mim, um antes e um depois dessa entrevista com a Bethânia. Eu sou mais cuidadoso hoje com todos meus entrevistados, de modo geral. Ainda faço humor ácido, mas encontrei um modo de fazer meus entrevistados discutirem e rirem do ácido que há no meio comum a nós, não deles mesmos. Ou então, rio deles desde que eles também saibam/queiram rir de si mesmos. Ou rimos, entrevistado e eu, muito de mim. Isso é mais comum. Eu me sacaneio muito para poder ter a liberdade de sacanear alguém em seguida. Tem dado certo e estou mais feliz assim; esse é o meu perfil.

Mas a Bethânia… será que ela sabe que eu estava tão nervoso que nem sei o que aconteceu? Será que ela imagina o que representou para mim, que a amo e a venero tanto e com tanta força, ter de entrevistá-la em um momento em que eu não estava preparado? Ela pode me desculpar se eu simplesmente admitir, mais uma vez, que errei e que quero apenas pedir desculpas?

Não sei se ela lembra disso. Não faço ideia de como ela vive e se isso tem qualquer importância para ela. Mas tem muita para mim. No dia seguinte ao ocorrido, escrevi para uma produtora de sua gravadora, a Biscoito Fino, explicando o que aconteceu e pedindo desculpas. A moça, por sua vez, disse entender, e afirmou que passaria o e-mail à Bethânia. Depois ela me diria o que nossa grande cantora achou. Eu nunca soube e também nunca mais enchi o saco com essa história. Às vezes, alguém que me entrevista para saber do CD independente que lancei pergunta do episódio porque leu em algum lugar. E eu sempre admito: errei na entrevista porque estava nervoso, e gostaria que ela me desculpasse.

Na última terça-feira (22), fui ver minha artista predileta cantar só Chico Buarque. Foi no lindo projeto dirigido pela Monique Gardenberg para o Circuito Cultural Banco do Brasil. Ela estava melhor do que nunca, incrível, talentosíssima e maravilhosa. A luz batia forte em seu corpo, enquanto eu me escondia no breu, no meio da plateia, ainda que permanecesse atento a cada gesto e palavra dela.

Ao término do show, um dos diretores do Banco do Brasil, simpático e carinhoso, me reconheceu e ofereceu uma pulseirinha que me daria acesso ao camarim da “Abelha-Rainha”. Eu recusei educadamente, mas fui embora desolado.

Até quando, meu Deus? Até quando?

Rafael Cortez é jornalista, músico, humorista e repórter do “CQC” (Band).

dica do Marcos Florentino

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Seis pessoas já morreram por interromper tratamento para Aids depois de “cura” feita por igreja

Publicado originalmente no UOL

Seis pessoas já morreram em consequência do HIV por parar de tomar a medicação prescrita pelos médicos depois de terem sido “curados” por métodos religiosos. A investigação ocorreu em Londres e foi feita por repórteres do Sky News. Eles estavam disfarçados e foram acompanhar como funcionava o suposto processo de cura.

Os jornalistas, que fingiram possuir o vírus da Aids, tiveram água jogada no rosto, enquanto um membro da igreja falava para o demônio sair de seu corpo.

Os pastores, da Igreja Sinagoga das Nações, afirmam que o método garante 100% de cura da doença. As sessões são realizadas uma vez por mês e os fiéis precisam trazer a nota dos remédios para provar que tem a doença.

Rachel Holmes, uma das pastoras, disse à repórter do Sky News que se os sintomas persistissem era apenas porque o vírus estava saindo do corpo.

A reportagem foi realizada com base em documentos que mostraram que pelo menos seis pessoas já morreram no Reino Unido, pois pararam de tomar os medicamentos para a Aids depois de tratamento feito em igrejas. No entanto, não existem provas de que todos os que morreram frequentavam a igreja Sinagoga das Nações.

O Departamento de Saúde está preocupado e afirma que a medicação para os infectados pelo HIV é eficiente no combate à doença e que nenhum tipo de oração ou ato religioso é capaz de curar nenhum indivíduo.

Um porta-voz da igreja Sinagoga das Nações afirmou que eles não pedem para que ninguém pare de tomar a medicação. “Não somos nós que curamos, mas sim Deus e não existe doença que ele não possa curar. Os médicos tratam as doenças e não há nada ruim em tomar remédios”, declarou.

dica do Leone Lacerda

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“A lei deveria proteger os feios”

Editora Globo

Alexandre de Santi, na Galileu

Autor do livro “Beauty pays: why atractive people are more successful” (“A beleza rende: por que as pessoas atraentes são mais bem sucedidas”), Daniel Hamermesh calculou em US$ 230 mil o valor que uma pessoa extremamente atraente recebe a mais do que uma feia ao longo da vida por conta de sua aparência. Na entrevista abaixo, o economista da Universidade do Texas, nos EUA, explica por que acha que esse tipo de benefício é “puro preconceito” e que deveria haver uma proteção legal para as pessoas sem dotes estéticos.

