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‘Agora posso comemorar’, diz pai de ‘mendigo gato’ sobre o Dia dos Pais

José Nunes precisou se aposentar após perder a visão.
Perto do prazo final do tratamento, Rafael comenta sobre planos futuros.

Pai de "mendigo gato" comemora o Dia dos Pais após o tratamento do filho (foto: Arquivo pessoal)

Pai de “mendigo gato” comemora o Dia dos Pais após o tratamento do filho (foto: Arquivo pessoal)

Adriana Justi, no G1

“Ninguém pode imaginar o que eu fiz e o que eu passei para tentar livrar o meu filho do mundo das drogas”, conta José Nunes da Silva, pai do jovem que ficou conhecido como o ‘mendigo gato’ de Curitiba. Depois de se envolver com as drogas, Rafael Nunes morou nas ruas da capital paranaense por um ano. Desde 2012, ele passa por tratamento em uma clínica em Araçoiaba da Serra, em São Paulo. Emocionado, o pai desabafou ao G1 e lembrou dos momentos ao lado do filho e da família até conseguir o tratamento.

“Foi um período de muito sofrimento. Mas agora, sim, eu posso comemorar o meu dia e, o melhor de tudo, sabendo que, em breve, terei toda a família unida, como éramos há muitos anos”, afirma José. Rafael começou o tratamento em outubro, quando ficou famoso ao ser fotografado em frente à Catedral Basílica de Curitiba por uma turista gaúcha.

José durante uma visita à clínica de reabilitação onde Rafael faz tratamento (foto: Arquivo pessoal)

José durante uma visita à clínica de reabilitação
onde Rafael faz tratamento (foto: Arquivo pessoal)

“Quando chegavam as datas comemorativas como esta, por exemplo, era quando a saudade falava muito mais alto. Natal e Ano Novo, então, eram sempre de muita mágoa. Nós ficávamos na expectativa de juntar toda a família, mas era inútil. A união tinha sido eliminada pelas drogas”, lembra o pai.

José tem 55 anos e mudou-se com a família de Sinop, no Mato Grosso, para o Paraná em 2006. Pouco tempo depois, perdeu a visão em virtude de problemas relacionados à diabetes. Desde então, ele precisou se aposentar e vive em Colombo, na Região Metropolitana de Curitiba, com a esposa e uma filha.

Rafael começou a se envolver com as drogas aos 14 anos por influência do irmão mais velho, que também ficou internado e, atualmente, se considera “curado”, segundo o pai.

O restante da família mora no Rio Grande do Sul e nunca soube do problema das drogas. “Eu tinha vergonha de contar que meus filhos eram usuários. Nossa família sempre foi tida como unida e correta. Simplesmente não tinha coragem de contar para os outros”, relata. O aposentado ainda comentou que, em virtude disso, costumava mudar de cidade constantemente.

Rafael ficou famoso após pedir para ser fotografado em Curitiba (foto: Reprodução / Facebook)

Rafael ficou famoso após pedir para ser fotografado em
Curitiba (foto: Reprodução / Facebook)

Para ele, Rafael perdeu uma fase importante da vida – a adolescência. “No começo nem tanto porque ele ainda trabalhava e fazia fotos como modelo, mas com o passar dos anos ele perdeu a cabeça. Nós também perdemos uma fase da nossa vida porque ficávamos o tempo todo pensando em ajudar e em livrá-lo do problema. Foram noites mal dormidas e dias que não passavam nunca. Ninguém de nós tem boas lembranças desse período”, ressalta o pai.

“A droga leva as pessoas a se tornarem desumanas, desleais, desonestas e até mesmo covardes”, afirma José. “Rafael foi tudo isso comigo, mas eu nunca o culpei por nada disso porque eu sou pai. O verdadeiro pai é aquele que corrige, compreende e ajuda, mesmo nos piores momentos”, declara.

Em uma das situações, José chegou a ser agredido por Rafael  “Eu nunca tive medo dele, mas fiquei apreensivo porque não enxergava. Ele me deu um chute no peito, tudo porque queria dinheiro para comprar droga. Eu estava no quarto e caí em cima da cama”, conta. “Foi uma humilhação, fiquei triste, muito triste”.

