Mercado de produtos eróticos se adapta para conquistar público evangélico

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O casal Andrei Marsiglia e Thais Plaza, sócios da Doce Sensualidade, loja erótica que não usa o termo “sexshop”

Publicado na Folha de S. Paulo

“REALIZE SEUS SONHOS. PERGUNTE-ME COMO” — é o que se lê na camiseta vermelha de Mônica Alves, 45. Quem “pergunta como”, no caso, são mulheres evangélicas em busca das novidades que ela traz numa bolsa com 18 letrinhas bordadas no canto: “A Sós – Vocês Podem Tudo”.

Mônica já foi revendedora de produtos da Avon e da Natura. Hoje, a adepta da igreja Renascer sai da casa em São Bernardo do Campo (SP) carregada com 6 kg de itens bem diferentes, que vão de calcinhas comestíveis de chocolate (alguns maridos degustam com uísque) ao kit “50 Tons de Prazer”, com chicote, vela e venda.

Para as vendas, usa o codinome “Munik”. Como Mônica, quer emplacar carreira musical (canta em igrejas e centros espíritas, de Ivete Sangalo a repertório gospel).

Num salão de beleza no Sumaré (zona oeste), é Munik quem mostra à manicure Frances do Nascimento, 45, a “camisolinha da Nicole Bahls, a moça da ‘Fazenda'” (modelo semitransparente com estampa de oncinha).

Sua melhor freguesa aprova: “Não é porque a gente vai pra igreja todo dia que precisa ser santa”.

“As irmãs a-do-ram os produtos”, diz Frances sobre colegas do culto. Ela frequenta “todos os dias” a Igreja Mundial do Poder de Deus, do pastor Valdemiro Santiago, aquele que aparece na TV com chapéu de cauboi. Contribui com cerca de R$ 300 de dízimo por mês à igreja. Calcula dar até mais dinheiro para a revendedora.

“Ela gasta bem”, confirma Mônica.

Recém-separada do segundo marido, com um filho de um ano, Frances a-do-ra o “Boca Loca” – minivibrador em formato de batom (R$ 33).

Ela faz parte de uma legião de consumidores que vem chamando atenção do mercado. O censo do IBGE aponta que, entre 2000 e 2010, a porcentagem de evangélicos na população subiu de 15% para 22% (de 26 para 42 milhões de pessoas).

MERCADO QUENTE

Bom exemplo do apetite gospel está nos livros: a média de leitura dos fiéis é de 7,1 obras por ano, estima a entidade Sepal (Servindo aos Pastores e Líderes), enquanto a nacional não passa de 4,7.

Vendido na Feira Literária Cristã, em junho, “Celebração do Sexo“, do americano Douglas Rosenau, declara a que veio na dedicatória: “Obrigado, Senhor, pelo gozo íntimo e pela união calorosa do companheirismo sexual”.

Descrito como um guia para o “presente de Deus no casamento: o prazer sexual”, o livro traz ilustrações de posições sexuais e um capítulo inteiramente dedicado ao sexo feito “sem tirar a roupa”.

O autor, que se identifica como terapeuta sexual cristão, não economiza adjetivos em sua tese. Para Rosenau, a “diversão erótica” entre companheiros vestidos é “um prelúdio amoroso sutil, penetrante, espontâneo, eletrizante e sensual”.

Fiel da igreja Arca Sagrada, em Diadema (SP), a atendente de petshop Nilza Antunes, 29, é casada há seis anos, tem dois filhos, cabelo pintado de loiro platinado, aparelho dental com elásticos laranjas, piercing no nariz e uma curiosidade.

“Pode usar no corpo inteiro?”, ela questiona Mônica/Munik sobre o desodorante íntimo com essência de morango (R$ 20,70).

Sanar a dúvida é importante: desde que passou a usar produtos eróticos, diz que sua média de relações sexuais saltou de duas vezes por semana para todos os dias.

Vontade de explorar a própria sexualidade, diz a revendedora, toda mulher tem, seja qual for sua religião. Mônica testa todos os produtos no marido. Ele, 12 anos mais moço, ganha café da manhã (cappuccino e cuscuz com manteiga) na cama e “festinha à noite” todo dia. “Numa noite, eu já cheguei pulando em cima. E ele: ‘Amor, tô com dor de cabeça’.”