Algumas pessoas vão ler o seu livro e pensar que existe uma injustiça contra os mais feios. Essa é uma forma justa de interpretar o seu livro? Precisamos fazer alguma coisa contra essa “injustiça”?

Meu sentimento pessoal é de que as desvantagens de ser feio não são diferentes das desvantagens de ter alguma incapacidade ou, como no meu país, ser de alguma determinada raça. Logicamente, é muito difícil mudar a sua aparência, nascemos assim. E, por isso, acho que esse tratamento dado aos feios no mercado de trabalho é pura discriminação. Se não houvesse prejuízo, se não houvessem efeitos colaterais, eu não seria a favor de algum tipo de proteção para as pessoas de má aparência.

Como essa proteção funcionaria? Seria preciso algum tipo de parâmetro legal para definir quem é feio e quem não é?

É muito direto. Atualmente, protegemos os portadores de deficiências nos Estados Unidos contra discriminação nas contratações através do Americans with Disabilities Act, como acontece em outros países. O que acontece é que não existe uma definição de deficiência. Existem grupos de pessoas que acreditam que um empregador específico praticou discriminação contra elas e quese juntam em ações civis contra o empregador. Alguém pode fazer a mesma coisa com aparência. Por exemplo, a Abercrombie & Fitch supostamente teria dito aos seus gerentes que queriam promover pessoas sensuais. E essa é uma típica declaração discriminatória. Se os feios estivessem protegidos pela lei, eles estariam processando a Abercrombie & Fitch – e teriam um argumento muito bom. Então, você não precisa definir feiúra, você precisa de um grupo de pessoas que digam, “sim, aqui está um conjunto de ações discriminatórias em que a gente se qualifica”.

Fora da questão legal, as pessoas precisam agir de forma diferente diante da beleza? Muitas pessoas pensam que a preferência pelos belos é algo natural, que vem da nossa seleção natural e que não há nada que possa ser feito.

Eu discordo disso. Talvez pode ter sido algo relacionado com seleção natural e evolução alguns milhares de anos atrás. Mas, agora, ser bonito não é uma garantia maior de capacidade de reprodução do que ter duas orelhas. Boa aparência é um indicador de boa saúde tão bom quanto qualquer outra coisa. A beleza não tem mais nenhuma relevância evolutiva, é algo que sobrou do nosso passado. E por essa razão acredito que não há mais justificativa para isso. Sim, as pessoas precisam mudar suas atitudes. Mas o problema está em todos nós, não apenas nos maus.

Em que casos a escolha dos mais belos pode ser justificada? Além do mundo da moda ou do cinema, em que tipos de empresas a contratação de alguém bonito pode ser uma prática justa?

Essa é uma pergunta muito difícil. Por exemplo, a cadeira de restaurantes Hooters (onde as garçonetes atendem com roupas mínimas) pode argumentar que precisa de mulheres bonitas porque isso faz parte do seu nicho de mercado. Talvez eles possam se safar dessa. Mas o que acontece se uma loja de departamentos precisa de mulheres bonitas para vender maquiagem? Onde se estabelece o limite? Você está pedindo uma resposta muito difícil. Consigo imaginar alguns casos em que a beleza esteja justificada, mas daí vejo outras empresas dizendo: “nós precisamos de beleza também porque as pessoas querem isso”. A questão é: como estabelecer um limite? Eu não tenho a resposta.

Seu trabalho é baseado em médias: algumas ocupações pagam um prêmio pela beleza bem mais alto que outros. Quais são esses ramos onde ser bonito faz muita diferença?

Analisei estudos de oito ocupações diferentes. Em todas elas a beleza importa. Obviamente, importa mais em umas do que em outras. Mas até entre professores, onde você poderia pensar que aparência não faz nenhuma diferença, a beleza faz muita diferença. É claro que importa mais em empregos para vendedores. Os estudos sobre prostituição mostram que faz muita diferença neste setor também. É muito importante na política, o que não é surpreendente. Sim, a média não é pequena, mas também não é grande. E, sim, varia muito entre as ocupações. No entanto, em todas as que pesquisamos, a beleza importa. E esse é um argumento crucial.

Em algum tipo de emprego você ficou chocado com o tamanho do prêmio da beleza?