O jovem visitou a família durante o tratamento duas vezes (foto: Thais Kaniak / G1)

O jovem visitou a família durante o tratamento duas vezes (foto: Thais Kaniak / G1)

Arrependimento
Perto do prazo final do tratamento, Rafael conversou com o G1 em uma entrevista  intermediada, por email, pela assessoria de imprensa da clínica. Ele disse estar “pronto para viver em sociedade” e declarou estar arrependido do que fez e do que passou ao lado da família no período em que era usuário de drogas.

“Acredito que, realmente, eu perdi boa parte da minha vida. Durante os 14 anos que eu consumi drogas e bebida alcoólica, eu tive dificuldade para me relacionar com meus pais, perdi amigos, não tinha mais convívio social. Perdi a naturalidade de ser e de viver em harmonia com as pessoas”, afirma.

O jovem admitiu que algumas ações agressivas, realmente, aconteceram. “Ora por efeito das drogas, ora por falta delas, que consiste na abstinência. Mas eu acredito que a pior agressão, com certeza, foram as palavras.”

“Mesmo longe, eu sempre visualizava toda a minha família reunida, porque sempre foi assim. Eu sempre quis voltar para casa, mas, na maioria das vezes, eu estava longe, em lugares distantes. Além disso, por conta do efeito das drogas, eu mudava de opinião a toda hora”, argumenta.

“Meu pai, minha mãe e meus irmãos significam tudo para mim. Acredito que só cheguei até aqui, pelo amor e carinho que eles nunca me negaram e por acreditarem que eu poderia sair daquela vida”, ressalta.

Vida nova
O tratamento de Rafael está previsto para terminar até o fim de agosto, segundo a assessoria de imprensa da clínica. Após a alta, ele declarou que pretende retornar para a casa dos pais. “Afinal, já faz dois anos que estou longe deles. Acredito que eles me auxiliarão nesse processo”, conta.

Sobre o futuro, Rafael conta que pretende se casar e constituir uma família. “Tenho 31 anos, acredito que tenho muita coisa para fazer. Quero me firmar profissionalmente como modelo e voltar para os estudos”.

“Mesmo argumento usado contra gays já foi usado contra negros e mulheres”, diz membro de grupo de homossexuais católicos

Cristiana Serra explica ser possível que gays sejam cristãos, mas que é necessário escolher como vivenciar a própria fé

cristiana-serra-gay-catolico

Por Tuka Pereira no Virgula

Formado em 2007 no Rio de Janeiro, um grupo de jovens que atende pelo nome Diversidade Católica vive uma dualidade um tanto contraditória segundo os preceitos cristãos: são gays e católicos praticantes.

Entre seus integrantes está a psicóloga Cristiana Serra, 39 anos. Segundo ela, o grupo surgiu para refletir sobre a conciliação da fé cristã com a diversidade sexual.

Cristiana diz que para conseguir harmonizar religião e homossexualidade é preciso, antes de mais nada, escolher como vivenciar sua própria fé.

“Se você busca na religião um conjunto de prescrições que te dirão o que é certo e o que é errado, como você deve viver a sua vida, realmente fica impossível você se inserir em um corpo social que te condena e te exclui. Mas se você entende a sua identidade religiosa como uma parte indissociável de quem você é quanto à sua orientação sexual e se essa identidade religiosa é a forma como você vive a sua espiritualidade, aí a religião se torna veículo de amadurecimento e encontro consigo mesmo”, diz.

Cristina acredita que a igreja seja um espelho de uma sociedade heteronormativa e predominantemente homofóbica. Segundo ela, à medida que a homofobia na sociedade como um todo diminuir, a dificuldade de compreensão dos LGBTs nas igrejas também diminuirá. “A doutrina católica hoje diz que os homossexuais devem ser acolhidos com respeito nas comunidades, sem nenhum tipo de discriminação. Por outro lado, entende que a homossexualidade é um comportamento ‘desordenado’. Mas a religião institucionalizada, qualquer que seja ela, é um corpo social inserido num contexto sociocultural mais amplo”, diz.

Ela explica que os mesmo argumentos utilizados atualmente contra os gays foram utilizados em outros momentos da história contra os direitos das mulheres e dos negros.