Mas nem todas são desinibidas como Mônica, Nilza e Frances.

Discrição, nesse meio, costuma ser a alma do negócio. “Católicos têm mais preconceito. Os religiosos que mais aparecem são mesmo os crentes”, conta Thaís Plaza, 33, sócia da loja erótica Doce Sensualidade, na Vila Mariana (zona sul).

Um em cada quatro clientes seus é evangélico — e não por acaso.

Em vez de se definir como sexshop, o espaço usa termos como “romantismo” e “sentimentos” em sua divulgação. Objetos fálicos ficam escondidos em gavetas para “não assustar” a freguesia.

As paredes são brancas ou rosas, com imagens florais. Nas prateleiras, substituindo algemas ou couro, acha-se esmaltes, bichos de pelúcia, cremes e velas coloridas.

“As evangélicas não entram em lugares com fotos de pessoas nuas e próteses penduradas. Querem ser atendidas por ‘amigas'”, diz Thaís.

Frequentadora da Congregação Cristã no Brasil, uma das clientes mais assíduas da loja repete sempre o mesmo ritual. “Ela se esconde atrás daquela árvore e me liga. Quando abro a porta, a mulher entra correndo, suspira e pede para fechar.”

Funciona: toda semana, a visitante secreta bate ponto no arbusto.

ELES vs. ELAS

Em um ponto, consultoras e clientela são unânimes: o mercado erótico gospel é restrito às mulheres.

“Eles são mais conservadores. Preciso fazer um trabalho cuidadoso com a cliente para o marido não ficar enciumado ou desconfiar da fidelidade dela”, conta a representante Tarciana Valente, 29.

Os campeões de vendas são produtos mais “leves”, ela continua. Entre eles, gel lubrificante (“importante porque muitas são reprimidas sexualmente e não têm lubrificação”) e óleos perfumados (“elas gostam porque melhora o sexo oral”).

Já as vendas de vibradores são mais raras. Diferente do público convencional, os religiosos preferem modelos não realistas, em formato de borboleta, polvo ou ursinhos.

“Próteses parecidas com membros reais chocam. Eles logo associam com promiscuidade”, diz Estela Fuentes, 26, estudante de psicologia que comercializa R$ 300 em produtos eróticos por semana.

“Meu maior desafio é mostrar que prazer não é pecado. Todo mundo precisa ter orgasmos na vida”, afirma.

SEM CENSURA

Os vídeos do pastor Cláudio Duarte, 45, da Igreja Batista, falando sobre sexo fazem sucesso na internet. É dele o livro “Sexualidade Sem Censura”, publicado pela Central Gospel, editora do amigo Silas Malafaia. Para Cláudio, “a rotina é um assassino do relacionamento sexual, um ‘brochante’ terrível”.

Contra isso, ele aconselha seus seguidores: para cativar seu público fiel (o cônjuge), trate de armar “um bom espetáculo”. “Vai inovando, como o Cirque du Soleil”.

Esse circo, contudo, pega fogo nas congregações evangélicas. Cláudio, certa vez, falou de sexo durante um culto na igreja. No fim da pregação, surgiu o questionamento.

“Uma senhora disse que eu não deveria tratar daqueles assuntos porque lá é local santo. Perguntei se tinha falado alguma mentira. Ela disse que falei verdades que não deveriam ser ditas.”

Mônica, a consultora da bolsa bordada, trabalha escondida do pastor de sua igreja (a Renascer). Ela também evita entrar em detalhes sobre o assunto com sua mãe, uma senhora de 76 anos.

“Ela acha que vibrador dá câncer no útero”, explica.

E o que diria se o líder da sua igreja descobrisse? “Pastor, desculpa, preciso ganhar meu dinheiro.”

Dica do Etewaldo Júnior

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Projeto da bancada evangélica prevê punição para quem contratar prostitutas

Imagem de  campanha reprovada pelo Ministério da Saúde
Imagem de campanha reprovada pelo Ministério da Saúde

título original: Após a “Cura gay”, Câmara debate a Guerra do Sexo

Leandro Mazzini, no UOL

Enquanto avança na Câmara o debate da proposta de regulamentação da profissão de prostituta, sob comando do deputado Jean Wyllys (PSOL-RJ), a bancada cristã prepara a retaliação.