Fiquei surpreso com as pesquisas que eu e outros pesquisadores fizemos sobre professores. Não consigo entender porque a beleza importa para professores, que estão lá para transmitir conhecimento. E, ainda assim, alunos vão prestar mais atenção e vão faltar menos se o professor for atraente. Acho que não é surpreendente, mas mostra como essa discriminação está por todas as partes.

Quanto um professor bonito ganha a mais do que um feio?

Um estudo recente no Canadá diz que é algo em torno de 6% a 8%. Não é um número desprezível.

Enquanto o comportamento geral da sociedade não muda, a educação é a única saída para os feios compensarem a desvantagem?

Sim, claro, a educação importa muito e importa mais do que o visual. Mas digamos que você seja feio e burro. Estas não são as duas características que fazem diferença. Força, personalidade e habilidades artísticas também fazem diferença. A questão é que, se você não for muito bom em alguma característica, deve tirar vantagem das coisas em que você é bom. Trabalhe seus pontos fortes. Existem muitas coisas que influenciam o sucesso das nossas vidas. Só porque falta uma coisa na sua vida, não significa que podem não pode se dar bem. Esse é o principal conselho do livro.

A beleza pode ser uma armadilha para os mais belos?

Acho que não. Mas, sim, se você só tem beleza, você não vai muito longe porque há outras coisas que importam o tanto quanto. No entanto, a beleza te dá uma vantagem. E, nesse sentido, não é uma armadilha, é uma bênção. O meu estudo diz qual é o tamanho dessa vantagem. Ela tem um tamanho significativo, mas está longe de ser tudo. Se eu fosse um adolescente bonito e inteligente, diria “eu tenho essa vantagem, mas eu quero mais e tenho que trabalhar nessas outras dimensões da vida”.

A beleza está cada vez mais importante?

Não acredito nisso. Primeiro, um dos estudos que eu cito no livro foi feito nos Estados Unidos há 10 anos e mostra dados muito parecidos com os meus, que são baseados em dados dos anos 70. Segundo, as pessoas sempre foram preocupadas com as aparências. Sim, estamos falando bastante disso agora e o assunto está mais visível para mais pessoas por causa da mídia de massa. Mas, em termos de sociedade, não vejo nenhum crescimento. Não acho que vá ficar pior ou que vá melhorar logo adiante. Prevejo pouca mudança.

O preconceito baseado em aparência é uma causa relevante que pode interessar os políticos para criar novas leis?

Eu certamente não quero me envolver pessoalmente em lobby. Mas o Americans with Disabilities Act (Lei contra o preconceito voltado à pessoas com deficiências nos EUA) foi resultado de lobby de grupos interessados. E posso imaginar que grupos de pessoas que se sentem discriminados por causa da aparência podem pressionar seus representantes para criar leis neste sentido. É assim que sempre funciona em uma democracia. Talvez aconteça. Certamente não vai acontecer agora devido ao desemprego alto no meu país. Esse é o tipo de coisa que é discutida durante os bons tempos. Quem imaginaria nos anos 70 que teríamos o Americans with Disabilities Act nos anos 90?

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Eleição no Egito usa ícones ao invés de números para identificar candidatos

Via Shortlist

Os estranhos símbolos políticos do Egito

A forma como o Egito representa seus candidatos políticos nas eleições é, no mínimo, curiosa.

Desde a década de 1950, o Egito tem usado símbolos para representar os partidos políticos e os candidatos. Originalmente, a ideia era ajudar os eleitores analfabetos a identificarem o partido em que desejavam votar.

O Egito em breve vai às urnas, depois da vitoriosa revolução que depôs Mubarak. Este ano são cerca de 250 símbolos, desde barcos Viking até guarda-sóis, cada um associado a um candidato a cargos locais e também ao primeiro-ministro. É importante lembrar que eles são distribuídos de forma aleatória pela Comissão de Eleições, uma espécie de Supremo Tribunal Eleitoral.

Outros países consagraram símbolos para seus partidos como o elefante e o burros nos EUA ou a estrela e o tucano no Brasil. Mas o do Egito mudam a cada eleição e algumas opções são, digamos, de gosto duvidoso.

Porém, alguns candidatos não ficaram nada satisfeitos. O candidato em um distrito do Cairo se disse “humilhado” ao ver que o símbolo atribuído a ele é vestido de mulher. Outros estão reclamando por terem recebido símbolos que representam armamentos e temes ser associados ao regime militar que foi derrubado em fevereiro deste ano.

Há símbolos curiosos, incluindo câmeras digitais, celulares, eletrodomésticos, frutas e  até um ônibus espacial decorado com flores.
Veja alguns deles abaixo

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