“O tipo de discurso que ouvimos hoje contra os LGBTs é o mesmo de quando as mulheres conquistaram o direito ao voto e a trabalhar fora; de quando o divórcio foi legalizado; de quando os negros conquistaram a igualdade dos direitos civis; os argumentos de ordem moral eram os mesmos – ameaça à família, contra as ‘leis naturais’, uso de trechos da Bíblia para mostrar que eram contra a ‘lei de Deus’. Isso, na verdade, é reflexo de uma resistência do corpo social, num processo de negociação simbólica com as estruturas de poder, que acontece na sociedade como um todo e dentro de cada igreja”, conta.

Cristiana diz ainda que, ao contrário de Bento 16, que era um teólogo acadêmico, Francisco é um bispo de atuação e por isso consegue enxergar além das abstrações e das teorias da igreja, inclusive não se colocando contra a união civil entre pessoas do mesmo sexo.

“Como papa, ele segue seus antecessores afirmando o valor fundamental da família formada pela união entre um homem e uma mulher. Mas, por ser um um bispo de atuação pastoral, consegue ver as pessoas com quem ele se encontra, para além das teorias, das abstrações. Por exemplo, ele se manifestou a favor da união civil entre pessoas do mesmo sexo, na qual se reconhecem direitos, mas não há equiparação à união heterossexual. Declarou também que um ministro religioso não tem o direito de forçar nada na vida privada de ninguém. Francisco critica uma Igreja ensimesmada, entrincheirada em estruturas caducas incapazes de acolhimento, e fechada aos novos caminhos que Deus apresenta”, diz.

Durante a Jornada Mundial da Juventude 2013 no Rio de Janeiro, o grupo Diversidade Católica fará um encontro abrindo espaço para histórias de jovens homossexuais dentro da Igreja.

Dia 25 de julho, de 14h às 16h, no Auditório Vera Janacópulos, na UNIRIO (Av Pasteur, 296, entre Botafogo e Urca, perto do Shopping Rio Sul). A entrada é franca e o evento será aberto ao público, sujeito apenas à lotação do auditório.

 

Igreja de Itaipu corta 334 árvores para missa campal

Vice-prefeito de Niterói diz que ação foi lamentável e nega ter dado autorização

Grande área que fica dentro do terreno da Paróquia São Sebastião de Itaipu está sendo desmatada O Globo / Hudson Pontes Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/rio/igreja-de-itaipu-corta-334-arvores-para-missa-campal-9022009#ixzz2YxcUKthK  © 1996 - 2013. Todos direitos reservados a Infoglobo Comunicação e Participações S.A. Este material não pode ser publicado, transmitido por broadcast, reescrito ou redistribuído sem autorização.

Grande área que fica dentro do terreno da Paróquia São Sebastião de Itaipu está sendo desmatada O Globo / Hudson Pontes

Publicado no O Globo

A remoção de 334 árvores da Mata Atlântica causou constrangimento na prefeitura de Niterói e reações indignadas de ambientalistas. Uma denúncia levou fiscais do Instituto Estadual do Ambiente (Inea) a flagrarem, na última segunda-feira, o desmatamento de um terreno da Paróquia de São Sebastião de Itaipu, na Região Oceânica de Niterói. Ao órgão ambiental, a igreja justificou que precisava limpar a área para celebrar uma missa campal durante a Jornada Mundial da Juventude (JMJ). A paróquia se prepara para receber 800 peregrinos.

O vice-prefeito de Niterói, Axel Grael, disse ontem que o episódio é “lamentável” e negou que a prefeitura tenha dado autorização para o corte num terreno às margens do Parque Estadual da Serra da Tiririca, uma unidade de conservação estadual:

— Um evento destinado à juventude deveria ter caráter educativo e, portanto, compromisso com o meio ambiente e com o futuro. É óbvio que a supressão contraria a legislação.

Ainda ontem, o secretário de Meio Ambiente de Niterói, Daniel Marques, reforçou que não havia autorizado qualquer desmatamento:

— Multamos (os responsáveis), bem como obrigamos que eles façam medidas compensatórias. Agimos.