O deputado evangélico João Campos (PSDB-GO), o mesmo que apresentou a ‘Cura Gay’, faz lobby pela celeridade da tramitação do PL 377 de 2011, que pune quem contratar pessoas para prostituição.

O projeto já está na Comissão de Constituição e Justiça, com relatoria de Marcos Rogério (PDT-RO).

A bancada evangélica distribuiu o DVD ‘Nefarious – O mercado de almas’, sobre tráfico de mulheres para a prostituição. Esperam o caos se aprovada a regulamentação.

Acostumado ao ‘bullying político’, homossexual assumido, Jean Wyllys não se faz de vítima nem se dá por vencido. Conseguiu apoio suprapartidário para manter o debate.

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Criado site para ‘cristãos praticarem swing’

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Fernando Moreira, no Page not Found

Um novo site de paquera chamado CHRISTIANSwingers está deixando a comunidade religiosa de cabelo em pé: ele foi criado para aproximar casais cristãos interessados em swing!

De acordo com a diretriz do site, o CHRISTIANSwingers foi desenvolvido para “satisfazer as necessidades daqueles que são como você: devotados casais cristãos que ainda querem ter uma vida sexual ativa e compartilhá-la com outros casais de boa fé”.

E acrescenta:

“Para os swingueiros cristãos as coisas não são fáceis – geralmente, outras pessoas religiosas os julgam, com ignorância e inveja, dizendo que o estilo de vida e essa prática de amor estão errados. Mas a Bíblia nos ensina: não julgue para não ser julgado. E há aquele versículo que fala sobre a primeira pedra”.

O site oferece perfis de casais cristãos, como Paul e Betty, na foto acima.

Em entrevista ao “Christian Post”, Louise Nielsen, conselheira cristã e especialista em saúde mental, afirmou que a prática do swing “não é bíblica, é pecaminosa e perigosa”.

No Facebook, a desaprovação também foi grande.

dica da Rina Noronha

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Carta a um jovem casal sexualmente ativo

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Jonathan Menezes, no Escrever é Transgredir

Nosso mundo (sobretudo o cristão) ainda está permeado pela pretensiosa assunção de que casais de namorados cristãos das igrejas (ou sem-igreja), necessariamente, não são sexualmente ativos. Sim, a castidade continua sendo o ideal quando se fala de namoro cristão ainda em nossos dias. Nenhum problema com tal opção legítima, diga-se de passagem; o problema é reivindicá-la não como opção, facultativa a consciência e variável nível de maturidade de cada pessoa e de cada casal, mas como uma regra universal, um imperativo categórico (usando aqui o termo de Kant), como se pureza e a santidade de um namoro pudessem apenas ser avaliadas (embora eu pense que isso não se avalia) pela ausência da dimensão erótica. Tem-se preferido, assim, ignorar que boa parte dos casais de namorados hoje não vive de acordo com tal imperativo, consciente e saudavelmente, ou clandestina e culposamente.

As exigências da igreja com relação à sexualidade há um bom tempo têm sido hipócritas, presunçosas e legalistas, tudo em nome de uma idolatria biblicista travestida de fidelidade à Bíblia. Ignora-se, como lembra Robinson Cavalcanti, que “a Bíblia não é uma enciclopédia de prescrições para cada detalhe da vida do homem”.[1] O que ela nos oferece, em muitos casos, como o do sexo pré-matrimonial, por exemplo, ou são orientações para casos muito específicos e histórica e culturalmente situados ou princípios relacionais mais gerais fundamentados no amor a Deus, à própria vida e ao próximo.

O pior de tudo é que esse imperativo, como vocês já devem ter notado, é excludente, ou seja, ninguém, sendo cristã(o), em hipótese alguma poderia viver um tipo de namoro em que o sexo esteja presente, com sanidade e santidade. E não tem havido suficiente abertura para quem quer discutir ou para quem pensa diferente. E qual a razão para isso? A razão é a de sempre: porque o sexo, fora do casamento, é pecado e isto está “muito claro” na bíblia. Assim como eu, talvez vocês já tenham parado intrigados diante de tamanha certeza, e pensado: ou eu li a bíblia muito pouco ou li muito mal, pois onde é que nela se fala com tanta clareza assim sobre esse assunto e de modo tão categórico para que muitos cristãos – sobretudo os evangelicais – tenham propagado por tanto tempo isso como sendo verdade absoluta para todas as pessoas a despeito de qual seja o caso? Ora, que “chavão textual” meus possíveis críticos estarão pensando trazer à baila neste momento? A questão da fornicação? Que nosso corpo é templo do Espírito? O relato do casamento (“tornar-se uma só carne”) segundo Gênesis? A questão da santidade e da pureza? Textos sobre luxúria, lascívia, os desejos impuros, a prostituição? Bem, a lista pode ser grande e nem me preocuparei aqui em ser exaustivo quanto às referências, acho que vocês entenderam meu ponto, por isso vou direto a ele.

Não estou dizendo que estes preceitos não existem nem que não sejam válidos, mas sim que faltam discernimento e honestidade intelectual no momento em que os aplicamos, muitas vezes (senão na maioria delas) fora seu devido contexto. Parece que o bom senso e a criatividade são elementos cada vez mais deixados de fora de nossa leitura bíblica. No fim das contas, fica a impressão de que aquilo que os evangelicais sempre disseram ser o seu “lado forte”, isto é, seu zelo em relação às Escrituras, pode ser também seu lado fraco. Sobretudo, quando não percebem que a forma mais infantil de idolatria é aquela em que nos aferramos demais a uma coisa e perdemos nosso senso de independência e criticidade em nossa relação com ela. E é assim que muitos dos que com certa jactância se proclamam crentes bíblicos tratam a Bíblia: como um objeto de veneração, que acaba anulando a reverência à Palavra Divina, empobrecendo e enclausurando-a em seus preceitos humanos (demasiadamente humanos?).

Citarei o caso mais comum, apenas como ilustração, de uma das práticas não recomendadas na Bíblia chamada fornicação. Quando se pensa em “sexo fora do casamento”, por exemplo, é o primeiro princípio que aparece em muita das formas de argumentação contrária à “prática” – como se sua aplicabilidade fosse universal neste caso. O sentido bíblico da palavra “fornicação”, segundo Robinson Cavalcanti, é “relacionamento fortuito, descomprometido, sem envolvimento afetivo”.[2] É o típico sexo pelo sexo, casual, sem conexão, sem grande consideração pela pessoa com quem se faz sexo. Não quer dizer que todo sexo feito fora do contexto do matrimônio seja fornicação, e nem que todos aqueles que o praticam se encaixam na categoria de “fornicadores”. Mas acabam entrando na vala comum porque é mais fácil pensar a Bíblia como um manual de boa conduta, com regras específicas para tudo o que consideramos como má conduta, que como a Palavra de Deus que, em si, é um convite a uma obediência com discernimento e boa consciência diante de cada situação vivida.

Uma das interpretações mais honestas que já li a respeito do relacionamento sexual num contexto de namoro, envolvimento e comprometimento, vinda de um cristão, foi escrita por Robinson Cavalcanti, se não me engano em 1985. Segundo ele, nessas condições:

Supõe-se que a intimidade cresça à medida que crescem: a) os sentimentos; b) o conhecimento mútuo; c) o compromisso; d) a aproximação do vínculo matrimonial, formal ou informal. Sendo o bom relacionamento sexual uma das condições para o sucesso conjugal, algum indicador deve ser inferido ainda nesse período preparatório. Se a virgindade de ambos os sexos é um alvo ético cristão, a socialização dos custos sexuais (todo o mundo assumindo o ônus) é um mal menor do que a dicotomia virgindade de algumas vs. prostituição de outras, com umas “pagando a conta” das outras. (…) O que não se pode exigir das pessoas realmente comprometidas e que se amam, sob constrangedora tensão sexual, é que simplesmente “deixem para depois”, quando uma vez formados e com um bom emprego, montarem um belo apartamento, comprarem um carro etc. Enquanto isso…[3].