O GLOBO não conseguiu contato com o padre Casimiro nem com o advogado que representa a paróquia, Rafael Bueno Curi. Eles apresentaram à chefia do Parque da Tiririca, após a inspeção do Inea ao terreno, um termo de compromisso ambiental firmado entre a Secretaria de Meio Ambiente e Recursos Hídricos de Niterói e a paróquia. No documento, a igreja se compromete a replantar a área e recuperar toda a restinga da Praia de Itaipu.

O diretor de Biodiversidade e Áreas Protegidas do Inea, André Ilha, afirmou que o órgão ambiental “jamais daria autorização” para o corte.

— É uma área de amortecimento do Parque da Tiririca. A gente não autorizaria de jeito nenhum. É um fragmento de Mata Atlântica. Vamos autuá-los. Precisamos saber se houve ou não autorização.

Esta não é a primeira polêmica envolvendo meio ambiente e a JMJ. A pedido da Arquidiocese, a Fundação Parques e Jardins chegou a autorizar, no último dia 5, a retirada de 11 coqueiros na Praia do Leme, junto a um dos palcos montados para a Jornada. O prefeito Eduardo Paes acabou vetando a supressão.

Aos 87 anos, aposentada maratonista faz aula de inglês no computador e cria perfil em rede social

Maria Correa Alves, de 87 anos, em meio aos jovens no computador Foto: Mazé Mixo

Maria Correa Alves, de 87 anos, em meio aos jovens no computador Foto: Mazé Mixo

Paolla Serra, no Extra

Maria Corrêa Alves acorda antes das 7h. Depois de checar os emails dos amigos e se atualizar no Facebook, ela alterna 15 tiros de corrida de 100 metros com outros 100 de caminhada na rua. Todas as quartas-feiras, faz curso de inglês numa sala multimídia através de videoconferência com uma professora americana. Uma rotina de tirar o fôlego de qualquer jovem. Mas, aos 87 anos, a aposentada ainda encontra tempo e disposição para fazer crochê e dar atenção a cinco filhos, 12 netos e seis bisnetos.

- Velho não pode esperar! – suspira a idosa, apaixonada pela correria do dia a dia.

Maria conta que sempregostou de atletismo, mas, quando casou, passou a se dedicar à casa e à família. Aos 60 anos, porém, ela correu a primeira maratona. De lá para cá, foram outras 29. No Rio. Em Blumenau. Em Nova York. No Chile. Na África do Sul. Na Finlândia.

- São 42 quilômetros e 185 metros – pontua ela, que já esteve entre as quatro corredoras mais idosas do mundo.

A paixão pela tecnologia chegou mais tarde. Recentemente, comprou um computador e se inscreveu nas redes sociais. Assim como ela, mais de 3,78 milhões de pessoas no Brasil com mais de 55 anos tinham um perfil no Facebook, há um ano, segundodados do próprio site. Hoje, esse número é bem maior:

- Eu sou antiga, mas não gosto de nada antigo.

Maria durante uma das maratonas que correu Foto: / Arquivo pessoal

Maria durante uma das maratonas que correu Foto: / Arquivo pessoal

Alfabetização

Maria faz cursos de informática na Nave do Conhecimento, em Padre Miguel. É lá também que estuda inglês, na turma da neta, a professora Paula Isidoro, de 30 anos. Nesse espaço da Secretaria Municipal de Ciência e Tecnologia, além de Santa Cruz, Madureira e Irajá, há 527 frequentadores com mais de 70 anos, tendo 48 deles tem entre 81 e 90 anos. Eles participam de cursos que vão de alfabetização digital, tecnologia e empreendedorismo, edição de vídeos, além de acessar a internet.

- Venho todo dia a tarde para ver as notícias do Flamengo, falar com as pessoas e ainda me distrair. Essa novidade da computação é muito boa – elogia o guia turístico aposentado Luiz Marques, de 69 anos, assíduo nas máquinas da Nave.

Luiz Marques mostra seu perfil no Facebook Foto: / Mazé Mixo

Luiz Marques mostra seu perfil no Facebook Foto: / Mazé Mixo

Turismo virtual

Luiz Marques trabalhou com hotelaria por 45 anos. Passou pelas grandes redes de hotéis do Rio e por pousadas em Itatiaia. Aposentado, ele não quer saber de ficar parado. Há três meses, criou um perfil no Facebook e passa as tardes conectado – ou tentando se conectar – a cinco amigos na rede.