Meu objetivo particular com esta carta, porém, não é nem o de esvaziar o sentido e poder do pecado no ser – coisa impossível – nem banalizar o ato sexual, que é um dom divino, mas que pensemos juntos nas implicações de uma vida sexual ativa entre namorados, pressupondo que essa ou já é a realidade de vocês ou quem sabe esteja em iminência de ser. Parto aqui do pressuposto de que podemos falar, sim, em um namoro ou noivado com sexo que não seja meramente fornicatório, mas em que haja amor, compromisso e envolvimento afetivo cada vez mais cheio de sentido e em processo de amadurecimento para uma vida conjugal duradoura, isto é, um casamento. Corro aqui o risco de levar muitas pedradas, mas é o preço da honestidade e de não mais estar disposto a esse jogo de faz de contas que há muito grassa em nosso meio, ou seja, faz de conta que eu não sei que vocês transam e vocês fazem de conta que seguem a lei da abstinência pré-matrimonial. É preciso dar um basta nessa hipocrisia, mesmo que como gritos que serão ouvidos por poucos e execrados por muitos (estou me sentindo a própria bruxa de Salém agora).

Pois bem, nos foquemos menos no mundo externo, e mais no mundo interno de vocês. Quando decidiram dar esse passo importante no relacionamento – se é que isso partiu de uma decisão pensada e não apenas apaixonada (sem julgamentos aqui) – devem ter pensado na grandeza, beleza e também responsabilidade desse ato, imagino eu. Senão, creio que vale a pena pensar. Quer dizer, embora sejamos feitos de carne, ossos, nosso corpo tenha uma forma, tenhamos impulsos, desejo, e atração sexual, não estamos falando de pedaços de carne em atrito e fricção em busca de prazer pura e simplesmente, mas nos referimos a duas pessoas, que têm sentimentos, que sofrem, que choram, se emocionam, se fragilizam quando se decepcionam, quando amam, quando se machucam. Sim, uma relação em que o que rola vai muito além de sexo, tudo isso está envolvido. Vocês já pensaram que numa relação sexual podem não ser apenas os corpos que se tocam, mas nosso ser por inteiro? E, por mais que achemos que pelo desempenho, pela plasticidade do ato e a capacidade de dar e receber prazer, estamos no controle da situação, isso é ledo engano. Porque, como já disse, queiramos ou não, há sempre mais elementos envolvidos, ninguém manda completamente em si, controla seus sentimentos por inteiro, tampouco os do outro. É por isso que, mesmo os casos em que ambos têm um acordo de apenas se usar e se curtir mutuamente, não há garantias de que, no final, ninguém sairá machucado. Afinal, posso ter tratado minha parceira como mero “pedaço de carne” alguma vez na vida, mas quando sou tratado assim o sentido é outro, e mesmo o combinado pode sair caro nessas horas.

Mas, imagino também que tenham decidido ter relações sexuais porque se amam, porque o sexo é um complemento essencial do amor de vocês, e porque queriam ser “plenos” um no outro – estou sendo assertivo ou muito idealista? De qualquer modo, quando a gente quer algo assim, deve ser porque queremos (mesmo que inconscientemente) algo que dure a vida toda, ainda que isso seja relativamente muito tempo, dê muito trabalho, e esteja fora do alcance de nossos olhos e mente. O futuro, como se diz, a Deus pertence. A questão é que podemos decidir o que fazer com nosso presente, que pode ser um presente ou um tormento, depende de nós na maioria das vezes. Creio que Deus nos dá o poder de escolher com quem e de que jeito vamos nos relacionar, e assim abençoa nossas escolhas, se elas honram e dignificam a Deus, ao amante, à vida. A felicidade, se ela existe mesmo, é um bem que só se goza com intensidade quando partilhada.

Não pensem, portanto, que estou lhes escrevendo apenas para dizer que está tudo certo. Escrevo para dizer que está nas mãos de vocês o querer fazer certo, fazer bem, fazer com amor, fazer durar o relacionamento enquanto se é vivo, e isso também é dádiva divina. Porque o sexo pode ser muito prazeroso quando é só sexo, mas é muito melhor quando existe cumplicidade, quando o que existe é para durar, é para fazer sentido, é para gerar e inspirar vida. Espero que vocês entendam bem a profundidade disso, que o sexo pode ser instrumento de amor e vida, como de poder, competitividade e mera vaidade. É assim que acontece com todo grande poder.