- Dos cinco, só conheço mesmo dois. Os outros eu vi a foto e cliquei, não sei nem quem são. Todo dia, eu tento falar com eles, mas não consigo. Não sei o defeito que está tendo – lamenta, sem perceber que a opção do bate-papo da página está desativada.

Pesquisa

De acordo com o IBGE, de 2005 a 2011, aumentou em 222,3% o contingente de brasileiros que, assim como José, com 50 anos ou mais, entraram na internet.

Gay adota neta de traficantes e menina torna-se Mini Miss Brasil

Antes da conquista, garota viveu o drama de perder a visão do olho direito. Para a capixaba Ana Clara, superação deve-se ao carinho do pai adotivo.

Ana Clara Ferrares foi eleita Mini Miss Brasil Oficial 2013 (Foto: Arquivo Pessoal)

Ana Clara Ferrares foi eleita Mini Miss Brasil Oficial 2013 (Foto: Arquivo Pessoal)

Publicado originalmente no G1

A rotina de preparação para concursos de beleza e ensaios fotográficos passa longe da vida que Ana Clara Ferrares, de 10 anos, levava há apenas dois anos. A estudante é neta de traficantes presos no Espírito Santo e enfrentou a perda da visão do olho direito em um acidente. Hoje, ela se define como uma criança feliz, após ser adotada aos oito anos pelo missólogo Guto Ferrares, que é homossexual. Em abril deste ano, ela foi eleita Mini Miss Brasil Oficial 2013, em concurso realizado em São Paulo, uma conquista que a menina levou para o pequeno município de Aracruz, no Espírito Santo.

No Espírito Santo, a oportunidade que Ana Clara teve é bem diferente da realidade de crianças com mais de três anos que esperam para ser adotadas. Em todo o estado, segundo o Tribunal de Justiça (TJ-ES), 132 crianças e adolescentes esperam por um novo lar e o número de pretendentes habilitados passa de 750, mas em geral, a adoção de recém-nascidos e menores de dois anos é preferência entre esses pais. Para incentivar essa ação, foi criada a I Campanha de Incentivo à Adoção Tardia, no município da Serra, na Grande Vitória, que acontece de 19 a 24 de maio.

O pai adotivo Guto Ferrares, de 25 anos, contou que os pais biológicos da filha eram foragidos da polícia e ela morava com os avós, em Colatina, no Noroeste do estado, mas eles tinham envolvimento com o tráfico de drogas e foram presos. Ana Clara acabou morando com vizinhos por algum tempo.

Mas as dificuldades não pararam por aí. “Quando ela morava no bairro São Judas Tadeu, em Colatina, um bandido da comunidade foi preso e os moradores resolveram soltar fogos para comemorar. Um dos foguetes caiu em cima da casa que ela morava e o telhado explodiu. Um pedaço bateu direto no olho direito dela e a cegou”, contou Guto.

A história de Ana Clara chegou aos ouvidos do pai adotivo através de uma amiga da mãe dele, que é moradora de Colatina. Guto contou que se comoveu com a história e como já tinha vontade de ser pai, mas nenhuma pretensão de se casar, resolveu ver se havia alguma maneira de adotar a garota. “Três meses depois do acidente, a menina fez uma cirurgia no olho e foi nesse dia que a gente se conheceu. Fui bem devagar com ela, de início não falei que eu a adotaria, falei que era um amigo e que ela passaria uns dias comigo, para ver se gostava”, lembrou.

Para a garota, as dificuldades foram superadas com a ajuda de um grande aliado: o carinho do pai adotivo. “A adaptação foi fácil porque a minha nova família me recebeu de um jeito muito carinhoso, muito diferente do que eu recebia na vida que tinha antes. Com meu pai foi ainda mais especial, porque na verdade eu nunca conheci meu pai biológico. Ele é a pessoa mais importante da minha vida e hoje tenho uma família completa”, disse a menina.

Guto, que é homossexual, chegou a pensar que seria difícil explicar para Ana Clara que era um pouco diferente da maioria dos pais. “No início, ela não sabia o que era gay. Expliquei à ela que era um pouquinho diferente do que ela estava acostumada a ver, que não namoraria uma mulher. Acredito que a criança é o que os pais passam para ela, adquire valores. Eu sou um pai bem rígido, quero o melhor para ela, portanto em casa não existe preconceito e nem falta de educação”, falou.