Para nos ajudar, Jesus fez uma comparação interessante acerca disso em uma de suas parábolas: “A quem muito foi dado, muito será exigido; e a quem muito foi confiado, muito mais será pedido” (Lc 12.47b, NVI). Em outra tradução (A Mensagem) se diz: “Grandes dádivas implicam em grandes responsabilidades; quanto maior a dádiva, maiores serão as responsabilidades”. E não é essa a frase que o tio Ben do Peter Parker disse para ele no primeiro filme do Homem-Aranha? “Com grandes poderes vêm grandes responsabilidades”… O que isso implica? Implica que Deus nos chama por amor, por amor nos sustenta, e o maior poder de todos que nos oferece é o amor, sem o qual os demais “poderes”, incluso o sexo, podem gerar destruição e não vida. Isto, pois em essência o amor é um poder subversivo, uma vez que nos tira do controle, nos deixa vulneráveis e deixa o outro livre – não usa, não abusa, não explora.

A beleza da criação divina é que o Criador nos dá a chance de escolher o que vai ser, de como faremos uso das coisas que Ele mesmo nos presenteou na vida, de gerar algo bom ou ruim daí, ainda que em nós o bom se misture com o pior muito facilmente. Mas Ele já disse que espera que optemos pela vida. E pergunto, no atual nível de relacionamento, envolvimento e mútua responsabilidade em que se encontram, o que significa entre vocês optar pela vida? O que vocês querem e esperam dessa relação? O quanto têm lutado para ter, por muito tempo, uma vida em comum? Porque é isso, a visceralidade da aliança entre vocês dois, que torna o sexo divinamente abençoado e humanamente significativo. Não só fonte de prazer, mas de vida abundante.

dica da Leonara Almeida

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“Fazer teologia é levantar a saia de Deus”

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Nancy Cardoso, no Facebook

Disse Marcella que fazer Teologia é “levantar a saia de Deus” [1].

Quero então manter esta sugestão, esta síntese preciosa e perigosa: procurarei pelas saias, os panos, os tecidos e as fabricações, as tecelagens e as texturas. Materialidades do divino. E conjugarei o verbo levantar… sem saber ao certo se no presente do futuro – eu levantarei – ou se no subjuntivo – se eu levantasse. É que sou aprendiz de indecências e convivo com regras de gramática e um léxico teológico restritivo e repetitivo… e eu quero saias, calças, camisolas, anáguas, calcinhas e cuecas. O corpo. A vida.

Se eu levantar a saia de deus… o que me acontece?

Se eu levantar a saia de deus… o que eu vou ver?

Deus não tem corpo… eles dizem: não há o que ver!

Uma anágua! Deus se revela entre anáguas antigas e impermeáveis.

Teologia feito anágua, como velação do corpo de deus… contra o corpo, sem o corpo, apesar do corpo, além do corpo. O meu. Qualquer corpo. Nenhum corpo real interessa à teologia. Mas na verdade o que ele não querem é que eu pergunte pelo corpo de deus. Ou corpo nenhum.

Pensamos encontrar Deus onde o corpo termina: e o fizemos sofrer e o transformamos em besta carga, em cumpridor de ordens, em máquina de trabalho, em inimigo a ser silenciado, e assim o perseguimos, ao ponto do elogio da morte como caminho para Deus, como seu Deus preferisse o cheiro dos sepulcros às delícias do Paraíso E ficamos cruéis, violentos, permitimos a exploração e a guerra. Pois se Deus se encontra para além do corpo, então tudo pode ser feito ao corpo” [2]

O desafio e a motivação para uma leitura bíblica e uma teologia vem das ruas, dos movimentos contra a tortura, das mães e avós procurando pelos corpos desaparecidos de filhos e filhas, dos movimentos de mulheres contra a exploração de seus corpos, dos movimentos de proteção de crianças, de grupos ambientalistas e a urgência do cuidado do corpo do mundo, dos movimentos de trabalhadores e trabalhadoras organizados que afirmam a santidade da força de trabalho em greve diante da máquina, da luta do movimento sem-terra pela ressurreição do corpo da terra e água.

De tantas maneiras o corpo deixa de ser lugar de negação e de sofrimento e se afirma como lugar de criação e de prazer que era impossível não aprender a dizê-lo de outra maneira também em nossas orações. Foi e tem sido um aprendizado difícil e desafiador. Afirmar a ressurreição do corpo como plenitude erótica que nos humaniza traz desafios para a teologia e o jeito e o que dizemos de Deus. Traz desafios para quem trabalha com a Bíblia. Nas palavras de Marcella:

“a sexualidade é um tema complexo; a teologia também. O contínuo intercâmbio e diálogo que as teorias sexuais, a sociologia dos relatos sexuais, o novo pensamento político e o pós-modernismo nos oferecem, junto com o círculo hermenêutico da suspeita, são elementos cruciais necessários em toda reflexão teológica que busca separar libertação e colonialismo, e teorias de qualidade de gênero de outras metas (ou buscas do Outro) relacionadas com a pluralidade e a diferença nas identidades sexuais” [3]

O que se construiu como senso-comum no imaginário social a partir das tradições bíblicas é uma mescla entre um deus incorpóreo, puro espírito, e homens e mulheres cheios de ordenações e danações em seus corpos pecadores e mortais. Esta visão simplificada, violentamente monolítica e restrita do texto bíblico é a que prevalece nas catequeses e escolas dominicais, nas representações artísticas e nas liturgias.

Infelizmente é a visão que continua perpassando também na leitura bíblica popular e ecumênica que fazemos na América Latina. Ainda não fomos capazes de incorporar uma visão crítica da demonização do corpo e do erotismo nas versões oficiais do judaísmo-cristianismo, nem capazes de articular criativamente as descobertas e alternativas que a arqueologia, antropologia, psicanálise trazem para uma experiência religiosa mais integrada. Nossas leituras bíblicas continuam reforçando uma perspectiva de Deus impessoal, separada da humanidade e seus corpos, da natureza e seus corpos.

O desafio latino-americano tem sido o de, mantendo-se no âmbito das tradições libertárias e revolucionárias ocidentais, criticar e re-inventar teorias e práticas a partir de tradições e utopias autóctones. Esta é uma tarefa que ainda está em curso e que exige muita radicalidade, maleabilidade e capacidade de auto-crítica.

A busca de alternativas não pode ser entendida como afirmação do corpo autônomo como expressão de um inidvidualismo liberal escondendo as construções sociais que emolduram as estruturas de linguagem e de poder. Trata-se de buscar romper com o impasse paralisador que nos coloca sempre de novo tendo que escolher entre o individual e o coletivo, entre os sentidos da paixão e a razão, entre técnica e sensibilidade. Trata-se de afirmar os corpos como lugar de interpretação, texto e leitura do mundo e suas relações.

Longe de ser uma desistência das motivações e dos esforços libertários, as reflexões feministas recolocam as questões de forma radical descendo bem mais fundo e demonstrando que a superação dos paradigmas epistemológicos patriarcais não se reduz a uma crítica superficial do discurso, mas precisa se deter e enfrentar a discussão de produção e reprodução da vida material e simbólica.

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Recupero três fidelidades de um passado ainda em aberto e pergunto pelas tarefas e paixão da teologia da libertação – feminista e radical. Me posiciono de modo pouco confortável na trajetória de teologia latino-americana. Não busco consenso nem aprovação, mas companhia, camaradagem, cumplicidade na conversa –improvável mas deliciosa – com Jose Comblin, Hugo Asmann e Marcella Althaus-Reid: presente!

** parcialmente publicado em: “God´s Petticoat and Capitalism-full Fashion,” Cláudio Carvalhaes and Nancy Cardoso Pereira in Dancing Theology in Fetish Boots: Essays in Honour of Marcella Althaus-Reid, Lisa Isherwood and Mark D. Jordan, editors, London: SCM Press, 2010.

[1] ALTHAUS-REID, Marcella, Teologia indecente,  entrevista,  07/10/2009,

http://revistaepoca.globo.com/Epoca/0,6993,EPT805466-1666,00.html

[2] ALVES, Rubem, Creio na ressurreição do corpo, CEDI, Rio de Janeiro, 1984.

[3]  ALTHAUS-REID, Marcela, La Teologia Indecente – perversiones teológicas em sexo, género y política. Barcelona: Bellaterra, 2000, p.22

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