Guto e Ana Clara (Foto: Arquivo Pessoal)

Guto e Ana Clara (Foto: Arquivo Pessoal)

Ajuda para recomeçar
A menina simpática, descontraída e vencedora de concursos de beleza chegou à casa de Guto totalmente retraída, sem conseguir conversar muito com as pessoas. O pai, então, procurou uma ajuda psicológica para ajudar a filha a superar os traumas de infância.

“Hoje ela é uma criança totalmente diferente, bem resolvida. Na verdade, ela fez um tratamento psicológico só por seis meses, foi uma espécie de preparação para a nova vida, um empurrão. Ela realmente deixou tudo o que viveu para trás, foi muito forte, e passou a me tratar como se eu sempre tivesse sido o pai dela”, contou Guto Ferrares.

Guto também comentou as mudanças que a paternidade trouxe para sua vida. “Eu não paro para pensar que eu fiz parte da evolução dela, penso no que construímos juntos, que ela tornou minha vida mais especial. Hoje ela trata a dificuldade da visão como superação, encara a diferença dela como algo positivo, isso é maravilhoso.”

Ana Clara vai disputar o Mini Miss Universo no fim deste ano (Foto: Arquivo Pessoal)

Ana Clara vai disputar o Mini Miss Universo no fim
deste ano (Foto: Arquivo Pessoal)

Mini Miss Brasil
Já adaptada à nova casa, Ana Clara Ferrares contou ao pai que sempre teve o sonho de ser modelo, mas se considerava aleijada por ser cega de um olho. O apoio e o conhecimento de Guto foram essenciais para que a menina não desistisse de suas ambições. “Sou missólogo, um preparador de beleza de misses e misters, então tive segurança para conversar com ela sobre isso. Expliquei que ela não era aleijada, que era bonita e poderia ser o que quisesse. Contei que existem modelos de todos os tipos, até mesmo uma que é surda”, explicou.

Um dia, a menina pediu para começar a competir em concursos de miss, acreditando que o pai seria o primeiro a apoiá-la, mas essa não a primeira reação. “Tinha medo que ela perdesse algum concurso e ficasse para baixo, não queria vê-la sofrer. Mas ela acabou contando tudo para a psicóloga dela, que me ‘deu um puxão de orelha’, falou que seria importante para ela”, disse.

Desde então, a garota passou a colecionar títulos. Em 2011, ela ganhou o Mini Miss Espírito Santo 2012. No ano seguinte venceu o Mini Miss Brasil Fotogenia 2013 e foi chamada para a seleção do Mini Miss Espírito Santo Oficial, que também venceu. No dia 27 de abril deste ano, ela ganhou o Mini Miss Brasil Oficial e agora vai disputar, na categoria dela, o concurso de Miss Universo em Buenos Aires, no fim deste ano.

Ana Clara gostou tanto da experiência que agora faz parte de seus projetos para o futuro continuar desfilando. “Eu descobri que adoro participar de concursos e desfiles e quero seguir uma carreira.”

Adoção tardia
Segundo a juíza da Vara da Infância e Juventude da Serra, Gladys Pinheiro, as pessoas dispostas a adotar querem recém-nascidos ou bebês. “Nossa cultura já está mudando, mas ainda precisamos trabalhar e repercutir a importância dessa ação com as crianças mais velhas e os adolescentes. Geralmente, elas costumam ficar em abrigos até atingirem a maioridade”, disse.

Mas essas situação não se encaixa no caso de Guto e Ana Clara. Foi de uma relação inicial de amizade que surgiu o amor de pai e filha, sem se importarem se não tinham o mesmo sangue. A idade da menina, então com oito anos, não foi um empecilho. “O melhor de ser pai é poder passar todo o meu carinho e o amor para ela, e esses sentimentos não medem idade e nem deixam espaço para preconceitos”, disse.

Ana Clara foi adotada por Guto há dois anos (Foto: Arquivo Pessoal)

Ana Clara foi adotada por Guto há dois anos (Foto: Arquivo Pessoal)